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sábado, 31 de janeiro de 2026

Nibirutas

Uma população em crescimento(?)

A Teoria dos Nibirutas: Conspiração e Pseudociência


A teoria dos "nibirutas" baseia-se na crença da existência de Nibiru (ou Planeta X), um suposto corpo celeste que estaria em rota de colisão ou passagem catastrófica pela Terra.


Origens Pseudocientíficas

A ideia foi popularizada por Nancy Lieder em 1995 e bebe das interpretações de Zecharia Sitchin sobre a mitologia suméria. Sitchin afirmava que Nibiru seria o "12º planeta", habitado pelos Anunnaki, com uma órbita elíptica de 3.600 anos.


Por que é considerada Pseudociência?

1. Falta de Evidência Observacional: Um planeta desse tamanho já seria visível a olho nu e teria efeitos gravitacionais detectáveis nos outros planetas do Sistema Solar.


2. Leis da Física: As órbitas propostas para Nibiru são instáveis e contradizem as leis de Kepler e a mecânica celeste.


3. Previsões Falhas: O "fim do mundo" causado por Nibiru já foi marcado para 2003, 2012 e várias datas subsequentes, sem que nada ocorresse.


O Fenômeno Social

O termo "nibiruta" ironiza a mistura de paranoia, negação de dados científicos da NASA e a interpretação fantasiosa de fenômenos ópticos (como reflexos em lentes de câmeras) como se fossem um "segundo sol".


Para aprofundar o erro científico de considerar Nibiru e sua órbita de 3.600 anos como realidades físicas, precisamos olhar para as leis fundamentais da astrofísica que regem o nosso Sistema Solar. Aqui estão os pontos principais:

1. Inviabilidade da Mecânica Celeste (Leis de Kepler)

Se um planeta tivesse uma órbita extremamente elíptica que o trouxesse das profundezas do espaço (além de Plutão) até o Sistema Solar interior a cada 3.600 anos, ele seria o que chamamos de um "objeto perturbador".

  • Instabilidade: Uma órbita tão alongada cruzando o caminho de gigantes como Júpiter e Saturno seria instável. Ao longo de bilhões de anos, ou Nibiru teria colidido com algo, ou a gravidade de Júpiter o teria arremessado para fora do Sistema Solar permanentemente.

  • Influência Gravitacional: Mesmo que não o víssemos, sentiríamos sua gravidade. A presença de um corpo massivo alteraria as órbitas dos outros planetas. Astrônomos conseguem detectar planetas minúsculos em outras estrelas apenas pelo "balanço" que eles causam; um planeta gigante no nosso "quintal" seria impossível de ignorar matematicamente.

2. A Barreira da Observação Direta

O argumento de que "a NASA esconde o planeta" cai por terra diante da astronomia amadora e profissional global.

  • Visibilidade: Se um planeta estivesse em rota de chegada, ele já seria um dos objetos mais brilhantes do céu noturno, visível por qualquer pessoa com um telescópio de quintal ou até a olho nu. Não existe "capa de invisibilidade" para um planeta.

  • Radiação Infravermelha: Planetas emitem calor. Telescópios espaciais como o WISE (Wide-field Infrared Survey Explorer) mapearam o céu em infravermelho e não encontraram nenhum objeto do tamanho de Júpiter ou mesmo da Terra vindo em nossa direção.

3. A Contradição da Geologia e História

Se Nibiru passasse pela Terra a cada 3.600 anos causando catástrofes:

  • Registro Geológico: Teríamos evidências cíclicas de extinções em massa, tsunamis globais e mudanças de eixo gravadas nas camadas de rochas e no gelo da Antártida exatamente a cada 3,6 milênios. Esse padrão simplesmente não existe.

  • Continuidade Astronômica: As civilizações antigas, como os próprios Sumérios ou os Maias, eram observadores precisos do céu. Se um "segundo sol" aparecesse periodicamente, todos os registros astronômicos mundiais seriam centrados nesse evento, e não apenas interpretações modernas de selos cilíndricos isolados.

4. O Erro da Interpretação de Sitchin

A base de toda a teoria é a tradução de Zecharia Sitchin dos textos sumérios. Linguistas e especialistas em escrita cuneiforme afirmam que Sitchin cometeu erros graves de tradução:

  • O termo "Nibiru" nos textos babilônicos e sumérios referia-se frequentemente ao planeta Júpiter ou a uma estrela específica usada para navegação, e não a um planeta desconhecido com órbita errática.

Conclusão: Aceitar a existência de Nibiru exige descartar tudo o que sabemos sobre gravidade, ótica e geologia. É um modelo que sobrevive apenas no campo da crença, pois se desintegra ao menor contato com o método científico.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O Salto no Escuro

O Perigo de Confundir Estatística com Causalidade


Outro texto que será baseado em uma frase minha em redes sociais:

“A única TRETA é transpor relação estatística para nexo causal.”

I. A Sedução dos Números e a Ilusão da Adjacência

O cérebro humano é uma máquina de buscar padrões. Quando vemos dois eventos acontecendo em sincronia, nossa intuição imediatamente tenta estabelecer um sentido. No entanto, a estatística é, por definição, descritiva; ela aponta que duas variáveis, X e Y, se movem juntas, mas a matemática da correlação não possui ferramentas intrínsecas para determinar a direção do fluxo de influência. A covariância é um fenômeno de observação, enquanto a causalidade é um fenômeno de mecanismo.

II. O Problema das Variáveis Ocultas (Confounding Variables)

O principal obstáculo para estabelecer o nexo causal é a existência de uma terceira variável, Z, que influencia tanto X quanto Y. É o que chamamos de correlação espúria.

  • Exemplo: Se o aumento nas vendas de sorvete coincide com o aumento de ataques de tubarão, o erro seria proibir o sorvete para salvar banhistas. Aqui, Z é o verão — a variável oculta que impulsiona ambos os dados, criando uma ilusão de conexão direta onde existe apenas uma coincidência de contexto.

Imagem de Correlation vs Causation diagram

III. A Falácia da Direcionalidade e a Cronologia

A estatística é "cega" para a cronologia e a intenção. A transposição errônea muitas vezes ignora o vetor real da relação (X → Y, Y → X ou Z → (X, Y)).

  • Post Hoc Ergo Propter Hoc: A falácia de acreditar que "porque veio depois, foi causado por". Observar que pessoas de alta renda usam roupas de marca e concluir que comprar roupas caras causa o aumento de renda é inverter o nexo lógico. Sem o isolamento experimental, como testes A/B ou ensaios clínicos, a variação observada pode ser apenas um ruído de fundo.

IV. A Transposição Legítima: O Critério de Hill

Para que a "treta" seja resolvida e a transposição seja legítima, a ciência exige o preenchimento de critérios que vão além dos números: a plausibilidade (um mecanismo físico/lógico), a consistência e a temporalidade. Sem um modelo que explique como a relação ocorre, a estatística permanece apenas como uma sugestão, nunca como uma prova. O maior desafio da análise de dados não reside na coleta, mas na interpretação ética e lógica desse vínculo.



O Arsenal Científico contra a Ilusão Estatística


Para transpor o abismo entre o "acontece junto" e o "causa isto", a ciência não se baseia em acumular mais dados, mas em refinar o controle sobre eles.

1. O Padrão-Ouro: O Ensaio Controlado Aleatorizado (RCT)

A ferramenta mais poderosa contra a correlação espúria é a aleatorização.

  • O Problema: Se testarmos um remédio apenas em quem escolhe tomá-lo, a "causa" da cura pode ser o estilo de vida daquelas pessoas, não o composto químico.

  • A Solução: Ao dividir um grupo aleatoriamente, neutralizamos as variáveis de confusão (idade, genética, hábitos). Se o grupo A (medicamento) performa melhor que o grupo B (placebo), o nexo causal é estabelecido porque a única diferença entre eles foi a intervenção.

Imagem de randomized controlled trial diagram
Shutterstock


2. O Controle de Variáveis e a Causalidade de Granger

Em sistemas onde não podemos fazer experimentos (como na astronomia ou macroeconomia), usamos o controle estatístico e a Causalidade de Granger.

  • A lógica aqui é a precedência temporal: se o evento X ajuda a prever o evento Y melhor do que o histórico de Y sozinho, e X ocorre antes de Y, temos um indício de nexo.

  • Contudo, o método exige cautela: a sucessão temporal é condição necessária, mas não suficiente.

3. A Navalha de Occam e a Plausibilidade do Mecanismo

A ciência impõe uma barreira lógica extra: o mecanismo de transmissão.

Mesmo que os números batam perfeitamente (como a correlação entre o consumo de queijo e pessoas que morrem presas em seus lençóis), o método científico exige a pergunta: Como isso acontece fisicamente? Sem um modelo teórico que explique o caminho entre a causa e o efeito, a relação é descartada como ruído estatístico.

Um nexo causal robusto exige um Caminho de Mediação. A ciência não aceita que "apertar um botão" causa "uma luz acender" sem explicar o fluxo de elétrons no fio.

  • Plausibilidade: Se a estatística diz que "comer laranjas aumenta o desempenho em matemática", o método científico exige o mecanismo. Há uma substância na laranja que altera a sinapse? Sem esse "como", a relação permanece na gaveta das correlações suspeitas, aguardando prova de mecanismo.

4. O Contrafactual: O "E se não?"

O nexo causal sólido exige a prova do contrafactual. No rigor lógico, A causa B se, e somente se, na ausência de A (mantendo todo o resto constante), B não ocorreria. É a busca por essa "ausência controlada" que separa a ciência de alta performance das observações anedóticas.

Conclusão

Ao final, transpor relação estatística para nexo causal sem o devido rigor não é apenas um erro técnico; é um salto de fé travestido de ciência. A "treta" se resolve quando aceitamos que a estatística é o mapa, mas o método científico é a bússola que nos diz se o caminho realmente existe ou se é apenas uma miragem no papel.

O rigor lógico é, portanto, o único antídoto contra a tendência humana de ver conexões onde existe apenas o caos organizado dos números.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O Primata de Wi-Fi

A Dualidade do Cérebro Moderno


Anos atrás, eu publiquei as seguintes frases em uma rede social:

"O substrato cerebral da humanidade ainda é o mesmo que catava carniça a tapa pelas savanas africanas. Não se espere muita coisa."

Essas frases tocam em um ponto nevrálgico da neurobiologia e da psicologia evolutiva: o "descompasso evolutivo" (evolutionary mismatch). Enquanto nossa tecnologia e cultura avançam em progressão geométrica, nossa arquitetura cerebral ainda opera com o "software" moldado pelo Pleistoceno.

Vamos desenvolver essa ideia explorando o contraste entre o nosso potencial civilizatório e as nossas raízes biológicas.

A ironia dessas frases reside na coexistência de duas realidades opostas dentro do mesmo crânio. Temos o neocórtex, capaz de compôr sinfonias e calcular órbitas planetárias, sobreposto ao sistema límbico e ao tronco encefálico, que ainda respondem a estímulos de sobrevivência básica.


1. A Economia da Sobrevivência

Aquele hominídeo que "catava carniça a tapa" (um exagero, pois rapidamente adotamos pedras em outros predadores e carniceiros, e isso muito antes do Homo sapiens) precisava de decisões rápidas, não de reflexões éticas profundas. O cérebro é um órgão caro (consome cerca de 20% da nossa energia); por isso, ele prioriza o atalho cognitivo.

  • O Viés de Negatividade: Na savana, ignorar um ruído no arbusto podia ser fatal. Hoje, esse mesmo mecanismo nos torna viciados em notícias catastróficas e conflitos digitais.

  • Tribalismo: A sobrevivência dependia da coesão do grupo e da desconfiança do "outro". Esse instinto, que antes nos protegia, hoje se manifesta na polarização extrema e na intolerância.

2. O Custo da Biologia

Percebemos como esse substrato cerebral nos sabota. A moralidade exige um esforço consciente do córtex pré-frontal para superar o instinto de autopreservação ou a apatia do "espectador". Se o nosso cérebro ainda está programado para poupar energia e focar no imediato, a omissão torna-se o estado padrão. Por esse motivo é que repetidos casos de agressões, crimes, são assistidos por pessoas praticamente paralisadas, que pouco fazem para impedir a ação má. Agir moralmente, portanto, é um ato de "rebeldia" contra a nossa própria fiação biológica.

3. "Não se espere muita coisa" (A Armadilha do Dopaminérgico)

Nossa busca por status e recursos — que outrora era a busca por proteínas e parceiros — foi sequestrada por algoritmos. O sistema de recompensa, mediado pela dopamina, não distingue entre uma conquista real e uma curtida em rede social. Estamos usando um hardware de 200 mil anos para navegar em uma realidade de realidade virtual e inteligência artificial.



Impulso Ancestral

Manifestação Moderna

Acúmulo de Calorias

Epidemia de obesidade e alimentos ultraprocessados.

Medo do Predador

Ansiedade crônica e pânico social.

Defesa do Território

Nacionalismo exacerbado e "guerras" de comentários.

Busca por Validação

Dependência de métricas de vaidade digital.



Conclusão: A Superação é Cultural, não Biológica

Nossas frases são um lembrete de humildade biológica. Se esperarmos que a "natureza humana" resolva nossos problemas de forma espontânea, sofreremos uma certa decepção. A natureza quer apenas que sobrevivamos o tempo suficiente para reproduzir.

A "esperança" de que duvidamos nas frases talvez não resida no substrato físico, mas na nossa capacidade de criar sistemas culturais e éticos que funcionem como "próteses" para nossas limitações cerebrais. Somos o único animal que, apesar de ter os pés no barro da savana, consegue olhar para as estrelas e questionar por que ainda sente o impulso de brigar pela carniça.

Extra

1.O caso Kitty Genovese


Um caso interessante, embora de mecanismos distintos do que aqui apreesentamos, é o assassinato de Kitty Genovese em 1964, em Nova York. Este caso ficou famoso por, supostamente, ter tido dezenas de testemunhas que não agiram nem chamaram a polícia, tornando-se um estudo clássico na psicologia social para explicar o fenômeno do "efeito espectador" (ou apatia do espectador/síndrome de Genovese).

O que ocorreu com Kitty Genovese

  • O Crime: Na madrugada de 13 de março de 1964, Kitty Genovese, de 28 anos, foi esfaqueada e abusada. O ataque ocorreu em etapas, perto do prédio onde ela morava no bairro de Kew Gardens, no Queens.

  • As Testemunhas e a Inação: Relatos iniciais e amplamente divulgados na época, especialmente por um artigo do The New York Times, afirmavam que 38 testemunhas ouviram os gritos de socorro ou assistiram a partes do ataque e, ainda assim, não intervieram ou ligaram para a polícia em tempo hábil. Um vizinho chegou a gritar para o agressor, fazendo-o fugir momentaneamente, mas ele retornou para terminar o ataque. Apenas uma pessoa ligou para a polícia, e isso só ocorreu após a vítima já estar gravemente ferida ou morta. 


O Estudo na Psicologia


A tragédia chocou o público e levou os psicólogos sociais Bibb Latané e John Darley a investigar a razão da inação coletiva. Eles desenvolveram a teoria do efeito espectador (bystander effect), que postula que: 

  • Indivíduos são menos propensos a ajudar uma vítima quando outras pessoas estão presentes.

  • Quanto maior o número de testemunhas, menor a probabilidade de qualquer uma delas prestar ajuda individualmente. 


Os pesquisadores atribuíram esse fenômeno a dois fatores principais: 

  1. Difusão de responsabilidade: Cada testemunha sente menos responsabilidade pessoal de agir, presumindo que outra pessoa o fará.

  2. Influência social: Indivíduos observam o comportamento dos outros para interpretar a situação. Se ninguém mais parece alarmado ou age, a pessoa conclui que a situação não é uma emergência real ou que a intervenção não é necessária. 


Embora pesquisas mais recentes tenham sugerido que o número exato de 38 testemunhas pode ter sido exagerado pela mídia na época, o caso de Kitty Genovese continua sendo a ilustração mais famosa e o ponto de partida para os estudos sobre o efeito espectador na psicologia social. 


Charlotte Ruhl. What Happened to Kitty Genovese. August 3, 2023
https://www.simplypsychology.org/kitty-genovese.html 


Observações:

Embora o "Efeito Espectador" seja um conceito da psicologia social, ele tem raízes evolutivas. Na savana, destacar-se do grupo para enfrentar um perigo desconhecido era uma sentença de morte. O cérebro que "catava carniça" aprendeu que a segurança reside na conformidade do bando. Se ninguém se move, o instinto primário diz: "não se mova, ou você será o próximo alvo".

É irônico que, em uma das cidades mais densamente povoadas do mundo (Nova York), a proximidade física tenha gerado um isolamento moral. Isso reforça a ideia do "primata no Wi-Fi": estamos cercados de tecnologia e de semelhantes, mas nosso hardware processa a multidão como um ruído estatístico, não como uma comunidade de indivíduos que dependem uns dos outros.

Nota Histórica Pertinente: Como o texto bem aponta, revisões posteriores mostraram que o New York Times exagerou no número 38, mas o impacto do caso foi real e positivo em um aspecto: ele foi o grande catalisador para a criação do sistema de emergência 911 nos EUA. Foi uma tentativa da civilização de criar um "atalho tecnológico" para facilitar a ação humana onde a biologia falha. 


2.Do "Meu Carro" ao "Meu Mundo" – A Extensão do Eu e a Armadilha Ambiental

Se o nosso substrato cerebral ainda é o de um caçador-coletor da savana, é natural que a noção de "meu" vá muito além da pele. A possessão, a territorialidade e a defesa de recursos são instintos primários para a sobrevivência e a reprodução. Quando transpomos isso para a complexidade da sociedade moderna, o simples "meu carro" revela camadas profundas de nossa biologia e de nossa percepção do mundo.


1. O Fenótipo Estendido (Richard Dawkins)

Richard Dawkins, em seu livro "O Gene Egoísta" e, mais explicitamente, em "O Fenótipo Estendido", propôs que o impacto de um gene não se limita ao corpo do organismo. Ele pode se estender para o ambiente, manipulando-o para beneficiar a sobrevivência e a replicação do gene.

  • Exemplos Biológicos: A barragem de um castor (uma construção ambiental que protege seus genes), a teia de uma aranha, ou mesmo o parasitismo que altera o comportamento de um hospedeiro. Todas são extensões do efeito genético para além dos limites físicos do corpo.

  • O Humano e Seu "Fenótipo Estendido": O carro, a casa, as ferramentas, a roupa, e até mesmo a cultura e a linguagem podem ser vistos como extensões do nosso fenótipo. Eles são produtos do nosso cérebro (e, portanto, de nossos genes), projetados para nos proteger, facilitar a obtenção de recursos, exibir status e, em última instância, aumentar nossas chances de sobrevivência e reprodução. O carro, por exemplo, estende nossa capacidade de locomoção, proteção e demonstração de status – um "fenótipo estendido" sobre rodas.

2. O "Umwelt" (Jakob von Uexküll) e a Bolha da Percepção

O conceito de "Umwelt" (do alemão, significando "mundo ao redor" ou "ambiente") foi cunhado pelo biólogo estoniano Jakob von Uexküll no início do século XX. Ele descreve o mundo subjetivo ou a percepção particular que cada organismo tem de seu ambiente. Não existe um "mundo objetivo" único, mas múltiplos "Umwelten" coexistem.

  • Cada Organismo, um Mundo: Uma abelha percebe cores ultravioleta e campos elétricos que são invisíveis para nós. Um cão vive em um mundo de odores que mal podemos imaginar. O "Umwelt" não é o ambiente em si, mas a interpretação que o cérebro do organismo faz dele, filtrada por seus sentidos e necessidades.

  • O "Umwelt" Humano e a Possessividade: Nosso "Umwelt" é profundamente influenciado por nossas construções sociais e materiais. "Meu carro" não é apenas um objeto; ele é parte do meu "Umwelt". Ele representa segurança, liberdade, status, identidade. A agressão a "meu carro" é uma agressão ao meu "Umwelt", uma violação da minha bolha perceptiva e, em última instância, uma ameaça ao meu "eu" estendido.

3. A Percepção de Fronteiras e o Desafio Ambiental

A junção do Fenótipo Estendido com o Umwelt nos ajuda a entender por que a crise ambiental é tão difícil de ser abordada.

  • A Expansão Insustentável do Eu: Se "meu carro" e "minha casa" são extensões do meu eu, e se meu "Umwelt" é construído em torno da minha conveniência e conforto, então "reduzir meu consumo" ou "limitar minha liberdade de ir e vir" é percebido como um ataque direto à minha identidade e sobrevivência.

  • A Cegueira do Umwelt: Nosso "Umwelt" é naturalmente antropocêntrico. Vemos o "ambiente" como algo externo a nós, um recurso a ser explorado ou um cenário para nossas vidas. Nosso cérebro, moldado pela escassez da savana, tem dificuldade em processar ameaças a longo prazo e em escala global que não se encaixam em nosso "Umwelt" imediato de necessidades. A poluição distante, o aquecimento global gradual, a perda de biodiversidade que não afeta nosso dia a dia – tudo isso fica fora do nosso foco perceptivo mais urgente.

Conclusão: O "meu carro" não é apenas um pedaço de metal. É um artefato do nosso "fenótipo estendido" que molda nosso "Umwelt". A dificuldade de abrir mão dessa possessividade e de expandir nosso "Umwelt" para incluir a saúde do planeta como uma extensão do nosso próprio bem-estar é um dos maiores desafios da natureza cerebral humana. O instinto de defender o que é "meu" e de operar dentro da minha bolha perceptiva precisa ser conscientemente superado por uma compreensão mais ampla de que "meu mundo" (meu carro, minha casa) está intrinsecamente ligado ao "nosso mundo" (o planeta).