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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O cachorro está muito vivo e pronto para morder

Alguns anos atrás, Cezar Souza, um estudante interessado em Ciência, escreveu um texto intitulado “Não se bate em cachorro morto? - Uma análise das "recentes" afirmações TDistas/criacionistas”.


Neste texto, o autor ataca alguns dos diversos argumentos contra diversos campos científicos, de maneira geral, contra todos que afirmam que o universo tem mais de dezena de bilhões de anos (Cosmologia), que a Terra tenha bilhões de anos de idade (Astrofísica e Geologia), que os seres vivos não tenham surgidos prontos em suas espécies (Biologia) e que a vida não tenha surgido a partir de processos naturais na Terra primitivas (origem abiótica da vida ou biopoese). Sendo bem claro, atacando uma parcela significativa de toda a Ciência que remonta até há três séculos de desenvolvimento, como temos no caso da Geologia. 


Original nos nossos arquivos: Não se bate em cachorro morto?





Eu me propus recentemente a reeditar esse texto, e com a concordância do corajoso autor, segue a edição a seguir.


Contexto


Esse argumento, no fundo apenas um bordão, “não se bate em cachorro morto”, bastante soberbo diga-se de passagem, é geralmente utilizado por proponentes do DI, tendo como principal objetivo demonstrar que a "Teoria" do Design Inteligente (TDI) está em igualdade epistêmica com a teoria da evolução.

Essa proposta surgiu no livro Fomos planejados, de Marcos Eberlin. Entretanto, ela ressurgiu em uma palestra apresentada recentemente por Eberlin, intitulada "Ninguém chuta cachorro morto: a palestra de 'design inteligente' na UFMS" (1). 


Universidade pública e o direito da liberdade de expressão


Nos primeiros minutos (10:00) de sua palestra, Eberlin começa dizendo que a Universidade é um local público; financiada com o dinheiro da população que quer saber a verdade e, portanto, a melhor teoria deve ser proposta. Além disso, Eberlin cita o grande físico Richard Feynman, vencedor do Prêmio Nobel de Física, dizendo que a universidade é a "cultura da dúvida", o ponto do embate, do ponto e do contraponto - mas não houve debate algum naquela palestra. Ademais, é citado que a população quer saber a verdade sobre suas origens.

Antes de avançarmos, devemos lembrar a famosa frase atribuída a Richard Feynman: “Nunca confunda educação com inteligência; você pode ter um doutorado e ainda ser um idiota.” 


O primeiro tópico a ser tocado aqui é que a verdade para Eberlin, é claro, está na "teoria" do chamado design inteligente (DI). 


O segundo é o simples fato da população brasileira ser desinteressada em relação à ciências. Afirmamos isso não só como uma refutação ao ‘bordão argumento’ de Eberlin, mas como uma realidade vivida pelo Brasil.

Quando alguém está disposto a assistir a abertura de uma palestra científica espera-se algo minimamente aceitável do ponto de vista acadêmico, não algo como a gravidade não atrai átomos e moléculas - algo extremamente ridículo visto pela ótica da simples Mecânica Newtoniana e da Astrofísica, já abordada  por  Francisco Quiumento em A gravidade de Eberlin (2) e Agravando a gravidade de Eberlin (3).

Ou seja, o público que está disposto a assistir algo de procedência espera, no mínimo, uma palestra coerente. Esse não foi o caso de Eberlin. 


O terceiro ponto é a citação de Feynman, de modo a dar um ar de livre expressão nas universidades. 

A frase de Feynman é correta, mas o contexto em que Eberlin tenta colocá-la é errado, haja vista o fato do design inteligente não ser científico até mesmo em seus supostos métodos (4) (5) (6). Fundamentalmente, a dita Teoria do DI trata-se apenas de uma inferência filosófica, sequer uma hipótese, e como hipótese, sem as características de uma hipótese científica.

As características impostas à Ciência pela falseabilidade das hipóteses leva a ser o sonho de qualquer biólogo tentar superar Darwin e ser considerado melhor ou inigualável em realizações a ele. Um exemplo claro é o de Lynn Margulis, que propôs a simbiose como força evolutiva (7), e criticava veementemente o neo-darwinismo, mas o fazia de modo científico.

Por exemplo, chamar um alquimista/astrólogo para abrir uma palestra científica sobre química/astrofísica é extremamente errado, anacrônico, e não pode ser justificado pela cultura da dúvida. Dentro desses exemplos, é elementar entender que os elementos hoje não são quatro e as estrelas não estão fixas em esferas de cristal. Outrossim, Eberlin simplesmente supôs uma criação do “dia pra noite”, miraculosa, e não algo verdadeiramente científico para substituir as críticas que ele faz à evolução química, no caso da vida, ou a processos de formação de corpos celestes. Não é por poucos motivos que a Ciência tem como eixo um materialismo metodológico, pois como ironia que frequentemente é apresentada, poderíamos então considerar que um unicórnio invisível teria criado todo o mundo (termo filosófico) ontem, incluindo todas nossas memórias.

Destarte, a afirmação de Eberlin novamente não é verdade. A universidade é um local de debate científico, e não teológico doutrinário teleológico ou pseudocientífico. 


Por fim, o quarto ponto é que as origens, em um sentido da existência da vida, deve ser explicado em uma palestra no campo da Filosofia. E, caso ele estivesse se referindo à origem através dos processos químicos/físicos/biológicos, sua palestra também não seria a mais apta para abrir tal evento. 


Qual o tema da palestra?


Em 12:35 Eberlin começa a falar que a palestra não era sobre o design inteligente, e sim sobre a possibilidade da evolução química e uma afirmada e pouquíssimo explicada impossibilidade de formação dos corpos celestes pela ação da gravidade..
 

Entretanto, essa não é a realidade. Realmente a palestra não se dispõe a falar sobre os argumentos do DI, mas utilizá-lo como um contraproposta à evolução química, o mesmo pode ser dito sobre a formação dos corpos celestes. Dessa maneira, na palestra, Eberlin estava tentando demonstrar que a evolução química  não poderia ocorrer e, portanto, a melhor opção seria o DI.

Isso fica claro no seguinte print:


(40:30) - Eberlin argumenta positivamente que, ao calcular o tanto de QI que alguém precisaria para fazer o universo deveria ser maior que 0 caso fosse um designer e 0 caso fossem forças naturais. A conclusão de tal argumento é claro, envolve a existência de um DI, o que já caracteriza uma falácia ‘non sequitur’, não consequente, pois os processos naturais produzem a inteligência nos seres vivos, e não podemos afirmar a inteligência como anterior aos processos naturais, incluindo os processos dos seres vivos. 


Através do que foi supracitado, Eberlin tenta não utilizar o termo DI para travestir sua palestra como científica. Conquanto, é visível que o tema era uma negação à evolução química, evidenciando um DI (houve parcos momentos de argumentação positiva ao DI). 

O cachorro morto ou morto-vivo? 


As afirmações de Eberlin para igualar a teoria da evolução à chamada “Teoria do Design Inteligente” (TDI) é que não se bate em cachorro morto, ou seja, se tem gente refutando o DI  isso significa que a “teoria” é um verdadeiro problema ao neo-darwinismo. 


Em primeiro plano, o cachorro está morto academicamente. Isto é, o DI não é cogitado pela agremiação (8).

Vamos ilustrar bem com uma metáfora.

O DI é um cachorro zumbi que ronda pelos arredores do castelo (academia) e apenas tenta dominar a parte externa do edifício (população leiga).

Agora entra algo interessante. Por que o cachorro é zombie? Simples. As pessoas que estão no castelo (cientistas) ou até mesmo os guardas (pessoas com bom conhecimento científico) já tacaram pedra, deram tiro, queimaram, utilizaram um bomba atômica (uma refutação contundente) e o zumbi se enfraquece - e às vezes morre. Entretanto, ele é  birrento e não desiste nunca, mesmo sendo refutado diversas vezes.

Nesse aspecto, percebemos que os negacionistas da evolução enfrentam as afirmações da Teoria da Evolução dos seres vivos há mais de século e meio, sem o menor resultado, de onde o comportamento se mantém, apenas ganhou novos campos de manifestação.


A partir dessa metáfora concluímos que o DI não é um problema acadêmico, mas tenta, através do público leigo, dominar indiretamente a academia e mudar o paradigma científico, o que é bem explicitado no chamado “Documento da Cunha” (9) . 


A lista de artigos não bate? 


Em 13:40 Eberlin, ao ser contestado por não colocar artigos em sua palestra, diz que há pessoas colocando links em seus conteúdos que não correspondem verdadeiramente com o conteúdo dos papers. Posteriormente, ele diz que seu livro é referenciado por textos revisados por pares. E, segundo ele, suas palestras são concentradas nos dados que ele coletou. 


Um bem claro cinismo de Eberlin. Logo ele falando sobre artigos que não batem com a visão de quem está linkando-os. Vamos pegar o livro Fomos planejados para analisar um artigo citado por ele. 


(Fomos planejados, 291 Kidle)


O artigo que ele cita é o Eighty percent of proteins are different between humans and chimpanzees (10). Segundo Eberlin, como visto acima, essa diferença é substancial e uma clara característica de que o homem não possui um ancestral comum com os chimpanzés. 

Realmente, parece que o Eberlin se interessou apenas pelo título do artigo, afinal, se tivesse lido veria no próprio resumo que a diferença de 80% é fenotípica.

E o mais curioso de tudo é que Eberlin diz que o melhor jeito de comparar homens e macacos seria através das proteínas - as do artigo são responsáveis pela mudança fenotípica. Entretanto,  Eberlin é extremamente ferrenho contra a “ciência da parecência” (um termo dele) - se X parece ou não com Y não significa que eles vieram de descendentes comuns.

Então, você utiliza artigos que falam sobre “parecência” para desqualificar a evolução humana ou apenas aceita essa diferença quando lhe convém? Qual será a desculpa dessa vez?

Aparenta também que não leu o artigo, afinal, os pesquisadores compilaram  127 proteínas humanas e de chimpanzés ortólogas. Mas o que significa ortólogas? Ortólogas são genes em diferentes espécies que evoluíram a partir de um mesmo gene ancestral comum via especiação.

Dessa forma, para o Eberlin aceitar essa diferença entre as proteínas ortólogas, razoável e honesto seria aceitar também que essas proteínas descendem de um ancestral em comum e modificaram-se por duplicação gênica. 


Referências

  1. https://youtu.be/9q0EGEazuKU

  2. http://francisco-scientiaestpotentia.blogspot.com/2015/12/agravando-gravidade-de-eberlin.html?m=1

  3. http://francisco-scientiaestpotentia.blogspot.com/2015/12/agravando-gravidade-de-eberlin.html?m=1 

  4. http://pandasthumb.org/archives/2006/05/robert-campcan.html

  5. http://www.talkdesign.org/faqs/theftovertoil/theftovertoil.html 

  6. http://www.talkorigins.org/indexcc/CI/CI191.html 

  7. https://science.sciencemag.org/content/252/5004/378

  8. https://netnature.wordpress.com/2014/06/27/teoria-do-designer-inteligente-e-pseudociencia-dizem-os-maiores-centros-de-pesquisa-do-mundo/

  9. http://www.antievolution.org/features/wedge.pdf

  10. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0378111904006705?via=ihub 


terça-feira, 29 de setembro de 2026

TERRA JOVEM REFUTADA, A RELEITURA - 5

O acúmulo de sedimentos marinhos 


Continuando Nossa Jornada: O Mito do Acúmulo de Sedimentos Marinhos

Chegamos ao quinto argumento clássico do repertório da Terra Jovem: a tese do fluxo de sedimentos e sais minerais para os oceanos, divulgada por Henry Morris em 1974.

A alegação de Morris é simples na superfície: mede-se a quantidade de um determinado elemento químico (como níquel, alumínio ou sódio) despejada anualmente pelos rios nos oceanos, divide-se a quantidade total existente no mar por esse fluxo e — pronto! — obtém-se o tempo necessário para acumular esse mineral, o que definiria a idade dos oceanos.

Contudo, este argumento é um dos casos mais flagrantes de seleção arbitrária de dados (cherry-picking) e de total desconhecimento dos ciclos geoquímicos do planeta.


 

TERRA JOVEM REFUTADA - cienciaxreligiao.blogspot.com  


https://cienciaxreligiao.blogspot.com/2007/07/terra-jovem-refutada.html 


No nosso Google Drive:  https://docs.google.com/document/d/1n8KFzFablC95NfOWw--BmXsG-iG0sgh0gVIDc8pofHA/edit?tab=t.0
 

1. A Aberração dos Números Escolhidos a Dedo

Na tabela apresentada por Morris em seu livro Scientific Creationism, os "cálculos de idade" para os oceanos variavam de forma absurda dependendo do elemento escolhido:

  • Sódio: 260.000.000 de anos

  • Prata: 2.100.000 de anos

  • Urânio: 500.000 anos

  • Níquel: 9.000 anos

  • Alumínio: 100 anos

Diante dessa dispersão monumental, qual foi a atitude de Morris? Ele simplesmente escolheu o níquel (9.000 anos) para declarar que o oceano tinha um "limite superior de idade" compatível com o dogma de uma Terra recente, ignorando o sódio e a prata.

Se o método fosse válido, seguir a métrica do alumínio (100 anos) obrigaria a concluir que o oceano se formou no século XX e que eventos como a Primeira Guerra Mundial ou a Revolução Francesa nunca existiram — ou que o universo já foi criado com o mar cheio de alumínio para dar a "impressão de antiguidade".

2. O Erro Físico: Confundir "Idade" com "Tempo de Residência"

O erro metodológico crucial de Morris foi tratar os oceanos como um balde fechado onde os elementos só entram, mas nunca saem.

Na geoquímica real, os oceanos estão em estado de equilíbrio dinâmico:

  • Entradas e Saídas: Os minerais chegam aos oceanos trazidos pelos rios, poeira atmosférica e ventos hidrotermais, mas também saem dos oceanos por diversos processos físicos, químicos e biológicos.

  • Processos de Remoção: Minerais são removidos por precipitação química, absorção por organismos vivos (que formam conchas e esqueletos no fundo do mar), troca iônica com o basalto oceânico e pela subducção das placas tectônicas, que enterra o assoalho marinho de volta no manto terrestre.

  • Tempo de Residência: O cálculo feito por Morris não mede a idade da Terra, mas sim o tempo médio de residência de um elemento na água do mar antes que ele seja removido por reações químicas ou físicas. Elementos altamente reativos (como o alumínio) têm um tempo de residência curtíssimo (décadas), enquanto elementos solúveis e menos reativos (como o sódio e a prata) permanecem na água por milhões de anos.

3. O Ciclo Térmico e a Tectônica de Placas

O modelo de Morris ignora completamente a tectônica de placas — o mecanismo fundamental da geologia moderna. O fundo oceânico não é um depósito estático. Ele atua como uma gigantesca esteira rolante: a crosta oceânica é criada nas dorsais e continuamente reciclada e destruída nas zonas de subducção. Esse ciclo continuo purifica e renova a química dos mares ao longo de centenas de milhões de anos.

Análise Comparativa dos Modelos


Elemento de Análise

Tese dos Sedimentos (Henry Morris)

Geoquímica e Tectônica de Placas

Premissa Química

Oceanos são recipientes fechados onde sais só se acumulam.

Oceanos são sistemas abertos em equilíbrio dinâmico de entrada e saída.

O que o Número Mede

A suposta "idade" máxima da Terra/Oceanos.

O tempo de residência geoquímico de um elemento na água.

Seleção de Dados

Cherry-picking: adota o níquel (9 mil anos) e descarta o sódio e o alumínio.

Considera as taxas de reatividade e remoção de todos os elementos.

Mecanismo de Saída

Desconhecido ou negado.

Precipitação, consumo biológico e reciclagem por subducção tectônica.


A tentativa de usar taxas de acúmulo mineral desprovidas de seus mecanismos de remoção foi um erro primário de química e geologia. Os oceanos não são pilhas estáticas de lixo mineral, mas componentes vivos de um ciclo planetário de reciclagem de matéria que opera de forma estável há bilhões de anos. 


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Anotações científicas - 50

Inibidores do VMAT2: Da Farmacologia Molecular ao Tratamento dos Transtornos do Movimento

Dando continuidade à nossa jornada sobre as múltiplas facetas do transportador vesicular de monoaminas 2 (VMAT2), passamos agora do campo da adicção para a terapêutica clínica. Enquanto os artigos anteriores exploraram como o VMAT2 interage com a espiritualidade e com drogas de abuso, o trabalho de Aparna Tarakad e Joohi Jimenez-Shahed (2018), publicado no periódico CNS Drugs, examina como a modulação direcionada dessa proteína se transformou em uma ferramenta poderosa no tratamento de distúrbios neurológicos e psiquiátricos.


 

O Alvo Terapêutico: Controlando o Excesso de Dopamina

Os gânglios da base e as vias dopaminérgicas do cérebro são cruciais para a coordenação motora. Quando há uma hiperatividade nesses circuitos, surgem os chamados transtornos do movimento hipercinéticos — condições caracterizadas por movimentos involuntários, bruscos e repetitivos, como a coreia (observada na doença de Huntington) e a discinesia tardia (frequentemente associada ao uso prolongado de medicamentos bloqueadores de dopamina).

É exatamente aqui que entram os inibidores do VMAT2. Ao bloquear a ação desse transportador nas terminações nervosas pré-sinápticas, esses medicamentos impedem que a dopamina seja empacotada em vesículas. Sem esse armazenamento, o neurotransmissor fica exposto à degradação enzimática no citoplasma, reduzindo de forma global a quantidade de dopamina liberada na fenda sináptica e, consequentemente, atenuando os movimentos hipercinéticos indesejados.

A Evolução Farmacológica: Da Tetrabenazina aos Agentes Modernos

O artigo detalha a evolução de três principais fármacos dessa classe disponíveis comercialmente:

  • Tetrabenazina: O pioneiro no tratamento, eficaz, mas historicamente associado a perfis farmacocinéticos mais complexos e a uma incidência maior de efeitos colaterais adversos (como depressão e parkinsonismo).

  • Deutetrabenazina e Valbenazina: Representantes de nova geração, desenvolvidos com melhorias em suas estruturas moleculares e perfis farmacocinéticos. Essas modificações resultaram em maior tolerabilidade, menor flutuação nos níveis plasmáticos e perfis de segurança altamente favoráveis, validados por rigorosos estudos clínicos para o manejo da coreia na doença de Huntington e da discinesia tardia.

A compreensão detalhada das distinções entre esses compostos capacita a medicina moderna a modular sistemas neuroquímicos complexos com precisão cirúrgica, melhorando drasticamente a qualidade de vida de pacientes que lidam com condições motoras debilitantes.



O artigo


Tarakad A, Jimenez-Shahed J. VMAT2 Inhibitors in Neuropsychiatric Disorders. CNS Drugs. 2018 Dec;32(12):1131-1144. doi: 10.1007/s40263-018-0580-y. PMID: 30306450. 

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30306450/   


Resumo


Os gânglios da base e as vias dopaminérgicas desempenham um papel central nos transtornos do movimento hipercinéticos. Os inibidores do transportador vesicular de monoaminas 2 (VMAT2), que reduzem os níveis de dopamina nos terminais nervosos estriatais pré-sinápticos, constituem uma classe de medicamentos utilizada há muito tempo no tratamento de transtornos do movimento hipercinéticos, mas que recentemente ganhou maior destaque após o seu desenvolvimento para indicações específicas nos Estados Unidos. Atualmente, existem três inibidores da VMAT2 disponíveis comercialmente: tetrabenazina, deutetrabenazina e valbenazina. A farmacocinética, o metabolismo e a posologia variam significativamente entre os três fármacos, o que provavelmente explica o perfil de efeitos colaterais mais favorável dos agentes mais recentes (deutetrabenazina e valbenazina). A tetrabenazina e a deutetrabenazina demonstraram segurança e eficácia no tratamento da coreia associada à doença de Huntington, inclusive em estudos randomizados controlados, embora os estudos de comparação direta sejam limitados. Tanto a deutetrabenazina quanto a valbenazina demonstraram segurança e eficácia no tratamento da discinesia tardia em múltiplos estudos duplo-cegos controlados por placebo, ao passo que a tetrabenazina foi estudada de forma menos rigorosa. Não foram realizados estudos prospectivos e cegados com tetrabenazina na síndrome de Tourette (ST); no entanto, estudos duplo-cegos controlados por placebo na ST estão em andamento tanto para a deutetrabenazina quanto para a valbenazina. Dado o perfil de efeitos colaterais mais favorável dos inibidores da VMAT2 mais recentes, os médicos devem estar cientes das distinções entre os agentes e familiarizar-se com as diferenças em sua utilização, especialmente considerando o potencial de aumento do seu uso em diversos transtornos do movimento hipercinéticos.

domingo, 27 de setembro de 2026

Notas biopoéticas 54

Coenzimas e seu papel fundamental

O trabalho de Andreas Kirschning (2021) expande de forma magistral o cenário da biopoese ao colocar as coenzimas no centro da evolução pré-biótica, funcionando como verdadeiras fósseis moleculares do metabolismo primitivo.
 

 
A premissa central é que muitas dessas moléculas — que hoje atuam como parceiras indispensáveis das enzimas proteicas em transferências de grupos químicos e reações redox — possuem estruturas simples e frequentemente derivam de nucleotídeos. Isso sugere que elas coexistiram com o surgimento do RNA, operando em uma fase protometabólica muito antes de qualquer proteína moderna dar as caras. Em associação com o RNA primitivo (formando os chamados "holoribozymes" ou holorribozimas), as coenzimas expandiram drasticamente o escopo catalítico e a complexidade das redes metabólicas iniciais, provando que a química da vida aproveitou blocos modulares versáteis desde a sua aurora.


Holorribozimas

Holoribozyme (ou ainda holo-ribozima) é o termo utilizado em bioquímica para descrever uma molécula de RNA catalítico (ribozima) totalmente montada e ativa, contendo todos os seus componentes estruturais essenciais e, quando aplicável, o seu cofator químico ou metabólito associado. [Bingaman, 2017][Jamie, 2017]

O conceito é diretamente análogo à distinção feita nas proteínas entre a apoenzima (parte proteica inativa isolada) e a holoenzima (o complexo enzima-cofator ativo). No universo do RNA:

  • Aporibozyme: É a estrutura de RNA purificada ou isolada que permanece inativa ou apresenta atividade drasticamente reduzida por não estar associada ao seu ligante/cofator.

  • Holoribozyme: É o complexo cataliticamente funcional e completo. [Bingaman, 2017][Jamie, 2017][Kirschning, 2021][Bingaman, 2017b]

O Exemplo Clássico: A Ribozima glmS

O termo ganhou grande destaque nos estudos da ribozima glmS. Essa estrutura funciona simultaneamente como um riboswitch e uma ribozima: [Bingaman, 2017][Jamie, 2017] 

  • Ela requer obrigatoriamente a ligação de uma pequena molécula, o cofator glucosamina-6-fosfato (GlcN6P), para conseguir clivar sua própria cadeia de RNA. [Bingaman, 2017][Jamie, 2017] 

  • Pesquisas estruturais demonstram que, ao se transformar no holoribozyme (RNA + GlcN6P), o cofator orgânico atua diretamente na química do sítio ativo, servindo como um ácido geral para catalisar a clivagem.[Bingaman, 2017][Jamie, 2017]

Importância Evolutiva

O estudo das holorribozimas é uma peça fundamental para sustentar a Hipótese do Mundo do RNA, que propõe que a vida primitiva utilizava o RNA tanto para armazenar informação genética quanto para acelerar reações metabólicas. A capacidade de ribozimas recrutarem pequenos cofatores moleculares (formando holorribozimas) prova que o RNA consegue expandir seu repertório químico limitado para mimetizar a alta eficiência das proteínas modernas.[Bingaman, 2017][Jamie, 2017][Kirschning, 2021]


O artigo

Kirschning A. Coenzymes and Their Role in the Evolution of Life. Angew Chem Int Ed Engl. 2021 Mar 15;60(12):6242-6269. doi: 10.1002/anie.201914786. Epub 2020 Oct 23. PMID: 31945250; PMCID: PMC7983987.
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7983987/

Resumo

A evolução das coenzimas, ou o seu impacto na origem da vida, é fundamental para a compreensão da nossa própria existência. Uma vez estabelecidas hipóteses plausíveis sobre o surgimento de blocos de construção químicos prebióticos — provavelmente formados sob condições paleogeoquímicas — e assumindo que esses compostos menores se integraram para dar origem a macromoléculas complexas como o RNA, a questão da origem das coenzimas e sua relação com a evolução da bioquímica funcional deve ganhar novo impulso. Muitas coenzimas possuem estrutura química simples e são frequentemente derivadas de nucleotídeos, o que sugere que podem ter coexistido com o surgimento do RNA e desempenhado um papel crucial no metabolismo inicial. Com base nas teorias atuais sobre a evolução prebiótica, que buscam explicar o surgimento de blocos de construção orgânicos privilegiados, esta revisão discute hipóteses plausíveis acerca da formação prebiótica de elementos-chave presentes em coenzimas existentes atualmente. Em associação com o RNA prebiótico, as coenzimas podem ter expandido significativamente as redes protometabólicas primitivas e o escopo catalítico do RNA ao longo da evolução da vida. 


Referências

Bingaman JL, Zhang S, Stevens DR, Yennawar NH, Hammes-Schiffer S, Bevilacqua PC. The GlcN6P cofactor plays multiple catalytic roles in the glmS ribozyme. Nat Chem Biol. 2017 Apr;13(4):439-445. doi: 10.1038/nchembio.2300. Epub 2017 Feb 13. PMID: 28192411; PMCID: PMC5362308. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5362308/ 


Bingaman, J. (Advisor: Bevilacqua, P. C.). (2017) Identification of Novel Catalytic Strategies of Small Ribozymes. The Pennsylvania State University.

Jamie L. Bingaman, Inanllely Y. Gonzalez, Bo Wang, Philip C. Bevilacqua; Activation of the glmS Ribozyme Nucleophile via Overdetermined Hydrogen Bonding. Biochemistry 22 August 2017; 56 (33): 4313–4317. https://doi.org/10.1021/acs.biochem.7b00662