Alguns anos atrás, Cezar Souza, um estudante interessado em Ciência, escreveu um texto intitulado “Não se bate em cachorro morto? - Uma análise das "recentes" afirmações TDistas/criacionistas”.
Neste texto, o autor ataca alguns dos diversos argumentos contra diversos campos científicos, de maneira geral, contra todos que afirmam que o universo tem mais de dezena de bilhões de anos (Cosmologia), que a Terra tenha bilhões de anos de idade (Astrofísica e Geologia), que os seres vivos não tenham surgidos prontos em suas espécies (Biologia) e que a vida não tenha surgido a partir de processos naturais na Terra primitivas (origem abiótica da vida ou biopoese). Sendo bem claro, atacando uma parcela significativa de toda a Ciência que remonta até há três séculos de desenvolvimento, como temos no caso da Geologia.
Original nos nossos arquivos: Não se bate em cachorro morto?
Eu me propus recentemente a reeditar esse texto, e com a concordância do corajoso autor, segue a edição a seguir.
Contexto
Esse argumento, no fundo apenas um bordão, “não se bate em cachorro morto”, bastante soberbo diga-se de passagem, é geralmente utilizado por proponentes do DI, tendo como principal objetivo demonstrar que a "Teoria" do Design Inteligente (TDI) está em igualdade epistêmica com a teoria da evolução.
Essa proposta surgiu no livro Fomos planejados, de Marcos Eberlin. Entretanto, ela ressurgiu em uma palestra apresentada recentemente por Eberlin, intitulada "Ninguém chuta cachorro morto: a palestra de 'design inteligente' na UFMS" (1).
Universidade pública e o direito da liberdade de expressão
Nos primeiros minutos (10:00) de sua palestra, Eberlin começa dizendo que a Universidade é um local público; financiada com o dinheiro da população que quer saber a verdade e, portanto, a melhor teoria deve ser proposta. Além disso, Eberlin cita o grande físico Richard Feynman, vencedor do Prêmio Nobel de Física, dizendo que a universidade é a "cultura da dúvida", o ponto do embate, do ponto e do contraponto - mas não houve debate algum naquela palestra. Ademais, é citado que a população quer saber a verdade sobre suas origens.
Antes de avançarmos, devemos lembrar a famosa frase atribuída a Richard Feynman: “Nunca confunda educação com inteligência; você pode ter um doutorado e ainda ser um idiota.”
O primeiro tópico a ser tocado aqui é que a verdade para Eberlin, é claro, está na "teoria" do chamado design inteligente (DI).
O segundo é o simples fato da população brasileira ser desinteressada em relação à ciências. Afirmamos isso não só como uma refutação ao ‘bordão argumento’ de Eberlin, mas como uma realidade vivida pelo Brasil.
Quando alguém está disposto a assistir a abertura de uma palestra científica espera-se algo minimamente aceitável do ponto de vista acadêmico, não algo como a gravidade não atrai átomos e moléculas - algo extremamente ridículo visto pela ótica da simples Mecânica Newtoniana e da Astrofísica, já abordada por Francisco Quiumento em A gravidade de Eberlin (2) e Agravando a gravidade de Eberlin (3).
Ou seja, o público que está disposto a assistir algo de procedência espera, no mínimo, uma palestra coerente. Esse não foi o caso de Eberlin.
O terceiro ponto é a citação de Feynman, de modo a dar um ar de livre expressão nas universidades.
A frase de Feynman é correta, mas o contexto em que Eberlin tenta colocá-la é errado, haja vista o fato do design inteligente não ser científico até mesmo em seus supostos métodos (4) (5) (6). Fundamentalmente, a dita Teoria do DI trata-se apenas de uma inferência filosófica, sequer uma hipótese, e como hipótese, sem as características de uma hipótese científica.
As características impostas à Ciência pela falseabilidade das hipóteses leva a ser o sonho de qualquer biólogo tentar superar Darwin e ser considerado melhor ou inigualável em realizações a ele. Um exemplo claro é o de Lynn Margulis, que propôs a simbiose como força evolutiva (7), e criticava veementemente o neo-darwinismo, mas o fazia de modo científico.
Por exemplo, chamar um alquimista/astrólogo para abrir uma palestra científica sobre química/astrofísica é extremamente errado, anacrônico, e não pode ser justificado pela cultura da dúvida. Dentro desses exemplos, é elementar entender que os elementos hoje não são quatro e as estrelas não estão fixas em esferas de cristal. Outrossim, Eberlin simplesmente supôs uma criação do “dia pra noite”, miraculosa, e não algo verdadeiramente científico para substituir as críticas que ele faz à evolução química, no caso da vida, ou a processos de formação de corpos celestes. Não é por poucos motivos que a Ciência tem como eixo um materialismo metodológico, pois como ironia que frequentemente é apresentada, poderíamos então considerar que um unicórnio invisível teria criado todo o mundo (termo filosófico) ontem, incluindo todas nossas memórias.
Destarte, a afirmação de Eberlin novamente não é verdade. A universidade é um local de debate científico, e não teológico doutrinário teleológico ou pseudocientífico.
Por fim, o quarto ponto é que as origens, em um sentido da existência da vida, deve ser explicado em uma palestra no campo da Filosofia. E, caso ele estivesse se referindo à origem através dos processos químicos/físicos/biológicos, sua palestra também não seria a mais apta para abrir tal evento.
Qual o tema da palestra?
Em 12:35 Eberlin começa a falar que a palestra não era sobre o design inteligente, e sim sobre a possibilidade da evolução química e uma afirmada e pouquíssimo explicada impossibilidade de formação dos corpos celestes pela ação da gravidade..
Entretanto, essa não é a realidade. Realmente a palestra não se dispõe a falar sobre os argumentos do DI, mas utilizá-lo como um contraproposta à evolução química, o mesmo pode ser dito sobre a formação dos corpos celestes. Dessa maneira, na palestra, Eberlin estava tentando demonstrar que a evolução química não poderia ocorrer e, portanto, a melhor opção seria o DI.
Isso fica claro no seguinte print:
(40:30) - Eberlin argumenta positivamente que, ao calcular o tanto de QI que alguém precisaria para fazer o universo deveria ser maior que 0 caso fosse um designer e 0 caso fossem forças naturais. A conclusão de tal argumento é claro, envolve a existência de um DI, o que já caracteriza uma falácia ‘non sequitur’, não consequente, pois os processos naturais produzem a inteligência nos seres vivos, e não podemos afirmar a inteligência como anterior aos processos naturais, incluindo os processos dos seres vivos.
Através do que foi supracitado, Eberlin tenta não utilizar o termo DI para travestir sua palestra como científica. Conquanto, é visível que o tema era uma negação à evolução química, evidenciando um DI (houve parcos momentos de argumentação positiva ao DI).
O cachorro morto ou morto-vivo?
As afirmações de Eberlin para igualar a teoria da evolução à chamada “Teoria do Design Inteligente” (TDI) é que não se bate em cachorro morto, ou seja, se tem gente refutando o DI isso significa que a “teoria” é um verdadeiro problema ao neo-darwinismo.
Em primeiro plano, o cachorro está morto academicamente. Isto é, o DI não é cogitado pela agremiação (8).
Vamos ilustrar bem com uma metáfora.
O DI é um cachorro zumbi que ronda pelos arredores do castelo (academia) e apenas tenta dominar a parte externa do edifício (população leiga).
Agora entra algo interessante. Por que o cachorro é zombie? Simples. As pessoas que estão no castelo (cientistas) ou até mesmo os guardas (pessoas com bom conhecimento científico) já tacaram pedra, deram tiro, queimaram, utilizaram um bomba atômica (uma refutação contundente) e o zumbi se enfraquece - e às vezes morre. Entretanto, ele é birrento e não desiste nunca, mesmo sendo refutado diversas vezes.
Nesse aspecto, percebemos que os negacionistas da evolução enfrentam as afirmações da Teoria da Evolução dos seres vivos há mais de século e meio, sem o menor resultado, de onde o comportamento se mantém, apenas ganhou novos campos de manifestação.
A partir dessa metáfora concluímos que o DI não é um problema acadêmico, mas tenta, através do público leigo, dominar indiretamente a academia e mudar o paradigma científico, o que é bem explicitado no chamado “Documento da Cunha” (9) .
A lista de artigos não bate?
Em 13:40 Eberlin, ao ser contestado por não colocar artigos em sua palestra, diz que há pessoas colocando links em seus conteúdos que não correspondem verdadeiramente com o conteúdo dos papers. Posteriormente, ele diz que seu livro é referenciado por textos revisados por pares. E, segundo ele, suas palestras são concentradas nos dados que ele coletou.
Um bem claro cinismo de Eberlin. Logo ele falando sobre artigos que não batem com a visão de quem está linkando-os. Vamos pegar o livro Fomos planejados para analisar um artigo citado por ele.
(Fomos planejados, 291 Kidle)
O artigo que ele cita é o Eighty percent of proteins are different between humans and chimpanzees (10). Segundo Eberlin, como visto acima, essa diferença é substancial e uma clara característica de que o homem não possui um ancestral comum com os chimpanzés.
Realmente, parece que o Eberlin se interessou apenas pelo título do artigo, afinal, se tivesse lido veria no próprio resumo que a diferença de 80% é fenotípica.
E o mais curioso de tudo é que Eberlin diz que o melhor jeito de comparar homens e macacos seria através das proteínas - as do artigo são responsáveis pela mudança fenotípica. Entretanto, Eberlin é extremamente ferrenho contra a “ciência da parecência” (um termo dele) - se X parece ou não com Y não significa que eles vieram de descendentes comuns.
Então, você utiliza artigos que falam sobre “parecência” para desqualificar a evolução humana ou apenas aceita essa diferença quando lhe convém? Qual será a desculpa dessa vez?
Aparenta também que não leu o artigo, afinal, os pesquisadores compilaram 127 proteínas humanas e de chimpanzés ortólogas. Mas o que significa ortólogas? Ortólogas são genes em diferentes espécies que evoluíram a partir de um mesmo gene ancestral comum via especiação.
Dessa forma, para o Eberlin aceitar essa diferença entre as proteínas ortólogas, razoável e honesto seria aceitar também que essas proteínas descendem de um ancestral em comum e modificaram-se por duplicação gênica.
Referências
http://francisco-scientiaestpotentia.blogspot.com/2015/12/agravando-gravidade-de-eberlin.html?m=1
http://francisco-scientiaestpotentia.blogspot.com/2015/12/agravando-gravidade-de-eberlin.html?m=1
http://www.talkdesign.org/faqs/theftovertoil/theftovertoil.html
https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0378111904006705?via=ihub

