quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Sátira Menipeia: A Subversão do Pensamento Rígido

“Dizia o mestre da Hibóstase, com a gravidade de quem descobriu o fogo, que a redondeza do buraco era apenas uma construção social da geometria opressora. E, munido de seu martelo de Procusto, ele jurava que a peça quadrada era a única verdade absoluta — mesmo que, para prová-lo, tivesse de reduzir o mundo a lascas e serragem.” - Gemini da Google, aparentemente, se divertindo.

Primeiro apresentaremos um conceito, e adiante, mostraremos como ele pode ser extremamente útil no combate às pseudociências e ao negacionismo científico.

Definição e Origem

A Sátira Menipeia é um gênero literário híbrido, caracterizado pela mistura de prosa e verso, e pelo tom que transita entre o sério e o cômico (serio-ludere). Diferente da sátira social direta, que foca em indivíduos ou costumes, a Menipeia foca no mundo das ideias. Seu alvo principal é o pedantismo, o dogmatismo e as visões de mundo excessivamente rígidas.

O gênero recebe o nome de Menipo de Gadara (século III a.C.), um filósofo cínico que utilizava o humor para ridicularizar as escolas filosóficas de sua época.

Características Principais

  • Multiformidade: Alternância constante entre o registro filosófico e o poético (polifonia).

  • Viagem Fantástica: Frequentemente utiliza cenários irreais (como o submundo ou o espaço) para observar a Terra de uma perspectiva externa e irônica.

  • Crítica Intelectual: O alvo não é apenas a má conduta moral, mas o vício intelectual — a crença cega em sistemas de pensamento fechados.

Aplicação Contemporânea: O Exemplo da Hibóstase

Para entender como a Sátira Menipeia opera hoje, podemos observar o embate entre a ciência e o negacionismo através da lente da Síndrome de Procusto. Enquanto um ensaio técnico descreveria o erro metodológico do negacionista, a Sátira Menipeia o coloca em cena:

Imagine o "Doutor em Hibóstase" discursando sobre a opressão da geometria. Para ele, a insistência da realidade em manter buracos redondos é uma conspiração contra a sua "peça quadrada" (o dogma). No auge de seu delírio acadêmico, ele irrompe em verso:

"O mundo é curvo, vasto e profundo, Mas há quem prefira o próprio abismo, Tentando cravar a peça quadrada No buraco redondo do seu dogmatismo."

Neste exemplo, a transição para o verso não é apenas estética; ela serve para sublinhar o absurdo da "hipótese de bosta" (hibóstase) que, por não resistir ao rigor da lógica em prosa, tenta se esconder sob o manto da retórica ou do sentimento.

Por que usar a Sátira Menipeia na Divulgação Científica?

Em tempos de relativização de vidas humanas, a Sátira Menipeia torna-se uma ferramenta de defesa. Ela permite que o divulgador exponha o ridículo das construções anticientíficas sem cair na armadilha de tentar debater logicamente com quem já abandonou a lógica. É a arte de mostrar que o rei (ou o mestre da hibóstase) está nu.


“Hibóstase” - uma nova ironia


Pequeno Tratado sobre a Hibóstase

No vocabulário da razão, a hipótese é uma semente: uma suposição fundamentada que aguarda o teste da realidade para florescer ou ser descartada. Mas no submundo do dogmatismo, surge um fenômeno diferente, e procuramos fixar o termo: a Hibóstase.

A Hibóstase (hibos , para gerar a sonoridade, a grafia e parecer latim ou grego + o grego stasis) é, em termos simples, uma "hipótese de bosta". É aquela ideia que nasce não da observação do mundo, mas do desejo desesperado de que o mundo confirme nossos preconceitos.

Anatomia de uma Hibóstase:

  1. Imunidade ao Fato: Diferente da ciência, que se curva diante da evidência, a hibóstase tenta curvar a evidência diante de si. Se a peça quadrada não entra no buraco redondo da realidade, a hibóstase culpa o buraco.

  2. O Vernáculo da Autoridade: Ela adora se travestir de termos complexos para esconder sua fragilidade. É a negação da ciência disfarçada de "questionamento libertário".

  3. A Fundação de Procusto: Toda hibóstase serve como base para uma situação de comportamento "Leito de Procusto". É o fundamento podre que justifica amputar a verdade, como já analisamos, relativizar vidas humanas em nome de uma "certeza" interna.

Por que combatê-la?

A ciência avança através do erro honesto, mas a sociedade retrocede através da hibóstase orgulhosa. Quando tratamos uma "hipótese de bosta" como uma alternativa legítima ao fato comprovado, não estamos sendo democráticos; estamos sendo cúmplices da erosão da realidade.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O Leito de Procusto

Quando a Ideologia Mutila a Realidade



A partir de anotações sobre relações da “Síndrome de Procusto” e a negação da ciência e a relativização de vidas humanas.

Na mitologia grega, Procusto era um anfitrião peculiar que possuía dois leitos de tamanhos diferentes. Ele convidava viajantes para descansar, mas impunha uma condição macabra: o corpo do hóspede deveria se ajustar perfeitamente à cama. Se o viajante fosse alto demais, Procusto amputava seus membros; se fosse baixo demais, era esticado em uma bigorna até atingir a medida "correta".

Hoje, a Síndrome de Procusto transcendeu o mito para descrever um fenômeno perigoso na esfera pública: a tentativa violenta de forçar a realidade a caber dentro de molduras ideológicas pré-concebidas.

A Negação da Ciência como Amputação

Quando falamos em negação da ciência, estamos observando Procusto em ação. A ciência opera através da observação de fatos que, muitas vezes, são desconfortáveis ou contrários aos nossos desejos. O negacionista, porém, inverte o processo: em vez de mudar sua opinião para se adequar aos fatos, ele tenta "amputar" as evidências.

Se um dado científico não cabe na narrativa política ou econômica vigente, ele é descartado, ignorado ou distorcido. A ciência é esticada ou cortada até que não reste nada além de uma caricatura da verdade.


A Relativização de Vidas Humanas

A consequência mais grave dessa síndrome é a relativização da vida. No mito, a prioridade de Procusto era a perfeição da medida, não a integridade do ser humano. No cenário contemporâneo, quando a ideologia se torna mais importante que a evidência empírica, a vida humana passa a ser um detalhe sacrificável.

  • Ignorar a ciência em nome de uma crença interna não é apenas um erro intelectual; é uma falha moral.

  • O custo do ajuste: Quando políticas públicas são baseadas no "leito de Procusto" em vez de dados concretos, o preço é pago em vidas. A recusa em aceitar a realidade biológica ou climática, por exemplo, é uma forma de dizer que o "ajuste" ao dogma é mais valioso que a sobrevivência do indivíduo.


A imagem de forçar a entrada da “peça quadrada” um buraco redondo, útil para se entender o vício de se querer que nossos dogmas sejam impostos à realidade do mundo.

Conclusão

O herói Teseu eventualmente derrotou Procusto fazendo-o provar de seu próprio método. No debate moderno, nossa "arma" contra essa síndrome deve ser o compromisso inegociável com a realidade. Reconhecer que o mundo não tem a obrigação de caber nas nossas certezas é o primeiro passo para uma moralidade que realmente protege a vida, em vez de mutilá-la.

Recomendações de leitura

Síndrome de Procusto: o que é e como identificá-la? - www.sbie.com.br 


Julia Di Spagna - 8 sinais de que seu colega sofre da síndrome de Procusto - 

forbes.com.br 


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O Calor Mediado: A Herança de Maria, a Judia

Uma antiga anotação em meus rascunhos:

Ainda devo para mim mesmo um texto sobre Maria, A Judia, do Egito, que nos legou uma genial invenção, o banho de fluidos e areias para evitar chamas diretas e produzir aquecimentos e ebulições seguros, mais controláveis e amenos, o...

Banho-Maria

A hora de escrever sobre essa senhora chegou.

Há uma delicadeza esquecida nos gestos mais comuns da nossa rotina. Quando colocamos um recipiente sobre a água fervente para derreter o que é sólido ou apurar o que é frágil, estamos, sem saber, invocando um espectro da Alexandria do século I. Maria, a Judia, ou Maria, a Profetisa, não nos deixou apenas uma técnica de cozinha; ela nos legou a primeira grande lição de temperança sobre a matéria.

Antes de Maria, o fogo era uma força bruta, uma agressão direta que muitas vezes destruía a essência antes de transformá-la. Sua genialidade residiu na introdução da mediação. Ao conceber o banho de fluidos e areias, Maria criou um "colchão" térmico, uma zona de segurança que impede a chama de tocar o objeto de estudo. É o aquecimento pelo abraço, não pelo ataque.

O termo que atravessou milênios — o Banho-Maria — é a prova de que a ciência mais rigorosa pode nascer da sensibilidade. Maria entendeu que certas transmutações exigem o que hoje chamaríamos de ebulições amenas e controláveis. Para que algo se transforme sem se queimar, é preciso tempo e uma temperatura que respeite o limite do outro.

Essa invenção dialoga silenciosamente com a própria ética da ação. Assim como na moralidade social — onde a inação pode ser um erro e a ação impensada um desastre — a alquimia de Maria propõe uma intervenção cuidadosa. Ela não se omitiu diante do desafio de manipular os elementos, mas escolheu fazê-lo através de um método que preserva a integridade da substância.

Ao olharmos para o Banho-Maria, vemos mais do que um utensílio; vemos o nascimento da química moderna sob as mãos de uma mulher que transformou o fogo selvagem em um calor civilizado. Em cada ebulição lenta, das simples cozinhas aos mais sofisticados laboratórios, Maria ainda vive, lembrando-nos que as transformações mais profundas, tanto na ciência quanto na vida, raramente acontecem sob fogo direto, mas sim na constância de um calor compartilhado. 

Leitura recomendada

en.wikipedia.org - Mary the Jewess 


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A “origem do homem” por Eugene M. McCarthy

Tradução de: rationalwiki.org - Eugene M. McCarthy - Human origins  


“Acreditamos que os humanos são aparentados aos chimpanzés porque compartilham muitas características com eles. Não seria racional, então, se os porcos possuem todas as características que distinguem os humanos de outros primatas, supor que os humanos também sejam aparentados aos porcos? Tomemos como hipótese, então, que os humanos são o produto de uma antiga hibridização entre porco e chimpanzé.” — Eugene M. McCarthy


McCarthy publicou um “tratado” sobre as origens humanas, intitulado “A Hipótese Híbrida: Uma nova teoria das origens humanas”, que considera a possibilidade de os seres humanos terem um híbrido de chimpanzé e porco em sua ancestralidade. (PZ Myers denominou isso de "Hipótese do Macaco Transou com um Porco (MFAP, “Monkey-Fucked-A-Pig”)".)

 

A hipótese de McCarthy baseia-se principalmente em sua pesquisa sobre híbridos de pássaros, especificamente no fato de que híbridos de pássaros são parcialmente férteis cerca de 8 vezes mais frequentemente do que são completamente estéreis. Esses descendentes parcialmente férteis podem gerar descendentes por retrocruzamento com uma das duas espécies originais. McCarthy, no entanto, admite que:


“Embora existam outras maneiras de detectá-los, com dados de sequência de nucleotídeos, pode ser muito difícil identificar híbridos de retrocruzamento de gerações posteriores derivados de várias gerações repetidas de retrocruzamento (e isso seria especialmente verdadeiro para quaisquer descendentes remotos de híbridos de retrocruzamento produzidos em tempos antigos, que é o que estou propondo que os humanos possam realmente ser).”


Este é o cerne do problema com esta hipótese. McCarthy formulou uma hipótese extraordinária, mas afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias, e McCarthy admite que não há como verificar sua hipótese com evidências genéticas.

Outro problema com a hipótese de McCarthy é que a documentação de cruzamentos bem-sucedidos parece estar contida em ordens biológicas ou baseada em relatos não científicos e pouco confiáveis. Isso amplia, em vez de solucionar, os problemas apontados no livro de McCarthy sobre híbridos de aves por um de seus críticos, Gary R. Graves, Curador de Aves da Smithsonian Institution. Os relatos não científicos geralmente provêm de jornais, de antes da era dos testes genéticos (basicamente protociência), ou de evidências fotográficas do que poderia ser facilmente explicado como defeitos congênitos. Exemplos incluem:


  • Pintassilgo-europeu (Carduelis carduelis) × canário (Serinus canarius), ambos da ordem Passeriformes

  • Faisão (Phasianus colchicus) × codorniz (Coturnix japonica), ambos da ordem Galliformes.

  • Tentilhão-roxo (Carpodacus pupureus) × grosbeak-de-pinheiro (Pinicola enucleator), ambos da ordem Passeriformes.

  • Papagaio-dourado (Bucephala clangula) × merganso-de-capuz (Lophodytes cucullatus), ambos da ordem Anseriformes.

  • Corvo-comum (Corvus corone) × corvo-de-capuz (Corvus cornix), ambos da ordem Passeriformes.

  • Vários híbridos de porco ou pecari dentro da família Suidae ou da família Tayassuidae, respectivamente híbridos que estão dentro da ordem Artiodactyla, ou com base em relatos não confiáveis ​​(porco-cachorro porco-cavalo ou porco-humano).

  • Vários híbridos de camelídeos dentro da família Camelidae (dentro da ordem Artiodactyla).

  • Vários híbridos de cervos dentro da ordem Artiodactyla, ou com base em relatos não confiáveis ​​(cervo-cavalo).

  • Vários híbridos dentro da família Bovidae (gado, ovelhas, cabras, antílopes[Nota 1] (dentro da ordem Artiodactyla), ou com base em relatos não confiáveis ​​(cachorro-vaca, cavalo-vaca, vaca-humano, vaca-canguru, vaca-coelho, etc.).

Um suposto híbrido de cavalo e vaca, pintado em 1776.


 

McCarthy lista em seu site alguns "híbridos" especulativos entre ordens diferentes, mas não os considera como fatos documentados, como o "cabbit", um suposto cruzamento entre um gato (Felix domesticus, ordem Carnivora) e um coelho (família Leporidae, ordem Lagomorpha). As evidências fotográficas de cabbits parecem ser apenas um gato com um rabo curto e uma má formação nas patas dianteiras.


Uma foto de um “cabbit”. — CABBITS - A HISTORY OF THE MYTH Copyright 1999 - 2017, Sarah Hartwell - messybeast.com 



"A hibridização entre chimpanzé e porco, no entanto, é muito mais improvável. Requer cruzamento entre ordens distintas de mamíferos. Chimpanzés são primatas e porcos são artiodáctilos (ungulados de dedos pares). Apesar das sugestões de McCarthy em contrário, os relatos de híbridos entre diferentes ordens de mamíferos são, literalmente, inacreditáveis." Sua sugestão de que o ornitorrinco seja o resultado da hibridização entre mamíferos e aves – uma questão ainda maior – parece basear-se em um mal-entendido sobre a herança dos cromossomos. Embora parte da genética dos ornitorrincos pareça semelhante à das aves, isso é muito mais consistente com seu estado primitivo e uma marca de uma herança compartilhada entre aves e répteis (preservada em mamíferos primitivos) do que uma evidência direta de miscigenação.” — Henry Gee


Como McCarthy não consegue usar o genoma para apoiar sua hipótese, ele aponta para semelhanças morfológicas para fundamentar seu argumento. Quase todos os blogueiros biólogos rejeitaram isso. Essa teoria foi citada acriticamente tanto pelo InfoWars quanto pelo YourNewsWire. 


Embora possam existir semelhanças morfológicas, quase todos os outros biólogos evolucionistas já chegaram há muito tempo à conclusão de que isso não implica necessariamente uma conexão relacional entre duas espécies (por exemplo, veja evolução convergente). 


McCarthy considera em detalhes a hipótese de que equidnas e ornitorrincos derivam de cruzamentos híbridos entre aves e mamíferos. Seu site também apresenta um extenso catálogo de outros casos que ele propõe como possíveis híbridos que desafiam clados semelhantes, entre eles uma lista de possíveis híbridos humano-cabra.




Notas 


1.No artigo da RationalWiki é citado “Existe algum debate sobre se os antílopes são bovídeos, mas em todo caso pertencem à ordem Artiodactyla.”.

Essa nota é um excelente exemplo de como uma imprecisão técnica pode passar despercebida por parecer "sofisticada". Vamos analisar os pontos onde ela acerta e onde ela escorrega na taxonomia:

I. O Equívoco sobre os Bovídeos

A afirmação de que "existe debate" sobre os antílopes serem bovídeos é, do ponto de vista da biologia moderna, incorreta.

  • Na verdade, "antílope" não é um grupo taxonômico formal, mas um termo "guarda-chuva" para quase todos os membros da família Bovidae que não são bois, ovelhas ou cabras.

  • Portanto, eles não apenas são bovídeos por definição, como compõem a maior parte dessa família. Não há debate científico real sobre essa classificação básica.

II. O Acerto na Ordem (Artiodactyla)

Aqui a nota está correta. Os antílopes (e todos os bovídeos) pertencem à ordem Artiodactyla.

  • Esta ordem agrupa os "ungulados de dedos pares" (como camelos, porcos, girafas e hipopótamos).

  • Curiosamente, a ciência moderna agora frequentemente utiliza o termo Cetartiodactyla, já que as evidências genéticas mostraram que os cetáceos (baleias e golfinhos) descendem de ancestrais artiodáctilos terrestres.



A Quimera de McCarthy e o Colapso da Genética

Se a ciência é o esforço de encontrar a explicação mais simples que abranja todos os fatos (Navalha de Ockham), McCarthy prefere a "Marreta de McCarthy": ele quebra os fatos até que eles caibam na sua conclusão pré-determinada.

1. A Falácia da Impossibilidade Genética

O argumento de que "os dados de sequência de nucleotídeos tornam difícil identificar híbridos antigos" é um clássico argumento da ignorância. McCarthy usa a suposta "invisibilidade" da prova genética para validar sua teoria. No entanto, a genômica comparativa moderna é extremamente precisa. Se houvesse uma inserção massiva de genes de suídeos no genoma de primatas, haveria assinaturas moleculares (ERVs, íntrons específicos, sintenia cromossômica) que seriam impossíveis de apagar, mesmo após milhões de anos.

2. Morfologia de Conveniência

McCarthy lista características como pele nua, camada de gordura subcutânea e olhos claros como "provas" da ancestralidade suína. Isso é ignorar solenemente a convergência adaptativa. Humanos perderam pelos por questões de termorregulação na savana; porcos têm pele semelhante por pressões evolutivas distintas. Chamar isso de hibridização é como dizer que um morcego é um rato que cruzou com um pássaro porque ambos voam.

3. O Salto sobre o Abismo Reprodutivo

A lista de híbridos que você traduziu (passeriformes, galiformes, etc.) mostra que a hibridização ocorre, sim, mas quase sempre dentro da mesma família ou ordem.

  • O que a ciência diz: O isolamento pré e pós-zigótico impede que ordens diferentes (Primatas vs. Artiodáctilos) se cruzem. O espermatozoide de um porco sequer reconheceria a zona pelúcida de um óvulo de chimpanzé.

  • O que McCarthy diz: Ele ignora a barreira dos milhões de anos que separam esses clados. Propor um híbrido entre mamífero e ave (como ele faz com o ornitorrinco) não é apenas má ciência; é biologia fantástica digna de um bestiário medieval.

4. O Catálogo de Monstros e a "Protociência"

A inclusão de relatos de jornais do século XVIII e fotos de gatos com malformações ("cabbits") como "evidências" revela o desespero metodológico. Ao dar o mesmo peso a uma pintura de 1776 de um "cavalo-vaca" e ao sequenciamento do genoma humano, McCarthy abandona o século XXI.

Conclusão: A Ética da Verdade

Como você bem pontuou em suas reflexões sobre a moralidade interna, aceitar esse tipo de "teoria" não é apenas um erro intelectual, é uma conivência com o desmantelamento do pensamento racional. Quando sites de desinformação (como InfoWars) abraçam essas ideias, elas deixam de ser curiosidades inofensivas e tornam-se ferramentas contra a alfabetização científica.