quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Negacionismos - 5

 Uma experiência pessoal:

O negacionismo do número de mortos que ocorreria na pandemia


O Embate da Razão contra a Aritmética do Descaso

No início de 2020, o Brasil não enfrentava apenas a ameaça biológica de um novo vírus, mas uma guerra de narrativas que se desenrolava em tempo real. Foi nesse cenário, em meio ao ambiente hostil do então Twitter, que travei um embate direto com uma das vozes mais proeminentes da minimização da pandemia: “um certo médico ex-ministro”. O conflito não era meramente político; era um choque entre a modelagem honesta da realidade e uma retórica que usava frações de verdade para construir uma mentira catastrófica.

A tese defendida por ele era sedutoramente perigosa: afirmava-se que o número de mortos no Brasil não passaria de "poucos milhares". O argumento baseava-se estritamente na taxa de letalidade do vírus, apresentada como baixa. No entanto, o erro — crasso e fatal — residia no desprezo deliberado pelo fator de escala. Ao ignorar que mesmo uma taxa de mortalidade pequena, se elevada à contaminação de uma significativa fatia da população (como os 210 milhões de brasileiros), se traduziria inevitavelmente em centenas de milhares de vidas em risco. O negacionismo transformava a estatística em uma ferramenta de anestesia social.

O que tornava o embate ainda mais surreal era a agressividade da rede de proteção que cercava esse discurso, no jargão a “bolha” desse segmento da sociedade quanto à ideologia política. Não se tratava apenas de militantes políticos, mas de uma falange de defensores "nervosos" que incluía, surpreendentemente, profissionais da saúde. Médicos, munidos de seus diplomas, emprestavam prestígio para validar o erro matemático, atacando com fúria qualquer tentativa de modelagem realista. Esse "negacionismo de autoridade" criou uma cortina de fumaça: ao verem médicos minimizando o risco, muitos cidadãos sentiram-se seguros para ignorar o perigo. A autoridade técnica, que deveria servir à preservação da vida, foi sequestrada para silenciar a crítica e legitimar a inação.

Diante daquela negação, restou-nos a tentativa de enxergar o tamanho do abismo. Adotei um modelo simplíssimo: a curva de mortos em ascensão projetada simetricamente em uma curva de declínio para estimar o total de perdas. Mesmo esse esforço honesto de previsão ainda subestimava a realidade, pois a geometria da pandemia revelou-se mais cruel do que a simetria de uma curva “sino”. Onde esperávamos (no modelo) um declínio rápido após o ápice, encontramos o platô — aquela linha reta e alta que se recusa a cair, onde a morte se torna uma constante diária, banalizada pelo tempo e pela política.

Este episódio personifica uma falha moral profunda. A essência da moralidade reside na forma como nossas ações e omissões afetam o bem-estar alheio. A inação, motivada por uma aritmética fantasiosa e defendida por gritos nervosos, não foi um erro neutro; foi uma escolha que resultou em danos irreparáveis. Ali, entre caracteres e gráficos, o que estava em jogo era a clareza sobre o abismo. O tempo provou que os "poucos milhares" eram, na verdade, uma multidão de ausências, confirmando que negar a ciência quando a vida do outro está em jogo é, antes de tudo, um ato de profunda imoralidade social, revelando um lado sombrio da retórica pseudocientífica: o uso de números reais para construir conclusões fictícias.

As bases do erro

1. A Armadilha da Taxa de Letalidade

O argumento de figuras como “tal médico ex-ministro” era uma perversão matemática. Ao focar apenas na "baixa letalidade" (estimada inicialmente entre 0,5% e 2%), eles omitiam o fator multiplicador: o contágio em massa. Se a estratégia fosse deixar o vírus circular, a base de cálculo seria a população inteira. 1% de um país é uma catástrofe; chamar isso de "poucos milhares" não foi um erro de cálculo, foi uma fraude retórica para justificar a inação.

Aqui existe a obviedade (maltusiana) de que a progressão exponencial ultrapassa rapidamente uma progressão linear.

Se um vírus mata "apenas" 1% dos infectados, mas a estratégia de "imunidade de rebanho por contágio" (defendida por esses grupos) permite que 100 milhões de brasileiros se infectem, a matemática é implacável: estamos falando de 1 milhão de mortos. A tentativa de transformar uma catástrofe humanitária em "poucos milhares" exigia que se ignorasse a velocidade do contágio e a ausência de vacinas.

2. Modelagem Humana vs. Negacionismo Político

Enquanto o negacionismo tentava "estancar" a realidade com frases de efeito, o esforço cidadão tentava antecipar o tamanho do abismo. Descrevemos um modelo intuitivo e honesto: observar a curva de mortos por tempo e projetar sua descida.

A diferença ética é clara: quem modela e erra pelo "platô" está tentando salvar vidas através da previsão. Quem nega a base da conta (o contágio total) está condenando pessoas através da falsa segurança.

3. A Moralidade do Erro e o Peso do Platô

Como seguidamente pontuamos em nossas reflexões, a moralidade reside nos efeitos das nossas ações. O modelo que até ainda não tinha assistido o platô, mesmo que imperfeito, exigia ação. O modelo que previa "poucos milhares" justificava o cruzamento de braços. O platô da COVID-19 no Brasil foi o monumento fúnebre dessa subestimação: um período prolongado de perdas que poderia ter sido encurtado se a aritmética do início não tivesse sido contaminada pela ideologia.


O nosso modelo

O tratamento do “modelo” durante o período da pandemia, e o histórico de certos fatos e dados pode ser lido aqui:

Um modelo LN para a epidemia de COVID-19 no Brasil - docs.google.com

Destacamos nesse nosso trabalho:

Questão importante: sem uma medicação concludentemente eficaz ou vacinação, deve ficar bem claro que as infecções continuam, os mortos continuarão a se acumular e a área da curva é a variável chave, que quanto mais tempo passar, mais aproximará a amostra que temos da população.

Observação importantíssima: uma pista clara que o Brasil ainda se encontra numa fase de crescimento exponencial e a clara redução dos tempos para cada ‘degrau’ de mil mortos a mais, que se aproximava em 03/05/2020 das 48 horas, e infelizmente, os quadros apontados pelos especialistas de avanços dos contágios entre os mais altos do mundo. Já em 13/05/2020, o ritmo já se estabelece num piso diário acima de 800 mortos.” 


A Ciência como Antídoto

O Modelo “LN” e o Embate contra a Desinformação

Muitas vezes, o negacionismo não se apresenta como uma negação pura da realidade, mas como uma distorção técnica feita para anestesiar a opinião pública. Durante o auge das incertezas da pandemia de COVID-19 em 2020, vivenciamos isso de perto ao confrontar previsões que, sob um manto de "autoridade", prometiam que o Brasil sofreria apenas "poucos milhares" de perdas. Devemos destacar aqui que ao meu lado, no Twitter, em mostrar esse erro, estava o economista Alexandre Schwartsman. Mas para combater essa aritmética do descaso, não bastava apenas indignação; era preciso método.

Apresentamos hoje o resgate do Modelo LN, um documento técnico que elaborei na época para projetar o avanço da tragédia com base em dados, e não em desejos políticos. Ao contrário das previsões estáticas que ignoravam o fator de escala, o Modelo LN (uma ironia - infelizmente - com Lacochambre-Naskochovisky) foi construído como um cálculo dinâmico, alimentado por uma amostra de países que somava 15% da população mundial.

Os pontos fundamentais que o modelo revelou na época:

  1. O Xeque-Mate na Letalidade Isolada: Enquanto vozes como a do “médico ex-ministro” focavam na "baixa taxa de morte" do vírus para minimizar o perigo, o modelo demonstrou que, ao aplicarmos essa taxa sobre a população brasileira, o resultado seria catastrófico. A escala era o fator que o negacionismo tentava esconder.

  2. O Ajuste pela Realidade Geográfica: O modelo não foi uma cópia cega de outros países. Ele utilizou "corretores" de área territorial, densidade populacional e a dinâmica de transporte entre cidades brasileiras para prever que a nossa curva seria mais longa e persistente que a europeia.

  3. A Descoberta do Platô: Já em junho de 2020, o modelo identificou a "horizontalização" da curva — o terrível platô. Enquanto esperávamos uma descida rápida, a matemática honesta nos avisava que havíamos estacionado em um patamar de mortes diárias que se recusava a cair, elevando as estimativas para patamares que os negacionistas chamavam de "alarmistas".

  4. A Ética da Previsão: No fechamento do documento, recorremos a Walter Benjamin para lembrar que "nem os mortos estarão seguros" se o inimigo (o negacionismo e a inação) vencer. Prever não era apenas um exercício matemático; era um dever moral de proteção ao outro.

Este resgate serve como lembrete de que a ciência honesta — aquela que admite erros e se ajusta aos fatos — é a única ferramenta capaz de desmascarar a retórica que, sob o pretexto de “salvar a economia”, acaba por sacrificar vidas. O Modelo LN foi a nossa trincheira contra o silêncio e o erro deliberado.


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Negacionismos - 4

O Negacionismo da "Terra Globo": Um Ataque aos Fundamentos da Ciência

O terraplanismo não é apenas uma crença curiosa; é um exemplo paradigmático de como o negacionismo científico opera, começando com uma premissa simples e evoluindo para uma rejeição abrangente de toda a metodologia científica. 


  1. A Retórica da "Evidência" Pessoal e Empírica Direta:

    • "Eu olho para o horizonte e ele é reto": A base do argumento terraplanista é a percepção sensorial imediata. Se o planeta é uma esfera gigante, por que não vemos a curvatura a olho nu? Essa é uma falácia comum que ignora a escala e a perspectiva.

    • "A água sempre encontra seu nível": Usam a ideia de que a água não pode "curvar-se" para sustentar a superfície plana, ignorando a gravidade como a força dominante em larga escala.

    • "Experimentos simples provam a Terra plana": Apresentam "experimentos" caseiros que supostamente refutam a curvatura, mas que são falhos ou ignoram variáveis críticas.

  2. Teorias Conspiratórias como Base:

    • "A NASA e os governos mentem": Para explicar a vasta quantidade de evidências (fotos de satélite, voos transcontinentais, navegação GPS, etc.), os terraplanistas afirmam que existe uma conspiração global para esconder a verdade.

    • "Cientistas estão manipulando dados": Acusam cientistas, universidades e agências espaciais de serem parte dessa conspiração, seja por dinheiro, poder ou para enganar a população.

    • "A Antártida é uma parede de gelo que circunda o disco": É uma das "provas" de que a Terra é plana, e que é proibido explorá-la além de certo ponto para manter a farsa.

O Verdadeiro Perigo: Erosão da Confiança na Ciência

Embora a ideia de que a Terra é plana possa parecer inofensiva ou até cômica para muitos, as implicações do terraplanismo são sérias e se alinham diretamente com o que você já observou sobre a desconfiança em instituições.


  • Porta de Entrada para Outros Negacionismos: Uma vez que alguém aceita que a NASA, os cientistas e todos os governos podem estar mentindo sobre a forma da Terra, torna-se muito mais fácil aceitar que eles estão mentindo sobre as vacinas, as mudanças climáticas, a evolução, ou qualquer outra verdade científica.

  • Erosão da Pensamento Crítico Baseado em Evidências: O terraplanismo promove um tipo de "ceticismo" que rejeita evidências esmagadoras em favor de anedotas, intuições e teorias da conspiração. Isso é o oposto do verdadeiro pensamento científico, que se baseia na análise crítica de dados e na capacidade de mudar de ideia diante de novas evidências.

Desconfiança Generalizada: Ao minar a credibilidade de instituições científicas e acadêmicas, o terraplanismo contribui para uma desconfiança mais ampla que pode ter consequências graves em áreas como saúde pública (como vimos na pandemia) e políticas ambientais.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Negacionismos - 3

O negacionismo da pandemia de COVID-19 é um capítulo recente e doloroso da história da saúde pública, e suas manifestações são um exemplo contundente das consequências diretas da desinformação.


A Manifestação do Negacionismo em Tempo Real

O negacionismo da COVID-19 não foi um fenômeno isolado, mas uma teia complexa de ideias que se entrelaçaram para criar uma realidade paralela para milhões de pessoas. Ele se manifestou em várias frentes:

  1. Negação da Gravidade: Inicialmente, o vírus foi minimizado como uma "gripezinha" ou uma doença que afetaria apenas idosos e pessoas com comorbidades. Essa narrativa ignorava os riscos de casos graves em jovens, a síndrome pós-COVID (Long COVID) e a capacidade do sistema de saúde de colapsar.

    • Impacto Ético: A desvalorização da vida de grupos vulneráveis e a indiferença ao sofrimento alheio.

  2. Rejeição de Medidas de Proteção: Máscaras, distanciamento social e lockdowns foram rotulados como violações de "liberdade pessoal" ou ineficazes.

    • A retórica: "Não vou usar máscara porque não quero viver com medo" ou "o vírus não é real".

    • Impacto Ético: A recusa em adotar medidas de proteção básicas que impactam diretamente a segurança e a saúde da comunidade.

  3. Promoção de "Tratamentos Precoces" sem Comprovação: Medicamentos como cloroquina, ivermectina e hidroxicloroquina foram fervorosamente promovidos por figuras públicas e grupos negacionistas, apesar da falta de evidências científicas robustas e dos riscos de efeitos colaterais.

    • A retórica: "Meu médico receitou e funcionou", ou "a ciência oficial está escondendo a cura".

    • Impacto Ético: Incentivo ao uso de medicamentos ineficazes, dando uma falsa sensação de segurança, atrasando a busca por tratamento adequado e, em muitos casos, causando danos à saúde e levando à morte.

A Politização da Ciência

Um dos aspectos mais perturbadores do negacionismo da COVID-19 foi sua profunda politização. Em muitos lugares, a adesão a medidas de saúde pública tornou-se um marcador de identidade política, mais do que uma questão de saúde.

  • Minimização de Dados: Dados de mortes e internações foram questionados ou manipulados para se encaixar em narrativas políticas.

  • Ataques a Cientistas: Especialistas em saúde pública e epidemiologistas foram alvo de ataques pessoais e campanhas de difamação.

O Perigo: Mortes Evitáveis e Colapso Social

O resultado mais trágico e inegável do negacionismo da pandemia foi o aumento direto no número de mortes evitáveis.

  • Superlotação Hospitalar: A negação levou a comportamentos de risco, surtos generalizados e colapso dos sistemas de saúde, com falta de leitos, UTIs e oxigênio.

  • Long COVID: Milhões de pessoas que sobreviveram à doença continuam sofrendo de sequelas a longo prazo, muitas delas agravadas pela falta de medidas preventivas.

A Perspectiva Ética: O Custo da Desinformação

A pandemia expôs a vulnerabilidade da sociedade à desinformação e as consequências éticas profundas quando a confiança na ciência é minada. A "liberdade individual" reivindicada pelos negacionistas teve um custo coletivo altíssimo, demonstrando que certas "liberdades" podem ser destrutivas quando exercidas sem responsabilidade social.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Negacionismos - 2

O negacionismo vacinal é um dos exemplos mais nítidos de como a desinformação pode corromper a ética social. Quando a escolha individual ignora o impacto coletivo, entramos diretamente naquele campo que diversas vezes destacamos: a inação (ou ação equivocada) que gera danos reais a terceiros.

Vamos aprofundar os pilares desse movimento e suas consequências:

A Origem do Mito Moderno

Quase todo o movimento antivacina contemporâneo tem uma raiz específica: um estudo publicado em 1998 pelo médico Andrew Wakefield na revista The Lancet.

  • A Fraude: Ele sugeriu uma ligação entre a vacina Tríplice Viral (MMR) e o autismo.

  • A Verdade: Descobriu-se depois que Wakefield tinha interesses financeiros (ele estava desenvolvendo uma vacina concorrente) e que os dados foram falsificados. O estudo foi retratado e ele perdeu o registro médico, mas o "vírus" da dúvida já havia se espalhado.

Mecanismos de Retórica

Os grupos negacionistas utilizam técnicas psicológicas eficazes para convencer as pessoas:

  • Falácia do "Natural é Melhor": Argumentam que a imunidade adquirida pela doença é superior à da vacina, ignorando os riscos de morte ou sequelas graves da doença natural.

  • Cherry-picking (Escolha Seletiva): Focam em um caso raro de efeito colateral entre milhões de doses para invalidar todo o programa de imunização.

  • Apelo à Autonomia: Transformam uma questão de saúde pública em uma luta por "liberdade", desvinculando o indivíduo de sua responsabilidade com a comunidade.

O Conceito de Imunidade Coletiva (Rebanho)

Este é o ponto onde a sua reflexão sobre moralidade interna vs. efeitos sociais se torna crucial. A vacinação não protege apenas quem a recebe; ela protege aqueles que não podem ser vacinados (bebês muito novos, imunossuprimidos, idosos).


Quando a cobertura vacinal cai abaixo de um certo limite (geralmente 95% para o sarampo), o vírus volta a circular livremente. A "inação" de um grupo de pais coloca em risco a vida dos filhos de outras pessoas.


Consequências Reais: O Retorno do que já se foi

O perigo não é hipotético; ele é estatístico e visível:


Doença

Status Anterior

Cenário Atual

Sarampo

Considerado erradicado em várias regiões (como as Américas em 2016).

Surtos frequentes na Europa e no Brasil devido à queda na vacinação.

Poliomielite

Próxima da erradicação global.

Baixas coberturas criam o risco de retorno da paralisia infantil em países onde o vírus já não circulava.

Tosse Convulsa

Controlada por décadas.

Aumento de casos e óbitos em recém-nascidos que ainda não completaram o ciclo vacinal.


domingo, 18 de janeiro de 2026

Pontos cosmológicos - 8

O Fetiche da "Chave": A Espetacularização da Teoria de Tudo

No universo da divulgação científica, poucas frases são tão gastas e, ao mesmo tempo, tão vazias quanto: "Nova equação pode ser a chave para a Teoria de Tudo". Essa busca quase messiânica por uma fórmula única que explique "o ser" ignora o que a ciência realmente é.


A Redução do Cosmos a um Slogan

Ao venderem a ideia de uma "chave", os divulgadores sensacionalistas transformam o trabalho árduo de modelagem em um evento místico. Uma equação nova não é uma chave mágica que abre a porta da realidade; ela é, no máximo, uma lente nova, talvez um pouco mais nítida, para observarmos um fenômeno específico. A "Teoria de Tudo" (abreviado na literatura seguidamente como ToE, Theory of Everything) tornou-se o Santo Graal do romantismo científico, mas, na prática, ela seria apenas o modelo de maior abrangência que conseguimos construir até agora.

O Perigo da Empolgação Vazia

Essa "empolgação" desmedida cria no público uma expectativa falsa de que a ciência está a um passo de "resolver o Universo". Quando a resposta não vem de forma definitiva (e nunca virá como uma verdade absoluta), gera-se frustração e desconfiança. O rigor dá lugar ao entretenimento. Como discutimos, a ciência se valida pela falseabilidade; uma teoria que promete explicar "tudo" corre o risco de, no fim, não explicar nada de forma testável.

Conclusão: Menos Alarde, Mais Epistemologia

A verdadeira beleza da ciência não está na promessa de uma resposta final, mas na honestidade do processo. Menos manchetes sobre "chaves definitivas" e mais reflexão sobre os limites de nossos mapas seriam o caminho para uma divulgação que respeita a inteligência do leitor e a complexidade do Cosmos.

Um exemplo


Nova equação pode ser a chave para a Teoria de Tudo


http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2016/08/nova-equacao-pode-ser-chave-para-teoria-de-tudo.html?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=post


Extra


Uma "Teoria de Tudo" (do inglês Theory of Everything ou ToE) é o nome hipotético para um modelo matemático único que unificaria as quatro forças fundamentais da natureza.


Os Quatro Pilares que Precisam se Unir

Atualmente, a física é como um quebra-cabeça com peças de conjuntos diferentes que não se encaixam perfeitamente:

  1. Gravidade: Rege o macro (planetas, galáxias). Explicada pela Relatividade Geral.

  2. Eletromagnetismo: Rege a luz e a eletricidade.

  3. Força Nuclear Forte: Mantém o núcleo dos átomos unido.

  4. Força Nuclear Fraca: Responsável pela radioatividade.

O grande desafio é que as últimas três são descritas pela Mecânica Quântica, mas a Gravidade se recusa a seguir as mesmas regras. Uma Teoria de Tudo seria o "mapa" que descreve todas elas sob uma única lógica.

O que ela NÃO É

Diferente do que as manchetes sensacionalistas sugerem, uma ToE não explicaria literalmente tudo.

  • Ela não explicaria a consciência humana.

  • Ela não explicaria a biologia ou a sociologia.

  • Ela apenas descreveria as regras fundamentais do "tecido" onde tudo o mais acontece.

Seria o equivalente a descobrir o código-fonte de um software: você entende como os pixels funcionam, mas isso não significa que você entende a trama do filme que está passando na tela.

Candidatos Atuais

Existem modelos tentando ocupar esse cargo, sendo os mais famosos:

  • Teoria das Cordas: Sugere que tudo é feito de minúsculos filamentos vibrantes.

  • Gravidade Quântica em Loop: Tenta quantizar o próprio espaço-tempo. 


O Sonho Inacabado de Einstein

Albert Einstein passou as últimas três décadas de sua vida em uma busca solitária e obstinada: a Teoria do Campo Unificado. Para ele, não era aceitável que a natureza operasse com dois conjuntos de regras distintos (a Gravidade e o Eletromagnetismo). Ele buscava uma única "música" que regesse todo o cosmos.

Embora tenha partido sem encontrar essa fórmula, seu esforço transformou a busca pela Teoria de Tudo na missão definitiva da Física moderna. Einstein nos ensinou que a ciência não se contenta com fragmentos; ela anseia pela unidade, mesmo que o "ser" permaneça sempre um passo além do nosso alcance.