sábado, 5 de setembro de 2026

Dados arremessados contra a vidraça do determinismo - 2

A Ilusão Categórica e o "Regularismo" de Hume

Para David Hume, o universo assemelha-se a um filme em película: uma sucessão de quadros estáticos, discretos e independentes. Ao analisarmos uma bola de bilhar, nossa percepção apreende apenas suas propriedades chamadas categóricas — sua forma esférica, sua solidez, sua posição no espaço e seu vetor de velocidade em um instante t. Para o empirismo clássico, o objeto é completo em si mesmo; ele não carrega em suas entranhas nenhum "anúncio" do que fará no instante seguinte.

Essa visão gerou o Regularismo na filosofia da ciência: a tese de que as leis da natureza são meras crônicas estatísticas, descrições acidentais de regularidades que, por mero acaso ou contingência metafísica, têm se repetido até hoje. Se o evento A sempre precede o evento B, a "lei" é apenas o nosso relatório de observação, e não um decreto que o cosmos seja obrigado a seguir. O mundo humeano é inerte, passivo e fragmentado.



O Sepultamento pela Física Contemporânea

A física do século XX e XXI desfez essa vidraça estática. Tanto na escala cosmológica da Relatividade Geral quanto no tecido subatômico da Mecânica Quântica e da Teoria Quântica de Campos, a ideia de uma matéria definida exclusivamente por propriedades geométricas e espaciais (categóricas) revelou-se uma ilusão macroscópica.

Na física contemporânea, as propriedades fundamentais das partículas são intrinsecamente disposicionais. Elas não são "coisas" que possuem poderes; elas são os próprios poderes causais em operação.

  • A Relatividade Geral e o Campo Espaço-Tempo: Na mecânica clássica, o espaço e o tempo eram o palco inerte (categórico) onde os corpos se moviam. Com Einstein, o espaço-tempo assume um papel dinâmico. A massa de um corpo não é uma qualidade isolada, mas a disposição ativa de curvar o tecido do espaço-tempo ao seu redor, ditando geometricamente como outros corpos devem se mover. Não há separação entre o que a matéria é e o que a matéria faz.

  • A Teoria Quântica de Campos: No modelo padrão da física de partículas, o conceito humeano de "corpúsculo sólido" desaparece. O que chamamos de partículas são excitações localizadas de campos de força quantizados. Um elétron é uma manifestação do campo eletrônico interagindo permanentemente com o campo eletromagnético. A carga elétrica negativa do elétron não é um rótulo colado em sua superfície; é a sua disposição matemática e física inexorável de repelir outros elétrons através da troca de fótons virtuais.

Do Regularismo ao Necessitarismo Moderno

Essa mudança de paradigma substitui o Regularismo pelo Necessitarismo metafísico. A repulsão entre dois elétrons, ou o limite universal da velocidade da luz (c), não são comportamentos acidentais que podem mudar amanhã caso a natureza resolva "mudar de ideia". Eles expressam necessidades naturais baseadas na própria identidade dos constituintes do universo.

Se dois elétrons se atraíssem em vez de se repelirem, o problema não seria a quebra de uma regularidade estatística; é que as entidades envolvidas deixariam, por definição biológica e física, de ser elétrons. A identidade de uma propriedade física é indissociável das suas relações necessárias de simetria e conservação.

Portanto, a física contemporânea não encontra suporte na parsimônia de Hume. As leis duras da ciência não descrevem apenas o que tem acontecido, mas mapeiam a estrutura profunda de campos de força e interações necessárias que determinam o que pode e o que tem que acontecer. Os dados arremessados contra a vidraça do determinismo humeano não vêm da especulação abstrata, mas do próprio dinamismo intrínseco e irredutível da matéria.


O Hábito como Arquitetura Biológica e Economia Metabólica

Quando David Hume destitui a razão de seu trono na engrenagem da causalidade, ele opera uma das viradas mais iconoclastas da filosofia: se não podemos inferir o futuro a partir do passado por meio de demonstrações lógicas, fazemo-lo por meio do Hábito ou Costume. O que parecia um veredicto derrotista para o racionalismo estrito era, na verdade, a fundação de um naturalismo radical. Hume percebeu que a projeção causal não é uma operação da lógica pura, mas uma propensão instintiva, uma "sabedoria da natureza" partilhada entre humanos e outros animais como ferramenta fiável de adaptação prática.

A biologia evolutiva moderna e a neurociência cognitiva não apenas validam essa intuição humeana, como desvelam o seu mecanismo termodinâmico. O cérebro não é um registrador passivo que espera pelas impressões do mundo para então computá-las de forma puramente lógica; ele opera, fundamentalmente, como uma máquina de processamento preditivo (predictive processing).

  [ Sinais Sensoriais Brutos ] (Ruidosos, ambíguos, caros)
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                v  <-- Confronto na fenda sináptica (Erro de Previsão)
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  [ Modelos Preditivos Internos ] (O "Hábito" humeano / Mapas a priori)


Do ponto de vista da física biológica, o cérebro é um órgão faminto: consome cerca de 20% da energia metabólica do corpo humano, apesar de representar apenas 2% de sua massa. Processar a torrente de estímulos sensoriais brutos em tempo real, sem filtros ou expectativas prévias, geraria uma sobrecarga computacional intolerável e um custo energético inviável para a sobrevivência.

Para mitigar esse gasto e evitar a entropia, o sistema nervoso adota uma estratégia bayesiana de minimização do erro de previsão: o cérebro gera, de cima para baixo (top-down), modelos internos sobre o que causou o estímulo antes mesmo que ele termine de acontecer. O "hábito" de Hume é a tradução filosófica desses modelos internalizados pela repetição e pela seleção natural.

A Projeção Causal como Atalho Heurístico

O que Hume chamou de "grande propensão da mente para se projectar sobre os objectos externos" encontra seu correlato neurobiológico na forma como o cérebro projeta estruturas causais sobre o caos sensorial. Nós não vemos fótons flutuantes e frequências sonoras dispersas; nós percebemos uma "vidraça quebrando" ou uma "chama que queima".

Essa projeção de nexos causais funciona como uma heurística de sobrevivência. Ao agrupar regularidades estatísticas do ambiente sob a rubrica de "causa e efeito", o cérebro compacta a informação, transformando dados brutos pesados em conceitos operacionais leves. Projetar o "fio invisível" da conexão necessária no mundo exterior — ainda que ele seja metabolicamente gerado no interior — permite que um predador antecipe a rota de sua presa, ou que um primata recolha a mão antes de tocar o fogo.

A evolução não selecionou sistemas nervosos voltados para a precisão metafísica da verdade lógica, mas sim para a eficiência adaptativa.

O Confiabilismo Animal implícito na obra de Hume reside exatamente aqui: nossas inferências indutivas são justificadas não porque deciframos os decretos ocultos da ontologia do universo, mas porque o aparato cognitivo que as produz é uma ferramenta biológica altamente fiável e refinada pelo teste da sobrevivência.

O cérebro prefere errar por excesso de atribuição causal (mecanismo conhecido como hiperativação do dispositivo de detecção de agência) do que morrer por subestimar uma regularidade ambiental. Os dados que arremessamos contra a vidraça do determinismo lógico, portanto, revelam que a causalidade humeana não é uma ilusão vazia, mas a própria moeda de troca da economia metabólica e da sobrevivência das espécies.

O Limiar do Silício e do Caos

A evolução, portanto, não nos equipou com lentes de precisão metafísica voltadas para a verdade lógica absoluta, mas sim com um aparato cognitivo moldado pela eficiência adaptativa. O cérebro prefere errar por excesso de atribuição causal do que sucumbir por subestimar uma regularidade ambiental. Os dados que arremessamos contra a vidraça do determinismo lógico revelam que a causalidade humeana não é uma ilusão vazia, mas a própria moeda de troca da economia metabólica e da sobrevivência das espécies.

Contudo, essa engenharia de sobrevivência, que funcionou perfeitamente para primatas caçadores-coletores que precisavam antecipar o movimento de uma presa ou o calor de uma chama, enfrenta agora dois novos e colossais laboratórios de teste, onde a escala humana de percepção é obliterada.

De um lado, as nossas mentes biológicas criaram redes neurais artificiais — máquinas que operam sob um indutivismo hipertrofiado em escala industrial, processando petabytes de dados para projetar correlações sem jamais tocar nas causas subjacentes. Do outro, fomos forçados a antecipar o comportamento de sistemas complexos não lineares, como o balanço energético do próprio planeta, onde uma previsão climática para as próximas décadas desafia a fronteira entre a mera regularidade estatística e a necessidade física duríssima das leis termodinâmicas.

Quando o "hábito" é terceirizado para o silício e o objeto de análise é o caos climático global, a trégua entre o ceticismo lógico e o naturalismo pragmático se desfaz. Estarão as nossas simulações computacionais decifrando as necessidades íntimas da matéria, ou estarão apenas refinando, em supercomputadores, o mesmo vício psicológico que David Hume identificou na solidão do seu gabinete?

Essa é a arena onde o Céptico Lógico, o Naturalista Pragmático e o Realista Científico se enfrentarão em definitivo. Mas esse embate dialético pertence ao próximo capítulo.


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Anotações científicas - 44

Crescendo em Tândem: O Nascimento Simultâneo de Estrela e Planeta

Na visão clássica da astronomia, a formação de um sistema planetário sempre foi entendida como uma história em dois atos bem definidos. Primeiro, uma densa nuvem de gás e poeira colapsa sob sua própria gravidade para dar origem a uma nova estrela. Apenas muito tempo depois, quando essa estrela se estabiliza e o disco ao seu redor se acalma, é que a matéria remanescente começa a se aglutinar para formar os primeiros planetas.

No entanto, a descoberta surpreendente de um sistema protoplanetário veio para desafiar essa ordem cronológica e mostrar que a natureza pode ser muito mais dinâmica. Observações lideradas por uma equipe internacional revelaram um cenário inédito: uma estrela e um planeta gigante crescendo exatamente ao mesmo tempo, alimentados juntos pela própria nuvem de onde nasceram.
 



Para "enxergar" esse parto simultâneo, os astrônomos combinaram a visão de dois dos observatórios mais potentes do mundo: o radiotelescópio ALMA, no Chile, e o VLA, nos Estados Unidos. Olhando para um disco visto quase de perfil, eles identificaram uma abertura gigantesca na estrutura de poeira — a marca registrada de um planeta em formação "varrendo" e limpando sua órbita.

Modelos computacionais indicam que essa cavidade foi esculpida por um mundo colossal, com massa entre 4 e 70 vezes a de Júpiter. Mas a verdadeira revelação estava no coração dessa lacuna: lá dentro, os instrumentos detectaram gás aquecido a cerca de 100 Kelvin e uma intensa emissão de radiação. Isso prova que o protoplaneta não é apenas um corpo pronto orbitando em silêncio, mas sim um mundo jovem e voraz que continua acumulando matéria ativamente.

Enquanto esse planeta gigante Devora o material do disco, o sistema como um todo continua a ser alimentado. As imagens de monóxido de carbono revelaram grandes filamentos de gás fluindo diretamente do meio interestelar para a estrela central.

Esse crescimento conjunto — em que a estrela se alimenta da nuvem envolvente enquanto o planeta consome o disco ao redor — muda o que sabíamos sobre a escala de tempo do Universo. A formação planetária não precisa esperar a maturidade estelar para começar; ela pode acontecer no coração do caos primordial. Essa descoberta abre uma nova janela para entender como os grandes gigantes gasosos, inclusive os do nosso próprio Sistema Solar, podem ter surgido muito mais cedo do que jamais imaginamos.

O artigo

Felipe O. Alves, L. Ilsedore Cleeves, Josep M. Girart, Zhaohuan Zhu, Gabriel A. P. Franco, Alice Zurlo, and Paola Caselli. A Case of Simultaneous Star and Planet Formation. The Astrophysical Journal Letters, Volume 904, Number 1

DOI 10.3847/2041-8213/abc550

https://iopscience.iop.org/article/10.3847/2041-8213/abc550/meta  


Resumo


Embora seja amplamente aceito que os planetas se formam em discos protoplanetários, ainda há muito debate sobre quando esse processo acontece. Em alguns poucos casos, protoplanetas foram fotografados diretamente, mas para a vasta maioria dos sistemas, lacunas e cavidades no disco — vistas especialmente em observações de contínuo de poeira — têm sido a evidência mais forte de formação planetária recente ou em andamento. Apresentamos observações do Atacama Large Millimeter/submillimeter Array de um disco visto quase de perfil (i = 75°) contendo uma lacuna gigante vista na poeira, mas não no gás 12CO. Dentro da lacuna, o gás molecular possui uma componente aquecida (100 K) coincidindo em posição com um possível excesso de emissão free–free (livre-livre) observado com o Karl G. Jansky Very Large Array. Usando modelos hidrodinâmicos 1D, descobrimos que a estrutura da lacuna é consistente com ter sido esculpida por um planeta de 4–70MJup. A coincidência da emissão free–free dentro da lacuna esculpida pelo planeta aponta para um planeta muito jovem e/ou ainda em processo de acreção. Além disso, as observações de 12CO revelam filamentos de grande escala e baixa velocidade alinhados com o eixo maior do disco e com coerência de velocidade com o gás do disco, o que interpretamos como uma queda contínua de gás vinda do meio interestelar local. Este sistema parece ser um caso interessante em que tanto uma estrela (a partir do ambiente e do disco) quanto um planeta (a partir do disco) estão crescendo em tândem. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Não existe outra espécie na Terra que faça ciência

Ao longo de milhões de anos de evolução, a espécie humana desenvolveu garras frágeis, mandíbulas modestas e uma velocidade corrida insignificante frente aos grandes predadores. Nossa verdadeira vantagem adaptativa não esteve na força bruta, mas na capacidade única de mapear o invisível, testar padrões e aprender com os próprios erros. É nessa interseção entre sobrevivência, biologia e pensamento crítico que surge a ciência — não como um monumento estático de certezas, mas como um mecanismo vivo de correção. Em um dos trechos mais lúcidos de sua obra, o astrofísico Carl Sagan sintetiza essa ferramenta revolucionária, alertando-nos sobre o perigo de confundirmos nossos desejos com a realidade do Cosmos:


“Não existe outra espécie na Terra que faça ciência. Ela é, até então, uma invenção inteiramente humana, evoluída através de uma seleção natural, no córtex cerebral por uma razão muito simples: ela produz. Não é perfeita e pode ser mal utilizada. É somente uma ferramenta, mas até agora a melhor que temos, autocorretiva, progressiva, aplicável a tudo. Possui duas regras. Primeira: não existem verdades sagradas; todas as suposições devem ser examinadas criticamente; argumentos de autoridade não têm valor. Segunda: tudo que seja inconsistente com os fatos deve ser rejeitado ou revisto. Devemos compreender o Cosmos como ele é e não confundir isso com como gostaríamos que fosse. O óbvio é algumas vezes falso, o inesperado algumas vezes verdadeiro. Os seres humanos em toda parte partilham dos mesmos objetivos quando o contexto é amplo o suficiente. O estudo do Cosmos provê o maior contexto possível. A cultura global atual é um tipo de recém-chegado arrogante. Chegou em um estágio planetário de quatro e meio bilhões de outros atos, e após olhar à volta por alguns milhares de anos declarou-se possuidora das verdades eternas. Em um mundo em rápida transformação como o nosso, isto é a prescrição do desastre. Nenhuma nação, religião ou sistema econômico, nenhum grupo de conhecedores possui todas as respostas para a nossa sobrevivência. Deve haver muitos sistemas sociais que funcionam bem melhor do que qualquer um em andamento agora. Segundo a tradição científica, nossa tarefa é descobri-los.” - Carl Sagan, Cosmos, cap. 13, pág 333.


A contundência da reflexão de Sagan não reside na glorificação cega da ciência, mas no reconhecimento de sua natureza pragmática e terrena. Ao caracterizá-la como um produto da seleção natural encravado no córtex cerebral, o autor retira a atividade científica de uma torre de marfim e a devolve ao seu lugar de origem: o terreno da sobrevivência. A ciência não existe porque é esteticamente elegante ou moralmente superior; existe porque funciona.

No entanto, o sucesso dessa ferramenta depende do cumprimento rigoroso de sua própria mecânica interna. É a partir desse imperativo de eficácia e honestidade intelectual que Sagan desdobra as implicações do método científico para a nossa permanência no planeta.


A Ciência como Mecanismo de Sobrevivência e Antídoto à Arrogância

Quando Carl Sagan afirma que a ciência é uma invenção inteiramente humana, moldada pela seleção natural no córtex cerebral, ele despoja o conhecimento científico de qualquer aura mística. A ciência não surgiu como um luxo acadêmico ou uma contemplação passiva; emergiu como um mecanismo biológico de adaptação. Ela sobreviveu e se consolida por uma razão pragmática: ela produz. Funciona para prever fenômenos, mitigar riscos e transformar a realidade à nossa volta.

No entanto, o valor do pensamento de Sagan reside em nos lembrar que essa ferramenta é tão vulnerável quanto seus criadores. As duas regras fundamentais do método científico apresentadas por ele atuam como um antídoto rigoroso contra a própria natureza humana:

  • Suspensão da Autoridade: Não existem verdades sagradas. O argumento baseia-se na evidência, não no status de quem o projeta.

  • Soberania do Fato: O confronto com a realidade empírica obriga o descarte de ideias consolidadas quando estas se provam falsas.

Esses dois princípios exigem o abandono do desejo de confirmação. A tendência humana de enxergar o Cosmos como gostaríamos que ele fosse — guiados por dogmas ou projeções éticas e morais simplistas — colide frontalmente com a tarefa de compreendê-lo como ele é. O óbvio muitas vezes falha quando testado, e o bizarro frequentemente descreve as leis fundamentais do universo.

O Desafio da Sobrevivência Global

A crítica mais contundente do trecho dirige-se à arrogância do tempo presente. Perante um planeta de 4,5 bilhões de anos, a civilização humana moderna representa apenas uma fração infinitesimal da história biológica e geológica. Tratar um sistema econômico, religioso ou nacional específico como o ápice insuperável da existência é uma falha cognitiva e estratégica.



Observação: O gráfico acima está completamente fora de escala, sendo apenas ilustrativo, pois mesmo a existência da espécie humana, 300 mil anos, é aproximadamente 15 mil vezes menor que a escala de tempo da idade do planeta Terra.

Diante da escala cósmica, a ciência deixa de ser apenas um método laboratorial e passa a ser uma postura ética perante o futuro:

  1. Reconhecimento da Incompletude: Nenhum grupo ou tradição isolada detém o monopólio das respostas para a preservação da espécie.

  2. Experimentação Social: Se a evolução biológica e científica avança pela tentativa, erro e correção, as estruturas sociais e políticas também precisam ser tratadas como modelos abertos à revisão.

  3. Perspectiva Cosmológica: Olhar para o Cosmos reduz as divergências imediatas a uma escala irrisória, unificando os objetivos humanos em prol da sobrevivência planetária.

A tradição científica nos convoca não à complacência com o modelo atual, mas à busca incessante por formas de organização mais justas, sustentáveis e alinhadas aos fatos.

Recomendação de leitura


George F. Kneller, “A Ciência como Atividade Humana”, Editora Zahar Editores - Edusp, 1980, 310 páginas.


O livro "A Ciência como Atividade Humana", escrito pelo filósofo e educador George F. Kneller, defende que a ciência não é um conjunto de verdades isoladas e neutras, mas sim uma construção cultural, histórica e social indissociável das ações e falhas humanas.

Kneller desconstrói a imagem do cientista como um observador totalmente isolado do mundo. Ele demonstra que a prática científica é moldada por valores éticos, pressões econômicas e contextos políticos de sua época.

Pilares Principais da Obra

  • Caráter Revolucionário e Autocorretivo: O autor explica que a ciência avança ao duvidar de si mesma. Ela formula conjecturas que são permanentemente criticadas, revisadas ou substituídas quando surgem novas evidências ou teorias mais satisfatórias (como a transição da física de Newton para a Relatividade de Einstein).

  • Rejeição ao Cientificismo: Kneller combate a ideia de que a ciência possui o monopólio da verdade absoluta ou que o método científico é infalível.

  • Valores e Ética: A pesquisa científica nunca é totalmente neutra. Os cientistas escolhem o que pesquisar e como aplicar os resultados com base em escolhas morais e no impacto que causarão na sociedade.

  • O Método de Investigação: A investigação científica é tratada como um processo dinâmico de ciclos de pesquisa, que envolve criatividade, intuição e rigor lógico combinados, em vez de uma receita estática de passos mecânicos.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Notas biopoéticas 50

Do PNA até o DNA, uma dinastia molecular 

A transição da química primordial para a vida como a conhecemos é uma das jornadas mais fascinantes da ciência. Antes que a dupla hélice do DNA assumisse o controle do armazenamento genético e o RNA se tornasse o grande intermediário celular, a Terra primitiva era um caldeirão de experimentos químicos. Nesse cenário inóspito, a vida não surgiu pronta; ela evoluiu a partir de polímeros genéticos precursores mais simples, como o PNA, o p-RNA e o TNA, que se formavam com muito mais facilidade nas condições brutas do planeta jovem, estabelecendo a base química para o surgimento do mundo do RNA.

Antes de chegarmos à arquitetura dos ácidos nucleicos modernos, a evolução molecular testou diferentes esqueletos estruturais:

  • PNA (Ácido Nucleico Peptídico): Uma molécula híbrida fascinante que troca o tradicional esqueleto de açúcar e fosfato por uma estrutura semelhante à dos peptídeos (proteínas). Por ser surpreendentemente robusta, ela consegue se ligar com grande afinidade tanto ao DNA quanto ao RNA.

  • p-RNA (RNA Piranosil): Em vez do açúcar ribose de cinco carbonos presente no RNA convencional, o p-RNA utiliza um anel de piranose com seis carbonos. Essa alteração estrutural permite que ele forme hélices de fita dupla extremamente estáveis.

  • TNA (Ácido Nucleico de Treose): Construído sobre uma base ainda mais enxuta de treose — um açúcar de apenas quatro carbonos. Seu tamanho reduzido torna sua síntese espontânea muito mais provável em simulações de laboratório que reencenam a Terra pré-biótica.




A transição até os sistemas genéticos modernos ocorreu como uma reação em cadeia. Na Terra primitiva, a ausência de maquinário enzimático complexo tornava a montagem espontânea dos nucleotídeos modernos uma tarefa quase impossível. Foram esses polímeros primitivos e simplificados que primeiro assumiram o papel de armazenar e replicar as informações genéticas mais rudimentares. Conforme essas moléculas interagiam, a seleção natural no nível molecular entrou em ação: o RNA e o DNA gradualmente se destacaram e assumiram o protagonismo porque se mostraram infinitamente mais eficientes e estáveis para sustentar as complexas tarefas biológicas de longo prazo.


Leituras recomendadas

A partir do artigo:


“DNA is the building block for life on Earth. But it is a highly complex molecule, and could not have arranged itself spontaneously. What did it develop from? Astrobiologists examine possible ancestors of DNA: nucleic acids called PNA, p-RNA, and TNA.”


https://astrobiology.nasa.gov/articles/2001/3/12/tna-world/ ( Link morto )


TNA World
https://astrobiology.nasa.gov/news/tna-world/ 


Ray A, Nordén B. Peptide nucleic acid (PNA): its medical and biotechnical applications and promise for the future. FASEB J. 2000 Jun;14(9):1041-60. doi: 10.1096/fasebj.14.9.1041. PMID: 10834926. 

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10834926/ 


The Pre-RNA World
https://bc401.bmb.colostate.edu/3/ext/pre-RNA-world.php

“Albert Eschenmoser foi o primeiro a pensar de forma inovadora e abordar o problema buscando alternativas prebioticamente plausíveis para a estrutura de suporte (backbone) de ribofuranose-fosfato. Visto que a transferência de informação genética não depende da estrutura de suporte de ribose-fosfato, é lógico propor que um sistema de replicação mais simples tenha surgido antes da molécula de RNA. Na década de 1990, o grupo de Eschenmoser propôs-se a explorar sistematicamente as propriedades de polímeros nos quais a estrutura de suporte de ribofuranose-fosfato do RNA (com ligação 5',3') era substituída por outra estrutura de suporte de açúcar-fosfato. Nos primeiros experimentos, o grupo de Eschenmoser explorou as propriedades do piranose-RNA (p-RNA), no qual a ribofuranose é substituída pela ribopiranose. O p-RNA forma hélices duplas mais estáveis, com pareamentos do tipo Watson-Crick, do que o RNA com ribofuranose. Portanto, o p-RNA poderia ser um bom candidato a precursor de sistemas genéticos.


Recentemente, o grupo de Eschenmoser sintetizou polímeros nos quais o grupo ribose foi substituído pela 2',3'-didesoxiglicose, cuja síntese prebiótica parece ser mais fácil. A única diferença química entre o DNA e o homo-DNA é a inserção de um grupo CH2 no anel de açúcar; todo o restante permanece inalterado. Ambos os sistemas modelo de piranose — o p-RNA e o homo-DNA — formam hélices duplas estáveis ​​com pareamento de bases. Uma compreensão completa das propriedades da família de ácidos nucleicos de piranose só foi possível após a publicação da estrutura cristalina do homo-DNA em 2006 (código PDB 2H9S).”


Julia Karow. A Precursor of RNA? November 20, 2000

https://www.scientificamerican.com/article/a-precursor-of-rna/

“Os pesquisadores sintetizaram quimicamente o TNA em várias etapas e descobriram que moléculas de TNA complementares se pareiam formando duplas-hélices do tipo Watson-Crick. Além disso, elas formam duplas-hélices com RNAs e DNAs complementares. Essa capacidade é importante porque demonstra que o TNA poderia servir como molde para sua própria reprodução (replicação). Os cientistas geralmente presumem que a vida surgiu em um "mundo de RNA". No entanto, como açúcares de quatro carbonos, a exemplo da treose, podem ser produzidos a partir de duas unidades idênticas de dois carbonos, é possível que o TNA — ou polímeros relacionados — tenha surgido com maior facilidade. Assim, o TNA e seus compostos correlatos poderiam ter sido os precursores do RNA na Terra primitiva.”

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Dados arremessados contra a vidraça do determinismo - 1

Sobre:  

Faustino Vaz - A natureza que não vemos nem sentimos - Sobre a causalidade e a necessidade em Hume

https://criticanarede.com/causalidadehume.html 


Nos nossos arquivos: [ Faustino Vaz - A natureza que não vemos nem sentimos ]  


O texto de Faustino Vaz reconstrói com muita precisão os passos cirúrgicos de David Hume no Tratado da Natureza Humana e na Investigação Sobre o Entendimento Humano. O cerne do problema aqui é a nossa insistência em enxergar um "fio invisível" (a conexão necessária) ligando os acontecimentos da natureza, quando a nossa experiência só nos entrega uma sequência de imagens estáticas.




Faustino Vaz é professor de Filosofia relacionado ao Ministério da educação de Portugal.

1. O Problema dos Fatos Não Observados

O ponto de partida do empirismo é claro: para que um conhecimento sobre o mundo seja substancial (nos diga algo de novo), ele precisa ser a posteriori (baseado na experiência).

O problema surge quando tentamos justificar crenças sobre coisas que não estamos vendo ou sentindo agora, ou que nunca poderemos ver diretamente. Faustino Vaz nos dá dois exemplos perfeitos:

  • Previsão do futuro (Efeito não observado): Prever que o aquecimento global será de 1,5°C se a neutralidade carbônica for atingida em 2035.

  • Generalização universal (Inobservável por natureza): Afirmar que todos os elétrons têm carga negativa.

Como transitamos do que vemos para o que não vemos? Através de inferências causais (indutivas). É aqui que Hume entra com sua investigação em duas etapas para testar a validade dessa transição.

2. Primeira Etapa: O Fracasso da "Conexão Necessária"

Nós operamos sob o pressuposto de que o evento A (causa) produz o evento B (efeito) porque existe entre eles uma conexão necessária. Hume resolve buscar a origem (a impressão) dessa ideia.

Para haver causalidade, tradicionalmente aceitamos três critérios:

  1. Sucessão no tempo: A causa vem antes do efeito.

  2. Contiguidade no espaço: Eles se tocam ou estão no mesmo ambiente operacional.

  3. Conexão Necessária: O mecanismo oculto que obriga o efeito a acontecer.

Quando olhamos para a experiência (o exemplo da chama e do calor), nós percebemos a sucessão e a contiguidade. Se repetirmos isso várias vezes, percebemos a conjunção constante (eles aparecem sempre juntos).

O Diagnóstico Céptico de Hume: A repetição de um hábito não cria uma nova propriedade no objeto. A experiência nos mostra que o evento A segue o evento B, mas nunca nos mostra o poder oculto que força o evento B a acontecer. Não há impressão externa de "conexão necessária".

3. Segunda Etapa: A Circularidade da Indução

Fracassada a tentativa de encontrar a conexão necessária diretamente na experiência, Hume inverte a hipótese: e se a ideia de conexão necessária depender das nossas inferências indutivas?

Para que uma inferência indutiva (como prever que o sol vai nascer amanhã porque sempre nasceu) seja logicamente válida, ela precisa de uma premissa implícita: o Princípio da Uniformidade da Natureza (PUN) — a ideia de que o futuro será igual ao passado e que a natureza opera sempre do mesmo modo.

Hume demonstra que o PUN não pode ser provado de duas maneiras:

  • Por dedução (Raciocínio Demonstrativo): Não é contraditório pensar que o curso da natureza pode mudar. Eu consigo conceber o sol não nascendo amanhã sem entrar em contradição lógica (diferente de conceber um triângulo de quatro lados). Logo, o PUN não é uma verdade conceitual.

  • Por indução (Raciocínio Provável): Se tentarmos dizer que "a natureza é uniforme porque até hoje ela sempre foi uniforme", estamos usando a indução para provar a validade da própria indução.

[Premissa]: No passado, a natureza foi uniforme.


[Premissa Implícita Oculta]: A natureza continuará sendo uniforme (PUN).

[Conclusão]: Logo, a natureza é uniforme.

O Erro Lógico: Isso é uma petição de princípio (circularidade). Estamos tomando como certo o que precisamos demonstrar.

4. Propriedades Categóricas vs. Disposicionais

Para fechar esta primeira metade, o texto traz uma distinção metafísica fundamental entre dois tipos de propriedades dos objetos:


Tipo de Propriedade

O que significa?

Exemplo

Visão de Hume

Categóricas

Propriedades espaciais, temporais e estáticas do objeto em si (forma, solidez, extensão, movimento).

Uma bola de bilhar ser redonda, dura e estar a uma velocidade v.

São as únicas propriedades que de fato observamos. Elas são completas em si mesmas e não apontam para nenhum evento futuro.

Disposicionais

Poderes causais, capacidades ou propensões ocultas de agir de certa forma sob certas condições.

A fragilidade de um copo de vidro ou a solubilidade do açúcar.

Não temos acesso a elas. Não vemos a "solubilidade" agindo, apenas vemos o açúcar sumindo na água.


Hume conclui que a natureza que vemos é estática e feita apenas de propriedades categóricas. As leis da natureza não expressam uma "necessidade metafísica", mas são apenas descrições minuciosas de regularidades contingentes (coisas que, por acaso, têm acontecido juntas até agora).

Essa base estabelece o famoso ceticismo humeano sobre o mundo exterior e a ciência. Na próxima parte do texto, Faustino Vaz avançará para a solução cética de Hume (o hábito) e as críticas contemporâneas a essa visão, fazendo uma transição brilhante aqui: ele sai do Hume céptico (destrutivo, que implode a lógica da indução e da causalidade externa) e entra no Hume naturalista (construtivo, que explica por que diabos a nossa espécie continua funcionando perfeitamente, apesar de logicamente desamparada).

5. A Solução Naturalista: O Hábito e a Projeção Mental

Se não há justificativa lógica (dedutiva ou indutiva) para a conexão necessária, por que a crença nela é irresistível? Hume resolve isso trocando a lógica pela psicologia cognitiva (ou biologia comportamental avant-la-lettre).

A mente opera através de duas propensões ou mecanismos naturais (o Hábito ou Costume):

[Impressão de A] ---> [Hábito criado pela Conjunção Constante] ---> [Antecipação automática de B]

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V

(Determinação Interna)

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V

[Crença na Conexão Necessária nos Objetos] <--- [Projeção Mental] <--- [Impressão Interna de Transição]

A mente sente uma "energia" ou determinação interna ao pular de um pensamento para outro. Nós pegamos essa sensação visceral (uma propriedade interna) e a projetamos no mundo exterior, achando que a conexão está nas coisas (como quando projetamos o cheiro ou o som em um objeto físico, embora saibamos que eles são apenas interpretações do nosso sistema sensorial).

A Virada Confiabilista: Faustino Vaz aponta algo fascinante aqui. Hume antecipa o epistemologia confiabilista. Nossas inferências indutivas não são justificadas pela lógica pura, mas são ferramentas fiáveis de adaptação à natureza. Animais e humanos sobrevivem porque o hábito funciona na prática, não porque deciframos a metafísica do universo.

6. O Contra-Ataque Contemporâneo: Dinamismo e Necessidades Naturais

A física e a química modernas não lidam bem com a ideia de uma natureza inerte (feita apenas de propriedades categóricas espaciais e temporais). Os críticos de Hume argumentam que a ciência descobriu que as partículas possuem propriedades disposicionais (poderes causais) intrínsecas.

Vaz usa dois exemplos cirúrgicos para quebrar o argumento humeano de que "tudo o que é concebível é logicamente possível":

  • Massa e Carga Elétrica: Dois elétrons se repelem necessariamente. Se concebermos dois elétrons se atraindo, isso não significa que isso seja fisicamente possível no nosso universo; se eles se atraíssem, por definição, não seriam elétrons. A identidade da partícula é indissociável do seu comportamento causal.

  • O Limite da Velocidade da Luz: Vaz faz uma distinção brilhante entre:

    1. Regularidades Acidentais (Contingentes): A Maria pegar o metrô às 08:30 e chegar às 09:00 (pode falhar por um atraso técnico).

    2. Leis Nómicas (Necessidades Naturais): O metrô jamais ultrapassar a velocidade da luz (c). Isso não é uma coincidência que tem dado certo até hoje; é a própria "parte dura" da estrutura do espaço-tempo.

Isso derruba o dogma empirista clássico de que o conhecimento a posteriori só descobre fatos contingentes. Nós podemos descobrir, através da experiência, necessidades naturais metafísicas.

7. O "Deslize" de Hume: As Duas Definições de Causa

No encerramento, o texto expõe que Hume, sem perceber, nos deu duas ferramentas completamente diferentes para ler o mundo na Investigação Sobre o Entendimento Humano:


Definição 1: Regularidade Regular

Definição 2: Dependência Contrafactual

"Um objeto seguido por outro, sendo todos os objetos similares ao primeiro seguidos por objetos similares ao segundo."

"...ou por outras palavras, tal que, se o primeiro objecto não ocorresse, o segundo jamais existiria."

Baseada na generalização e na repetição de casos passados (indução pura).

Baseada em um cenário hipotético: o que aconteceria se a causa fosse removida?


A segunda definição (contrafactual) abre as portas para a filosofia da ciência moderna. Dizer que o efeito depende contrafactualmente da causa exige propriedades disposicionais (o copo quebrou porque ele era frágil, mesmo que ele nunca tivesse sido jogado no chão antes). Ironicamente, a segunda definição de Hume alimenta a visão dos seus próprios críticos.