sábado, 14 de fevereiro de 2026

Por que a inovação demora tanto?

A lição de Max Planck

Você já sentiu que, por mais que apresente dados e evidências, certas estruturas ou mentalidades na sua área simplesmente não mudam?

Max Planck, o pai da física quântica, resumiu esse fenômeno de forma brutalmente honesta:

"Uma nova verdade científica não triunfa por convencer os seus opositores e fazer-lhes ver a luz, mas sim porque os opositores acabam por morrer e uma nova geração cresce familiarizada com ela."

O chamado "Princípio de Planck" nos ensina que o maior obstáculo ao progresso não é a falta de tecnologia ou de recursos, mas a inércia cognitiva.

O Que o Princípio de Planck nos Diz?

  • A Inércia Intelectual: Cientistas estabelecidos investem carreiras inteiras em certas teorias. Aceitar uma nova verdade muitas vezes significa admitir que o trabalho de uma vida estava incompleto ou errado.

  • Mudança de Paradigma: Thomas Kuhn, em A Estrutura das Revoluções Científicas, expandiu essa ideia. Ele argumentou que a ciência não evolui de forma linear e suave, mas através de rupturas (paradigmas) que a nova geração aceita com mais facilidade por não carregar os preconceitos da antiga.[Nota 1]

  • O Fator Tempo: A verdade científica "vence" pela persistência e pela educação dos novos estudiosos, e não necessariamente por um debate onde o opositor admite a derrota.


A Perspectiva de Planck vs. O Ideal Científico

Aspecto

O Ideal Científico

O Princípio de Planck

Mudança de opinião

Baseada puramente em evidências lógicas.

Dificultada pelo ego e pelo hábito.

Progresso

Rápido, assim que os dados aparecem.

Lento, dependendo da sucessão geracional.

Natureza do cientista

Totalmente imparcial e objetivo.

Humano, resistente a mudanças drásticas.

O custo humano da mudança

No mundo corporativo e na ciência, investimos anos em "paradigmas". Quando algo novo surge, o desafio não é apenas aprender o novo, mas ter a coragem de desaprender o antigo.

Muitas vezes, a mudança só acontece de fato quando há uma renovação geracional — nas lideranças, nas equipes e nas ferramentas.

Uma questão de ética e responsabilidade

Se acreditamos que nossas ações (e inações) afetam o bem-estar coletivo, resistir a uma verdade óbvia apenas por apego ao passado deixa de ser "prudência" e passa a ser um entrave moral.

Como líderes e profissionais, nossa missão é evitar que o progresso precise esperar pela nossa partida.

Reflexão

O que você está defendendo hoje: uma solução real ou apenas o conforto de um paradigma antigo?

Uma “playlist” para este texto

Algumas canções conversam diretamente com essa ideia da renovação dos paradigmas:

  1. "Como Nossos Pais" (Belchior/Elis Regina): "O novo sempre vem". A música definitiva sobre a tensão geracional.

  2. "Changes" (David Bowie): Sobre a natureza inevitável da mudança e como os "velhos" não devem tentar impedir os jovens.

  3. "The Times They Are A-Changin'" (Bob Dylan): Um hino sobre como o mundo se move, quer você aceite ou não.


Leitura recomendada


en.wikipedia.org - Planck's principle  


Destacamos:

“Refutação


A influência da idade na predisposição à aceitação de novas ideias tem sido alvo de críticas empíricas. No caso da aceitação da teoria da evolução nos anos posteriores à publicação de A Origem das Espécies, de Darwin, a idade foi um fator menor. Em uma escala mais específica, também foi um fator pouco relevante na aceitação da cliometria.[Nota 2] Um estudo sobre o momento em que diferentes geólogos aceitaram a tectônica de placas revelou que os cientistas mais velhos, na verdade, a adotaram mais cedo do que os mais jovens. Contudo, um estudo mais recente com pesquisadores da área de ciências biológicas constatou que, após a morte de pesquisadores proeminentes, as publicações de seus colaboradores diminuíram rapidamente, enquanto a atividade de pesquisadores não colaboradores e o número de novos pesquisadores ingressando na área aumentaram.” 


Notas


1.A filosofia da ciência de Thomas Kuhn, exposta em "A Estrutura das Revoluções Científicas", rompe com a ideia de progresso científico linear, introduzindo os conceitos de paradigmas (conjuntos de teorias, métodos e valores compartilhados) e ciência normal (trabalho de resolução de quebra-cabeças dentro do paradigma). A ciência avança por revoluções científicas, períodos de crise em que um paradigma antigo é substituído por um novo, não por acumulação, mas por uma mudança radical de visão de mundo, com aspectos históricos e sociológicos cruciais para a mudança. - SearchLabs

2.Cliometria (ou Nova História Econômica) é a aplicação de teoria econômica e métodos quantitativos (econometria e modelos matemáticos) para estudar a história, especialmente a social e econômica, oferecendo uma visão mais rigorosa e baseada em dados, em contraste com métodos puramente qualitativos, tendo o termo sido cunhado por Stanley Reiter em 1960 a partir de Clio, a musa da história. - SearchLabs 


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Negacionismo do isolamento social em epidemias

O debate sobre o negacionismo da eficiência do isolamento social em contextos epidêmicos transcende a mera disputa de dados estatísticos, situando-se no centro de um profundo dilema ético e civilizatório. Embora a epidemiologia forneça evidências robustas de que a redução do contato físico é o mecanismo mais eficaz para mitigar a propagação viral e evitar o colapso dos sistemas de saúde, a resistência a essas medidas muitas vezes emerge de uma desconexão entre a liberdade individual e a responsabilidade coletiva. Diante de uma crise sanitária, a inação ou a negação de métodos preventivos deixam de ser uma escolha privada para se tornarem uma questão de moralidade externa, uma vez que o impacto das nossas decisões reflete diretamente no direito à vida e no bem-estar do outro.


“Com o tempo, a história desta doença dirá:  Na época eles eram loucos.  

Em vez de tratar as pessoas, lhes diziam para ficar em casa sem cuidar de si mesmas; isto é uma das coisas mais absurdas na história dos países modernos.” Didier Raoult, destacado médico negacionista de diversos pontos relacionados à pandemia COVID-19 - pt.wikipedia.org 


1. O que a Ciência demonstra

O isolamento social (ou distanciamento físico) baseia-se no princípio básico da transmissão viral: se o vírus precisa de um hospedeiro humano para saltar para outro, reduzir o encontro entre esses hospedeiros reduz a taxa de contágio (R0​).

  • Achatamento da Curva: O objetivo principal nunca foi "erradicar" o vírus instantaneamente, mas evitar o colapso do sistema de saúde.

  • Evidências Históricas: Estudos sobre a Gripe Espanhola de 1918 mostram que cidades que implementaram intervenções não farmacêuticas (NPIs) precocemente tiveram taxas de mortalidade significativamente menores e recuperação econômica mais rápida.

Imagem de flattening the curve diagram during a pandemic
Shutterstock

2. Por que surge o Negacionismo?

O questionamento da eficácia do isolamento geralmente se apoia em três pilares:

  • Impacto Econômico: A percepção de que o "remédio é pior que a doença". Isso cria um viés de confirmação onde indivíduos ignoram dados de saúde para proteger sua subsistência imediata.

  • Visibilidade do "Não Evento": Este é um paradoxo da prevenção. Se o isolamento funciona, o desastre é evitado. Se o desastre não acontece, os críticos dizem que as medidas foram desnecessárias.

  • Politização da Ciência: Quando medidas de saúde pública são adotadas como bandeiras políticas, a adesão deixa de ser técnica e passa a ser uma declaração de identidade ideológica.

3. A Dimensão Ética e Social

Conforme você mencionou em suas anotações anteriores sobre a moralidade vinculada aos efeitos sobre os outros, o isolamento social é um exemplo clássico desse dilema.

A decisão individual de não se isolar não afeta apenas o indivíduo; ela aumenta o risco para o coletivo. Sob a ótica de que a inação (ou ação negligente) é imoral quando prejudica o bem-estar alheio, o negacionismo da eficiência pode ser visto como uma falha na responsabilidade social.

4. Limitações e Variáveis

É justo notar que a eficiência do isolamento não é absoluta e depende de:

  1. Adesão Real: De nada serve um decreto se a população não tem condições financeiras de ficar em casa.

  2. Timing: Medidas tomadas quando a transmissão comunitária já está fora de controle têm menos impacto.

  3. Medidas Complementares: O isolamento isolado (sem testagem e rastreamento de contatos) é muito menos eficaz.

Comparativo: Isolamento vs. Negligência


Aspecto

Isolamento Social (Baseado em Evidências)

Negacionismo / Inação

Objetivo

Preservar a capacidade hospitalar.

Manter a atividade econômica plena.

Risco

Desaceleração econômica e saúde mental.

Colapso sanitário e excesso de mortes.

Resultado Médio

Redução da taxa de transmissão (Rt<1).

Propagação exponencial do patógeno.


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Sátira Menipeia: A Subversão do Pensamento Rígido

“Dizia o mestre da Hibóstase, com a gravidade de quem descobriu o fogo, que a redondeza do buraco era apenas uma construção social da geometria opressora. E, munido de seu martelo de Procusto, ele jurava que a peça quadrada era a única verdade absoluta — mesmo que, para prová-lo, tivesse de reduzir o mundo a lascas e serragem.” - Gemini da Google, aparentemente, se divertindo.

Primeiro apresentaremos um conceito, e adiante, mostraremos como ele pode ser extremamente útil no combate às pseudociências e ao negacionismo científico.

Definição e Origem

A Sátira Menipeia é um gênero literário híbrido, caracterizado pela mistura de prosa e verso, e pelo tom que transita entre o sério e o cômico (serio-ludere). Diferente da sátira social direta, que foca em indivíduos ou costumes, a Menipeia foca no mundo das ideias. Seu alvo principal é o pedantismo, o dogmatismo e as visões de mundo excessivamente rígidas.

O gênero recebe o nome de Menipo de Gadara (século III a.C.), um filósofo cínico que utilizava o humor para ridicularizar as escolas filosóficas de sua época.

Características Principais

  • Multiformidade: Alternância constante entre o registro filosófico e o poético (polifonia).

  • Viagem Fantástica: Frequentemente utiliza cenários irreais (como o submundo ou o espaço) para observar a Terra de uma perspectiva externa e irônica.

  • Crítica Intelectual: O alvo não é apenas a má conduta moral, mas o vício intelectual — a crença cega em sistemas de pensamento fechados.

Aplicação Contemporânea: O Exemplo da Hibóstase

Para entender como a Sátira Menipeia opera hoje, podemos observar o embate entre a ciência e o negacionismo através da lente da Síndrome de Procusto. Enquanto um ensaio técnico descreveria o erro metodológico do negacionista, a Sátira Menipeia o coloca em cena:

Imagine o "Doutor em Hibóstase" discursando sobre a opressão da geometria. Para ele, a insistência da realidade em manter buracos redondos é uma conspiração contra a sua "peça quadrada" (o dogma). No auge de seu delírio acadêmico, ele irrompe em verso:

"O mundo é curvo, vasto e profundo, Mas há quem prefira o próprio abismo, Tentando cravar a peça quadrada No buraco redondo do seu dogmatismo."

Neste exemplo, a transição para o verso não é apenas estética; ela serve para sublinhar o absurdo da "hipótese de bosta" (hibóstase) que, por não resistir ao rigor da lógica em prosa, tenta se esconder sob o manto da retórica ou do sentimento.

Por que usar a Sátira Menipeia na Divulgação Científica?

Em tempos de relativização de vidas humanas, a Sátira Menipeia torna-se uma ferramenta de defesa. Ela permite que o divulgador exponha o ridículo das construções anticientíficas sem cair na armadilha de tentar debater logicamente com quem já abandonou a lógica. É a arte de mostrar que o rei (ou o mestre da hibóstase) está nu.


“Hibóstase” - uma nova ironia


Pequeno Tratado sobre a Hibóstase

No vocabulário da razão, a hipótese é uma semente: uma suposição fundamentada que aguarda o teste da realidade para florescer ou ser descartada. Mas no submundo do dogmatismo, surge um fenômeno diferente, e procuramos fixar o termo: a Hibóstase.

A Hibóstase (hibos , para gerar a sonoridade, a grafia e parecer latim ou grego + o grego stasis) é, em termos simples, uma "hipótese de bosta". É aquela ideia que nasce não da observação do mundo, mas do desejo desesperado de que o mundo confirme nossos preconceitos.

Anatomia de uma Hibóstase:

  1. Imunidade ao Fato: Diferente da ciência, que se curva diante da evidência, a hibóstase tenta curvar a evidência diante de si. Se a peça quadrada não entra no buraco redondo da realidade, a hibóstase culpa o buraco.

  2. O Vernáculo da Autoridade: Ela adora se travestir de termos complexos para esconder sua fragilidade. É a negação da ciência disfarçada de "questionamento libertário".

  3. A Fundação de Procusto: Toda hibóstase serve como base para uma situação de comportamento "Leito de Procusto". É o fundamento podre que justifica amputar a verdade, como já analisamos, relativizar vidas humanas em nome de uma "certeza" interna.

Por que combatê-la?

A ciência avança através do erro honesto, mas a sociedade retrocede através da hibóstase orgulhosa. Quando tratamos uma "hipótese de bosta" como uma alternativa legítima ao fato comprovado, não estamos sendo democráticos; estamos sendo cúmplices da erosão da realidade.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O Leito de Procusto

Quando a Ideologia Mutila a Realidade



A partir de anotações sobre relações da “Síndrome de Procusto” e a negação da ciência e a relativização de vidas humanas.

Na mitologia grega, Procusto era um anfitrião peculiar que possuía dois leitos de tamanhos diferentes. Ele convidava viajantes para descansar, mas impunha uma condição macabra: o corpo do hóspede deveria se ajustar perfeitamente à cama. Se o viajante fosse alto demais, Procusto amputava seus membros; se fosse baixo demais, era esticado em uma bigorna até atingir a medida "correta".

Hoje, a Síndrome de Procusto transcendeu o mito para descrever um fenômeno perigoso na esfera pública: a tentativa violenta de forçar a realidade a caber dentro de molduras ideológicas pré-concebidas.

A Negação da Ciência como Amputação

Quando falamos em negação da ciência, estamos observando Procusto em ação. A ciência opera através da observação de fatos que, muitas vezes, são desconfortáveis ou contrários aos nossos desejos. O negacionista, porém, inverte o processo: em vez de mudar sua opinião para se adequar aos fatos, ele tenta "amputar" as evidências.

Se um dado científico não cabe na narrativa política ou econômica vigente, ele é descartado, ignorado ou distorcido. A ciência é esticada ou cortada até que não reste nada além de uma caricatura da verdade.


A Relativização de Vidas Humanas

A consequência mais grave dessa síndrome é a relativização da vida. No mito, a prioridade de Procusto era a perfeição da medida, não a integridade do ser humano. No cenário contemporâneo, quando a ideologia se torna mais importante que a evidência empírica, a vida humana passa a ser um detalhe sacrificável.

  • Ignorar a ciência em nome de uma crença interna não é apenas um erro intelectual; é uma falha moral.

  • O custo do ajuste: Quando políticas públicas são baseadas no "leito de Procusto" em vez de dados concretos, o preço é pago em vidas. A recusa em aceitar a realidade biológica ou climática, por exemplo, é uma forma de dizer que o "ajuste" ao dogma é mais valioso que a sobrevivência do indivíduo.


A imagem de forçar a entrada da “peça quadrada” um buraco redondo, útil para se entender o vício de se querer que nossos dogmas sejam impostos à realidade do mundo.

Conclusão

O herói Teseu eventualmente derrotou Procusto fazendo-o provar de seu próprio método. No debate moderno, nossa "arma" contra essa síndrome deve ser o compromisso inegociável com a realidade. Reconhecer que o mundo não tem a obrigação de caber nas nossas certezas é o primeiro passo para uma moralidade que realmente protege a vida, em vez de mutilá-la.

Recomendações de leitura

Síndrome de Procusto: o que é e como identificá-la? - www.sbie.com.br 


Julia Di Spagna - 8 sinais de que seu colega sofre da síndrome de Procusto - 

forbes.com.br