A linha de raciocínio que apresentamos na impossibilidade dos núcleos dos planetas telúricos produzirem fusões pela pressão é o que chamamos de argumento de redução ao absurdo: se a premissa fosse verdadeira, as consequências observáveis na natureza seriam tão drásticas que a realidade, tal como a conhecemos, não existiria.
Para garantir que essa série de textos esteja plenamente estrurada, aqui estão os três pilares que sustentam nossa argumentação sobre o núcleo da Terra:
1. A Estabilidade dos Isótopos
No núcleo terrestre, o Ferro-56 (56Fe) é o rei. Ele é um dos núcleos mais estáveis da tabela periódica (maior energia de ligação por núcleon). Para os "piezonuclesistas", ele sofreria fissão para elementos mais leves. No entanto, se isso ocorresse, o núcleo da Terra seria uma "sopa" de elementos leves e isótopos instáveis, o que alteraria completamente a densidade calculada do planeta e o seu comportamento magnético.
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2. O Fluxo de Nêutrons Inexistente
Qualquer reação nuclear de fissão ou fusão em larga escala no interior da Terra geraria um fluxo massivo de partículas, especialmente neutrinos e nêutrons.
Nós temos detectores de neutrinos (como o Super-Kamiokande) que monitoram o interior da Terra (geo-neutrinos).
Os dados mostram que o calor interno vem do decaimento radioativo natural de elementos pesados (Urânio, Tório e Potássio) e não de uma fissão mecânica do Ferro. Se a "pressão" fosse o motor, os números não bateriam.
3. A Diferenciação Química
Se a pressão transmutasse elementos, a própria geoquímica seria imprevisível. O Ferro é o elemento mais abundante da Terra em massa justamente porque ele é o "final da linha" da fusão estelar. Sugerir que a pressão mecânica planetária pode desfazer o que as estrelas levaram milhões de anos para criar, sem emitir radiação gama, é ignorar toda a termodinâmica nuclear.
Com tudo isso, temos um argumento de consistência geofísica. Enquanto eles se prendem a experimentos de laboratório com ruídos de sinal (falsos positivos de nêutrons), estamos olhando para o maior experimento de pressão do sistema solar: o próprio núcleo da Terra.
Moral da história: Defender o efeito piezonuclear ignorando a evidência planetária não é apenas um erro científico; é uma omissão intelectual. A responsabilidade do debatedor é com a totalidade dos fatos, não apenas com o recorte que convém à sua teoria.
Um impacto exemplar
Uma coisa interessante seria calcular a densidade média de energia em eV para as partículas de um asteroide de 10 km de diâmetro a 100 km/s,uma fonte de enorme pressão, ainda que momentânea. Percebamos os exageros e a associação com um fato, claro, do impacto Chicxulub, relacionado com a extinção dos dinossauros.
Vamos calcular a energia por átomo (em eV) nesse impacto para ver se ela sequer "arranha" o núcleo atômico.
O Cálculo do Impacto
1. Premissas (Os Exageros):
Objeto: Esfera de ferro (densidade ρ≈7800 kg/m³) com 10 km de diâmetro.
Massa (M): Aproximadamente 4×10^15 kg.
Velocidade (v): 100.000 m/s (100 km/s — o dobro da velocidade de muitos asteroides rápidos).
2. Energia Cinética Total (K):
K=½×Mv^2=½.(4×10^15)(100.000)^2 ≈ 2×10^25 Joules
(Isso é equivalente a bilhões de bombas de Hiroshima.)
3. Energia por Átomo (A "Densidade" de Energia): Para saber se isso afeta o núcleo, precisamos saber quanta energia cabe a cada átomo de ferro no impacto.
Em 4×10^15 kg de ferro, temos aproximadamente 4,3×10^40 átomos.
Dividindo a energia total pelo número de átomos:
Energia por átomo ≈ 4,3×10^40 átomos 2×10^25 J ≈ 4,6×10^−16 Joules por átomo
4. Conversão para eV: Como 1 eV ≈ 1,6×10^−19 J:
Energia ≈ 4,6×10^−16 / 1,6×10^-19 ≈ 2.800 eV
A Conclusão Devastadora para o Debate
Mesmo em um impacto de proporções de extinção em massa, com velocidade exagerada, a energia média por átomo é de apenas 2,8 keV (quilo-elétron-volts).
O que 2,8 keV faz? É energia suficiente para arrancar elétrons das camadas internas (processos químicos e de raios-X). É o que vaporiza o asteroide e cria um plasma térmico absurdo.
O que 2,8 keV NÃO faz? Ele não chega nem perto dos MeV (Mega-elétron-volts) necessários para superar a repulsão nuclear e causar fissão ou transmutação do Ferro.
Resumindo
"Se um asteroide de 10 km a 100 km/s, que carrega energia para derreter uma crosta planetária, só consegue entregar cerca de 3 keV por átomo — o que é insuficiente para qualquer reação nuclear — como uma prensa de laboratório ou um transdutor de ultrassom, que entrega ordens de grandeza menos energia, conseguiria realizar o efeito piezonuclear? A física de impacto mostra que, antes de o núcleo 'sentir' a pressão para transmutar, o material já se tornou plasma e se dissipou."
Isso ‘mata’ o argumento de que a "pressão" ou o "choque" mecânico poderiam ser o gatilho, pois o limite de integridade da matéria eletrônica é atingido muito antes do limiar nuclear.
