O Paradoxo de Lönnig: Quando a Estase Biológica vira Dogma do Design
O artigo de Wolf-Ekkehard Lönnig apresenta um dos desafios mais interessantes da biologia evolutiva moderna: o paradoxo da estase. Como é possível que o genoma seja um sistema "tremendamente dinâmico", em constante mutação, enquanto a morfologia de certas espécies permanece praticamente inalterada no registro fóssil por milhões de anos?
Lönnig, um conhecido proponente do Design Inteligente (DI), utiliza essa lacuna no gradualismo darwiniano não para sugerir novos mecanismos biológicos, mas para validar as hipóteses de Complexidade Irredutível e Complexidade Especificada.
A Estrutura da Crítica
Nesta análise, demonstraremos que, embora Lönnig identifique corretamente as limitações da Síntese Moderna clássica em explicar a constância das formas, sua conclusão falha por três motivos principais:
Apropriação Indébita de Conceitos: Lönnig utiliza a "estase" descrita por Ernst Mayr e Stephen Jay Gould como se fosse uma evidência contra a evolução, ignorando que ambos os autores viam a estase como um fenômeno biológico explicável, e não como um milagre de engenharia.
O "Deus das Lacunas" Genético: Ao invocar Behe e Dembski, o autor interrompe a investigação científica. Onde a ciência vê uma pergunta sobre genes reguladores e restrições de desenvolvimento, Lönnig vê uma barreira intransponível que só poderia ser superada por uma "inteligência externa".
Ignorância da Evo-Devo: O texto desconsidera os avanços da Biologia Evolutiva do Desenvolvimento, que explica como sistemas complexos podem manter sua robustez (estase) e, ao mesmo tempo, sofrer mudanças rápidas através de mutações em chaves genéticas, sem a necessidade de "novas peças" projetadas do zero.
Primeiramente, quem é Wolf-Ekkehard Lonnig:
”É com prazer que apresento: finalmente, uma dissertação de mestrado na qual um jovem se opõe decisivamente a uma "vaca sagrada" (o neodarwinismo ou a teoria da descendência em geral) e demonstra os pontos fracos de uma doutrina que, para a maioria, é considerada não apenas uma teoria, uma grande síntese, mas um fato impecável e quase completamente comprovado. Sua opinião pessoal sobre o assunto pode ser encontrada claramente expressa em duas frases ao final da obra: "Os sistemas cibernéticos implementados na tecnologia pressupõem um projeto. Que conclusão poderia estar mais próxima da verdade do que postular isso também para a origem do mundo dos organismos?" (p. 131). Ora, não é verdade que o Sr. L. esteja isolado em seu ponto de vista. Ele já no primeiro capítulo lista diversos botânicos e zoólogos renomados que também consideram o neodarwinismo inadequado. Neste ponto, é preciso observar que o Sr. L. não apenas conhece de nome e citação a literatura relevante, mesmo na área da zoologia, mas também a estudou de forma excelente, mesmo quando se trata de grandes volumes… O Sr. L. basicamente chega às mesmas conclusões que meus próprios professores de botânica, Karl von Goebel e Wilhelm Troll, tiraram de seus trabalhos, e que Troll certa vez formulou de forma tão precisa: “…é o mesmo fenômeno básico da unidade na diversidade que, por um lado, sugere processos físicos, por outro, sugere algo maior que a soma de suas partes (Gestalt) e, em um sentido mais elevado, permite reconhecer o Logos no Bios.
“O Sr. L. era Wolf-Ekkehard Lönnig, bem conhecido pelos leitores do Evolution News, que viria a obter um doutorado em genética pela Universidade de Bonn e a atuar como cientista pesquisador por mais de 25 anos, estudando genética e mutações de plantas, no Instituto Max Planck de Pesquisa em Melhoramento de Plantas, em Colônia. Há meio século ele critica o darwinismo e promove o design inteligente.”
Wolf-Ekkehard Lönnig: An Intelligent Design Pioneer - Granville Sewell - April 21, 2021 —
scienceandculture.com
Cópia do artigo que trataremos nos nossos arquivos:
Wolf-Ekkehard Lonnig - Dynamic genomes morphological stasis origin irreducible complexity
Resumo
Apesar da enorme quantidade de fluxo genético em plantas e animais, acredita-se que os processos genéticos básicos e as principais características moleculares tenham persistido essencialmente inalterados por mais de três bilhões e meio de anos, e os mecanismos moleculares da ontogenia animal por mais de um bilhão de anos. Além disso, a sistemática se baseia em características virtualmente constantes no espaço e no tempo – caso contrário, este importante ramo da biologia não seria possível. Ademais, o registro fóssil exibe um padrão regular de aparecimento abrupto de novas formas de vida (em vez de seu surgimento por inúmeros pequenos passos, à maneira darwiniana), seguido pela constância de características sistemáticas superiores, frequentemente a partir do nível de gênero, e, em muitos casos, sucedido por um desaparecimento igualmente abrupto das principais formas de vida, que se extinguiram após diferentes períodos de tempo. Como admitiu recentemente o decano da teoria sintética, Ernst Mayr, de Harvard, essa constância (estase) das formas de vida diante de genomas tremendamente dinâmicos é um dos maiores problemas da biologia evolutiva contemporânea e exige uma explicação. Concordando com diversos pesquisadores, menciono argumentos e fatos que sustentam a visão de que a complexidade irredutível (Behe), em combinação com a complexidade especificada (Dembski), caracteriza os sistemas biológicos básicos e que essas hipóteses podem apontar para uma solução não gradualista do problema.
É fascinante observar como Lönnig constrói esse argumento. Ele utiliza o que chamamos de "anomalias reais" da biologia (como a estase morfológica e as lacunas no registro fóssil) para tentar validar as hipóteses do Design Inteligente (DI), como a Complexidade Irredutível.
O "pulo do gato" (ou a "besteira", como certa vez mencionamos) está na forma como ele interpreta a estase. Vamos decompor os pontos principais:
1. O Paradoxo da Estase vs. Dinamismo Genético
Lönnig cita Ernst Mayr corretamente: é um fato que organismos mantêm formas físicas quase idênticas por milhões de anos (estase), mesmo que seu DNA esteja mudando constantemente.
A visão da Biologia Evolutiva: A seleção estabilizadora e as restrições de desenvolvimento (constraints) explicam por que um plano corporal que funciona não muda, mesmo com mutações ocorrendo.
A visão de Lönnig: Ele sugere que essa constância prova que os sistemas são "travados" por um design que não permite a transição gradualista.
2. O Apelo ao "Equilíbrio Pontuado"
Ele se apropria de observações de Stephen Jay Gould e Niles Eldredge sobre o registro fóssil (aparecimento abrupto e estase). No entanto, Gould sempre enfatizou que o "abrupto" no tempo geológico ainda envolve milhares de anos e processos biológicos naturais — enquanto Lönnig usa isso como uma brecha para introduzir a descontinuidade do DI.
3. A Mistura de Conceitos: Behe + Dembski
Ao final, ele tenta unificar as frentes do DI:
Behe (Complexidade Irredutível): O argumento de que certos sistemas não funcionam se faltar uma peça.
Dembski (Complexidade Especificada): O argumento probabilístico de que a informação biológica é "improvável" demais para o acaso.
O ponto crítico: Lönnig ignora que a genética moderna e a biologia do desenvolvimento (Evo-Devo) já oferecem explicações para como mudanças em genes reguladores podem causar saltos morfológicos significativos sem violar as leis da física ou da biologia.
Por que isso é considerado problemático na academia?
A ciência trabalha com naturalismo metodológico. Lönnig aponta um problema real (a dificuldade de explicar a estase total via síntese moderna pura), mas em vez de buscar mecanismos biológicos desconhecidos, ele recorre a uma "solução" que interrompe a investigação científica: o design.
Extra
Evolução não darwiniana e criacionismo
Infelizmente, a maioria dos criacionistas religiosos e defensores do design inteligente geralmente equiparam a evolução ao "darwinismo", e é evidente que muitos desses autores fazem isso de propósito, por desonestidade. Quando fica claro que cientistas ou escritores não darwinianos estão apenas debatendo o papel da seleção natural na evolução e os mecanismos que a originaram, os criacionistas frequentemente citam e distorcem citações desses cientistas numa tentativa de criar a impressão de que eles estavam, na verdade, negando a evolução.
Em 2011, o biólogo A. L. Hughes publicou um artigo intitulado "Evolução de características fenotípicas adaptativas sem seleção darwiniana positiva", no qual propôs um mecanismo não darwiniano de adaptação que denominou "plasticidade-relaxamento-mutação" (PRM). O artigo foi mal interpretado e citado indiscriminadamente por criacionistas para sugerir que a evolução está em colapso.
O escritor Jean Staune, defensor do design inteligente, escreveu um artigo sobre evolução não darwiniana e listou Michael Denton e Michael Behe como "evolucionistas não darwinianos", já que eles aceitam a descendência comum. Staune afirma que o caminho a seguir para o movimento do design inteligente é que os defensores do design inteligente aceitem a descendência comum, mas proponham mecanismos não darwinianos para minimizar ou substituir a seleção natural. No entanto, fica claro no artigo de Staune que ele não tem interesse em propor quaisquer mecanismos naturais para a evolução e está interessado apenas em especulação metafísica.
Os criacionistas também descreveram incorretamente o equilíbrio pontuado (EP) como "não darwiniano". Richard Dawkins declarou que "[o EP] está firmemente inserido na síntese neodarwiniana" em seu livro O Relojoeiro Cego.
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