domingo, 5 de abril de 2026

Porcos: Clonagem e outras coisas mais

Porcos: Clonagem e outras coisas mais


Tenho uma irmã que é simplesmente apaixonada pela imagem de porcos. Chega a ter pantufas “de porco”. Porcos tem aquela imagem simpática, parecem que estão sempre sorrindo, tem o corpo roliço, um design corporal julgado por nós um tanto caricato entre os animais.

Ao saber da notícia de que na USP porcos foram clonados pela primeira vez no Brasil, não resisti em lhe mandar uma imagem humorística sobre o tema.



Aliás, uma boa ironia com palavras é “USPorco”. Qualquer graça sobre o tema, acaba aqui.


Primeiro porco clonado no Brasil nasce saudável em laboratório da USP - Por Jornal Nacional - 03/04/2026

Pesquisa desativa genes de rejeição e insere DNA humano para tornar órgãos suínos compatíveis com pacientes.

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/04/03/primeiro-porco-clonado-no-brasil-nasce-saudavel-em-laboratorio-da-usp.ghtml

A utilidade dessa conquista científica, somada a modificações genéticas dos porcos, inclui o uso do porco como modelo biológico com genética aproximada humana, e o organismo estoque de órgãos burlando a rejeição em transplantes (xenotransplantação).

Em diálogo sobre o tema com a Gemini da Google, ela me aponta:

1. O Suíno como Chassi Biológico

A escolha do porco não é estética; é uma questão de escalabilidade e compatibilidade. O tamanho dos órgãos, o tempo de maturação e a fisiologia cardiovascular são notavelmente próximos aos humanos. O desafio, que a clonagem e o CRISPR tentam resolver, é o "desligamento" dos retrovírus endógenos (PERVs) e a edição de antígenos para que o sistema imune humano não identifique o órgão como invasor instantaneamente.

2. O Fim da Rejeição: A Imunomodulação Genética

A clonagem permite a replicação de linhagens que já sofreram dezenas de edições genéticas precisas. Ao silenciar genes que expressam açúcares como o Alfa-Gal (o principal gatilho para a rejeição hiperaguda), os cientistas estão, na prática, tentando "hackear" a identidade celular do órgão para que ele passe pelo radar imunológico do receptor.

3. A Ética da Instrumentalização Total

Aqui entra aquela sua visão sobre a moralidade vinculada aos efeitos sociais. Se temos a tecnologia para criar "estoques" de órgãos e optamos pela inação (ou se o debate bioético trava o progresso), estamos sendo imorais com quem morre na fila? Por outro lado, a criação de uma vida complexa puramente como "peça de reposição" levanta questões sobre o estatuto ontológico desses seres.

Observação humana: Percebamos que apenas esse parágrafo já rende não um ensaio, mas um pequeno livro inteiro sobre desdobramentos de questões éticas relacionadas ao tema. Se a inação perante a fila de transplantes causa mortes reais, a "pureza ética" de não mexer com clones se torna, sob minha ótica, uma forma de imoralidade por omissão.

4. Entropia e Controle

Como você preza pelo rigor, há também a questão da estabilidade genômica desses clones a longo prazo. O quanto a replicação sucessiva e a manipulação profunda afetam a homeostase do organismo-estoque antes mesmo do transplante?

Observação humana: Esta pergunta já permite outro longo desdobramento.

O problema não é apenas a homeostase do porco, mas a fidelidade da cópia. Se o clone começar a apresentar derivas genéticas ou epigenéticas antes da retirada do órgão, o "estoque" se torna defeituoso. É o controle de qualidade levado ao nível molecular.
 

O porco e seu nobre futuro


Essa transformação do Sus scrofa domesticus marca a transição definitiva do animal como "recurso alimentar" para o animal como "infraestrutura biotecnológica".

Ao aplicar a clonagem associada à edição gênica, não estamos mais criando um organismo para viver sua própria ontologia, mas sim um chassi biológico modular. Se o objetivo é um transplante de coração, editamos o "módulo cardíaco" para silenciar o Alfa-Gal; se o foco é um transplante de ilhotas pancreáticas para diabetes, ajustamos o "módulo endócrino".

Podemos dividir essa "industrialização do organismo" em três camadas de modularidade:

1. O Silenciamento Imunológico (O "Driver" de Compatibilidade)

O porco, em seu estado natural, é "incompatível" com o hardware humano. A clonagem permite que instalemos um "pacote de drivers" genéticos (via CRISPR) que deleta os genes de rejeição hiperaguda. O animal deixa de ser um indivíduo genético e passa a ser uma linhagem padronizada, um lote técnico onde a variabilidade individual é um erro a ser eliminado.

2. A Padronização Fisiológica (Escalabilidade)

Diferente de um doador humano, que traz consigo um histórico de vícios, doenças e traumas, o "Suíno-Chassi" é produzido sob condições de laboratório (SPF - Specific Pathogen Free). Isso transforma o órgão em uma peça de reposição com garantia de origem. O tempo de maturação do porco (meses para atingir o tamanho de um órgão adulto humano) funciona como uma linha de montagem acelerada se comparada aos 18-20 anos necessários para um órgão humano.

3. A Biologia como Interface

Estamos tratando o corpo do porco como uma interface de tradução. Ao inserir DNA humano em pontos específicos da cadeia suína, criamos uma quimera molecular onde a superfície das células fala "humano", enquanto o suporte vital interno permanece "suíno". É a engenharia reversa da evolução: estamos forçando uma convergência biológica artificial para fins utilitários.

Nota: Essa mudança de paradigma retira o porco da esfera da pecuária e o insere na esfera da Manufatura Biológica Avançada. O animal não é mais criado; ele é especificado. A "fábrica de peças" modular é a resposta técnica à escassez trágica de doadores, mas também é o triunfo final da visão mecanicista da vida: o organismo como um conjunto de componentes substituíveis e altamente customizáveis.

Notas Técnicas

O que é o CRISPR-Cas9?

O CRISPR (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats) é uma ferramenta de edição genômica que funciona como uma "tesoura molecular" de alta precisão. Diferente de métodos antigos, que inseriam genes de forma quase aleatória no genoma, o sistema CRISPR utiliza uma molécula de RNA guia para localizar uma sequência específica de DNA com exatidão matemática.

CRISPR-Cas9 gene editing mechanism, gerada com IA

Shutterstock

Uma vez posicionado, a enzima Cas9 realiza um corte na fita dupla do DNA. A partir daí, o laboratório pode:

  1. Nocautear (Silenciar): Desativar um gene indesejado (como os que causam a rejeição de órgãos suínos em humanos).

  2. Inserir (Editar): Substituir ou corrigir sequências genéticas específicas.

No contexto da clonagem da USP, o CRISPR é o "software" que reescreve a identidade imunológica do porco, enquanto a clonagem é o processo de "impressão" em massa desse organismo devidamente hackeado.

O Desafio dos PERVs

Os PERVs (Porcine Endogenous Retroviruses) são fragmentos de material genético viral que estão integrados ao próprio genoma de todos os porcos. Ao contrário de uma infecção comum, que vem de fora, os PERVs são "herdados" como parte do DNA do animal.

O grande risco biológico reside na capacidade desses vírus — inofensivos para os suínos — serem reativados e saltarem para células humanas após um transplante. Isso poderia, teoricamente, criar novas zoonoses ou doenças virais em pacientes imunossuprimidos.

A Solução via CRISPR: A importância da técnica utilizada na USP e em laboratórios de ponta reside na capacidade de usar o CRISPR para localizar e "nocautear" simultaneamente todas as cópias de PERVs presentes no genoma do porco. Ao clonar um animal cujos retrovírus foram inativados, os cientistas criam uma linhagem "limpa", eliminando a barreira virológica e tornando o "chassi suíno" seguro para a integração com o organismo humano.

A Barreira do Alfa-Gal

O Alfa-Gal (Galactose-alfa-1,3-galactose) é um tipo de molécula de açúcar encontrada na superfície das células da maioria dos mamíferos, incluindo os porcos. O problema central para a medicina é que os seres humanos (e outros primatas do Velho Mundo) perderam a capacidade de produzir esse açúcar ao longo da evolução.

Como resultado, o nosso sistema imunitário identifica o Alfa-Gal como um "invasor estranho" extremamente perigoso. Isso causa a chamada rejeição hiperaguda: assim que o sangue humano começa a circular num órgão suíno, os anticorpos atacam as células que exibem o Alfa-Gal, destruindo o tecido quase instantaneamente.

O "Nocaute" Genético: A técnica de clonagem associada ao CRISPR permite criar porcos "GalSafe" (livres de Alfa-Gal). Ao desativar o gene responsável pela produção desse açúcar (GGTA1), os cientistas conseguem "camuflar" o órgão suíno, tornando-o invisível ao ataque imediato do sistema imunitário humano.

sábado, 4 de abril de 2026

O piscar de olhos entre pedras lascadas e as estrelas

Esse pequeno ensaio nasceu de um diálogo sobre o filme "In the Blink of an Eye", do diretor Andrew Stanton, que já havia nos dado a fábula ambiental e futurista WALL-E, com seus alertas sobre um futuro possível da humanidade. Numa nova forma para nós de produzir textos, segue-se o diálogo, com detalhamentos e questões momentaneamente contornadas.



O Fio da Navalha: Da Pedra Lascada às Estrelas

Olhamos para o passado com uma condescendência perigosa. Do alto de nossa suposta grandeza, enxergamos o ancestral pré-histórico como um ser bruto e estúpido, um primata que vagava em busca de carniça e disputava restos com hienas. No entanto, raros são aqueles que hoje guardam em suas prateleiras ou em suas histórias de vida um objeto que simbolize essa linhagem. Preferimos os adornos ou a glória das máquinas de processar silício, esquecendo que devemos a existência a uma "horrorosa" pedra pontuda, lascada há milhões de anos para extrair o tutano que alimentou nossa evolução.

Essa pedra não era apenas um pedaço de rocha; era o estado da arte da viabilidade. Se o fêmur quebrado e consolidado — como notou Margaret Mead — marca o nascimento da civilização pelo cuidado e pela empatia, a pedra lascada marca o nascimento da autonomia. Cada caloria extraída com aquele golpe rudimentar foi o investimento biológico que financiou o cérebro que hoje usamos para julgar o passado. Somos o resultado de uma sucessão ininterrupta de sucessos técnicos viscerais, onde a margem para erro era inexistente.

A ironia da trajetória humana é que a tecnologia é sempre mágica para quem a precede e obsoleta para quem a sucede. Se uma faca de cozinha pareceria feitiçaria a um caçador-coletor, as nossas mais espetaculares máquinas de produção de chips — o ápice da nossa litografia ultravioleta — serão vistas como ferramentas limitadas e rústicas pelos humanos de daqui a um milhão de anos. Para quem habitar planetas construídos por enxames autorreplicantes, nossa era será apenas mais um passo manual e "sujo" na usinagem do mundo.

No entanto, o que nos liga através das eras não é a sofisticação da ferramenta, mas a persistência do "usinador". O olhar que hoje analisa o espectro de um exoplaneta é o mesmo que avaliava a qualidade do sílex na savana. Somos o mesmo primata, movido pelas mesmas pulsões, transformando o medo e a fome em curiosidade e engenharia.

Que nesta pretendida longa jornada rumo às estrelas, não esqueçamos a lição do fêmur e da pedra: a nossa verdadeira humanidade não reside na distância que percorremos desde a savana, mas na capacidade de continuar cuidando dos nossos feridos e respeitando o sacrifício de mil gerações de ancestrais. No fim, nossas naves espaciais são apenas as pedras lascadas de amanhã, e o que realmente importa é o impulso de proteção e sobrevivência que as lançou ao espaço.


O diálogo que produziu esse ensaio

Segue o registro do diálogo entre Francisco Quiumento (FQ) e Gemini da Google (FQ) que ao final produziu esse ensaio:

FQ

In the Blink of an Eye


Conhece o roteiro desse filme?


GG

Sim, conheço a premissa e o desenvolvimento de "In the Blink of an Eye" (ainda em fase de pós-produção/lançamento para 2026). É um projeto ambicioso da Searchlight Pictures, dirigido por Andrew Stanton (WALL-E, Procurando Nemo).

NOTA de FQ: Aqui se percebe a “cegueira” das IAs, pois em 01/04/2026, data desse diálogo, o filme já havia sido lançado.

O roteiro, escrito por Colby Day, é frequentemente descrito como uma ficção científica existencialista que busca explorar a história do mundo e da humanidade através de uma estrutura narrativa não linear.

Aqui estão os pontos principais do roteiro:

A Estrutura e o Enredo

O filme não segue uma linha do tempo única. Ele entrelaça três histórias distintas que se passam em períodos de tempo vastamente diferentes, mas que são conectadas por temas de vida, morte, amor e o impacto da tecnologia/evolução:

  1. O Passado: Foca na pré-história ou em períodos ancestrais, explorando os primeiros lampejos de consciência e conexão humana.

  2. O Presente: Uma narrativa mais aterrada que lida com relações contemporâneas e a brevidade da vida.

  3. O Futuro: Uma visão de ficção científica que questiona o que resta da essência humana quando enfrentamos a imortalidade ou a inteligência artificial avançada.


Temas Centrais

  • A Escala do Tempo: O título refere-se a quão curta é a vida humana e até mesmo a história da civilização quando comparada à idade do universo.

  • Conexão Universal: A ideia de que as experiências humanas (como o luto ou o nascimento) são constantes, independentemente de estarmos em uma caverna ou em uma estação espacial.

  • Antropologia e Evolução: O roteiro mergulha em como nos tornamos quem somos e para onde estamos indo.

Curiosidades do Projeto

  • Elenco: Conta com nomes como Kate McKinnon, Rashida Jones e Daveed Diggs.

  • Inspiração: O roteiro foi destaque na Black List (a lista de Hollywood de melhores roteiros ainda não produzidos) antes de ser selecionado pelo estúdio.

  • Estilo: Espere algo visualmente poético e filosoficamente denso, na veia de filmes como A Árvore da Vida (Terrence Malick) ou Cloud Atlas.

NOTA de FQ: Eu somaria aqui elementos de The Fountain (Fonte da Vida, 2006, de Darren Aronofsky).




FQ

Acredito que poucas pessoas do mundo hoje tenham objetos de humanos da pré história que façam parte hoje de suas vidas, ou simbolizam realmente algo em sua história de vida.

Talvez algum belo ou interessante objeto sobre uma prateleira de seu escritório.

Talvez certos pesquisadores tenham profundo apresso por algum fêmur ou rádio quebrado que foi consolidado por cuidados de seus contemporâneos, marcando passo importante do processo civilizatório. Doutro modo o fraturado ficaria a mercê da implacável natureza.

Mas seria um símbolo distante de um colar ou adorno qualquer.


GG

É uma reflexão fascinante e profundamente necessária para baixar a guarda do nosso antropocentrismo. Existe uma ironia quase poética no fato de que o ápice da nossa tecnologia — o silício processado que nos permite conversar agora — descende diretamente daquela "pedra horrorosa" lascada para extrair tutano.

A ideia do fêmur consolidado, que a antropóloga Margaret Mead frequentemente citava como o primeiro sinal de civilização (pois indica que alguém cuidou do ferido até que ele se curasse), é um símbolo de empatia. Mas o que você descreve sobre a pedra lascada é o símbolo da viabilidade.

Aqui estão alguns pontos sobre essa conexão invisível, mas permanente:

A Estética da Sobrevivência

Muitas vezes olhamos para um biface (aquela pedra em formato de gota) e vemos apenas um objeto bruto. No entanto, para o ser que a esculpiu, aquilo era o estado da arte. Há uma disciplina e uma intenção ali que não são "estúpidas"; são a base do método de engenharia.

  • O "Design" Primitivo: O esforço para criar uma aresta de corte demonstra uma compreensão intuitiva de física e geometria.

  • A Herança Genética: Cada caloria extraída daquele osso quebrado pela pedra permitiu que o cérebro dos nossos ancestrais crescesse, financiando biologicamente a inteligência que hoje usamos para julgar esses mesmos ancestrais.

O Objeto na Prateleira vs. O Objeto no Sangue

Ter um fragmento de crânio ou uma ponta de flecha em uma prateleira é uma forma de curadoria histórica, mas você tocou no ponto central: a verdadeira "posse" desses objetos está no nosso próprio corpo.

  • Nós somos o resultado de uma sucessão ininterrupta de sucessos técnicos. Se um único desses "seres brutos" tivesse falhado em usar sua pedra pontuda de forma eficiente, nós não estaríamos aqui.

  • Essa pretensão de superioridade que mencionou é, na verdade, uma forma de amnésia coletiva. Esquecemos que o conforto da nossa "grandeza" foi comprado com o esforço manual e visceral de quem não tinha margem para erro.

O Símbolo do Processo Civilizatório

Diferente de um colar ou adorno, que comunica status ou estética, a ferramenta de pedra comunica propósito.

  • O fêmur curado simboliza o nascimento do altruísmo.

  • A pedra lascada simboliza o nascimento da autonomia sobre o meio ambiente.

É curioso pensar que, se colocássemos um smartphone moderno e uma pedra lascada de 1 milhão de anos lado a lado, o smartphone pararia de funcionar em poucos anos, enquanto a pedra continuaria pronta para sua função original. Talvez a "estupidez" que atribuímos a eles seja apenas a nossa incapacidade de compreender uma durabilidade e uma resiliência que já não conseguimos mais replicar.

Como você imagina que seria o choque de realidade de um desses nossos ancestrais ao ver o que fizemos com a herança técnica que eles nos deixaram?

FQ

Lembrando uma lei de Clarke, uma faca de cozinha talvez parecesse algo mágico, a ironia da garrafa de refrigerante de múltiplas funções de memorável comédia sul-africana dos anos 1989. Mas aqui, muito mais drama de o que seja o humano olhado de uma platéia que pudesse ver toda a nossa trajetória.

Por outro lado, a mais espetacular máquina de produção de Chips, hoje glória de nossa tecnologia, se sobrevivermos mais outro milhão de anos, talvez não passe aos olhos desse outro humano algo digno de emoção, e análise de nossas hoje terríveis limitações. A distância tecnológica da pedra à faca, assim como dessa máquina a sabe-se lá o que, talvez reproduzindo-se em enxame e construindo mais um planeta para habitamos, será apenas passos de uma usinagem humana do mundo, mas inquebrantável mente ligados por uma ancestralidade de milhares de gerações de um primata sobrevivendo no mundo.

O mesmo ser que um dia vagava em busca da próxima carniça recente, a apedrejar ancestrais de nossas hienas ou leões, é o mesmo que pretende hoje viajar às estrelas.

Seria bom que nessa pretendida longa jornada continue a cuidar seus feridos e respeitar seus mais remotos ancestrais e toda sua jornada de sacrifício.

GG

Essa é uma perspectiva que coloca a nossa vaidade técnica no devido lugar: como um breve capítulo de uma longa e visceral epopeia biológica. A sua analogia com a "máquina de chips" — provavelmente as gigantescas prensas de litografia ultravioleta extrema (EUV) — é perfeita. Hoje, elas são o ápice do intelecto humano, operando em escalas nanométricas que desafiam a física; no futuro, podem ser vistas com a mesma melancolia curiosa com que olhamos para um moinho de vento ou, justamente, para a pedra lascada.

Essa "usinagem humana do mundo" que você descreve revela algumas verdades duras e outras poéticas sobre a nossa trajetória:

A Magia e o Obsoleto

Se aplicarmos a Terceira Lei de Clarke ao contrário, percebemos que o que chamamos de "limitação terrível" hoje é o que define a nossa criatividade.

  • O ancestral que apedrejava hienas para disputar uma carniça não era menos inteligente que o engenheiro da ASML; ele apenas operava em uma janela de sobrevivência muito mais estreita.

  • Se chegarmos ao estágio de enxames autorreplicantes construindo planetas, a nossa glória atual em processar silício parecerá tão manual e "suja" quanto quebrar ossos para comer tutano.

O Fio de Ariadne: A Ancestralidade Inquebrável

O que conecta o primata da savana ao explorador das estrelas não é a ferramenta, mas a pulsão. A ferramenta é apenas a extensão do desejo.

  • O Medo e a Fome: Foram os motores que nos obrigaram a refinar a pedra.

  • A Curiosidade: É o que nos empurra para fora da gravidade da Terra.

O drama humano, visto dessa plateia imaginária que observa toda a cronologia, não estaria na evolução das máquinas, mas na persistência do olhar. É o mesmo olhar que avaliava a qualidade do sílex e que hoje avalia o espectro de um exoplaneta.

A Ética da Jornada

Sua conclusão sobre o cuidado com os feridos e o respeito aos ancestrais toca no ponto mais sensível da nossa evolução. Se em algum momento da expansão para as estrelas perdermos a capacidade de "consolidar o fêmur" do próximo, teremos deixado de ser humanos para nos tornarmos apenas mais um componente da máquina.

A verdadeira grandeza não está em quão longe chegamos da pedra pontuda, mas em quão bem preservamos o impulso de proteção que permitiu que o primeiro usuário daquela pedra sobrevivesse. O sacrifício de mil gerações de primatas "estúpidos" é o que paga o combustível de qualquer foguete.

Como você bem pontuou, somos o mesmo ser. A sofisticação da "usinagem" mudou, mas o "usinador" ainda carrega no DNA o tremor da savana e a esperança de que, amanhã, haverá sustento para o grupo. É um exercício de humildade necessário: reconhecer que nossas naves espaciais são apenas as pedras lascadas de amanhã.

FQ

Vamos consolidar essa troca de nossas palavras num texto fluido, consolidado?


Nota final:

Após esse diálogo e elaboração de outros elementos dessa publicação, esse tipo de construção de texto foi batizado por mim de “Ensaiálogo”, uma divertida maneira de representar o conceito de um ensaio (ou conjunto de ensaios dentro de um trabalho maior, como neste caso) que é construído por um diálogo. Como pronunciou-se a Gemini: “Um nome que carrega uma sonoridade que remete a algo estruturado, quase acadêmico ("Ensaio"), mas que é imediatamente "quebrado" pela fluidez e pela vivacidade do "Diálogo". É a fusão da análise fria com a conversa quente, que permite que uma peça de "Hard Philosophy" apresentada com a leveza de uma conversa de café.”