quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Seleção Natural: Indivíduo vs. População

Esse texto nasceu de uma dúvida em um grupo de WhatsApp:


É mais coerente dizer que a seleção natural atua sobre a população ou sobre indivíduos de uma espécie?

Como veremos, a resposta a essa questão é bem mais detalhada do que pode parecer, e a complexidade dessa resposta tem relação com a questão profunda da complexidade epistemológica da Teoria da Evolução.

Essa é uma das discussões mais fundamentais da biologia evolutiva. Embora existam debates sobre "seleção de grupo", o consenso científico atual é que a seleção natural atua primariamente sobre o indivíduo, mas seus efeitos são medidos na população.

Para entender por que a balança pende para o indivíduo, precisamos analisar os níveis de seleção:

1. O Indivíduo como a Unidade de Seleção

A seleção natural atua sobre o fenótipo (as características físicas e comportamentais) do indivíduo. É o indivíduo que sobrevive ou morre, e é ele quem consegue — ou não — se reproduzir.

  • Diferencial Reprodutivo: Se um indivíduo possui uma mutação que o torna mais veloz para escapar de um predador, aquele indivíduo específico terá mais chances de chegar à idade adulta e passar seus genes adiante.

  • Concorrência Interna: Frequentemente, a seleção mais forte ocorre entre indivíduos da mesma espécie que competem pelos mesmos recursos limitados.

2. A População como a Unidade de Evolução

Embora a seleção atue no indivíduo, o indivíduo não evolui. Ele nasce e morre com o mesmo patrimônio genético.

A evolução é definida como a mudança nas frequências alélicas (versões de genes) de uma população ao longo do tempo. Portanto:

  • O indivíduo é selecionado.

  • A população evolui.

O Debate: Seleção de Grupo vs. Seleção Individual

Alguns teóricos sugeriram que a seleção poderia atuar sobre o grupo (população). Por exemplo: "Um grupo de animais que limita sua reprodução para não esgotar os recursos teria mais chances de sobreviver do que um grupo egoísta".

No entanto, essa ideia enfrenta um problema lógico chamado "Subversão Interna":

Se, dentro desse grupo "altruísta", surgir um único indivíduo "egoísta" que se reproduz sem parar, ele terá mais descendentes que os outros. Rapidamente, os genes do "egoísta" dominarão a população, e a característica de grupo se perderá.

Por isso, a maioria dos biólogos (como Richard Dawkins em O Gene Egoísta) defende que a seleção ocorre no nível mais baixo possível: o indivíduo ou, de forma ainda mais fundamental, o gene.


Nível

Papel na Evolução

Gene

A unidade de herança (o que é replicado).

Indivíduo

O alvo da seleção (quem enfrenta o ambiente).

População

Onde a evolução se manifesta (mudança estatística).



Uma observação sobre modelos

O interessante é que só podemos modelar a evolução por Estatística, o que já conduz imediatamente a um número de indivíduos, ou seja, uma população. 

Essa é uma observação importante e toca no cerne da Síntese Moderna da biologia. Embora a "luta pela sobrevivência" seja um drama individual, a evolução é, por definição, um fenômeno estatístico e populacional.

Existem alguns pontos fundamentais que conectam essa visão estatística à Biologia:

1. A Lei dos Grandes Números

A seleção natural operando sobre um único indivíduo é indistinguível do acaso (deriva genética). Um indivíduo com genes "superiores" pode morrer por um acidente fortuito (um raio, por exemplo) antes de se reproduzir. A "força" da seleção natural só se torna visível — e modelável — quando olhamos para as probabilidades em uma massa de indivíduos. A estatística filtra o "ruído" do destino individual para revelar o "sinal" da adaptação genética.

2. Genética de Populações

Como bem notamos, não existe "equilíbrio de Hardy-Weinberg" para um indivíduo. As ferramentas que usamos para entender a evolução (frequências alélicas, variância, valores de fitness) são propriedades emergentes do coletivo. Sem a população, a Biologia Evolutiva seria apenas uma coleção de biografias de seres vivos; com a estatística, ela se torna uma ciência preditiva.

3. O Indivíduo como "Amostra"

Na modelagem matemática, o indivíduo funciona como uma "unidade de amostragem". A seleção natural "escolhe" amostras do conjunto de genes da população. Se a estatística favorece certas características, a próxima geração ("a próxima rodada de amostragem") terá uma distribuição diferente. 

Extra

A Complexidade Epistemológica da Teoria da Evolução

A dificuldade em definir se a seleção atua sobre o indivíduo ou sobre a população não é apenas uma questão de semântica, mas um desafio epistemológico profundo. A Teoria da Evolução opera em múltiplos níveis de abstração que se sobrepõem:

  1. A Dualidade Causal-Estatística: A seleção natural é, ao mesmo tempo, um processo causal (interações físicas e biológicas no mundo real, onde um indivíduo morre ou procria) e um modelo estatístico (mudanças nas frequências alélicas). O desafio reside em conciliar o "drama individual" da sobrevivência com a "frieza matemática" das distribuições populacionais.

  2. O Problema da Unidade de Seleção: Ao admitirmos que a evolução é modelada por estatística, somos forçados a questionar qual é a real unidade de análise. Seria o gene (como replicador), o indivíduo (como veículo de interação) ou a espécie (como linhagem histórica)? Cada nível de análise oferece uma "verdade" diferente sobre o processo evolutivo.

  3. Natureza Probabilística vs. Determinística: Epistemologicamente, a evolução nos obriga a lidar com o acaso (deriva genética) e a necessidade (seleção natural). Modelar a evolução é tentar prever o comportamento de um sistema complexo onde o evento aleatório individual pode alterar permanentemente a trajetória estatística de todo um grupo.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Por que a Ficção Científica não é Profecia

A ficção científica não é uma luneta apontada para o amanhã, mas um espelho deformante posicionado no hoje.

Existe um vício de leitura que insiste em tratar clássicos como 1984 ou Admirável Mundo Novo como se fossem boletins meteorológicos do futuro. Ao menor sinal de que o ano de 1984* passou sem que um "Grande Irmão" literal dominasse cada tela, ou que a biotecnologia não seguiu exatamente os tubos de ensaio de Huxley, surge o veredito apressado: "Eles erraram o futuro". O problema desse julgamento não está na obra, mas na incompreensão das funções fundamentais do gênero. Ficção científica é tão profecia quanto mitologia é relato histórico.

A Miragem do "Acerto"

O primeiro grande equívoco é acreditar que a FC tem o dever da antecipação técnica. Se a ciência lida com o quê e o como, a ficção científica lida com o "e se?".** Ela não é uma luneta apontada para o amanhã, mas um espelho deformante posicionado no hoje. Quando Orwell escreveu sobre a teletela, ele não estava tentando prever a Smart TV; ele estava explorando a angústia da perda de privacidade e a maleabilidade da verdade sob regimes autoritários de 1948. A obra "acerta" não quando o gadget se materializa, mas quando o sentimento de vigilância que ela descreveu se torna uma categoria do pensamento humano.

O Relógio de Winston Smith (Spoiler)

É curioso notar que a crítica sobre o "erro" cronológico de Orwell ignora um detalhe fundamental: em 1984, o protagonista admite não ter certeza de que o ano é realmente 1984. Em um mundo onde o Partido controla o passado, a noção de tempo linear foi destruída. Orwell nos avisa: o título não é uma data, mas a representação de um presente perpétuo e manipulável. O erro não é do autor, mas do leitor que busca precisão histórica na aniquilação da própria história.

O Mito como Método

A comparação com a mitologia é precisa porque ambos os gêneros buscam dar sentido a forças que escapam ao controle imediato do homem. Assim como o mito de Prometeu não é um manual sobre como produzir fogo, mas uma reflexão sobre a audácia e o custo do conhecimento, a FC cria arquétipos tecnológicos. O "Grande Irmão", o "Admirável Mundo Novo" ou o "Cyberpunk" não são previsões falhas; são topografias morais. Eles servem para mapear os limites da nossa ética frente ao progresso. Se a inação diante do sofrimento alheio é uma falha moral no presente, a ficção científica projeta essa inação em escala planetária ou galáctica para que possamos enxergar o monstro com mais clareza. 

A História Alternativa e o Experimento Mental

A prova definitiva de que a FC não está presa ao futuro é o gênero da História Alternativa. Obras como O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick, tratam de como o mundo seria se fatos históricos tivessem sido alterados — no caso, a vitória da Alemanha e do Japão na 2ª Guerra Mundial. Aqui, o foco é entender a natureza do poder e da opressão em um universo alternativo. Se o gênero se dedica a "prever" passados que nunca existiram, como poderíamos exigir que sua função principal fosse adivinhar o futuro?

A Função da Extrapolação (e não da Prevenção)

A FC também não é um manual de instruções ou um "alerta" utilitário. Sua função não é impedir que o futuro aconteça — embora possa servir como vacina intelectual —, mas sim explorar as consequências da natureza humana sob condições extremas. Ela não tem o dever de ser "otimista" ou "pessimista", termos que pertencem à economia e à política. Seu compromisso é com a coerência de sua própria premissa: se a humanidade possuísse X, como ela se comportaria em relação a Y?

Conclusão: O Presente como Destino Final

Em última análise, a ficção científica é uma literatura do presente. Ela usa o futuro como um laboratório isolado onde variáveis podem ser manipuladas para testar o que resta de essencial no ser humano. Exigir que ela "acerte" o futuro é diminuí-la a um exercício de adivinhação, ignorando sua verdadeira potência: a de ser a mitologia da era tecnológica, capaz de traduzir nossos medos mais profundos em metáforas de metal, silício e neon.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A Receita Universal dos Gigantes

O cosmos, em sua vasta e aparente aleatoriedade, parece seguir um livro de receitas rigoroso. A 133 anos-luz de distância, no sistema HR 8799, o telescópio James Webb acaba de encontrar "pratos" que conhecemos muito bem: versões colossais de Júpiter e Saturno que, apesar de terem nascido em um berçário estelar diferente do nosso, compartilham o mesmo DNA químico.


O Banquete de Sólidos

Durante décadas, astrônomos debateram se gigantes gasosos nasciam do colapso súbito de nuvens de gás ou se eram construídos peça por peça. A descoberta de sulfeto de hidrogênio (H2S) nesses mundos distantes encerrou o debate em favor da persistência. O enxofre, que costuma viajar em estado sólido pelo espaço, é a prova de que esses planetas não apenas "flutuaram" para a existência; eles foram comilões ativos.

Para atingir sua massa atual, esses gigantes precisaram "engolir" uma quantidade absurda de rocha e gelo — cerca de 600 vezes a massa da Terra em elementos pesados, sendo o ferro, pelos processos de nucleossíntese e evolução estelares, o mais significativo. Esse processo, chamado de acreção de núcleo, sugere uma ordem quase moral no caos do disco protoplanetário: primeiro constrói-se um alicerce sólido e pesado; só depois a gravidade reclama para si o véu de gás que define um gigante.

Uma Assinatura Molecular

Pela primeira vez, temos um inventário completo. Não estamos mais apenas supondo o que existe lá fora; estamos lendo os rótulos:

  • Água (H2O): O solvente universal, presente em abundância.

  • Metano (CH4) e CO2: Indicadores de uma atmosfera complexa e dinâmica.

  • O Enxofre: A peça final do quebra-cabeça que confirma a origem "sólida" do núcleo.

O Limiar da Uniformidade

Como aponta o professor Pedro Bernardinelli (USP), essa semelhança levanta uma questão profunda: seria a arquitetura do nosso Sistema Solar o padrão ouro do universo? Se a "receita de bolo" é a mesma em sistemas tão distintos, a formação de planetas pode ser um processo muito mais uniforme e previsível do que imaginávamos.

Não somos apenas um caso especial; somos parte de uma linha de produção cósmica que replica ‘Júpiteres’ e Saturnos por toda a galáxia, seguindo as mesmas leis de ferro, gelo e gás.

Leitura adicional


Lara Cáfaro, Planetas gigantes seguem 'receita' parecida com a de Júpiter e indicam possível padrão na formação do Universo - g1 - 14/02/2026

https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2026/02/14/planetas-gigantes-seguem-receita-parecida-com-a-de-jupiter-e-indicam-possivel-padrao-na-formacao-do-universo.ghtml 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Argumento do ajuste fino

 Tradução de rationalwiki.org - Argument from fine tuning 


“Então, acho que posso resumir [o argumento do ajuste fino] a: Se as coisas fossem diferentes, as coisas seriam diferentes. ...portanto, Deus?” — Biólogo e YouTuber Martymer 81.[1] 


 

O argumento do ajuste fino é uma variante do argumento do desígnio que foi "reforçado" com uma série de conceitos selecionados a dedo (cherry picking) da cosmologia moderna, biologia e física, bem como da probabilidade matemática.


O argumento do ajuste fino afirma que as condições necessárias para sustentar a vida tal como existe na Terra são tão específicas e definidas de forma tão restrita, e as probabilidades de tais condições surgirem por acaso tão remotas, que a existência de uma força orientadora ou criador deliberado pode ser inferida à força.


Zona Cachinhos Dourados 


A estreita faixa de temperatura na qual planetas capazes de sustentar vida podem existir é às vezes chamada de "Zona Habitável", já que os planetas dentro dela não são "quentes demais" nem "frios demais" para sustentar formas de vida e as condições de que elas precisam.


A estreita faixa da Zona Habitável e a escassez de planetas comparáveis ​​à Terra são um tema comum no criacionismo moderno, tanto em suas variantes da Terra jovem quanto da Terra antiga. O argumento mais comum, conhecido como argumento do ajuste fino, é que as condições da Zona Habitável, e as de qualquer planeta habitável dentro dela, são tão específicas que só poderiam ter sido criadas por um projeto inteligente e não por acaso.


É importante lembrar que coisas improváveis ​​acontecem e que, com o vasto número de estrelas no universo, a possibilidade de algumas serem orbitadas por planetas com condições da Zona Habitável, e talvez já abrigando vida, não é insignificante.


Essencialmente, o argumento do ajuste fino é um exemplo de argumento da incredulidade. Também enfatiza temas tradicionalmente religiosos, como o status especial atribuído à Terra como peça central da criação de Deus. Quando outros planetas habitados forem descobertos, isso tenderá a refutar essas noções, embora, é claro, os criacionistas insistam que os extraterrestres também fazem parte do plano mestre de Deus.


Uma última inconsistência é que contradiz uma ideia criacionista anterior de que todo o universo foi criado por um deus sábio para ser perfeitamente ajustado PARA a raça humana, mas parece que o único local próximo à Terra onde um humano pode sobreviver é... nenhum.


A cosmologia sem Deus ainda começa com algo, no mínimo um estado de vácuo mais um modelo para a transformação. Como estamos vivos, podemos afirmar com segurança que o modelo permite a existência da vida. Mas uma mudança de apenas alguns por cento em qualquer um dos 80 valores mencionados nesse modelo (como a delicada proporção entre a força nuclear e a eletromagnética) significa desastre. "Dis Aster" em latim significa literalmente "Estrela Má". Altere o modelo de transformação e o Sol falha.


Falhas

Tamanho


No entanto, o argumento do ajuste fino também pode ser contestado devido à imensidão do universo; com cem bilhões de estrelas na galáxia e outras tantas galáxias no universo, mesmo uma chance minúscula de surgimento da vida torna extremamente provável que ela ocorra em algum lugar. Além disso, por mais improvável que um evento seja, uma vez que ele ocorra, a probabilidade de ter acontecido é 1.


Ademais, assim como nos exemplos do princípio antrópico, a imensidão do universo argumenta contra isso por outro motivo: se o universo é realmente "ajustado finamente" para a vida, por que é tão absurdamente desprovido dela?



Tradução do Diálogo

Postagem Original:

"Fato: se a Terra estivesse 10 pés (aprox. 3 metros) mais perto do Sol, todos nós queimaríamos; e se estivesse 10 pés mais longe, morreríamos congelados... Deus é incrível!!"

Comentários:

  • Pessoa A: Uau... isso é loucura!

  • Pessoa B: Eu seeeeei!

  • Pessoa C: Amém.

  • Pessoa D (O Refutador): Para quem estiver curioso, isso não é verdade.

    1. A órbita da Terra é elíptica e a distância do Sol varia de cerca de 147 milhões de quilômetros a 152 milhões de quilômetros em qualquer ano.

    2. Toda estrela tem uma "zona habitável" que é afetada pelo tamanho da estrela e sua intensidade. A zona habitável do Sol é de cerca de 0,95 AU a 1,37 AU. Uma AU (Unidade Astronômica) é a distância média da Terra ao Sol, 93 milhões de milhas; portanto, a órbita da Terra poderia diminuir em 4.500.000 milhas ou aumentar em 34.000.000 milhas e ainda estar na zona habitável.

    3. Se a sua afirmação fosse verdadeira, qualquer terremoto de tamanho moderado poderia nos tirar da zona habitável. Desculpe.

  • Autor(a) do Post: Ok, isso é legal e tal, mas nunca mais comente no meu status dizendo que eu estou errada. Eu te perguntei alguma coisa? Resposta: NÃO.

  • Pessoa E: Boa [Nome omitido], haha.

  • Pessoa F: [Nome omitido], você é fo** pra caramba. É por isso que eu te amo.


Um comentário:

No entanto, como o comentarista no print explicou, o exemplo dos "10 pés" é um mito científico. A órbita da Terra varia milhões de quilômetros todos os anos (periélio e afélio) sem causar a extinção da vida. Se a margem de erro fosse de apenas 3 metros, subir em uma escada ou morar em um prédio alto seria fatal! 




Constantes físicas

Os argumentos de ajuste fino baseados nas constantes físicas são ainda mais fáceis de refutar.


O delicado equilíbrio, por exemplo, da fusão tri-alfa que criou todo o carbono em nossos corpos depende da temperatura e pressão das estrelas serem exatamente as ideais para essa forma de fusão.


No entanto, a pressão e a temperatura do interior de uma estrela mudam dependendo se a fusão está ocorrendo ou não. Ligações semelhantes entre outras constantes físicas são prováveis ​​e podem explicar seu equilíbrio aparentemente delicado.


Este lado do argumento bifurca as leis da física em constantes e equações, nas quais essas constantes devem ser inseridas. Os proponentes nos pedem para considerar o que aconteceria se as constantes mudassem, mas as equações permanecessem as mesmas, implicando que nada funcionaria se as constantes fossem alteradas, mesmo que ligeiramente.


Mas e se considerássemos que as equações também poderiam mudar? Nesse caso, devemos admitir que não temos ideia — e ler o argumento.[2]:68-9


Mesmo que seja claro que as equações atuais com constantes diferentes não podem produzir vida, equações (e constantes) completamente diferentes ainda poderiam ser perfeitamente capazes de produzir vida. Não sabemos o suficiente sobre física matemática para afirmar isso e talvez nunca saibamos. E ditar arbitrariamente que apenas as constantes podem ser ajustadas neste exercício equivale a uma petição de princípio.


Essa bifurcação das leis da física em constantes e equações é mais provavelmente um artefato da tentativa da mente humana de compreender o cosmos do que uma propriedade fundamental da própria realidade.[2]:86, 88


Atribuindo probabilidades


O argumento quer nos levar a concluir que é altamente improvável que um conjunto de constantes físicas capaz de gerar vida possa ser obtido por acaso. Mas, como atribuímos probabilidades a conjuntos de possíveis constantes físicas? Todas elas devem ter a mesma probabilidade? Ou algumas são mais prováveis ​​do que outras? E a situação piora ainda mais se rejeitarmos a bifurcação das leis da física em constantes e equações — qual é a probabilidade de uma equação específica fazer parte das leis da física? Falar em probabilidades aqui parece ser apenas abusar do conceito de probabilidade em uma situação na qual ele não faz sentido.


Agora, se assumirmos algum tipo de teoria do multiverso, então falar sobre probabilidades de constantes físicas terem certos valores, ou de certas equações fazerem parte das leis da física, pode ter algum significado — poderíamos observar a distribuição desses valores constantes ou leis em diferentes universos do multiverso para definir sua probabilidade. Mas os defensores do argumento do ajuste fino não podem recorrer a essas considerações para tornar seu argumento coerente, já que, se tal multiverso existe, então não há necessidade do Deus que eles buscam provar. É um paradoxo para os criacionistas. Por outro lado, uma teoria do multiverso poderia tornar significativamente mais provável que este universo tenha sido criado por puro acaso, já que haveria infinitos outros universos, a vasta maioria dos quais não seria adequada para a vida devido a diferentes constantes. No entanto, postular um multiverso (que permanece não comprovado) não é necessário, pois muitas das constantes têm muito mais flexibilidade do que é comumente afirmado (ou seja, seria necessária uma mudança maior do que a alegada para impedir o desenvolvimento da vida), como demonstrado por Victor Stenger e outros.[2]:227-231


Seleção natural


O universo parece estar perfeitamente ajustado para a vida porque a vida evoluiu através de um processo de auto-organização chamado seleção natural, que atua sobre mutações aleatórias para se adaptar às condições ambientais do universo. Em um universo com parâmetros diferentes, a vida evoluiria para se adequar a esses parâmetros e esse universo pareceria perfeitamente ajustado para a vida. Qualquer universo que permita algum processo de auto-organização como esse pareceria estar perfeitamente ajustado para a vida se tempo suficiente tiver passado e se alguma forma inicial de vida for possível. Essa forma inicial de vida provavelmente seria algo como um conjunto muito simples de reações químicas, em oposição às reações "irredutivelmente complexas" observadas após o efeito da evolução. Essa forma inicial de vida mal seria considerada vida pelos padrões de vida mais bem adaptada às condições do universo, mas qual é exatamente a definição de vida? Os criacionistas pensam que podem refutar esse argumento simplesmente recusando-se a chamar essa forma inicial de "vida"! Esse argumento indica que não há nada realmente especial neste universo, além do fato de que algo como a evolução da vida é possível e que alguma forma inicial de vida extremamente simples, que mal pode ser chamada de vida, é possível. Não há necessidade de introduzir "multiversos", não há necessidade de saber o tamanho deste universo, não há necessidade de saber a probabilidade de este universo existir, basicamente não há necessidade de desenvolver novas ciências. A única questão real é a definição de vida.

Isso argumenta contra um Deus todo-poderoso e onisciente

Ao contrário do que muitos teístas argumentam, o ajuste fino é, na verdade, contrário à existência de qualquer Deus onipotente e onisciente, como geralmente se postula. Isso porque tal entidade poderia ter criado este universo com quaisquer condições possíveis, em vez de precisar de certas condições "ajustadas" para permitir a vida. Em vez disso, a própria vida (pressupondo a existência de tal entidade) poderia ter sido ajustada a quaisquer condições que esse deus desejasse. Ela nem precisaria de condições que permitissem a vida, já que tal deus também poderia simplesmente manter a vida existindo independentemente das condições do universo. O ajuste fino, portanto, só é necessário se um deus menor existir ou se outra força for a explicação para as condições do universo.


References

  1. Not-So-Amazing Evidence For God, Part 1 - https://www.youtube.com/watch?v=0T694kD-wl4

  2.  Stenger, Victor J. (2011). The fallacy of fine-tuning: why the universe is not designed for us. Amherst, N.Y: Prometheus Books. ISBN 978-1-61614-443-2.




Extra


Um acréscimo nosso para complementar esse artigo.

O Ajuste Fino como Argumento para a Abiogênese

Uma ironia central no uso do ajuste fino por criacionistas é que, se o argumento for aceito como verdadeiro, ele se torna uma evidência poderosa a favor da abiogênese natural e contra a necessidade de intervenções miraculosas.

Se as constantes da física, as leis da química e as condições cosmológicas foram "projetadas" com precisão extrema para permitir a existência de vida, segue-se logicamente que o universo é um sistema autossuficiente para esse fim. Em um universo verdadeiramente "ajustado" para a vida, o surgimento de sistemas biológicos a partir da matéria inorgânica (abiogênese) não deveria exigir uma "mão invisível" ou um milagre extra; deveria ser uma consequência natural e inevitável das leis que o designer supostamente estabeleceu.

Portanto, o criacionista que utiliza o ajuste fino cai em um paradoxo:

  1. Se a vida exige um milagre para surgir (negacionismo da abiogênese), então o universo não foi ajustado de forma suficiente pelas leis da física.

  2. Se o universo foi ajustado finamente para a vida, então a origem da vida deve ser um processo físico-químico natural e previsível, dispensando qualquer criador após o "Big Bang".

Dessa forma, o ajuste fino serve mais como um argumento para o Deísmo (um deus que inicia o processo e não intervém mais) ou para o Naturalismo, do que para o Teísmo clássico ou o Criacionismo, que dependem de interrupções constantes das leis naturais.