quarta-feira, 27 de maio de 2026

A Tautologia Intransponível – O Fato contra a Razão

O debate sobre a natureza da ciência frequentemente se perde em um labirinto de justificativas. De um lado, o filósofo da ciência (ou o cético) busca "razões" para validar ou invalidar um método; do outro, o cientista aponta para o dado bruto. O embate seguidamente descrito entre o Cientista e o Skeptikós (o Ceticismo Epistemológico [Nota 1]) revela uma tensão fundamental: enquanto a filosofia busca adornar o vazio com estruturas intelectuais, a ciência, em sua essência mais crua, opera sobre fatos que não dependem de "boniteza" argumentativa para existirem.


A Tirania do Fato e a Falência da "Razão"

A provocação de que o cientista fala de "fatos" enquanto o filósofo fala de "razões" toca no cerne do objetivismo. No momento em que se introduz a "razão" para explicar um fenômeno, introduz-se a subjetividade. A ciência, sob essa ótica, não precisa de uma razão externa para ser o que é; ela se valida pela sua própria operacionalidade. Se há um resultado científico, o fato está posto. Se não há, nenhuma construção filosófica, por mais "labiosamente dotada" que seja, pode ocupar esse vácuo.

Essa é uma "tautologia intransponível": ciência é ciência. Tentar defini-la através de critérios puramente intelectuais ou retóricos é como tentar vencer uma causa num tribunal onde a "melhor prova" é substituída pela eloquência do advogado. No Direito, a vitória pode pertencer ao mais apto intelectualmente; na natureza, porém, o fato não se curva à dialética. Uma estrela não brilha porque temos razões para acreditar na fusão nuclear; ela brilha como um fato bruto que precede qualquer teoria.

O "Lixo" e a Retórica da Incerteza

Quando o cético aponta para o "lixo" — as falhas, as incertezas ou as margens de erro — para dizer que "não é lixo", ele está operando no campo da reinterpretação. Para o cientista pragmático, o que não produz resultado, não explica o real ou não possui evidência, é descarte. O esforço filosófico de tentar resgatar esse descarte através de "razões" é visto como uma distração metafísica.

Neste cenário, a filosofia da ciência corre o risco de se tornar uma ferramenta de "derrota do menos dotado". Se a ciência for reduzida a um jogo de quem argumenta melhor, ela deixa de ser ciência para se tornar sofística. O ensaio aqui proposto defende que a "melhor prova científica" é aquela que sobrevive ao silêncio da argumentação. Se o experimento falha ou se a observação é inexistente, não há adjetivação que salve a teoria.

Conclusão: A Ciência sem Adjetivos

O ensaio conclui que a tentativa de unificar a ciência sob uma "razão" filosófica é, muitas vezes, um esforço de encobrir a ausência de prova. A ciência não é "bonitinha" e não precisa ser validada por uma moralidade ou lógica externa para ser verdadeira em seus termos. A demarcação científica não deveria ser um tribunal de ideias, mas um laboratório de fatos. Sem o resultado, a ciência é nula; e com o resultado, a filosofia é, em última instância, um acréscimo literário. A verdadeira ciência é aquela que se mantém de pé mesmo quando a retórica se cala

Notas

1.Skeptikós é um termo grego antigo, origem da palavra "cético", que significa "aquele que investiga", "que examina" ou "que busca". Longe da definição moderna de apenas "duvidar de tudo", o ceticismo filosófico original refere-se à prática contínua de investigar a verdade, sem se conformar com respostas rápidas ou verdades absolutas.

O Cientificismo

Somando-se a essa análise, o artigo 'Seis Sinais de Cientificismo', de Susan Haack, oferece uma lente crítica indispensável sobre a postura cientificista contemporânea. Haack não apenas define o fenômeno por meio de exemplos práticos, como também mergulha nos complexos problemas de demarcação entre ciência, pseudociência e 'ciência ruim'. Ao revisar as tensões entre o falsificacionismo de Popper, os métodos de indução e dedução, e até a anarquia epistemológica de Paul Feyerabend, a autora expõe as fragilidades e problemáticas inerentes a cada uma dessas tentativas de enquadrar o fazer científico.


Haack, S. Seis Sinais de Cientificismo. Publicações da Liga Humanista Secular do Brasil, 2012. - PDF - lihs.org.br 

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Resumo


Da forma como a palavra “cientificismo” é usada atualmente, é uma verdade trivial que o cientificismo – uma atitude inapropriadamente deferente para com a ciência – deveria ser evitado. Mas é uma questão substancial quando e por que a deferência às ciências é inapropriada ou exagerada. Este artigo tenta responder a essa pergunta ao articular os “seis sinais de cientificismo”: o uso honorífico de “ciência” e seus cognatos; o uso de adornos científicos de forma puramente decorativa; a preocupação com a demarcação; a preocupação com o “método científico”; a procura nas ciências por respostas além de seu escopo; negar a legitimidade ou o valor de investigações não científicas (p. ex. legal ou literária) ou da poesia e da arte.


A abordagem de Susan Haack


A autora identifica o cientificismo como uma deferência excessiva e acrítica à ciência, distinguindo-o da investigação científica legítima. Os seis sinais incluem o uso honorífico de termos científicos, adoção de adornos técnicos, foco exagerado na demarcação, busca pelo "método científico", extensão da ciência a temas impróprios e a desvalorização de outras formas de saber.

Aqui estão os seis sinais detalhados, conforme a filósofa Susan Haack:


  1. Uso Honorífico de "Ciência" e Cognatos: Utilizar palavras como "ciência", "científico" ou "cientificamente" como um selo de aprovação ou elogio genérico, sugerindo que qualquer coisa rotulada assim é automaticamente superior ou verdadeira.

  2. Adornos Científicos Inapropriados: Adotar maneirismos, terminologia técnica ou adornos formais das ciências (como gráficos complexos, estatísticas, jargões) mesmo quando não possuem utilidade real ou rigor na investigação em questão.

  3. Preocupação com a Demarcação: Uma obsessão em traçar uma linha nítida entre a "ciência genuína" e as "pseudociências", muitas vezes ignorando que a ciência real é frequentemente imprevisível e heterogênea.

  4. Busca pelo "Método Científico": A crença de que existe um método ou procedimento único e singularmente eficaz que explica todo o sucesso científico, falhando em perceber a diversidade de práticas científicas.

  5. Extensão da Ciência ao Escopo do Invisível: Procurar respostas nas ciências para questões que estão além do seu domínio, como perguntas morais, de sentido ou metafísicas, que a ciência não pode responder.

  6. Denegrir o Não-Científico: Negar ou desvalorizar a legitimidade de outras formas de investigação (como a filosofia, a história, o direito) ou de atividades humanas valiosas que não são científicas, como a arte, a poesia ou a literatura. 


Haack argumenta que a ciência é uma empresa humana falível e, portanto, o cientificismo—esta atitude de supervalorização—pode prejudicar tanto a ciência real quanto a cultura em geral. 


terça-feira, 26 de maio de 2026

Anotações científicas - 29

O Enigma do Ornitorrinco: O Mosaico Vivo da Evolução


Quando os primeiros fragmentos e descrições do ornitorrinco (Ornithorhynchus anatinus) chegaram à Europa no final do século XVIII, a comunidade científica britânica reagiu com absoluto ceticismo. O bicho parecia uma fraude taxonômica, uma colagem grosseira feita por algum taxidermista brincalhão que costurara o bico de um pato ao corpo de um castor. Afinal, como conceber um ser que possui pelos e amamenta, mas põe ovos e ataca com esporões venenosos?

Séculos depois, a ciência não apenas confirmou a existência desse animal extraordinário, como o sequenciamento de seu genoma revelou que ele é um dos livros de história mais fascinantes da biologia molecular.

Longe de ser uma anomalia ou um mero "elo perdido", o ornitorrinco é um exemplo vivo e didático de como o processo evolutivo opera. Ele nos ensina que a evolução não segue uma linha reta rumo a um design ideal; ela trabalha como uma artesã que reaproveita ferramentas antigas e testa novas soluções em ramificações independentes. No DNA desse monotremado, características ancestrais de répteis e aves coexistem harmoniosamente com inovações genéticas puramente mamalianas.

Neste material, exploraremos o que o mapa genético do ornitorrinco nos revela sobre a nossa própria história. Veremos como a evolução reutilizou as mesmas famílias de genes em linhagens totalmente diferentes para criar veneno, como a biologia resolveu o paradoxo de amamentar filhotes que nascem de ovos e como esse mosaico genético nos ajuda a decifrar a transição dos primeiros amniotas para os mamíferos modernos.

Prepare-se para entender a evolução através do genoma da criatura que desafiou todas as caixas da classificação biológica.



A partir do artigo:

A list of authors and their affiliations appears at the end of the paper. Genome analysis of the platypus reveals unique signatures of evolution. Nature 453, 175–183 (2008). https://doi.org/10.1038/nature06936
https://www.nature.com/articles/nature06936 


Resumo

O ornitorrinco (Ornithorhynchus anatinus) sempre despertou entusiasmo e controvérsia no mundo zoológico. Alguns inicialmente o consideraram um mamífero verdadeiro, apesar de seu bico de pato e patas espalmadas. O ornitorrinco foi classificado junto com as equidnas em um novo táxon chamado Monotremata (que significa "orifício único", devido à abertura externa comum para os sistemas urogenital e digestivo). Tradicionalmente, os Monotremata são considerados pertencentes à subclasse de mamíferos Prototheria, que divergiu da linhagem dos terapsídeos que levou aos Theria e, posteriormente, dividiu-se em marsupiais (Marsupialia) e eutérios (Placentalia).

A divergência entre monotremados e térios situa-se na grande lacuna da filogenia dos amniotas entre a radiação dos eutérios, há cerca de 90 milhões de anos (Ma), e a divergência dos mamíferos a partir da linhagem dos sauropsídeos, por volta de 315 Ma (Fig. 1). As estimativas do tempo de divergência entre monotremados e térios variam entre 160 e 210 Ma; aqui utilizaremos 166 Ma, estimado recentemente a partir de dados fósseis e moleculares.




Os amniotas dividiram-se em sauropsídeos (que deram origem às aves e répteis) e sinapsídeos (que deram origem aos répteis mamalianos). Esses pequenos mamíferos primitivos desenvolveram pelos, homeotermia e lactação (linhas vermelhas). Os monotremados divergiram da linhagem dos mamíferos térios há cerca de 166 milhões de anos e desenvolveram um conjunto único de características (texto em vermelho-escuro). Os mamíferos térios, compartilhando características comuns, dividiram-se em marsupiais e eutérios há cerca de 148 milhões de anos (texto em vermelho-escuro). As eras e períodos geológicos, com os tempos relativos (em milhões de anos atrás), estão indicados à esquerda. As linhagens de mamíferos estão em vermelho; os répteis diápsideos, representados como arcossauros (aves, crocodilianos e dinossauros), estão em azul; e os lepidossauros (cobras, lagartos e parentes) estão em verde.
 


1. Um Mosaico Genético: Mamífero, Réptil e Ave

O sequenciamento do genoma revelou que o ornitorrinco não é uma "mistura" literal de espécies, mas sim um mamífero que reteve características ancestrais de amniotas (o grupo que inclui répteis, aves e mamíferos) ao mesmo tempo em que desenvolveu suas próprias inovações.

  • Pêlos e Leite (Mamífero): Ele possui pelagem adaptada à água e as fêmeas produzem leite para alimentar os filhotes, uma característica essencial dos mamíferos.

  • Ovos (Réptil/Ave): Ao contrário dos mamíferos placentários (como nós) e dos marsupiais (como o canguru), as fêmeas põem ovos. O artigo mostra que os genes das proteínas do leite foram conservados mesmo com essa estratégia reprodutiva ancestral.

2. O Veneno: Convergência Evolutiva

Um dos fatos mais surpreendentes do artigo é a origem do veneno nos machos (que possuem esporões nas patas traseiras):

  • Evolução Independente: O veneno do ornitorrinco e o de répteis (como cobras e lagartos) surgiram de forma independente.

  • Mesma Caixa de Ferramentas: Embora tenham evoluído separados por milhões de anos, a evolução "cooptou" (reutilizou) as mesmas famílias de genes para criar o veneno em ambos os grupos. Isso é um exemplo clássico de convergência evolutiva em nível molecular.

3. Inovações no Sistema Imunológico

Como os filhotes de ornitorrinco nascem muito precocemente (saindo de ovos) e não têm um útero protegido para se desenvolverem por muito tempo, eles ficam expostos ao ambiente muito cedo. O artigo aponta que o genoma do ornitorrinco apresenta uma expansão de famílias de genes imunológicos. Essa "turbinada" no sistema imune ajuda a proteger os filhotes vulneráveis contra patógenos.

4. Importância para a Ciência (Genômica Comparada)

A análise do genoma do ornitorrinco funciona como uma "âncora" para a biologia comparada. Ao comparar o DNA dele com o de répteis/aves e o de mamíferos placentários, os cientistas conseguem mapear com precisão:

  1. Quais genes nós, humanos, herdamos dos nossos ancestrais reptilianos mais distantes.

  2. Em que momento da história evolutiva os mamíferos modernos "desligaram" os genes de pôr ovos e desenvolveram a placenta.

O ornitorrinco não é um "elo perdido", mas sim um sobrevivente de uma linhagem que seguiu um caminho evolutivo fascinante e paralelo ao nosso.


Palavras-chave: Ornithorhynchus anatinus; Monotremados; Genômica Comparada; Convergência Evolutiva; Divulgação Científica.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O que é ciência afinal? - de Alan F. Chalmers

O livro "O que é ciência afinal?" de Alan F. Chalmers é uma das introduções mais conhecidas à filosofia da ciência, escrita com o objetivo de ser simples e acessível para iniciantes. Abaixo, apresentamos um resumo estruturado dos principais conceitos e da evolução do pensamento do autor ao longo da obra.




1. Crítica às Visões Tradicionais (Indutivismo e Falsificacionismo)

  • Indutivismo Ingênuo: Chalmers começa descrevendo a visão de "senso comum" de que a ciência deriva rigorosamente de fatos observados. O indutivista acredita que a ciência começa com a observação neutra e, por meio de generalizações (indução), chega a leis universais.

  • Problemas da Indução: O autor argumenta que não existe um método lógico que garanta que teorias científicas sejam verdadeiras apenas por basearem-se em observações passadas. Além disso, a própria observação nunca é neutra; ela sempre depende de algum conhecimento teórico prévio (a "dependência teórica da observação").

  • Falsificacionismo (Karl Popper): Como alternativa, surge a ideia de que a ciência progride não por provar verdades, mas por tentar refutar (falsificar) teorias. Uma teoria só é científica se for passível de ser testada e potencialmente desmentida. Contudo, Chalmers aponta que o falsificacionismo também tem limites, pois, na prática, cientistas muitas vezes mantêm teorias mesmo diante de aparentes refutações.

2. Teorias como Estruturas Complexas

  • Programas de Pesquisa (Imre Lakatos): Chalmers explica a visão de Lakatos, que vê a ciência como um conjunto de "programas de pesquisa" com um núcleo irredutível (hipóteses fundamentais que não podem ser alteradas) protegido por um "cinturão" de hipóteses auxiliares.

  • Paradigmas (Thomas Kuhn): O livro detalha a ideia de que a ciência opera dentro de "paradigmas" (modelos aceitos). O progresso ocorre através da Ciência Normal (resolução de problemas dentro do modelo) até que surjam crises que levam a uma Revolução Científica, trocando um paradigma por outro.

3. O Debate: Racionalismo vs. Relativismo

  • Racionalismo: Defende que existem critérios universais e atemporais para julgar o mérito de uma teoria.

  • Relativismo: Sugere que o valor das teorias depende das crenças e valores dos indivíduos ou grupos que as defendem, não havendo um padrão único de "verdade" superior a outros conhecimentos.

  • A Posição de Chalmers (Objetivismo): O autor propõe uma abordagem objetivista, focando nas propriedades do conhecimento em si, independentemente das crenças subjetivas dos cientistas. Ele defende que a ciência é uma prática social que lida com o mundo físico de forma eficaz, sem necessariamente afirmar que atingiu a "verdade absoluta".

4. Conclusão: "O que é ciência, afinal?"

Ao final, Chalmers sugere que a própria pergunta do título pode ser enganosa, pois pressupõe que exista uma única categoria "ciência" que engloba tudo de forma uniforme. Ele defende que cada área do conhecimento (física, sociologia, etc.) deve ser analisada por seus próprios objetivos e métodos. A função principal de sua investigação é combater a "ideologia da ciência" usada para defender posições autoritárias em nome de uma suposta verdade inquestionável.

Comentário

As metodologias de cada campo científico são tão distintas e podem apresentar distanciamentos do método científico considerado mais “tradicional”, sempre presente na literatura, que, obviamente, Astronomia não possui experimentação, sendo basicamente observacional, e como seguido destacamos, em Astrofísica ninguém coloca uma estrela num tubo de ensaio. Por outro flanco, podemos atacar a questão de que se faz experimentos com populações de peixes em tanques de criação, mas algo similar seria bem problemático com baleias. Por outro lado, acreditamos que é bem claro que temos mais ciência construída sobre seres vivos os mais diversos do que uma unificação da Fìsica, ainda que a Relatividade e a Mecânica Quântica permitam muita experimentação.

1. A Crítica ao Método Único

Chalmers dedica os capítulos finais para argumentar que a busca por uma "receita" universal (o Método com "M" maiúsculo) é um erro histórico. Nosso exemplo sobre a Astronomia e a Astrofísica ilustra perfeitamente o que ele chama de dependência do contexto: a ciência não é apenas observação ou experimentação isolada, mas uma prática teórica que se adapta ao objeto de estudo. Na Astronomia, a "experimentação" é substituída pelo rigor da observação sistemática e pela construção de modelos matemáticos que sobrevivem à prova de novos dados coletados por telescópios.

2. Ciência de Campo vs. Ciência de Laboratório

Nosso ponto sobre a Biologia (peixes vs. baleias) remete à questão das escalas e da ética, que Chalmers também tangencia. Nem toda ciência pode ser reduzida ao laboratório.

  • O exemplo do "tubo de ensaio" é uma crítica válida ao indutivismo ingênuo, que muitas vezes pressupõe que o conhecimento só é válido se puder ser replicado em condições controladas de laboratório.

  • Como notamos, as ciências da vida possuem uma complexidade que muitas vezes resiste à simplificação necessária para a experimentação física tradicional.

3. A Unificação da Física e a Prática Científica

Nossa menção à falta de uma unificação na Física, apesar do sucesso experimental da Relatividade e da Mecânica Quântica, reforça a ideia de Chalmers de que a ciência é um edifício em construção, muitas vezes composto por teorias que são "paradigmas" (no sentido de Kuhn) distintos e que nem sempre conversam perfeitamente entre si.

A. F. CHALMERS: O QUE É CIÊNCIA AFINAL? - fenix.ciencias.ulisboa.pt [PDF]


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Alan Francisco Alberto Chalmers, nascido em Bristol em 23 de agosto de 1939, é um físico, professor, escritor e filósofo da ciência britânico. Ele é amplamente reconhecido por sua obra "O que é ciência afinal?", que se consolidou nas últimas três décadas como um guia fundamental e uma referência básica para o estudo da epistemologia em todo o mundo. Suas contribuições para a área buscam desmistificar o fazer científico, tornando temas complexos acessíveis a um público amplo por meio de uma linguagem clara e com o mínimo de termos técnicos.

Graduado em Física pela Universidade de Bristol em 1961, Chalmers obteve seu doutorado na Universidade de Londres em 1971 e atualmente reside na Austrália. Além de sua carreira acadêmica e de ter editado diversos livros de divulgação científica traduzidos para vários idiomas, o autor possui uma trajetória curiosa: durante anos, ele pôde ser encontrado ocasionalmente trabalhando em uma fazenda de gado em Hunter Valley. Essa pluralidade de experiências reflete-se em sua escrita, que equilibra o rigor intelectual com uma visão pragmática e humana sobre o conhecimento. - es.wikipedia.org

domingo, 24 de maio de 2026

Anotações científicas - 28

Lord Kelvin - Sobre a Idade do Calor do Sol 


Introdução: O Brilho do Sol sob o Crivo da Termodinâmica Clássica

A tradução de "On the Age of the Sun’s Heat" (Sobre a Idade do Calor do Sol), publicado por Lord Kelvin em 1862 na Macmillan's Magazine, não é apenas um resgate documental; é um mergulho no epicentro de um dos debates científicos mais acalorados do século XIX. Disponibilizar este texto em língua portuguesa permite ao leitor contemporâneo testemunhar o ápice da Termodinâmica clássica aplicada à astrofísica, no exato momento em que a física vitoriana tentava impor limites matemáticos à idade da Terra e do Sistema Solar.


O Contexto Histórico e a Soberania da Termodinâmica

Na segunda metade do século XIX, a Termodinâmica consolidava-se como o pilar mais rigoroso da física. Lord Kelvin, um de seus principais arquitetos, aplicou as leis de conservação de energia (Primeira Lei) e da dissipação da entropia (Segunda Lei) para resolver um enigma milenar: qual é a fonte de energia que alimenta o Sol e há quanto tempo ela queima?

Até então, as ideias variavam entre a mera combustão química (revelada insuficiente, pois o Sol se esgotaria em poucos milênios) e o bombardeio meteórico constante (mecanismo defendido por Waterston e inicialmente pelo próprio Kelvin). Neste artigo, Kelvin refina a teoria da contração gravitacional (mecanismo de Helmholtz), propondo que o Sol gera calor ao se contrair lentamente sob sua própria gravidade, convertendo energia potencial gravitacional em energia térmica.

O Confronto com a Geologia e a Evolução Darwiniana

A importância histórica deste artigo reside no colossal "embate de titãs" que ele provocou. Ao calcular a taxa de dissipação térmica e o potencial gravitacional do Sol, Kelvin estimou a idade da nossa estrela (e, por extensão, da Terra habitable) entre 10 e 100 milhões de anos.

Para a física da época, o cálculo era irrefutável e matematicamente elegante. No entanto, o resultado caiu como uma bomba sobre duas disciplinas emergentes:

  • A Geologia: Que, liderada por Charles Lyell e o Uniformitarismo, exigia centenas de milhões de anos para explicar a formação das camadas sedimentares da Terra.

  • A Biologia Evolutiva: Charles Darwin, que havia publicado A Origem das Espécies em 1859, considerava as estimativas de Kelvin uma das maiores objeções à sua teoria, já que a seleção natural demandava um tempo vastamente superior para justificar a diversidade biológica observada.

A Fronteira do Desconhecido: O Cenário Pré-Física Nuclear

O que torna a leitura deste artigo profundamente instigante é o que podemos chamar de "a ironia da precisão". Kelvin estava metodologicamente impecável, utilizando a melhor física disponível em seu tempo. Sua matemática estava certa; sua premissa inicial é que estava incompleta.

O artigo foi escrito décadas antes da descoberta da radioatividade por Henri Becquerel (1896), dos modelos atômicos modernos e, fundamentalmente, antes do entendimento da fusão nuclear na década de 1920 e 1930 (através dos trabalhos de Jean Perrin, Arthur Eddington e, posteriormente, Hans Bethe). Kelvin operava em um universo onde o núcleo atômico sequer era suspeitado. Ele não poderia prever que, nas pressões e temperaturas do núcleo solar, a matéria violaria a física clássica através do tunelamento quântico, fundindo hidrogênio em hélio via a cadeia próton-próton e liberando energia através da equivalência massa-energia de Einstein (E=mc2).

Por que ler Kelvin hoje?

Traduzir e estudar "On the Age of the Sun’s Heat" nos ensina sobre a natureza da própria ciência. O texto exemplifica como modelos científicos perfeitamente lógicos e matematicamente coerentes podem falhar quando confrontados com uma mudança de paradigma latente. Mostra que o avanço do conhecimento não se faz apenas com acertos, mas com o tensionamento de teorias levadas ao seu limite conceitual.

Esta tradução visa preencher uma lacuna no acesso a fontes primárias da história da ciência em nossa língua, oferecendo a estudantes, físicos, historiadores e entusiastas a oportunidade de observar a mente de um dos maiores cientistas da história lidando com o motor do Sistema Solar, armado apenas com as ferramentas da mecânica e da termodinâmica clássica.


Lord Kelvin - On the Age of the Sun’s Heat - zapatopi.net 


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Sobre a Idade do Calor do Sol

Por Sir William Thomson (Lord Kelvin)

Macmillan's Magazine, vol. 5 (5 de março de 1862), pp. 388-393.


De reimpressão em Popular Lectures and Addresses, vol. 1, 2ª edição, pp. 356-375.


Observação: Por motivos de melhor leitura, traduzimos esse texto com outra divisão em parágrafos.

A segunda grande lei da termodinâmica envolve um certo princípio de ação irreversível na Natureza. Assim, demonstra-se que, embora a energia mecânica seja indestrutível, existe uma tendência universal à sua dissipação, o que produz um aumento e difusão graduais de calor, a cessação do movimento e o esgotamento da energia potencial em todo o universo material. [1] O resultado seria inevitavelmente um estado de repouso e morte universais, se o universo fosse finito e deixado a obedecer às leis existentes.

Mas é impossível conceber um limite para a extensão da matéria no universo; e, portanto, a ciência aponta mais para um progresso infinito, através de um espaço infinito, de ação que envolve a transformação da energia potencial em movimento palpável e daí em calor, do que para um único mecanismo finito, que se esgota como um relógio e para para sempre. Também é impossível conceber o início ou a continuidade da vida sem um poder criador preponderante; e, portanto, nenhuma conclusão da ciência dinâmica a respeito da condição futura da Terra pode ser considerada como oferecendo perspectivas desanimadoras quanto ao destino da raça de seres inteligentes que a habitam atualmente.


O objetivo proposto neste artigo é a aplicação desses princípios gerais à descoberta de limites prováveis ​​para os períodos de tempo, passados ​​e futuros, durante os quais o Sol pode ser considerado uma fonte de calor e luz. O assunto será discutido sob três tópicos:—


I. O resfriamento secular do Sol.

II. A temperatura atual do Sol.

III. A origem e a quantidade total de calor do Sol.


PARTE I. SOBRE O RESFRIAMENTO SECULAR DO SOL.


Não temos como determinar, ou sequer estimar de forma aproximada, o quanto o Sol realmente esfria de ano para ano. Em primeiro lugar, não sabemos se ele está perdendo calor. Pois é bastante certo que algum calor é gerado em sua atmosfera pela entrada de matéria meteórica; e é possível que a quantidade de calor gerada de ano para ano seja suficiente para compensar a perda por radiação. No entanto, também é possível que o Sol seja agora uma massa líquida incandescente, irradiando calor, seja ele criado primitivamente em sua substância, seja, o que parece muito mais provável, gerado pela queda de meteoros em tempos passados, sem compensação significativa pela continuidade da atividade meteórica.


Foi demonstrado [2] que, se a suposição anterior fosse verdadeira, os meteoros que teriam produzido o calor do Sol durante os últimos 2.000 ou 3.000 anos teriam estado, durante todo esse tempo, muito próximos da distância da Terra ao Sol e, portanto, teriam se aproximado do corpo central em espirais muito graduais; porque, se matéria suficiente para produzir o suposto efeito térmico caísse do espaço além da órbita da Terra, a duração do ano teria sido sensivelmente encurtada pelos acréscimos à massa do Sol que teriam ocorrido. A quantidade de matéria que cai anualmente teria, nessa suposição, sido equivalente a 1/47 da massa da Terra, ou a 1/15.000.000 da massa do Sol; e, portanto, seria necessário supor que a “Luz Zodiacal” correspondesse a pelo menos 1/5.000 da massa do Sol, para explicar, da mesma forma, um suprimento futuro de calor solar para 3.000 anos.

Quando essas conclusões foram publicadas pela primeira vez, foi apontado que se deveria procurar por “perturbações nos movimentos dos planetas visíveis”, pois elas nos forneceriam meios para estimar a possível quantidade de matéria na luz zodiacal; e conjecturou-se que essa quantidade não seria suficiente para fornecer o calor necessário para 30.000 anos, na taxa atual. Essas previsões foram, em certa medida, confirmadas pelas grandes pesquisas de Le Verrier sobre o movimento do planeta Mercúrio, que recentemente evidenciaram uma influência perceptível atribuível à matéria que circula, na forma de um grande número de pequenos planetas, em sua órbita ao redor do Sol. Mas a quantidade de matéria assim indicada é muito pequena; e, portanto, se o influxo meteórico que ocorre atualmente for suficiente para produzir uma porção apreciável do calor irradiado, deve-se supor que ele provenha de matéria que circula ao redor do Sol, a distâncias muito curtas de sua superfície.

A densidade dessa nuvem meteórica teria que ser tão grande que os cometas dificilmente teriam escapado, como de fato escaparam, sem apresentar efeitos detectáveis ​​de resistência, após passarem por sua superfície a uma distância igual a 1/8 de seu raio. Considerando tudo isso, parece haver pouca probabilidade na hipótese de que a radiação solar seja atualmente compensada, em qualquer grau apreciável, pelo calor gerado por meteoros que caem; e, como se pode demonstrar que nenhuma teoria química é sustentável, [3] deve-se concluir como mais provável que o Sol seja atualmente apenas uma massa líquida incandescente em processo de resfriamento. 


A magnitude do resfriamento do Sol de ano para ano torna-se, portanto, uma questão de extrema importância, mas que, no momento, não temos como responder. É verdade que dispomos de dados que nos permitiriam plausivelmente obter uma estimativa provável e, a partir deles, deduzir, com aparente confiança, limites, não muito amplos, dentro dos quais a taxa real de resfriamento do Sol deve se situar. Pois sabemos, pelas investigações independentes, porém concordantes, de Herschel e Pouillet, que o Sol irradia anualmente, de toda a sua superfície, cerca de 6 × 10³⁰ (seis milhões de milhões de milhões de milhões de) vezes mais calor do que o suficiente para elevar a temperatura de 1 libra de água em 1°C. Temos também excelentes razões para crer que a composição do Sol é muito semelhante à da Terra.

Os princípios de Stokes sobre a química solar e estelar têm sido explicados há muitos anos na Universidade de Glasgow, e ensina-se como primeiro resultado que o sódio certamente existe na atmosfera do Sol e nas atmosferas de muitas estrelas, mas que não é detectável em outras. A recente aplicação desses princípios nas esplêndidas pesquisas de Bunsen e Kirchhof (que fizeram uma descoberta independente da teoria de Stokes) demonstrou com igual certeza que existem ferro e manganês, e vários outros metais conhecidos, no Sol. O calor específico de cada uma dessas substâncias é menor que o calor específico da água, que, aliás, excede o de qualquer outro corpo terrestre conhecido, sólido ou líquido. Portanto, à primeira vista, pode parecer provável que o calor específico médio [4] de toda a substância do Sol seja menor, e muito certo que não possa ser muito maior, que o da água. Se fosse igual ao calor específico da água, bastaria dividir o número anterior (6 × 10³⁰), derivado das observações de Herschel e Pouillet, pelo número de libras (4,3 × 10³⁰) na massa do Sol, para encontrar 1,4 centésimos para a taxa anual atual de resfriamento.

Poderia, portanto, parecer provável que o Sol esfrie mais, e quase certo que não esfrie menos, do que um grau e quatro décimos centígrados anualmente. Mas, se essa estimativa fosse bem fundamentada, seria igualmente justo supor que a expansibilidade do Sol [5] com o calor não difere muito da de um corpo terrestre médio. Se, por exemplo, fosse a mesma que a do vidro sólido, que é cerca de 1/40.000 em volume, ou 1/120.000 em diâmetro, por 1,4 centésimo. (e para a maioria dos líquidos terrestres, especialmente em altas temperaturas, a expansibilidade é muito maior), e se o calor específico fosse o mesmo da água líquida, haveria em 860 anos uma contração de 1% no diâmetro do Sol, o que dificilmente teria passado despercebido por observações astronômicas.

Há, no entanto, uma razão muito mais forte do que esta para acreditar que tal contração não poderia ter ocorrido e, portanto, para suspeitar que as circunstâncias físicas da massa do Sol tornam a condição das substâncias que o compõem, em termos de expansibilidade e calor específico, muito diferente da condição das mesmas substâncias quando experimentadas em nossos laboratórios terrestres. A gravitação mútua entre as diferentes partes da massa em contração do Sol deve realizar uma quantidade de trabalho que não pode ser calculada com certeza, simplesmente porque a lei da densidade interna do Sol não é conhecida. A quantidade de trabalho realizada em uma contração de um décimo de por cento.

Se a densidade do diâmetro permanecesse uniforme em todo o interior, como Helmholtz demonstrou, seria igual a 20.000 vezes o equivalente mecânico da quantidade de calor que Pouillet estimou ser irradiada pelo sol em um ano. Mas, na realidade, a densidade do Sol deve aumentar muito em direção ao seu centro, e provavelmente em proporções variáveis, à medida que a temperatura diminui e toda a massa se contrai. Não podemos, portanto, afirmar se o trabalho efetivamente realizado pela gravitação mútua durante uma contração de um décimo por cento do diâmetro seria maior ou menor que o equivalente a 20.000 anos de calor; mas podemos considerá-lo como sendo, muito provavelmente, não muitas vezes maior ou menor que essa quantidade. Ora, é extremamente improvável que a energia mecânica possa, em qualquer caso, aumentar em um corpo que se contrai em virtude do resfriamento. É certo que ela diminui consideravelmente em todos os casos experimentados até o momento.

Deve-se supor, portanto, que o Sol sempre irradia calor em uma quantidade de energia superior ao equivalente em joules do trabalho realizado sobre sua massa em contração, pela gravitação mútua de suas partes. Consequentemente, ao se contrair em um décimo por cento de seu diâmetro, ou em três décimos por cento... Em sua massa, o Sol deve emitir algo igual ou superior a 20.000 anos de calor; e, portanto, mesmo sem evidências históricas sobre a constância de seu diâmetro, parece seguro concluir que nenhuma contração como a calculada acima (um por cento em 860 anos) pode ter ocorrido na realidade. Parece, ao contrário, provável que, na taxa atual de radiação, uma contração de um décimo de por cento no diâmetro do Sol não pudesse ocorrer em muito menos de 20.000 anos, e dificilmente possível que pudesse ocorrer em menos de 8.600 anos.

Se, então, o calor específico médio da massa do Sol, em sua condição atual, não for mais do que dez vezes o da água, a expansibilidade em volume deve ser inferior a 1/4000 por 100° Cent. (isto é, menos de 1/10 da do vidro sólido), o que parece improvável. Mas, embora essa consideração nos leve a crer que seja possível que o calor específico do Sol seja consideravelmente mais de dez vezes o da água (e, portanto, que sua massa esfrie consideravelmente menos de 100°C em 700 anos, uma conclusão que, de fato, dificilmente poderíamos evitar apenas por razões geológicas), os princípios físicos em que nos baseamos não nos dão qualquer razão para supor que o calor específico do Sol seja mais de 10.000 vezes o da água, porque não podemos afirmar que sua expansibilidade em volume seja provavelmente superior a 1/400 por 1°C. E há, por outros motivos, razões muito fortes para acreditar que o calor específico seja realmente muito menor que 10.000. Pois é quase certo que a temperatura média do Sol já seja tão alta quanto 14.000°C. E a maior quantidade de calor que podemos explicar, com alguma probabilidade, como tendo sido adquirida pelo sol por causas naturais (como veremos na terceira parte deste artigo), não poderia ter elevado sua massa a essa temperatura em nenhum momento, a menos que seu calor específico fosse menos de 10.000 vezes o da água. 


Podemos, portanto, considerar altamente provável que o calor específico do Sol seja mais de dez vezes e menos de 10.000 vezes o da água líquida. Disso se segue com certeza que sua temperatura cai 100°C em algum momento entre 700 e 700.000 anos.


O que devemos pensar, então, de estimativas geológicas como 300.000.000 de anos para a "denudação de Weald"? Seria mais provável que as condições físicas da matéria do Sol sejam 1.000 vezes mais diferentes do que a dinâmica nos leva a supor que sejam diferentes das da matéria em nossos laboratórios? Ou que um mar tempestuoso, possivelmente com marés do Canal da Mancha de extrema violência, invada um penhasco de giz 1.000 vezes mais rapidamente do que a estimativa do Sr. Darwin de 2,5 centímetros por século?


PARTE II. SOBRE A TEMPERATURA ATUAL DO SOL.


Na superfície do Sol, a temperatura não pode, como temos muitas razões para crer, ser incomparavelmente superior às temperaturas atingíveis artificialmente em nossos laboratórios terrestres.


Entre outras razões, pode-se mencionar que o Sol irradia calor de cada pé quadrado de sua superfície com uma potência de apenas cerca de 7.000 cavalos-vapor.[6] O carvão, queimando a uma taxa de pouco menos de meio quilo a cada dois segundos, geraria a mesma quantidade; e estima-se (Rankine, Prime Movers, p. 285, ed. 1852) que, nas fornalhas das locomotivas, o carvão queima a uma taxa de meio quilo a cada 30 segundos a meio quilo a cada 90 segundos por pé quadrado de grelha. Portanto, o calor é irradiado pelo Sol a uma taxa não superior a quinze a quarenta e cinco vezes a taxa de geração de calor nas grelhas de uma fornalha de locomotiva, por áreas iguais.


A temperatura interna do Sol é provavelmente muito mais alta do que a de sua superfície, porque a condução direta não desempenha um papel significativo na transferência de calor entre as porções interna e externa de sua massa, e deve haver um equilíbrio convectivo aproximado de calor em toda a sua extensão, se esta for um fluido. Ou seja, as temperaturas, a diferentes distâncias do centro, devem ser aproximadamente aquelas que qualquer porção da substância, se transportada do centro para a superfície, adquiriria por expansão sem perda ou ganho de calor.


PARTE III.  SOBRE A ORIGEM E A QUANTIDADE TOTAL DO CALOR DO SOL.


Considerando que, pelas razões já mencionadas, o Sol é um líquido incandescente que perde calor, surge naturalmente a questão: como se originou esse calor? É certo que ele não pode ter existido no Sol por uma eternidade, pois, enquanto existiu, deve ter sofrido dissipação, e a finitude do Sol impede a suposição de uma reserva primitiva infinita de calor em seu interior.


Portanto, o Sol deve ter sido criado como uma fonte ativa de calor em algum momento de antiguidade não imensurável, por um decreto supremo; ou o calor que ele já irradiou, e o que ainda possui, deve ter sido adquirido por um processo natural, seguindo leis permanentemente estabelecidas. Sem afirmar que a primeira suposição seja essencialmente inacreditável, podemos dizer com segurança que ela é extremamente improvável, se pudermos demonstrar que a segunda não contradiz as leis físicas conhecidas. E demonstramos isso e muito mais, simplesmente apontando para certas ações que ocorrem diante de nós atualmente e que, se suficientemente abundantes em algum momento passado, devem ter fornecido ao Sol calor suficiente para explicar tudo o que sabemos sobre sua radiação passada e sua temperatura atual.


Não é necessário, neste momento, entrar em detalhes sobre a teoria meteórica, que parece ter sido proposta inicialmente de forma definitiva por Mayer e, posteriormente, independentemente por Waterston; ou sobre a hipótese modificada dos vórtices meteóricos, que o autor deste artigo demonstrou ser necessária para que a duração do ano, como conhecida nos últimos 2.000 anos, não tenha sido sensivelmente alterada pelos aumentos de massa que o Sol deve ter sofrido durante esse período, caso o calor irradiado tenha sido sempre compensado pelo calor gerado pelo influxo meteórico.


Pelas razões mencionadas na primeira parte deste artigo, podemos agora acreditar que todas as teorias de compensação meteórica contemporânea completa ou quase completa devem ser rejeitadas. mas ainda podemos sustentar que —


“a ação meteórica . . . . não só está comprovada como causa do calor solar, como é a única de todas as causas concebíveis que sabemos existir a partir de evidências independentes.” [7]


A forma da teoria meteórica que agora parece mais provável, e que foi discutida pela primeira vez com base em princípios termodinâmicos verdadeiros por Helmholtz,[8] consiste em supor que o Sol e seu calor se originaram em uma coalizão de corpos menores, que caem juntos por gravidade mútua e geram, como devem fazer de acordo com a grande lei demonstrada por Joule, um equivalente exato de calor para o movimento perdido na colisão.


Que alguma forma da teoria meteórica seja certamente a explicação verdadeira e completa do calor solar dificilmente pode ser duvidado, quando consideradas as seguintes razões:


(1) Nenhuma outra explicação natural, exceto por ação química, pode ser concebida.


(2) A teoria química é bastante insuficiente, porque a ação química mais energética que conhecemos, ocorrendo entre substâncias que equivalem à massa total do Sol, geraria apenas o calor equivalente a cerca de 3.000 anos.[9]


(3) Não há dificuldade em explicar o calor de 20.000.000 anos pela teoria meteórica.


Explicar detalhadamente os princípios em que se baseia esta última estimativa tornaria este artigo demasiado extenso e exigiria cálculos matemáticos. Basta dizer que corpos, todos muito menores que o Sol, caindo juntos a partir de um estado de repouso relativo, a distâncias mútuas todas grandes em comparação com seus diâmetros, e formando um globo de densidade uniforme, com massa e diâmetro iguais aos do Sol, gerariam uma quantidade de calor que, calculada com precisão de acordo com os princípios de Joule e resultados experimentais, corresponde a apenas 20.000.000 vezes a estimativa de Pouillet para a quantidade anual de radiação solar. A densidade do Sol deve, com toda a probabilidade, aumentar muito em direção ao seu centro e, portanto, uma quantidade consideravelmente maior de calor do que aquela que se supõe ter sido gerada se toda a sua massa fosse formada pela aglomeração de corpos comparativamente pequenos. Por outro lado, não sabemos quanto calor pode ter sido dissipado pela resistência e por pequenos impactos antes da aglomeração final; Mas há razões para crer que mesmo a aglomeração mais rápida que possamos conceber provavelmente tenha ocorrido só poderia deixar o globo final com cerca de metade de todo o calor devido à quantidade de energia potencial da gravitação mútua esgotada. Podemos, portanto, aceitar, como estimativa mínima para o calor inicial do Sol, 10.000.000 vezes o suprimento anual na taxa atual, mas 50.000.000 ou 100.000.000, se possível, em consequência da maior densidade do Sol em suas partes centrais.


As considerações apresentadas acima, neste artigo, a respeito do possível calor específico do Sol, da taxa de resfriamento e da temperatura superficial, tornam provável que ele tenha sido sensivelmente mais quente há um milhão de anos do que agora; e, consequentemente, se ele existiu como um astro por dez ou vinte milhões de anos, deve ter irradiado consideravelmente mais do que o número correspondente de vezes a quantidade atual de perda anual.


Parece, portanto, no geral, muito provável que o Sol não ilumine a Terra há 100 milhões de anos, e quase certo que não o faça há 500 milhões de anos. Quanto ao futuro, podemos afirmar, com igual certeza, que os habitantes da Terra não poderão continuar a desfrutar da luz e do calor essenciais à sua vida por muitos milhões de anos, a menos que fontes ainda desconhecidas sejam preparadas no grande depósito da criação.


Notas de rodapé

[1] “On a Universal Tendency in Nature to the Dissipation of Mechanical Energy,” Proceedings of the Royal Society of Edinburgh, April 19, 1852; ou a Philosophical Magazine, October, 1852; also Mathematical and Physical Papers, Vol. I, Article LIX.
( “Sobre uma tendência universal na natureza à dissipação de energia mecânica”, Anais da Sociedade Real de Edimburgo, 19 de abril de 1852; ou Revista Filosófica, outubro de 1852; também Artigos Matemáticos e Físicos, Vol. I, Artigo LIX. )


[2] “On the Mechanical Energies of the Solar System,” Transactions of the Royal Society of Edinburgh, April, 1854, e Philosophical Magazine, December, 1854 (Mathematical and Physical Papers, Vol. II., Article LXVI.)
[ “Sobre as energias mecânicas do sistema solar”, Transações da Sociedade Real de Edimburgo, abril de 1854, e Revista Filosófica, dezembro de 1854 (Artigos Matemáticos e Físicos, Vol. II, Artigo LXVI). ]


[3] “Mechanical Energies of the Solar System.” (“Energias mecânicas do sistema solar”). Ver nota na pág. 351.


[4] O “calor específico” de um corpo homogêneo é a quantidade de calor que uma unidade de sua substância deve adquirir ou liberar para que sua temperatura suba ou desça 1°. O calor específico médio de uma massa heterogênea, ou de uma massa de substância homogênea, sob diferentes pressões em diferentes partes, é a quantidade de calor que todo o corpo absorve ou libera ao aumentar ou diminuir 1°C em sua temperatura, dividida pelo número de unidades em sua massa. A expressão “calor específico médio” do Sol, no texto, significa a quantidade total de calor efetivamente irradiada pelo Sol, dividida por sua massa, durante qualquer período em que a temperatura média de sua massa diminua 1°C, quaisquer que sejam as alterações físicas ou químicas que qualquer parte de sua substância possa sofrer.


[5] A “expansibilidade volumétrica”, ou a “expansibilidade cúbica”, de um corpo é uma expressão tecnicamente usada para denotar a proporção que o aumento ou a diminuição de seu volume, acompanhando uma elevação ou queda de 1°C em sua temperatura, representa em relação ao seu volume total a uma determinada temperatura. A expressão “expansibilidade do Sol”, usada no texto, pode ser entendida como a proporção entre a contração real, durante uma redução de sua temperatura média em 1°C, e seu volume atual.


[6] Um cavalo-vapor em mecânica é uma expressão técnica (seguindo a estimativa de Watt) usada para denotar uma taxa de trabalho na qual a energia está envolvida a uma taxa de 33.000 libras-pé por minuto. Isso, de acordo com a determinação de Joule sobre o valor dinâmico do calor, seria, se gasto inteiramente em forma de calor, suficiente para elevar a temperatura de 23¾ libras de água em 1°C por minuto.


[7] “Mechanical Energies of the Solar System.” (“Energias mecânicas do sistema solar”). Ver nota na pág. 351.


[8] Palestra popular proferida em 7 de fevereiro de 1854, em Königsberg, por ocasião da comemoração de Kant.


[9] “Mechanical Energies of the Solar System.” (“Energias mecânicas do sistema solar”). Ver nota na pág. 351.