quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Um artigo de Wolf-Ekkehard Lonnig

O Paradoxo de Lönnig: Quando a Estase Biológica vira Dogma do Design

O artigo de Wolf-Ekkehard Lönnig apresenta um dos desafios mais interessantes da biologia evolutiva moderna: o paradoxo da estase. Como é possível que o genoma seja um sistema "tremendamente dinâmico", em constante mutação, enquanto a morfologia de certas espécies permanece praticamente inalterada no registro fóssil por milhões de anos?

Lönnig, um conhecido proponente do Design Inteligente (DI), utiliza essa lacuna no gradualismo darwiniano não para sugerir novos mecanismos biológicos, mas para validar as hipóteses de Complexidade Irredutível e Complexidade Especificada.



A Estrutura da Crítica

Nesta análise, demonstraremos que, embora Lönnig identifique corretamente as limitações da Síntese Moderna clássica em explicar a constância das formas, sua conclusão falha por três motivos principais:

  1. Apropriação Indébita de Conceitos: Lönnig utiliza a "estase" descrita por Ernst Mayr e Stephen Jay Gould como se fosse uma evidência contra a evolução, ignorando que ambos os autores viam a estase como um fenômeno biológico explicável, e não como um milagre de engenharia.

  2. O "Deus das Lacunas" Genético: Ao invocar Behe e Dembski, o autor interrompe a investigação científica. Onde a ciência vê uma pergunta sobre genes reguladores e restrições de desenvolvimento, Lönnig vê uma barreira intransponível que só poderia ser superada por uma "inteligência externa".

  3. Ignorância da Evo-Devo: O texto desconsidera os avanços da Biologia Evolutiva do Desenvolvimento, que explica como sistemas complexos podem manter sua robustez (estase) e, ao mesmo tempo, sofrer mudanças rápidas através de mutações em chaves genéticas, sem a necessidade de "novas peças" projetadas do zero.



Primeiramente, quem é Wolf-Ekkehard Lonnig:

”É com prazer que apresento: finalmente, uma dissertação de mestrado na qual um jovem se opõe decisivamente a uma "vaca sagrada" (o neodarwinismo ou a teoria da descendência em geral) e demonstra os pontos fracos de uma doutrina que, para a maioria, é considerada não apenas uma teoria, uma grande síntese, mas um fato impecável e quase completamente comprovado. Sua opinião pessoal sobre o assunto pode ser encontrada claramente expressa em duas frases ao final da obra: "Os sistemas cibernéticos implementados na tecnologia pressupõem um projeto. Que conclusão poderia estar mais próxima da verdade do que postular isso também para a origem do mundo dos organismos?" (p. 131). Ora, não é verdade que o Sr. L. esteja isolado em seu ponto de vista. Ele já no primeiro capítulo lista diversos botânicos e zoólogos renomados que também consideram o neodarwinismo inadequado. Neste ponto, é preciso observar que o Sr. L. não apenas conhece de nome e citação a literatura relevante, mesmo na área da zoologia, mas também a estudou de forma excelente, mesmo quando se trata de grandes volumes… O Sr. L. basicamente chega às mesmas conclusões que meus próprios professores de botânica, Karl von Goebel e Wilhelm Troll, tiraram de seus trabalhos, e que Troll certa vez formulou de forma tão precisa: “…é o mesmo fenômeno básico da unidade na diversidade que, por um lado, sugere processos físicos, por outro, sugere algo maior que a soma de suas partes (Gestalt) e, em um sentido mais elevado, permite reconhecer o Logos no Bios.

“O Sr. L. era Wolf-Ekkehard Lönnig, bem conhecido pelos leitores do Evolution News, que viria a obter um doutorado em genética pela Universidade de Bonn e a atuar como cientista pesquisador por mais de 25 anos, estudando genética e mutações de plantas, no Instituto Max Planck de Pesquisa em Melhoramento de Plantas, em Colônia. Há meio século ele critica o darwinismo e promove o design inteligente.”

Wolf-Ekkehard Lönnig: An Intelligent Design Pioneer - Granville Sewell - April 21, 2021 —
scienceandculture.com

Cópia do artigo que trataremos nos nossos arquivos:

 
Wolf-Ekkehard Lonnig - Dynamic genomes morphological stasis origin irreducible complexity

docs.google.com 


Resumo

Apesar da enorme quantidade de fluxo genético em plantas e animais, acredita-se que os processos genéticos básicos e as principais características moleculares tenham persistido essencialmente inalterados por mais de três bilhões e meio de anos, e os mecanismos moleculares da ontogenia animal por mais de um bilhão de anos. Além disso, a sistemática se baseia em características virtualmente constantes no espaço e no tempo – caso contrário, este importante ramo da biologia não seria possível. Ademais, o registro fóssil exibe um padrão regular de aparecimento abrupto de novas formas de vida (em vez de seu surgimento por inúmeros pequenos passos, à maneira darwiniana), seguido pela constância de características sistemáticas superiores, frequentemente a partir do nível de gênero, e, em muitos casos, sucedido por um desaparecimento igualmente abrupto das principais formas de vida, que se extinguiram após diferentes períodos de tempo. Como admitiu recentemente o decano da teoria sintética, Ernst Mayr, de Harvard, essa constância (estase) das formas de vida diante de genomas tremendamente dinâmicos é um dos maiores problemas da biologia evolutiva contemporânea e exige uma explicação. Concordando com diversos pesquisadores, menciono argumentos e fatos que sustentam a visão de que a complexidade irredutível (Behe), em combinação com a complexidade especificada (Dembski), caracteriza os sistemas biológicos básicos e que essas hipóteses podem apontar para uma solução não gradualista do problema. 


É fascinante observar como Lönnig constrói esse argumento. Ele utiliza o que chamamos de "anomalias reais" da biologia (como a estase morfológica e as lacunas no registro fóssil) para tentar validar as hipóteses do Design Inteligente (DI), como a Complexidade Irredutível.

O "pulo do gato" (ou a "besteira", como certa vez mencionamos) está na forma como ele interpreta a estase. Vamos decompor os pontos principais:

1. O Paradoxo da Estase vs. Dinamismo Genético

Lönnig cita Ernst Mayr corretamente: é um fato que organismos mantêm formas físicas quase idênticas por milhões de anos (estase), mesmo que seu DNA esteja mudando constantemente.

  • A visão da Biologia Evolutiva: A seleção estabilizadora e as restrições de desenvolvimento (constraints) explicam por que um plano corporal que funciona não muda, mesmo com mutações ocorrendo.

  • A visão de Lönnig: Ele sugere que essa constância prova que os sistemas são "travados" por um design que não permite a transição gradualista.

2. O Apelo ao "Equilíbrio Pontuado"

Ele se apropria de observações de Stephen Jay Gould e Niles Eldredge sobre o registro fóssil (aparecimento abrupto e estase). No entanto, Gould sempre enfatizou que o "abrupto" no tempo geológico ainda envolve milhares de anos e processos biológicos naturais — enquanto Lönnig usa isso como uma brecha para introduzir a descontinuidade do DI.

3. A Mistura de Conceitos: Behe + Dembski

Ao final, ele tenta unificar as frentes do DI:

  • Behe (Complexidade Irredutível): O argumento de que certos sistemas não funcionam se faltar uma peça.

  • Dembski (Complexidade Especificada): O argumento probabilístico de que a informação biológica é "improvável" demais para o acaso.

O ponto crítico: Lönnig ignora que a genética moderna e a biologia do desenvolvimento (Evo-Devo) já oferecem explicações para como mudanças em genes reguladores podem causar saltos morfológicos significativos sem violar as leis da física ou da biologia.

Por que isso é considerado problemático na academia?

A ciência trabalha com naturalismo metodológico. Lönnig aponta um problema real (a dificuldade de explicar a estase total via síntese moderna pura), mas em vez de buscar mecanismos biológicos desconhecidos, ele recorre a uma "solução" que interrompe a investigação científica: o design.

Extra

Evolução não darwiniana e criacionismo

Infelizmente, a maioria dos criacionistas religiosos e defensores do design inteligente geralmente equiparam a evolução ao "darwinismo", e é evidente que muitos desses autores fazem isso de propósito, por desonestidade. Quando fica claro que cientistas ou escritores não darwinianos estão apenas debatendo o papel da seleção natural na evolução e os mecanismos que a originaram, os criacionistas frequentemente citam e distorcem citações desses cientistas numa tentativa de criar a impressão de que eles estavam, na verdade, negando a evolução.


Em 2011, o biólogo A. L. Hughes publicou um artigo intitulado "Evolução de características fenotípicas adaptativas sem seleção darwiniana positiva", no qual propôs um mecanismo não darwiniano de adaptação que denominou "plasticidade-relaxamento-mutação" (PRM). O artigo foi mal interpretado e citado indiscriminadamente por criacionistas para sugerir que a evolução está em colapso. 


O escritor Jean Staune, defensor do design inteligente, escreveu um artigo sobre evolução não darwiniana e listou Michael Denton e Michael Behe ​​como "evolucionistas não darwinianos", já que eles aceitam a descendência comum. Staune afirma que o caminho a seguir para o movimento do design inteligente é que os defensores do design inteligente aceitem a descendência comum, mas proponham mecanismos não darwinianos para minimizar ou substituir a seleção natural. No entanto, fica claro no artigo de Staune que ele não tem interesse em propor quaisquer mecanismos naturais para a evolução e está interessado apenas em especulação metafísica.


Os criacionistas também descreveram incorretamente o equilíbrio pontuado (EP) como "não darwiniano". Richard Dawkins declarou que "[o EP] está firmemente inserido na síntese neodarwiniana" em seu livro O Relojoeiro Cego.


rationalwiki.org - Non-Darwinian evolution - Non-Darwinian evolution and creationism 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Um artigo “científico” criacionista

Há alguns anos um conhecido criacionista brasileiro publicou um artigo criacionista dito “científico” numa revista predatória.[Nota 1]


Finalmente, resolvemos tratá-lo.


Neto, Sodre & Alves, Everton & Sá, Mariana. (2017). Speciation in real time and historical-archaeological and its absence in geological time. Academia Journal of Scientific Research. 5. 188-196. - www.researchgate.net - Versão em PDF 


Nos nossos arquivos: [ AJSR-17-413pdf-reviewed ]

Resumo traduzido

“Durante décadas, a biologia evolutiva tem se esforçado para compreender o significado de "espécie" e explicar o processo de formação. Atualmente, existem mais de vinte conceitos diferentes de espécie. O uso de diferentes conceitos leva a comparações impróprias e enganosas. Por outro lado, biólogos catastróficos usaram por décadas o termo "tipo" ou "grupo" para o que consideravam categorias de organismos não geneticamente relacionados. Assim, cada uma das várias categorias de espécies, subespécies e variedades observadas hoje foi concebida para diversificar um tipo ancestral comum básico. Padrões morfológicos relacionados ao sexo do táxon foram identificados com fósseis ancestrais enterrados em uma base recente catastrófica; Este modelo nos conta a história de um período de: 1) especiação rápida, 2) permanência com um grande número de espécies em um ambiente estável (repetição fóssil sem pressões evolutivas ambientais), 3) desastre seguido por soterramento em massa da população viva, evidenciado pela repetição das mesmas espécies fósseis (o que prejudica a pontualidade), 4) presença de várias espécies diferentes juntas no registro fóssil, muitos fósseis de vertebrados (o que caracteriza um desastre de grande magnitude e altas taxas de sedimentação) e 5) mudanças ambientais drásticas causando radiação de espécies em amostras de camadas recentes e em milhões de espécies na biodiversidade atual.”


Análise Crítica: O Mimetismo Científico no Discurso Catastrofista

O resumo em questão é um exemplo clássico de como a terminologia técnica pode ser sequestrada para dar um vernáculo de credibilidade a modelos que ignoram os pilares da geologia e da biologia modernas. A estratégia do texto baseia-se em três eixos de distorção:

1. A Fragmentação do Conceito de Espécie O autor inicia apontando, corretamente, que existem múltiplos conceitos de espécie na biologia. No entanto, ele utiliza essa complexidade acadêmica como uma "cortina de fumaça". O objetivo não é resolver a questão taxonômica, mas sim desacreditar a ancestralidade comum, sugerindo que, por não haver um consenso absoluto sobre o termo "espécie", as comparações evolutivas seriam inerentemente enganosas.

2. A Reabilitação do "Tipo" (Baraminologia) A substituição de clados evolutivos pelo termo "tipo" ou "grupo" é a peça central da estrutura pseudocientífica. Ao alegar que diferentes categorias (espécies, subespécies) foram "projetadas" para diversificar um ancestral comum básico, o texto tenta validar o conceito de baramin.[Nota 2] Isso permite que o autor aceite a adaptação biológica em pequena escala (microevolução), enquanto impõe uma barreira arbitrária e mística que impediria a macroevolução.

3. O Registro Fóssil como Fotografia de um Desastre Único O texto reinterpreta a sedimentação geológica através de uma lente puramente catastrofista. A "repetição do mesmo fóssil" e o "sepultamento de populações vivas" são descrições que tentam sustentar a ideia de um evento de inundação global recente (o Dilúvio). Para isso, ignora-se a cronologia das camadas geológicas e a datação radiométrica, tratando milhões de anos de deposição gradual como um evento de alta energia e curta duração.

Conclusão sobre esse resumo

Em suma, o resumo não busca expandir o conhecimento biológico, mas sim ajustar os dados observáveis a uma conclusão prévia e externa ao método científico. É um texto que "fala" como ciência, mas "pensa" como dogma, utilizando revistas predatórias como um atalho para obter um selo de validade que o rigor dos pares jamais concederia.


As afirmadas conclusões

Mas como se aprende necessariamente em Ciência, não se toma adequadamente um artigo científico pelo seu resumo, e sim pelas suas conclusões:

“Padrões morfológicos em torno do táxon do gênero (MPGT) são identificados com ancestrais básicos soterrados por catastrofismo (ABRC), visto que esse modelo está de acordo com o fato da rápida especiação observada, que exigiria uma variabilidade proporcional muito grande no registro fóssil se este representasse milhões de anos de evolução. Além disso, a ausência dessa variação taxonômica é confirmada pela estase morfológica, repetição das mesmas espécies e 4229 gêneros de fósseis vivos. Tal quadro reflete um soterramento repentino dos seres vivos no planeta, e não uma história evolutiva normal da vida. Relatos de especiação na história e na arqueologia, que justificam toda a biodiversidade em um curto período, também indicam que deveria haver muito mais variabilidade no registro fóssil do que existe. A explosão cambriana, a ausência de variabilidade fóssil na amostragem (estase fóssil morfológica) e a falta de radiação no registro fóssil até o Pleistoceno, contam-nos a história de um período de: 1) surgimento rápido, 2) permanência de um grande número de espécies em um ambiente estável (repetição fóssil sem pressões evolutivas ambientais), 3) desastre causando o soterramento massivo de populações vivas, evidenciado pela repetição das mesmas espécies fósseis (o que prejudica a pontualidade), 4) presença de várias espécies diferentes juntas no registro fóssil, fósseis de animais vertebrados enormes inteiros (o que caracteriza um desastre de grande magnitude e altas taxas de sedimentação) e 5) mudanças ambientais drásticas causando radiação de espécies em amostras de camadas recentes e em milhões de espécies na biodiversidade atual.”

A Anatomia da Conclusão: Distorção e Omissão

O texto final abandona qualquer sutileza e foca em três pilares que parecem sólidos para um leigo, mas que desmoronam sob análise:

1. O Paradoxo da Variabilidade Proporcional O autor afirma que, se houvesse milhões de anos de evolução, deveríamos ver uma "variabilidade proporcional" gigantesca nos fósseis.

  • O erro: Ele ignora o conceito de Equilíbrio Pontuado (Gould e Eldredge). A evolução não é uma rampa constante de mudanças; espécies podem permanecer em estase morfológica por milhões de anos se o ambiente estiver estável. O autor usa a estase (que é um fato biológico) não para entender a seleção estabilizadora, mas para alegar que "nada mudou porque não houve tempo".

2. O Sequestro da Explosão Cambriana A menção à Explosão Cambriana é o "padrão ouro" desse tipo de literatura.

  • A distorção: Ele a utiliza para sugerir um "aparecimento repentino" de tudo. No entanto, a ciência moderna já identificou precursores pré-cambrianos (a fauna de Ediacara).[Nota 3] Além disso, a "explosão" durou milhões de anos — um piscar de olhos geológico, mas uma eternidade se comparada à cronologia de "curto prazo" que o artigo defende.

3. A Falácia dos 4.229 Gêneros de Fósseis Vivos Ao citar "fósseis vivos", o autor tenta sugerir que, se o organismo não mudou, o tempo não passou.

  • A realidade: "Fóssil vivo" é um termo coloquial, não taxonômico. O fato de um Celacanto atual ser morfologicamente parecido com um de 400 milhões de anos não significa que a espécie é a mesma, mas que o seu bauplan (plano corporal) é extremamente eficiente para o seu nicho. O autor ignora as mudanças genéticas invisíveis à morfologia fóssil.

4. O "Desastre de Grande Magnitude" A conclusão aglutina fósseis de vertebrados e altas taxas de sedimentação como prova de um evento único.

  • A omissão: Ele ignora a bioestratigrafia. Se todos os animais tivessem morrido no mesmo desastre catastrófico (o Dilúvio implícito), encontraríamos fósseis de dinossauros, humanos, trilobitas e baleias misturados na mesma camada. Na realidade, o registro fóssil é estritamente ordenado: você nunca encontrará um plesiossauro na mesma camada que um mamute.

Ao analisarmos as conclusões do autor, percebemos que o argumento se sustenta em um falso dilema: ou o registro fóssil apresenta uma variação morfológica infinita e gradual, ou ele prova um soterramento catastrófico recente. Ao ignorar o Equilíbrio Pontuado e a seleção estabilizadora, o texto trata a estase morfológica — um fenômeno evolutivo bem documentado — como uma evidência de ausência de tempo geológico. A menção aos '4229 gêneros de fósseis vivos' é uma tentativa retórica de invalidar a macroevolução através de exemplos de sucesso adaptativo de longo prazo, omitindo o fato crucial de que o registro fóssil é estratificado e ordenado, algo impossível em um cenário de soterramento catastrófico único. 


Notas


1.Revistas predatórias são publicações acadêmicas fraudulentas que cobram taxas (APCs, Taxa de Processamento de Artigos) para publicar artigos sem realizar uma avaliação por pares adequada, explorando a pressão por publicação. Elas se aproveitam do modelo de acesso aberto, prometem publicação rápida e enviam e-mails de spam agressivos, visando lucro em detrimento da qualidade científica, prejudicando a reputação dos autores e o conhecimento gerado, e são identificadas por falta de transparência, escopo genérico e informações falsas sobre impacto. 


2.Um baramin é um conceito criacionista que se refere a um "tipo criado", um grupo de organismos descendentes de um ancestral comum especialmente criado por Deus, conforme descrito no Gênesis, formando uma unidade de classificação na biologia criacionista conhecida como Baraminologia. O termo combina o hebraico bara (criado) e min (tipo/espécie) e postula que, enquanto a evolução (microevolução) pode ocorrer dentro de um baramin (como diferentes cães), ela não pode criar um novo baramin (um cão não vira um gato).

BARAMITOLOGIA – O SISTEMA PSEUDOCIENTÍFICO DE CLASSIFICAÇÃO - netnature.wordpress.com

3.Entende-se por Biota Ediacarana, um enigmático conjunto de seres de aspecto tubular e sésseis em forma de fronde que viveram durante o Período Ediacarano. Como até recentemente o nome do Período Ediacarano era Vendiano, também se usa a denominação Biota Vendiana.


Fauna Ediacara - Vida marinha do período Ediacarano. Ilustração da vida marinha encontrada nos mares entre 580 milhões e 560 milhões de anos atrás, no que é conhecido como Período Ediacarano. Este período recebeu o nome das Colinas Ediacaranas do sul da Austrália, onde fósseis desses animais e plantas são encontrados. Este período se sobrepõe ao período Vendiano, mais longo, sendo ambos parte da era Pré-Cambriana. Fósseis semelhantes são encontrados em rochas do Vendiano em todo o mundo. Na imagem, vemos: medusa (Ediacaria flindersi, branca); Mawsonites spriggi (azul); Kimberella quadrata (em forma de bala); penas-do-mar (Charniodiscus arboreus e Charniodiscus oppositus); platelmintos (Dickinsonia costata, no fundo do mar); e algas (tufo verde-escuro). - www.sciencephoto.com 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Pseudomatemática, novamente

“A pseudomatemática é uma atividade pseudocientífica que usa o vocabulário e os métodos da matemática de forma não rigorosa.” - pt.wikipedia.org - Pseudomatemática 


A primeira parte de nossa apresentação desse interessante campo pseudocultural está em:

Cantor novamente e pseudomatemática - Scientia est Potentia - 21 de janeiro de 2021 


Recentemente, tratamos certos pontos específicos em:

O Purgatório dos Números - A Ascensão da Pseudomatemática - Scientia est Potentia - 2 de janeiro de 2026 




Pseudomatemática, ou excentricidade matemática, é uma forma de atividade semelhante à Matemática que visa promover um conjunto de crenças questionáveis ​​que não aderem à estrutura de rigor da prática matemática formal. A pseudomatemática tem equivalentes em outros campos científicos, como a pseudofísica, e se sobrepõe a estes até certo ponto.


A pseudomatemática frequentemente contém uma grande quantidade de falácias matemáticas, cujas execuções estão ligadas a elementos de engano, em vez de tentativas genuínas e malsucedidas de resolver um problema. Na maioria das vezes, a busca excessiva de pseudomatemática pode resultar em o praticante ser rotulado de excêntrico. Por ser baseada em princípios não matemáticos, a pseudomatemática não está relacionada a tentativas de provas genuínas que contêm erros. Na verdade, tais erros são comuns nas carreiras de matemáticos amadores, alguns dos quais continuariam a produzir resultados célebres.


O tópico da ”crankery (manivela) matemática” foi extensivamente estudado pelo matemático Underwood Dudley, que escreveu várias obras populares sobre matemáticos crank e suas ideias. 


en.wikipedia.org - Pseudomathematics  


Nota

Crank [“manivela”, e pode-se entender no Brasil como “pedalar, ou pedalada”, ou, nos termos deste tradutor, “(o que dá ou dar) balão, baloeiro”] é um termo pejorativo usado para uma pessoa que mantém uma crença inabalável que a maioria de seus contemporâneos consideram falsa. Uma crença excêntrica está tão em desacordo com as comumente defendidas que é considerada ridícula. Os excêntricos normalmente rejeitam todas as evidências ou argumentos que contradizem suas próprias crenças não convencionais, tornando qualquer debate racional uma tarefa fútil e tornando-os impenetráveis ​​aos fatos, evidências e inferências racionais.


en.wikipedia.org - Crank (person)  


Exemplos

Um tipo comum de abordagem é alegar ter resolvido problemas clássicos que se provaram matematicamente impossíveis. Exemplos comuns disso incluem as seguintes construções na geometria euclidiana — usando apenas bússola e régua:


  • Quadratura do círculo: dado qualquer círculo desenhando um quadrado com a mesma área.

  • Dobrando o cubo: Dado qualquer cubo desenhando um cubo com o dobro do seu volume.

  • Trissecção do ângulo: dado qualquer ângulo, dividindo-o em três ângulos menores, todos do mesmo tamanho. 


Por mais de 2.000 anos, muitas pessoas tentaram e não conseguiram encontrar tais construções; no século XIX, eles foram provados impossíveis.  


Outra abordagem comum é interpretar mal os métodos matemáticos padrão e insistir que o uso ou o conhecimento da matemática superior é de alguma forma trapaça ou enganosa (por exemplo, a negação do argumento diagonal de Cantor e os teoremas da incompletude de Gödel). en.wikipedia.org - Pseudomathematics 

 
História


O termo pseudomath (“pseudomata”) foi cunhado pelo lógico Augustus De Morgan, descobridor das leis de De Morgan, em seu A Budget of Paradoxes (1915). De Morgan escreveu:


O ‘pseudomath’ é uma pessoa que lida com a matemática como o macaco manuseia a navalha. A criatura tentou se barbear como vira seu mestre fazer; mas, não tendo qualquer noção do ângulo em que a navalha seria segurada, ele cortou a própria garganta. Ele nunca tentou uma segunda vez, ‘pobre animal’! mas o ‘pseudomath’ continua em seu trabalho, se autoproclama barbeado e todo o resto do mundo peludo. 


De Morgan deu como exemplo de um pseudomata um certo James Smith que afirmou persistentemente ter provado que π é exatamente 3+⅛ (3,125). Sobre Smith, De Morgan escreveu: "Ele é, sem dúvida, o mais capaz de irracionalizar, e a maior mão em escrevê-lo, de todos os que tentaram em nossos dias atribuir seus nomes a um erro." O termo ‘pseudomath’ foi adotado posteriormente por Tobias Dantzig. Dantzig observou:


Com o advento dos tempos modernos, houve um aumento sem precedentes na atividade pseudomatemática. Durante o século XVIII, todas as academias científicas da Europa viram-se sitiadas por ‘quadratores’ (de círculos), ‘trissectores’ (de ângulos), duplicadores (de cubos), além de projetistas de ‘motos perpétuos’, clamando ruidosamente pelo reconhecimento de suas conquistas que marcariam época. Na segunda metade daquele século, o incômodo se tornou tão insuportável que, uma a uma, as academias foram obrigadas a interromper o exame das soluções propostas. 


O termo pseudomatemática foi aplicado a tentativas nas ciências mentais e sociais de quantificar os efeitos do que é tipicamente considerado qualitativo. Mais recentemente, o mesmo termo foi aplicado às tentativas criacionistas de refutar a teoria da evolução, por meio de argumentos espúrios supostamente baseados na teoria da probabilidade ou complexidade. 


Notas


O honesto π egípcio

Os egípcios usavam uma aproximação de Pi (π) de cerca de 3,1605, derivada de um método geométrico no Papiro de Rhind (cerca de 1650 a.C.), calculando a área de um círculo como a de um octógono com diâmetro dividido em 9 partes, resultando em aproximadamente 8/9 do quadrado do diâmetro, o que equivale a substituir o círculo de diâmetro d por um quadrado de lado 8/9 do diâmetro, e pelo cálculo da área desse quadrado chegar a um π de aproximadamente 3,16049... Esse valor era prático e preciso para a época, antecipando a ideia de usar polígonos para estimar o círculo. Esse valor representa um erro a maior de apenas pouco mais de 0,6%, o que, exemplificando, poderia representar um erro de 60 cm numa circunferência de 100 metros, num raio de 15,9 metros.

Deixemos bem claro que isso não é pseudomatemática, e sim, os fundamentos do que muito posteriormente chamaríamos de Cálculo Numérico, soluções mesmo que imprecisas se aproximando da solução exata, e resolvendo problemas de engenharia.

Enquanto um 'crank' gasta 40 anos tentando quadrar o círculo para ganhar um prêmio imaginário, o egípcio gastava 10 minutos para garantir que o silo de trigo não transbordasse. Enquanto o pseudomatemático moderno se perde em fluxos ligantes e constantes ontológicas, o escriba Ahmes, há 3.600 anos, já sabia que a geometria é o triunfo do fazer sobre o fantasiar. Ele não precisava que π fosse exato; ele precisava que a pirâmide ficasse de pé.

Aproximação de PI pelos Egípcios - “kleberkilhian” , 27/04/2012 - www.emdialogo.uff.br


A sempre desejada máquina eterna 


"Moto perpétuo" (ou Perpetuum Mobile) refere-se a uma máquina hipotética que funcionaria indefinidamente sem fonte externa de energia. Na física real, tal dispositivo é uma impossibilidade absoluta, pois violaria a Primeira e a Segunda Leis da Termodinâmica. No entanto, na pseudomatemática, e sua consequente pseudofísica, o moto perpétuo é o "Santo Graal" dos inventores de garagem. Eles tentam, através de diagramas labirínticos e cálculos que ignoram o atrito e a entropia, mais recentemente correntes parasitas em dínamos e motores, provar que é possível extrair trabalho do nada. Se a quadratura do círculo é a tentativa de "vencer" a geometria, o moto perpétuo é a tentativa vã de "vencer" o tempo e a degradação da energia, muitas vezes recorrendo a termos como "energia vibracional" ou "fluxo ligante" para mascarar o fato de que a conta, simplesmente, não fecha. - pt.wikipedia.org - Moto-contínuo