terça-feira, 29 de setembro de 2026

TERRA JOVEM REFUTADA, A RELEITURA - 5

O acúmulo de sedimentos marinhos 


Continuando Nossa Jornada: O Mito do Acúmulo de Sedimentos Marinhos

Chegamos ao quinto argumento clássico do repertório da Terra Jovem: a tese do fluxo de sedimentos e sais minerais para os oceanos, divulgada por Henry Morris em 1974.

A alegação de Morris é simples na superfície: mede-se a quantidade de um determinado elemento químico (como níquel, alumínio ou sódio) despejada anualmente pelos rios nos oceanos, divide-se a quantidade total existente no mar por esse fluxo e — pronto! — obtém-se o tempo necessário para acumular esse mineral, o que definiria a idade dos oceanos.

Contudo, este argumento é um dos casos mais flagrantes de seleção arbitrária de dados (cherry-picking) e de total desconhecimento dos ciclos geoquímicos do planeta.


 

TERRA JOVEM REFUTADA - cienciaxreligiao.blogspot.com  


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No nosso Google Drive:  https://docs.google.com/document/d/1n8KFzFablC95NfOWw--BmXsG-iG0sgh0gVIDc8pofHA/edit?tab=t.0
 

1. A Aberração dos Números Escolhidos a Dedo

Na tabela apresentada por Morris em seu livro Scientific Creationism, os "cálculos de idade" para os oceanos variavam de forma absurda dependendo do elemento escolhido:

  • Sódio: 260.000.000 de anos

  • Prata: 2.100.000 de anos

  • Urânio: 500.000 anos

  • Níquel: 9.000 anos

  • Alumínio: 100 anos

Diante dessa dispersão monumental, qual foi a atitude de Morris? Ele simplesmente escolheu o níquel (9.000 anos) para declarar que o oceano tinha um "limite superior de idade" compatível com o dogma de uma Terra recente, ignorando o sódio e a prata.

Se o método fosse válido, seguir a métrica do alumínio (100 anos) obrigaria a concluir que o oceano se formou no século XX e que eventos como a Primeira Guerra Mundial ou a Revolução Francesa nunca existiram — ou que o universo já foi criado com o mar cheio de alumínio para dar a "impressão de antiguidade".

2. O Erro Físico: Confundir "Idade" com "Tempo de Residência"

O erro metodológico crucial de Morris foi tratar os oceanos como um balde fechado onde os elementos só entram, mas nunca saem.

Na geoquímica real, os oceanos estão em estado de equilíbrio dinâmico:

  • Entradas e Saídas: Os minerais chegam aos oceanos trazidos pelos rios, poeira atmosférica e ventos hidrotermais, mas também saem dos oceanos por diversos processos físicos, químicos e biológicos.

  • Processos de Remoção: Minerais são removidos por precipitação química, absorção por organismos vivos (que formam conchas e esqueletos no fundo do mar), troca iônica com o basalto oceânico e pela subducção das placas tectônicas, que enterra o assoalho marinho de volta no manto terrestre.

  • Tempo de Residência: O cálculo feito por Morris não mede a idade da Terra, mas sim o tempo médio de residência de um elemento na água do mar antes que ele seja removido por reações químicas ou físicas. Elementos altamente reativos (como o alumínio) têm um tempo de residência curtíssimo (décadas), enquanto elementos solúveis e menos reativos (como o sódio e a prata) permanecem na água por milhões de anos.

3. O Ciclo Térmico e a Tectônica de Placas

O modelo de Morris ignora completamente a tectônica de placas — o mecanismo fundamental da geologia moderna. O fundo oceânico não é um depósito estático. Ele atua como uma gigantesca esteira rolante: a crosta oceânica é criada nas dorsais e continuamente reciclada e destruída nas zonas de subducção. Esse ciclo continuo purifica e renova a química dos mares ao longo de centenas de milhões de anos.

Análise Comparativa dos Modelos


Elemento de Análise

Tese dos Sedimentos (Henry Morris)

Geoquímica e Tectônica de Placas

Premissa Química

Oceanos são recipientes fechados onde sais só se acumulam.

Oceanos são sistemas abertos em equilíbrio dinâmico de entrada e saída.

O que o Número Mede

A suposta "idade" máxima da Terra/Oceanos.

O tempo de residência geoquímico de um elemento na água.

Seleção de Dados

Cherry-picking: adota o níquel (9 mil anos) e descarta o sódio e o alumínio.

Considera as taxas de reatividade e remoção de todos os elementos.

Mecanismo de Saída

Desconhecido ou negado.

Precipitação, consumo biológico e reciclagem por subducção tectônica.


A tentativa de usar taxas de acúmulo mineral desprovidas de seus mecanismos de remoção foi um erro primário de química e geologia. Os oceanos não são pilhas estáticas de lixo mineral, mas componentes vivos de um ciclo planetário de reciclagem de matéria que opera de forma estável há bilhões de anos. 


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Anotações científicas - 50

Inibidores do VMAT2: Da Farmacologia Molecular ao Tratamento dos Transtornos do Movimento

Dando continuidade à nossa jornada sobre as múltiplas facetas do transportador vesicular de monoaminas 2 (VMAT2), passamos agora do campo da adicção para a terapêutica clínica. Enquanto os artigos anteriores exploraram como o VMAT2 interage com a espiritualidade e com drogas de abuso, o trabalho de Aparna Tarakad e Joohi Jimenez-Shahed (2018), publicado no periódico CNS Drugs, examina como a modulação direcionada dessa proteína se transformou em uma ferramenta poderosa no tratamento de distúrbios neurológicos e psiquiátricos.


 

O Alvo Terapêutico: Controlando o Excesso de Dopamina

Os gânglios da base e as vias dopaminérgicas do cérebro são cruciais para a coordenação motora. Quando há uma hiperatividade nesses circuitos, surgem os chamados transtornos do movimento hipercinéticos — condições caracterizadas por movimentos involuntários, bruscos e repetitivos, como a coreia (observada na doença de Huntington) e a discinesia tardia (frequentemente associada ao uso prolongado de medicamentos bloqueadores de dopamina).

É exatamente aqui que entram os inibidores do VMAT2. Ao bloquear a ação desse transportador nas terminações nervosas pré-sinápticas, esses medicamentos impedem que a dopamina seja empacotada em vesículas. Sem esse armazenamento, o neurotransmissor fica exposto à degradação enzimática no citoplasma, reduzindo de forma global a quantidade de dopamina liberada na fenda sináptica e, consequentemente, atenuando os movimentos hipercinéticos indesejados.

A Evolução Farmacológica: Da Tetrabenazina aos Agentes Modernos

O artigo detalha a evolução de três principais fármacos dessa classe disponíveis comercialmente:

  • Tetrabenazina: O pioneiro no tratamento, eficaz, mas historicamente associado a perfis farmacocinéticos mais complexos e a uma incidência maior de efeitos colaterais adversos (como depressão e parkinsonismo).

  • Deutetrabenazina e Valbenazina: Representantes de nova geração, desenvolvidos com melhorias em suas estruturas moleculares e perfis farmacocinéticos. Essas modificações resultaram em maior tolerabilidade, menor flutuação nos níveis plasmáticos e perfis de segurança altamente favoráveis, validados por rigorosos estudos clínicos para o manejo da coreia na doença de Huntington e da discinesia tardia.

A compreensão detalhada das distinções entre esses compostos capacita a medicina moderna a modular sistemas neuroquímicos complexos com precisão cirúrgica, melhorando drasticamente a qualidade de vida de pacientes que lidam com condições motoras debilitantes.



O artigo


Tarakad A, Jimenez-Shahed J. VMAT2 Inhibitors in Neuropsychiatric Disorders. CNS Drugs. 2018 Dec;32(12):1131-1144. doi: 10.1007/s40263-018-0580-y. PMID: 30306450. 

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30306450/   


Resumo


Os gânglios da base e as vias dopaminérgicas desempenham um papel central nos transtornos do movimento hipercinéticos. Os inibidores do transportador vesicular de monoaminas 2 (VMAT2), que reduzem os níveis de dopamina nos terminais nervosos estriatais pré-sinápticos, constituem uma classe de medicamentos utilizada há muito tempo no tratamento de transtornos do movimento hipercinéticos, mas que recentemente ganhou maior destaque após o seu desenvolvimento para indicações específicas nos Estados Unidos. Atualmente, existem três inibidores da VMAT2 disponíveis comercialmente: tetrabenazina, deutetrabenazina e valbenazina. A farmacocinética, o metabolismo e a posologia variam significativamente entre os três fármacos, o que provavelmente explica o perfil de efeitos colaterais mais favorável dos agentes mais recentes (deutetrabenazina e valbenazina). A tetrabenazina e a deutetrabenazina demonstraram segurança e eficácia no tratamento da coreia associada à doença de Huntington, inclusive em estudos randomizados controlados, embora os estudos de comparação direta sejam limitados. Tanto a deutetrabenazina quanto a valbenazina demonstraram segurança e eficácia no tratamento da discinesia tardia em múltiplos estudos duplo-cegos controlados por placebo, ao passo que a tetrabenazina foi estudada de forma menos rigorosa. Não foram realizados estudos prospectivos e cegados com tetrabenazina na síndrome de Tourette (ST); no entanto, estudos duplo-cegos controlados por placebo na ST estão em andamento tanto para a deutetrabenazina quanto para a valbenazina. Dado o perfil de efeitos colaterais mais favorável dos inibidores da VMAT2 mais recentes, os médicos devem estar cientes das distinções entre os agentes e familiarizar-se com as diferenças em sua utilização, especialmente considerando o potencial de aumento do seu uso em diversos transtornos do movimento hipercinéticos.

domingo, 27 de setembro de 2026

Notas biopoéticas 54

Coenzimas e seu papel fundamental

O trabalho de Andreas Kirschning (2021) expande de forma magistral o cenário da biopoese ao colocar as coenzimas no centro da evolução pré-biótica, funcionando como verdadeiras fósseis moleculares do metabolismo primitivo.
 

 
A premissa central é que muitas dessas moléculas — que hoje atuam como parceiras indispensáveis das enzimas proteicas em transferências de grupos químicos e reações redox — possuem estruturas simples e frequentemente derivam de nucleotídeos. Isso sugere que elas coexistiram com o surgimento do RNA, operando em uma fase protometabólica muito antes de qualquer proteína moderna dar as caras. Em associação com o RNA primitivo (formando os chamados "holoribozymes" ou holorribozimas), as coenzimas expandiram drasticamente o escopo catalítico e a complexidade das redes metabólicas iniciais, provando que a química da vida aproveitou blocos modulares versáteis desde a sua aurora.


Holorribozimas

Holoribozyme (ou ainda holo-ribozima) é o termo utilizado em bioquímica para descrever uma molécula de RNA catalítico (ribozima) totalmente montada e ativa, contendo todos os seus componentes estruturais essenciais e, quando aplicável, o seu cofator químico ou metabólito associado. [Bingaman, 2017][Jamie, 2017]

O conceito é diretamente análogo à distinção feita nas proteínas entre a apoenzima (parte proteica inativa isolada) e a holoenzima (o complexo enzima-cofator ativo). No universo do RNA:

  • Aporibozyme: É a estrutura de RNA purificada ou isolada que permanece inativa ou apresenta atividade drasticamente reduzida por não estar associada ao seu ligante/cofator.

  • Holoribozyme: É o complexo cataliticamente funcional e completo. [Bingaman, 2017][Jamie, 2017][Kirschning, 2021][Bingaman, 2017b]

O Exemplo Clássico: A Ribozima glmS

O termo ganhou grande destaque nos estudos da ribozima glmS. Essa estrutura funciona simultaneamente como um riboswitch e uma ribozima: [Bingaman, 2017][Jamie, 2017] 

  • Ela requer obrigatoriamente a ligação de uma pequena molécula, o cofator glucosamina-6-fosfato (GlcN6P), para conseguir clivar sua própria cadeia de RNA. [Bingaman, 2017][Jamie, 2017] 

  • Pesquisas estruturais demonstram que, ao se transformar no holoribozyme (RNA + GlcN6P), o cofator orgânico atua diretamente na química do sítio ativo, servindo como um ácido geral para catalisar a clivagem.[Bingaman, 2017][Jamie, 2017]

Importância Evolutiva

O estudo das holorribozimas é uma peça fundamental para sustentar a Hipótese do Mundo do RNA, que propõe que a vida primitiva utilizava o RNA tanto para armazenar informação genética quanto para acelerar reações metabólicas. A capacidade de ribozimas recrutarem pequenos cofatores moleculares (formando holorribozimas) prova que o RNA consegue expandir seu repertório químico limitado para mimetizar a alta eficiência das proteínas modernas.[Bingaman, 2017][Jamie, 2017][Kirschning, 2021]


O artigo

Kirschning A. Coenzymes and Their Role in the Evolution of Life. Angew Chem Int Ed Engl. 2021 Mar 15;60(12):6242-6269. doi: 10.1002/anie.201914786. Epub 2020 Oct 23. PMID: 31945250; PMCID: PMC7983987.
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7983987/

Resumo

A evolução das coenzimas, ou o seu impacto na origem da vida, é fundamental para a compreensão da nossa própria existência. Uma vez estabelecidas hipóteses plausíveis sobre o surgimento de blocos de construção químicos prebióticos — provavelmente formados sob condições paleogeoquímicas — e assumindo que esses compostos menores se integraram para dar origem a macromoléculas complexas como o RNA, a questão da origem das coenzimas e sua relação com a evolução da bioquímica funcional deve ganhar novo impulso. Muitas coenzimas possuem estrutura química simples e são frequentemente derivadas de nucleotídeos, o que sugere que podem ter coexistido com o surgimento do RNA e desempenhado um papel crucial no metabolismo inicial. Com base nas teorias atuais sobre a evolução prebiótica, que buscam explicar o surgimento de blocos de construção orgânicos privilegiados, esta revisão discute hipóteses plausíveis acerca da formação prebiótica de elementos-chave presentes em coenzimas existentes atualmente. Em associação com o RNA prebiótico, as coenzimas podem ter expandido significativamente as redes protometabólicas primitivas e o escopo catalítico do RNA ao longo da evolução da vida. 


Referências

Bingaman JL, Zhang S, Stevens DR, Yennawar NH, Hammes-Schiffer S, Bevilacqua PC. The GlcN6P cofactor plays multiple catalytic roles in the glmS ribozyme. Nat Chem Biol. 2017 Apr;13(4):439-445. doi: 10.1038/nchembio.2300. Epub 2017 Feb 13. PMID: 28192411; PMCID: PMC5362308. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5362308/ 


Bingaman, J. (Advisor: Bevilacqua, P. C.). (2017) Identification of Novel Catalytic Strategies of Small Ribozymes. The Pennsylvania State University.

Jamie L. Bingaman, Inanllely Y. Gonzalez, Bo Wang, Philip C. Bevilacqua; Activation of the glmS Ribozyme Nucleophile via Overdetermined Hydrogen Bonding. Biochemistry 22 August 2017; 56 (33): 4313–4317. https://doi.org/10.1021/acs.biochem.7b00662 


sábado, 26 de setembro de 2026

Mais alguns cacos do determinismo - 3

Um ‘Ensaiálogo’ Causal - Uma segunda versão

Como que para demonstrar que o futuro não está estritamente contido nos planos do passado, o debate entre Philon, Kallias e Theonas, “Três pessoas, as causas, efeitos e eventos do mundo”, tomou duas formas distintas. Esta segunda versão explora as nuances e desdobramentos específicos em que o problema da indução e da física dos sistemas complexos se recusa a ser encerrado em uma única resposta.

Personagens:

  • Philon (O Céptico Lógico): O purista da razão, defensor da irredutibilidade da dúvida humeana diante do indutivismo.

  • Kallias (O Naturalista Pragmático): O defensor da biologia preditiva e da eficácia adaptativa como critério de validade.

  • Theonas (O Realista Científico): O físico necessitarista, defensor de que simulações e dados espelham restrições estruturais da matéria.

Efeito Roshomon Filosófico: Para o leitor, ler duas iterações do mesmo diálogo com nuances e aproximações diferentes cria uma experiência quase literária e de laboratório. É como assistir a duas tomadas de um mesmo drama onde os atores exploram caminhos argumentativos complementares.


Ato I: O Silício e a Ilusão do Parâmetro

Philon: Observem o entusiasmo em torno dos supercomputadores e dos grandes modelos de linguagem. O que chamam de "inteligência artificial" nada mais é do que o hábito humeano operando em escala exaFLOP. Uma rede neural devora petabytes de dados do passado, mapeia correlações estatísticas em um espaço vetorial de bilhões de dimensões e antecipa o próximo token. É um refinamento técnico espetacular, admito, mas ontologicamente cego. A máquina prevê porque correlaciona; ela não possui qualquer acesso às estruturas de causa e efeito. Se o sol nascer um bilhão de vezes no conjunto de treinamento, a IA atribuirá probabilidade máxima ao seu surgimento amanhã. Mas ela ignora a gravidade, ignora a fusão nuclear do hidrogênio. É a vitória do papagaio estocástico sobre a razão.

Kallias: Você comete um erro de categoria, Philon, ao exigir da máquina uma "compreensão metafísica" que o próprio cérebro humano jamais possuiu. A neurociência cognitiva desvelou que o sistema nervoso opera como um motor de processamento preditivo. Consumindo 20 watts de energia, o cérebro projeta modelos top-down sobre o caos sensorial para minimizar o erro de previsão e economizar glicose. O "hábito" de Hume não é um defeito de raciocínio, mas a arquitetura biológica da sobrevivência. Se um modelo de Deep Learning prevê a dobra de uma proteína ou antecipa padrões complexos com base em correlações massivas, ele está executando com precisão exatamente a mesma heurística que nos manteve vivos contra os predadores na savana.

Theonas: Ambos reduzem a ciência moderna a um jogo de aparências. Philon enxerga apenas estatística cega, enquanto Kallias reduz a verdade à conveniência metabólica. Contudo, quando avançamos dos modelos puramente indutivos para as redes neurais informadas pela física (Physics-Informed Neural Networks), a dinâmica muda. Nesses sistemas, não inserimos apenas dados históricos brutos; codificamos as invariâncias fundamentais do universo — equações de conservação de energia, simetrias de gauge e o cálculo causal. A máquina não "espera" que o futuro imite o passado por mero hábito contingente; ela é matematicamente impedida de gerar soluções que violem as leis nómicas da matéria. O silício não imita o costume: ele espelha o Necessitarismo físico.

Ato II: O Clima e a Geometria do Caos

Philon: Um refúgio elegante, Theonas, mas que desmorona quando confrontado com a turbulência da realidade. Tomemos a projeção de que o planeta aquecerá 1,5°C até meados desta década sob a atual taxa de emissões. O clima global é um sistema não linear, hipercomplexo e infinitamente sensível às condições iniciais. Um desvio ínfimo em uma corrente marinha altera todo o resultado macroscópico. Quando supercomputadores projetam o clima para 2035, eles lidam com dados incompletos e modelos aproximados. Alegar que essa previsão revela "necessidades naturais" é uma petição de princípio. Vocês continuam pressupondo a Uniformidade da Natureza para tentar provar que a natureza se comportará de forma uniforme.

 


Theonas: Você confunde a volatilidade microscópica com a restrição macroscópica, Philon. Prever se choverá em uma coordenada exata daqui a dez anos é um problema de caos determinístico local. Mas a projeção do aquecimento global não é uma aposta meteorológica; é um cálculo de balanço energético planetário. A conservação de energia e a lei de Stefan-Boltzmann não são regularidades estatísticas que a natureza pode optar por quebrar amanhã. Se a atmosfera retém mais radiação infravermelha do que consegue dissipar para o vácuo, a energia interna do sistema precisa aumentar. Um planeta que retivesse calor sem elevar sua temperatura média violaria a Primeira e a Segunda Leis da Termodinâmica. Não seria uma "exceção indutiva", mas uma impossibilidade física.

Philon: E no entanto, Theonas, a taxa de feedback das nuvens e o derretimento do permafrost exigem parâmetros que nenhum físico domina com precisão absoluta. Vossas equações continuam sendo construções conceituais humanas lançadas contra o desconhecido. A dúvida lógica permanece intocada.

Ato III: A Práxis da Sobrevivência

Kallias: A dúvida purista é uma patologia de gabinete, Philon. Exigir certezas absolutas em um universo dinâmico é uma receita para a paralisia e a extinção. A validade de um modelo climático ou de um algoritmo de inteligência artificial não se julga em um tribunal cartesiano, mas na práxis adaptativa.

 




Kallias (continuando): O organismo biológico e a civilização tecnológica compartilham a mesma missão: reduzir a entropia para continuar existindo. Se a projeção de 1,5°C nos compele a reestruturar a matriz energética e evitar o colapso dos ecossistemas, o modelo cumpriu com perfeição sua função biológica e epistemológica. A causalidade não precisa ser uma essência metafísica secreta guardada nas coisas; ela é a ponte indispensável entre a física do cosmos e a ação dos sistemas finitos que nele lutam para persistir.

Theonas: Subscrevo a urgência prática, Kallias, mas reitero: esses modelos só conseguem salvar vidas e orientar a ação porque tangenciam, com precisão crescente, as restrições reais da matéria. A eficácia da previsão é o sintoma da necessidade física que a sustenta.

Philon: Continuarei aqui, contudo, para recordar a ambos que a vidraça do determinismo é frágil. Bastará um único evento fora da distribuição — uma ruptura sistêmica não prevista — para demonstrar que o futuro não se curva à tirania do passado.

Kallias: Que seja, Philon. Mas enquanto a vidraça resistir, usaremos cada caco do determinismo para desenhar o próximo mapa.


Nota de Rodapé / Glosa Conceitual

Efeito Rashomon Filosófico: Transposição da metáfora do clássico filme de Akira Kurosawa (Rashomon, 1950) — onde o mesmo evento dramático é relatado de formas contraditórias por diferentes testemunhas —, para a metodologia da investigação epistemológica. No contexto desta obra, a expressão designa a propriedade pela qual a própria estrutura da realidade e os limites da causalidade não se deixam capturar por uma única narrativa teórica. Quando confrontados com os mesmos dados da natureza (seja o silício da inteligência artificial ou a termodinâmica do clima), o Céptico, o Naturalista e o Realista produzem "testemunhos" inteiramente divergentes, mas internamente coerentes. O efeito demonstra que a multiplicidade de interpretações não é uma falha da razão, mas o sintoma incontornável de uma realidade complexa demais para ser encerrada em um único molde determinista.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Anotações científicas - 49

A Maquinaria Oculta do VMAT2: O Vínculo Neuroquímico entre Abuso de Substâncias e Neurotransmissão

Enquanto exploramos anteriormente como a ciência tenta aproximar marcadores biológicos de traços comportamentais complexos — como a espiritualidade —, o foco agora recua para a base neurobiológica estrita e profundamente documentada do transportador VMAT2 (Vesicular Monoamine Transporter 2).

No artigo clássico de Lee E. Eiden e Eberhard Weihe, publicado no Annals of the New York Academy of Sciences em 2011, os autores desmontam a engrenagem pela qual o VMAT2 atua não apenas como um regulador homeostático de monoaminas, mas como um protagonista central nos mecanismos de dependência e recompensa induzidos por drogas de abuso.


 

O Papel do VMAT2 na Neurobiologia da Recompensa

Neurônios monoamínicos — especialmente os dopaminérgicos — são os principais mediadores das propriedades hedônicas e dos mecanismos de reforço associados ao uso de substâncias como anfetaminas e cocaína.

Historicamente, o foco das pesquisas recaía quase exclusivamente sobre o transportador de membrana plasmática (DAT). No entanto, Eiden e Weihe consolidam evidências bioquímicas, genéticas e de neuroimagem demonstrando que o VMAT2 — localizado nas membranas das vesículas sinápticas — é absolutamente crucial para o armazenamento e liberação dos estoques de dopamina que alimentam o ciclo do vício. Drogas como as anfetaminas interagem diretamente com essa dinâmica vesicular, alterando o fluxo de neurotransmissores e provocando os picos maciços de dopamina associados à euforia.

Uma Rede Ampla de Efeitos

Outro ponto de destaque levantado no estudo é que o VMAT2 não se restringe aos circuitos dopaminérgicos: ele também está presente em neurônios noradrenérgicos, serotoninérgicos, histaminérgicos e aminergicostrace. Isso amplia significativamente o escopo de compreensão da adicção, sugerindo que a dependência química recruta uma rede complexa e sistêmica de sinalização monoamínica no cérebro, indo muito além do prazer imediato e tocando em sistemas de humor, alerta e estresse.


O artigo


Eiden LE, Weihe E. VMAT2: a dynamic regulator of brain monoaminergic neuronal function interacting with drugs of abuse. Ann N Y Acad Sci. 2011 Jan;1216:86-98. doi: 10.1111/j.1749-6632.2010.05906.x. PMID: 21272013; PMCID: PMC4183197. 

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4183197/  


Resumo


O neurônio monoaminérgico, em particular o neurônio dopaminérgico, desempenha um papel central na mediação das propriedades hedônicas e viciantes de drogas de abuso. Os efeitos da anfetamina (AMPH) e da cocaína (COC), por exemplo, dependem da capacidade de aumentar os níveis de dopamina na fenda sináptica, seja por meio de efeitos no transportador de membrana plasmática DAT ou no transportador vesicular de armazenamento de monoaminas, o VMAT2. O papel potencial do DAT como alvo da AMPH e da COC tem sido extensivamente revisado. Aqui, apresentamos o VMAT2 como um alvo que viabiliza as ações de recompensa e dependência dessas drogas, com base em evidências provenientes de estudos de imagem, neuroquímicos, bioquímicos, de biologia celular, genéticos e imuno-histoquímicos. A presença de VMAT2 em neurônios noradrenérgicos, serotoninérgicos, histaminérgicos e, potencialmente, em neurônios de aminas traço, sugere a necessidade de considerar um papel mais amplo da neurotransmissão aminérgica no abuso e na dependência de AMPH e COC.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

TERRA JOVEM REFUTADA, A RELEITURA - 4

O encolhimento do diâmetro solar 

Mais um passo de nossa jornada: O Mito do Encolhimento Solar

Chegamos ao quarto pilar dessa célebre lista de argumentos da Terra Jovem: a alegação de que o Sol estaria encolhendo a uma taxa constante de 1,5 metro por hora (cerca de 5 pés por hora).

Se levada a sério de forma linear, essa premissa significaria que, há apenas 1 milhão de anos, a superfície do Sol seria tão grande que queimaria a Terra, tornando a existência da vida e a evolução biológica impossíveis. No entanto, de todos os argumentos criacionistas da época, este é provavelmente o mais absurdo e desonesto do ponto de vista da metodologia científica.
 

 
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1. A Origem do Mito: Um Estudo Preliminar Jamais Publicado

Em 1979, os pesquisadores John Eddy e Aram Boornazian apresentaram um resumo (abstract) em um encontro da Sociedade Astronômica Americana sugerindo que, com base em dados visuais do Observatório de Greenwich entre 1836 e 1953, o diâmetro solar estaria diminuindo.

Em 1980, o físico criacionista Russell Akridge pegou esse dado preliminar e fez exatamente o mesmo movimento que Barnes fez com o campo magnético: aplicou uma extrapolação linear ingênua para o passado infinito.

O problema?

  • O estudo original nunca passou pela revisão de pares: O texto completo de Eddy e Boornazian jamais foi publicado em um periódico científico, pois análises posteriores revelaram falhas sérias na metodologia e no tratamento dos dados históricos de Greenwich (que dependiam de observações visuais humanas e imperfeitas no trânsito do Sol).

  • Invenção de prazos: Embora o estudo analisasse apenas um período de cerca de 117 anos (1836-1953), autores criacionistas começaram a citar o dado como se fosse uma "observação comprovada ao longo de 400 anos".

2. A Seleção Apetite de Dados (Cherry-Picking)

Quando Akridge publicou sua tese em 1980, a comunidade astronômica já havia produzido e publicado diversos outros estudos de diâmetro solar que desmentiam categoricamente a ideia de um encolhimento contínuo.

  • Dados históricos ignorados: Registros astronômicos do século XVIII e XIX (como observações de trânsitos de Mercúrio e Vênus em frente ao Sol, e medições de eclipses solares desde o século XVII) mostravam que o tamanho do Sol permanecia essencialmente o mesmo.

  • Escolha deliberada: Akridge e outros defensores da Terra Jovem optaram por ignorar todo o corpo de dados publicado e revisado pela comunidade internacional para abraçar exclusivamente um único resumo preliminar e falho.

3. O Sol Não Encolhe de Forma Linear: Ele Oscila

A astronomia moderna e a heliossismologia (o estudo das ondas acústicas dentro do Sol) demonstraram que a estrela não está em um processo de "morte por murchamento".

  • Comportamento Cíclico: O diâmetro do Sol sofre pequenas expansões e contrações mínimas e temporárias. Descobertas posteriores identificaram ciclos oscilatórios (como ciclos de cerca de 80 anos e variações acopladas ao ciclo de atividade magnética solar de 11 anos).

  • Física Estelar: O Sol está em equilíbrio hidrostático há bilhões de anos — a pressão de radiação gerada pelas reações de fusão nuclear no seu núcleo empurra a matéria para fora na exata medida em que a gravidade a puxa para dentro. Um encolhimento contínuo e rápido exigiria um mecanismo físico totalmente diferente do modelo nuclear validado da astrofísica.

4. A Permanência do Mito: Negligência ou Má-Fé?

A verdadeira ciência se caracteriza por corrigir suas premissas quando novos dados desmentem uma hipótese inicial. O próprio John Eddy, coautor do estudo preliminar de 1979, reavaliou a questão e abandonou a ideia do encolhimento secular à medida que estudos mais precisos surgiram.

No entanto, por décadas após o descarte completo da tese pela astronomia profissional, o "encolhimento solar de 1,5m por hora" continuou a ser repetido em livros, palestras e panfletos criacionistas. A manutenção de um argumento sabidamente falso, ignorando correções feitas pela própria literatura científica, ultrapassa o mero erro de interpretação e entra no campo da distorção deliberada.

Análise Comparativa dos Modelos



Elemento de Análise

Mito do Encolhimento (Akridge)

Astrofísica / Heliossismologia

Fonte dos Dados

Resumo preliminar não publicado de 1979 (Eddy & Boornazian).

Séculos de trânsitos planetários, eclipses e medições de satélites.

Comportamento Solar

Encolhimento linear e constante de 1,5m/h rumo ao passado.

Equilíbrio hidrostático com pequenas oscilações cíclicas.

Consequência Histórica

Exige um Sol engolindo a Terra há alguns milhões de anos.

Compatível com o brilho e tamanho estável do Sol por bilhões de anos.

Rigor Metodológico

Cherry-picking e extrapolação de dados desatualizados.

Auto-correção contínua baseada na revisão de pares.


O mito do encolhimento solar é talvez a demonstração mais didática de como a negação do tempo profundo muitas vezes dependeu da escolha a dedo de anomalias metodológicas em detrimento do consenso científico. O Sol, longe de se esvaziar a passos largos, permanece como a engrenagem estável e duradoura do nosso Sistema Solar há 4,6 bilhões de anos.