sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Alguns erros criacionistas - 2026 - II

Continuaremos a mostrar argumentos de criacionistas e apresentar a sua refutação.


Refutação #5: A Falácia da Sincronicidade Geográfica

O argumento de que um evento na América do Norte e outro na Ásia são parte de um mesmo "soterramento catastrófico básico", obviamente referência ao dilúvio global bíblico, ignora o que chamamos de correlação estratigráfica.

  • O Problema do "Liquidificador": Se rinocerontes (Mamíferos, Cenozoico) e protoaves (Dinossauros/Aves, Mesozoico) fossem soterrados no mesmo evento global, a estatística ditaria que encontraríamos fósseis de ambos misturados em depósitos por todo o mundo.

  • A Realidade das Camadas: A ciência encontra rinocerontes em camadas muito superiores (mais recentes) e protoaves em camadas inferiores (muito mais antigas). Dizer que ocorreram "ao mesmo tempo" é como dizer que a queda de Roma e a invenção da Internet foram o mesmo evento só porque ambos envolveram o uso de papel.

  • Geologia de Conveniência: Autores criacionistas ignoram a deriva continental. No tempo das protoaves, a configuração dos continentes era outra. Para que esses soterramentos fossem síncronos, ele precisaria anular não apenas a Biologia, mas a tectônica de placas.

O Veredito Final

"Autores criacionistas tentam vender um 'sincronismo impossível'. Ao afirmar que eventos separados por oceanos e milhões de anos de sucessão biológica ocorreram simultaneamente, eles não estão fazendo ciência, estão fazendo “colagem”. É o equivalente geológico a dizer que um rinoceronte na América e uma protoave na Ásia morreram na mesma 'enchente', ignorando que entre um e outro existe um abismo de tempo que a estratigrafia e a radiodatação confirmam de forma inquestionável. É o triunfo da conveniência dogmática sobre a evidência física."

Refutação #6: O Falso Paradoxo da Estase Morfológica

A Afirmação de Autores Criacionistas: Utilizam a estase morfológica (o fato de algumas espécies não mudarem visualmente por longos períodos) como prova de que o tempo geológico é uma ilusão e que a evolução não ocorre.

O Contra-argumento Técnico:

  • Seleção Estabilizadora: A evolução não obriga a mudança; ela permite a mudança quando há pressão ambiental. Se um organismo está perfeitamente adaptado a um nicho que permanece estável (como o fundo do oceano ou certas bacias fluviais), a seleção natural atua para eliminar variações extremas, mantendo o design original. Isso é a seleção estabilizadora.

  • Equilíbrio Pontuado: Como bem citado em diversos textos, isso está superado desde a década de 70 com os trabalhos de Stephen Jay Gould e Niles Eldredge. Eles demonstraram que a história da vida consiste em longos períodos de estabilidade (estase) pontuados por episódios relativamente rápidos de especiação.

  • Estase Morfológica ≠ Estase Genética: Só porque a "carcaça" do animal parece a mesma no registro fóssil, não significa que sua fisiologia, sistema imunológico ou bioquímica não evoluíram. Autores criacionistas confundem "parecer igual" com "ser a mesma coisa", ignorando a evolução a nível molecular.


Consolidando:

"Autores criacionistas tentam ressuscitar um debate morto há 50 anos. Ao tratar a estase morfológica como um paradoxo que invalida a evolução, eles apenas demonstram desconhecimento (ou má-fé) sobre a seleção estabilizadora. Como aponta a literatura especializada, o registro fóssil não contradiz a teoria evolutiva; ele a confirma através do Equilíbrio Pontuado. A estase não é ausência de evolução, é a prova de que certas formas de vida atingiram picos adaptativos tão eficientes que a mudança seria deletéria. O 'paradoxo' apresentado por autores criacionistas só existem no nicho cultural criacionistas, incluindo revistas predatórias e mentes que ignoram o progresso da biologia desde 1972."


Estes, S., & Arnold, S. J. (2007). Resolving the Paradox of Stasis: Models with Stabilizing Selection Explain Evolutionary Divergence on All Timescales. The American Naturalist, 169(2), 227-244. https://doi.org/10.1086/510633 


Resumo traduzido:

Testamos a capacidade de seis modelos genéticos quantitativos para explicar a evolução das médias fenotípicas usando um extenso banco de dados compilado por Gingerich. Nossa abordagem difere de trabalhos anteriores por utilizarmos modelos explícitos de processos evolutivos, com parâmetros estimados a partir de populações contemporâneas, para analisar uma grande amostra de dados de divergência em diversas escalas temporais. Demonstramos que um modelo genético quantitativo apresenta um bom ajuste aos dados de divergência fenotípica em escalas temporais que variam de algumas gerações a 10 milhões de gerações. A principal característica desse modelo é um ótimo de aptidão que se move dentro de limites fixos. Por outro lado, um modelo de evolução neutra, modelos com um ótimo estacionário que sofre movimento browniano ou ruído branco, um modelo com um ótimo móvel e um modelo de deslocamento de pico falham em explicar os dados na maioria ou em todas as escalas temporais. Discutimos nossos resultados dentro da estrutura do conceito de paisagens e zonas adaptativas de Simpson. Nossa análise sugere que o processo subjacente que causa a estase fenotípica é a adaptação a um ótimo que se move dentro de uma zona adaptativa com limites estáveis. Discutimos as implicações de nossos resultados para estudos comparativos e inferência filogenética baseada em caracteres fenotípicos. 


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Alguns erros criacionistas - 2026 - I

Listaremos alguns erros comuns argumentos contra a evolução de autores criacionistas e faremos sua refutação.



Refutação #1: O Paradoxo da Escala de Tempo vs. Taxa de Sedimentação

A Afirmação dos Autores Criacionistas: Sugerem que a ausência de esqueletos visíveis hoje (como gnus, elefantes, ursos, baleias, etc, animais de grande porte de ambientes bem característicos) prova que a fossilização exige um evento catastrófico repentino (um "derrame” sedimentar"), caso contrário, nada restaria.

O Contra-argumento Técnico:

  • A Falácia da Observação Imediata: É óbvio que você não encontra esqueletos expostos na savana ou no oceano por muito tempo. A Tafonomia (estudo do processo de fossilização) ensina que a reciclagem biológica é eficiente: necrófagos, bactérias e a erosão destroem a maioria dos restos orgânicos. A ciência concorda que a fossilização é um evento raro.

  • A Probabilidade no Tempo Geológico: O "pulo do gato" que o criacionismo ignora é a estatística. Se a chance de um osso fossilizar é de 1 em 1 milhão, em um ano não se verá fósseis. Mas, ao longo de milhões de anos, com bilhões de organismos vivendo e morrendo, o acúmulo de "1 em 1 milhão" torna-se o vasto registro fóssil que temos hoje.

  • Sedimentação Ordinária vs. Catastrófica: Não precisamos de um dilúvio global para enterrar um organismo. Enchentes sazonais, tempestades de areia, deslizamentos locais em deltas de rios e queda de cinzas vulcânicas são eventos "comuns" que fornecem o soterramento rápido necessário sem precisar de uma catástrofe planetária.

Imagem de the process of fossilization
Shutterstock

Conclusão:

"O argumento confunde a raridade do processo com a impossibilidade do tempo. A fossilização não é o resultado de um ‘derrame’ sedimentar global único, mas sim do acúmulo estatístico de eventos locais de soterramento ao longo de eras. O que autores criacionistas chamam de 'raro' no cotidiano torna-se inevitável na escala de milhões de anos."


Refutação #2: A Falácia da Homogeneidade e o "Filtro" Geológico

A Afirmação dos Autores Criacionistas: Exige que, para a ciência estar certa, o registro fóssil deveria ser um processo global, constante e homogêneo. Como observam que a fossilização é episódica e restrita a certos ambientes, concluem que a explicação só pode ser uma catástrofe única.

O Contra-argumento Técnico:

  • A Natureza Seletiva do Registro: A fossilização não é e nunca foi um processo homogêneo. Ela é um "filtro". Para um organismo virar fóssil, ele precisa da combinação rara de: morte em local de deposição + soterramento rápido + condições químicas favoráveis (pH, ausência de oxigênio). É por isso que temos bilhões de fósseis marinhos e pouquíssimos fósseis de animais de selva tropical (onde a acidez do solo e a decomposição são altíssimas).

  • Hiato Geológico (Discordâncias): O registro fóssil é como um livro onde 90% das páginas foram arrancadas e as que sobraram estão manchadas. Isso não é uma falha da teoria evolutiva, é uma realidade da dinâmica da crosta terrestre. Erosão destrói camadas; sedimentação cria novas. Exigir homogeneidade é ignorar o ciclo das rochas.

  • O "Tudo ou Nada" Criacionista: Autores criacionistas usam a natureza lacunar do registro para dizer: "Se não está em todo lugar o tempo todo, então foi tudo de uma vez num desastre". Isso é logicamente equivalente a dizer que, se você não tem fotos de todos os segundos da sua infância, então você nasceu adulto em um único dia de festa.

Conclusão

"A exigência de uma 'fossilização homogênea' é um espantalho criado para atacar a geologia. O registro fóssil é, por definição, descontínuo e seletivo. Os autores criacionistas confundem a descontinuidade física das camadas (causada por erosão e mudanças climáticas locais) com uma suposta descontinuidade biológica. A ciência não precisa que cada centímetro do planeta fossilize para entender a sucessão da vida, assim como não precisamos de todos os frames de um filme para compreender o enredo."


Refutação #3: O Erro da Sincronia Forçada e o Anacronismo Geológico

A Afirmação dos Autores Criacionistas: Aglutina fósseis e eventos sedimentares que ocorreram em continentes distintos e com separação de milhões de anos, tratando-os como evidências de um único "período catastrófico" (o Dilúvio disfarçado de "catastrofismo básico").

O Contra-argumento Técnico:

  • Bioestratigrafia vs. Catastrofismo: A geologia utiliza fósseis-guia para datar camadas. Se o modelo dos autores criacionistas fosse real, o registro fóssil seria uma "sopa" caótica. Encontraríamos baleias (Cenozoico) misturadas com Amonites (Mesozoico) e Trilobitas (Paleozoico). Na realidade, a separação é rigorosa e universal. Os autores criacionistas ignoram que esses eventos estão separados por centenas de milhões de anos de deposição e erosão.

  • A "Mágica" da Especiação Hiper-Rápida: Ao pregar o surgimento miraculoso (ou a diversificação instantânea a partir de "tipos"), os autores criacionistas criam um problema biológico insolúvel. Se toda a biodiversidade surgiu em "pouco tempo" após uma catástrofe, a taxa de mutação necessária seria tão alta que resultaria em colapso genético imediato. É o que chamamos de "Moedor de Carne Genético".

  • A Diferença entre DI e Criacionismo Biblicista: Enquanto o Design Inteligente (DI) tenta, ao menos formalmente, manter uma fachada de agnosticismo sobre "quem" é o designer, o texto de diversos autores criacionistas são criacionismo de terra jovem puro. Eles não buscam o "melhor design", eles buscam justificar o soterramento massivo e a estase para caber no cronômetro de alguns milênios.

Conclusão:

"Esses autores criacionistas cometem um anacronismo geológico deliberado. Ao tratar eventos globais assíncronos como um único episódio de sepultamento, ele tenta forçar a realidade física a se ajustar a uma narrativa teológica pré-estabelecida. Não se trata de uma nova proposta científica, mas de uma tentativa de 'cientifizar' o fixismo biológico, ignorando que a separação temporal entre as camadas é medida por radioisótopos e sucessão biótica, não por interpretações subjetivas de desastres."


Refutação #4: A "Prensa" Temporal e o Colapso da Variabilidade

A Afirmação dos Autores Criacionistas: Propõe que toda a biodiversidade e o registro fóssil podem ser explicados em um curtíssimo espaço de tempo (negando a ancestralidade comum e comprimindo a história da vida), sugerindo que a radiação das espécies ocorreu de forma quase instantânea após eventos catastróficos.

O Contra-argumento Técnico:

  • A Prensa Genética: Se "esmagarmos" o tempo geológico de 4 bilhões de anos para 10 milhões (ou menos, como sugere o viés bíblico), a taxa de mutação necessária para gerar a biodiversidade atual a partir de "tipos básicos" seria tão frenética que causaria o que a genética chama de Catástrofe de Erro. As espécies acumulariam mutações letais muito antes de se diversificarem.

  • A Negação da Descendência: Ao negar a relação de descendência no cladograma geral, os autores criacionistas ignoram as evidências moleculares (DNA), os órgãos vestigiais e as homologias anatômicas que são universais. Eles tentam tratar a vida como "caixas isoladas" que surgiram prontas, o que é refutado por cada genoma sequenciado até hoje.

  • O argumento forçado de “apenas”, por exemplo, 10 Milhões de anos: Mesmo uma generosa tolerância para um período geologicamente muito mais reduzido de, por exemplo, 10 milhões de anos não resolve o problema de autores criacionistas. O registro fóssil mostra uma sucessão clara que exige ordens de magnitude a mais para permitir a deriva continental, a formação de cadeias de montanhas e o resfriamento de bacias sedimentares onde os fósseis estão depositados.

  • A "Displicência" Editorial: A presença de erros de inglês até no título (como por exemplo "Catastropic" em vez de Catastrophic) em uma revista que se diz científica é um sintoma final. Revistas predatórias não fazem revisão por pares (peer-review); elas fazem revisão por cartão de crédito.

Conclusão

"A proposta de diversos artigo criacionistas é um exercício de 'achatamento' da realidade. Ao colocar a complexidade da vida em uma prensa temporal, autores criacionistas ignoram que a Biologia e a Geologia possuem ritmos ditados por leis físicas e genéticas. Tentar justificar a biodiversidade sem ancestralidade comum e em um tempo ínfimo não é apenas cientificamente impossível; é um erro categórico que ignora a ordem estratigráfica e a viabilidade genômica. O fato de tais textos serem publicado com erros crassos de tradução apenas sublinha que seu destino não é a academia, mas o consumo por nichos que priorizam a ideologia sobre a evidência."


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Um artigo de Wolf-Ekkehard Lonnig

O Paradoxo de Lönnig: Quando a Estase Biológica vira Dogma do Design

O artigo de Wolf-Ekkehard Lönnig apresenta um dos desafios mais interessantes da biologia evolutiva moderna: o paradoxo da estase. Como é possível que o genoma seja um sistema "tremendamente dinâmico", em constante mutação, enquanto a morfologia de certas espécies permanece praticamente inalterada no registro fóssil por milhões de anos?

Lönnig, um conhecido proponente do Design Inteligente (DI), utiliza essa lacuna no gradualismo darwiniano não para sugerir novos mecanismos biológicos, mas para validar as hipóteses de Complexidade Irredutível e Complexidade Especificada.



A Estrutura da Crítica

Nesta análise, demonstraremos que, embora Lönnig identifique corretamente as limitações da Síntese Moderna clássica em explicar a constância das formas, sua conclusão falha por três motivos principais:

  1. Apropriação Indébita de Conceitos: Lönnig utiliza a "estase" descrita por Ernst Mayr e Stephen Jay Gould como se fosse uma evidência contra a evolução, ignorando que ambos os autores viam a estase como um fenômeno biológico explicável, e não como um milagre de engenharia.

  2. O "Deus das Lacunas" Genético: Ao invocar Behe e Dembski, o autor interrompe a investigação científica. Onde a ciência vê uma pergunta sobre genes reguladores e restrições de desenvolvimento, Lönnig vê uma barreira intransponível que só poderia ser superada por uma "inteligência externa".

  3. Ignorância da Evo-Devo: O texto desconsidera os avanços da Biologia Evolutiva do Desenvolvimento, que explica como sistemas complexos podem manter sua robustez (estase) e, ao mesmo tempo, sofrer mudanças rápidas através de mutações em chaves genéticas, sem a necessidade de "novas peças" projetadas do zero.



Primeiramente, quem é Wolf-Ekkehard Lonnig:

”É com prazer que apresento: finalmente, uma dissertação de mestrado na qual um jovem se opõe decisivamente a uma "vaca sagrada" (o neodarwinismo ou a teoria da descendência em geral) e demonstra os pontos fracos de uma doutrina que, para a maioria, é considerada não apenas uma teoria, uma grande síntese, mas um fato impecável e quase completamente comprovado. Sua opinião pessoal sobre o assunto pode ser encontrada claramente expressa em duas frases ao final da obra: "Os sistemas cibernéticos implementados na tecnologia pressupõem um projeto. Que conclusão poderia estar mais próxima da verdade do que postular isso também para a origem do mundo dos organismos?" (p. 131). Ora, não é verdade que o Sr. L. esteja isolado em seu ponto de vista. Ele já no primeiro capítulo lista diversos botânicos e zoólogos renomados que também consideram o neodarwinismo inadequado. Neste ponto, é preciso observar que o Sr. L. não apenas conhece de nome e citação a literatura relevante, mesmo na área da zoologia, mas também a estudou de forma excelente, mesmo quando se trata de grandes volumes… O Sr. L. basicamente chega às mesmas conclusões que meus próprios professores de botânica, Karl von Goebel e Wilhelm Troll, tiraram de seus trabalhos, e que Troll certa vez formulou de forma tão precisa: “…é o mesmo fenômeno básico da unidade na diversidade que, por um lado, sugere processos físicos, por outro, sugere algo maior que a soma de suas partes (Gestalt) e, em um sentido mais elevado, permite reconhecer o Logos no Bios.

“O Sr. L. era Wolf-Ekkehard Lönnig, bem conhecido pelos leitores do Evolution News, que viria a obter um doutorado em genética pela Universidade de Bonn e a atuar como cientista pesquisador por mais de 25 anos, estudando genética e mutações de plantas, no Instituto Max Planck de Pesquisa em Melhoramento de Plantas, em Colônia. Há meio século ele critica o darwinismo e promove o design inteligente.”

Wolf-Ekkehard Lönnig: An Intelligent Design Pioneer - Granville Sewell - April 21, 2021 —
scienceandculture.com

Cópia do artigo que trataremos nos nossos arquivos:

 
Wolf-Ekkehard Lonnig - Dynamic genomes morphological stasis origin irreducible complexity

docs.google.com 


Resumo

Apesar da enorme quantidade de fluxo genético em plantas e animais, acredita-se que os processos genéticos básicos e as principais características moleculares tenham persistido essencialmente inalterados por mais de três bilhões e meio de anos, e os mecanismos moleculares da ontogenia animal por mais de um bilhão de anos. Além disso, a sistemática se baseia em características virtualmente constantes no espaço e no tempo – caso contrário, este importante ramo da biologia não seria possível. Ademais, o registro fóssil exibe um padrão regular de aparecimento abrupto de novas formas de vida (em vez de seu surgimento por inúmeros pequenos passos, à maneira darwiniana), seguido pela constância de características sistemáticas superiores, frequentemente a partir do nível de gênero, e, em muitos casos, sucedido por um desaparecimento igualmente abrupto das principais formas de vida, que se extinguiram após diferentes períodos de tempo. Como admitiu recentemente o decano da teoria sintética, Ernst Mayr, de Harvard, essa constância (estase) das formas de vida diante de genomas tremendamente dinâmicos é um dos maiores problemas da biologia evolutiva contemporânea e exige uma explicação. Concordando com diversos pesquisadores, menciono argumentos e fatos que sustentam a visão de que a complexidade irredutível (Behe), em combinação com a complexidade especificada (Dembski), caracteriza os sistemas biológicos básicos e que essas hipóteses podem apontar para uma solução não gradualista do problema. 


É fascinante observar como Lönnig constrói esse argumento. Ele utiliza o que chamamos de "anomalias reais" da biologia (como a estase morfológica e as lacunas no registro fóssil) para tentar validar as hipóteses do Design Inteligente (DI), como a Complexidade Irredutível.

O "pulo do gato" (ou a "besteira", como certa vez mencionamos) está na forma como ele interpreta a estase. Vamos decompor os pontos principais:

1. O Paradoxo da Estase vs. Dinamismo Genético

Lönnig cita Ernst Mayr corretamente: é um fato que organismos mantêm formas físicas quase idênticas por milhões de anos (estase), mesmo que seu DNA esteja mudando constantemente.

  • A visão da Biologia Evolutiva: A seleção estabilizadora e as restrições de desenvolvimento (constraints) explicam por que um plano corporal que funciona não muda, mesmo com mutações ocorrendo.

  • A visão de Lönnig: Ele sugere que essa constância prova que os sistemas são "travados" por um design que não permite a transição gradualista.

2. O Apelo ao "Equilíbrio Pontuado"

Ele se apropria de observações de Stephen Jay Gould e Niles Eldredge sobre o registro fóssil (aparecimento abrupto e estase). No entanto, Gould sempre enfatizou que o "abrupto" no tempo geológico ainda envolve milhares de anos e processos biológicos naturais — enquanto Lönnig usa isso como uma brecha para introduzir a descontinuidade do DI.

3. A Mistura de Conceitos: Behe + Dembski

Ao final, ele tenta unificar as frentes do DI:

  • Behe (Complexidade Irredutível): O argumento de que certos sistemas não funcionam se faltar uma peça.

  • Dembski (Complexidade Especificada): O argumento probabilístico de que a informação biológica é "improvável" demais para o acaso.

O ponto crítico: Lönnig ignora que a genética moderna e a biologia do desenvolvimento (Evo-Devo) já oferecem explicações para como mudanças em genes reguladores podem causar saltos morfológicos significativos sem violar as leis da física ou da biologia.

Por que isso é considerado problemático na academia?

A ciência trabalha com naturalismo metodológico. Lönnig aponta um problema real (a dificuldade de explicar a estase total via síntese moderna pura), mas em vez de buscar mecanismos biológicos desconhecidos, ele recorre a uma "solução" que interrompe a investigação científica: o design.

Extra

Evolução não darwiniana e criacionismo

Infelizmente, a maioria dos criacionistas religiosos e defensores do design inteligente geralmente equiparam a evolução ao "darwinismo", e é evidente que muitos desses autores fazem isso de propósito, por desonestidade. Quando fica claro que cientistas ou escritores não darwinianos estão apenas debatendo o papel da seleção natural na evolução e os mecanismos que a originaram, os criacionistas frequentemente citam e distorcem citações desses cientistas numa tentativa de criar a impressão de que eles estavam, na verdade, negando a evolução.


Em 2011, o biólogo A. L. Hughes publicou um artigo intitulado "Evolução de características fenotípicas adaptativas sem seleção darwiniana positiva", no qual propôs um mecanismo não darwiniano de adaptação que denominou "plasticidade-relaxamento-mutação" (PRM). O artigo foi mal interpretado e citado indiscriminadamente por criacionistas para sugerir que a evolução está em colapso. 


O escritor Jean Staune, defensor do design inteligente, escreveu um artigo sobre evolução não darwiniana e listou Michael Denton e Michael Behe ​​como "evolucionistas não darwinianos", já que eles aceitam a descendência comum. Staune afirma que o caminho a seguir para o movimento do design inteligente é que os defensores do design inteligente aceitem a descendência comum, mas proponham mecanismos não darwinianos para minimizar ou substituir a seleção natural. No entanto, fica claro no artigo de Staune que ele não tem interesse em propor quaisquer mecanismos naturais para a evolução e está interessado apenas em especulação metafísica.


Os criacionistas também descreveram incorretamente o equilíbrio pontuado (EP) como "não darwiniano". Richard Dawkins declarou que "[o EP] está firmemente inserido na síntese neodarwiniana" em seu livro O Relojoeiro Cego.


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