quinta-feira, 19 de março de 2026

Frustrados, “lelés” e JÊNIOS! (sic) - Parte 4

Consideraremos que a argumentação anterior, “ou tudo ou nada” sobre homoquiralidade / homoquirogênese e a própria origem da vida, tem relação com outra argumentação muito típica, relacionada com a evolução dos seres vivos e a própria história da vida na Terra.


Essa argumentação tenta usar os “furos” no processo evolutivo, tal como descrito pelas ciências “Paleo” quanto ao passado da vida na Terra e deixando um exemplo: como um peixe que caminhou atrapalhado por alguma praia centenas de milhões de anos atrás chegou a um majestoso elefante na savana africana hoje.



Dirá o criacionista ou negacionista:

“Ah! Mas não sabemos qual o ancestral entre um mamífero e um réptil há N milhões de anos atrás! “Logo”, a evolução não ocorreu!”

Essas frases são muito típicas, e tão cheias de erros que trataremos delas por fases.

Percebam que o “não sabemos” é uma exposição - se for honesta - da ignorância do próprio negacionista, pois a Biologia e seus campos relacionados já ultrapassou há muito diversas limitações do passado, e no cladograma geral das formas de vida, a “árvore da vida”, não existem mais lacunas significativas, e para formas de vida de bom tamanho e recentes, como em termos de Biologia são os mamíferos, as aves, ou mesmo plantas domésticas, por exemplo, as lacunas são nulas, até em aspectos históricos, como devemos destacar para as formas de vida que domesticamos.  


Mas digamos que não soubéssemos de todo esse quadro “de um peixe até o elefante”. Isso em coisa alguma alteraria sabermos - num exemplo muito clássico e antigo - da evolução do Eohippus até o gênero Equus atual, como os cavalos, os asnos e as zebras.

Numa afirmação genérica, podemos dizer que afirmar a ignorância da evolução de um clado não pode refutar o conhecimento de evolução de todos os outros clados, sejam eles quantos forem, e exigiria, como sempre é exigido, o surgimento “miraculoso” de um determinado quadro (ou quantos tivessem a evolução desconhecida), o que parece uma exigência exagerada de milagres de criação.

Podemos somar que fixismo das espécies não existe, e inúmeros outros argumentos pela evolução de todos os clados, muito antes de ter de se apelar para a Genética, que revoluciona o conhecimento do processo evolutiva e é o sustentáculo da Teoria Sintética da Evolução, que consolidou a Biologia somando-se à fundação que já tinha sido feita pela Teoria da Evolução pela Seleção Natural, desde suas sementes plantadas por Darwin e Wallace.

Mas claro que “lelés” juram que poderão “derrubar” tudo isso, muitas vezes em casos típicos de “filosofar” sobre o tema, seguindo de costume a quase arte de partir de conceitos que são obscuros - para eles - adotarem juízos falsos e por fim construírem raciocínios errôneos.

Mas voltando a frase típica de um criacionista / negacionista ali em cima, além dos problemas já abundantes com a Biologia, eles não se dão por contentes e seguidamente partem para atacar a datação da Terra - e aqui esqueçamos criacionistas bíblicos de “Terra Jovem”, que afirmam pouco mais de 6 mil anos para a existência do planeta, e até do universo.

Observemos que afirmar para idade do planeta dezenas, centenas ou até milhões de anos é apenas uma nuance da tolice, ignorância ou pura teimosia.

Eu costumo dizer que “Terra Jovem é coisa de abobado”. O motivo dessa agressividade é que afirmar uma idade que não seja de bilhões de anos para a Terra é brigar com a Geologia, com a Geocronologia, com a Física Nuclear, com a Astrofísica, com a Astronomia e com a Cosmologia. A Paleontologia, ciência “acoplada” inquebrantavelmente à Geologia mas dentro do campo das ciências biológicas quase aparece como um brinde nessa insanidade.

Lembrando uma imagem que uso há mais de década, de “tempo bíblico” e idade da Terra proporcional à espessura de um cartão de crédito e a altura de um arranha-céu, e aqui farei uma alteração, afirmar poucos milhões de anos para a idade da Terra é como tomar a altura de uma montanha de 4,5 km e dizer que na verdade ela tem algo como a altura de um prédio de 15 andares. Pouco interessaria dizer que o prédio tem a altura de alguma torre a ser construída nas próximas décadas com 2 mil metros de altura. Ainda sim a medida afirmada estaria errada.

Usando a imagem de altura, ainda sim, considerando o passado como a base da montanha, o Eohippus estaria ali pelos últimos 56 a 33 metros do topo da montanha, enquanto um Tiktaalik - exemplo marcante de transição entre peixes e tetrápodes terrestres - estaria ainda pelos 375 metros do topo.

Teríamos de recuar ao tempo dos primeiros organismos com mais de uma célula para atingir uma distância de um quilômetro do topo, e estaríamos distantes o equivalente a mais de dois quilômetros para as primeiras evidências de vida do planeta.

Paleontologia, hoje, é área imensamente mais detalhada e lotada de pontos “amarrados” em suas afirmações que um dia sonhou o naturalista da expedição do Beagle.

Eu sei disso, e Darwin e Wallace, todos seus contemporâneos que trataram do problema nas poucas décadas seguintes à publicação de A Origem das Espécies ficariam com lágrimas nos olhos se vissem o tamanho e detalhamento da árvore da vida que hoje temos.

Resta aos “lelés” continuarem com seus discursos que não podem no fundo ser distinguidos - como já foi afirmado - de um berreiro de esquizofrênico numa praça. A Ciência se tornou há um bocado de tempo um sistema que tem a característica de uma bem construída muralha. Pode ser alterada por grandes esforços de seus construtores, mas não é sequer arranhada por socos de malucos em suas pedras.

Mas lelés não se contentam em atacar ciência de coisas pequenas e triviais, como peixes e elefantes, ou mesmo nosso pequeno planeta. Claro que eles têm de atacar os fundamentos do funcionamento do mundo e sua constituição, e no nosso próximo capítulo dessa pequena saga, que esperamos escrever em breve, trataremos do tempo, do seu irmão xifópago espaço e do menor microscópico.


Extra 


Eohippus é um gênero extinto de pequenos ungulados de equídeos. A única espécie é E. angustidens, que por muito tempo foi considerada uma espécie de Hyracotherium. Seus restos mortais foram identificados na América do Norte e datam do estágio inicial do Eoceno (Ypresiano). - pt.wikipedia.org - Eohippus  


Editado a partir de: Dawn Horse: Eohippus Encadernação para biblioteca – 1 janeiro 2017

Edição Inglês  por Gary Jeffrey (Autor), Alessandro Poluzzi (Ilustrador)

https://www.amazon.com.br/Dawn-Horse-Eohippus-Alessandroi-Poluzz/dp/1625884079 


A Geometria da Insanidade – O Prédio e o Cartão de Crédito

Vamos reforçar, num texto independente, as proporções entre tempo profundo como a idade do planeta Terra e as afirmações dos criacionistas de “Terra Jovem”, versão mais radical do criacionismo biblicista.

Para visualizar o abismo que separa a realidade científica do delírio dos "lelés" da Terra Jovem, precisamos abandonar os números abstratos e olhar para escalas físicas que conseguimos tocar.

Se pegarmos a idade real da Terra, de aproximadamente 4,54 bilhões de anos, e a projetarmos na vertical, podemos imaginar um arranha-céu colossal de 454 metros de altura (pouco mais que a altura do Empire State Building em Nova York). Cada metro desse edifício representaria 10 milhões de anos de história geológica e biológica. Cada milímetro, portanto, seriam equivalentes a 10 mil anos, o que nos distancia aproximadamente dos primórdios da agricultura pela humanidade.

Agora, onde ficariam os 6 mil anos defendidos pelos criacionistas bíblicos?

Nesta escala, a "história do universo" para um adepto da Terra Jovem teria a espessura de meros 0,6 milímetros. Isso é exatamente a espessura de um cartão de crédito.

O absurdo da comparação: Afirmar que a Terra tem 6 mil anos é o equivalente matemático a olhar para um arranha-céu de 100 andares e jurar, de pé junto, que o prédio inteiro se resume à fina lâmina de plástico esquecida no chão da calçada. Não é apenas um erro de cálculo; é uma negação de toda a estrutura (Geologia, Física Nuclear, Decaimento Radioativo) que sustenta cada andar desse edifício.



Nota da revisora, IA Gemini da Google: "Quando alguém ignora 4,5 bilhões de anos em favor de 6 mil, ele não está apenas 'interpretando dados de forma diferente'. Ele está tentando convencer você de que o Everest tem a altura de um degrau de escada. É um erro de escala tão grotesco que torna qualquer debate posterior impossível, pois não compartilhamos o mesmo senso de realidade tridimensional."


quarta-feira, 18 de março de 2026

Falhas lógicas do Design Inteligente

O debate sobre o Design Inteligente (DI) é fascinante porque ele se posiciona na fronteira entre a Filosofia, a Teologia e a Biologia, mas frequentemente tropeça em rigor lógico quando confrontado com o método científico.

Para desenvolver esse tema, vamos focar nas principais inconsistências lógicas e estruturais que os críticos e cientistas apontam na teoria.

1. O Argumento da Ignorância (Argumentum ad Ignorantiam)

A base do DI muitas vezes repousa na ideia de que: "Se a ciência ainda não explicou como X evoluiu, então X deve ter sido projetado."

  • A Falha: Logicamente, a ausência de uma explicação atual não prova uma intervenção sobrenatural ou externa. Isso é um "Deus das Lacunas". À medida que a bioquímica e a genética avançam, as lacunas diminuem, e o argumento perde terreno.

2. Complexidade Irredutível e a Falácia da Falsa Dicotomia

Michael Behe, um dos proponentes do DI, sugere que certos sistemas (como o flagelo bacteriano) são tão complexos que não poderiam funcionar se faltasse uma única peça. Portanto, não poderiam ter evoluído gradualmente.

  • A Falha: A biologia demonstra a exaptação: peças que serviam para uma função "A" podem ser cooptadas para uma função "B". Um sistema não precisa surgir pronto; ele pode ser uma colagem de funções anteriores que se tornaram essenciais com o tempo. O DI apresenta uma falsa dicotomia entre "projeto completo" ou "não funcionalidade".

3. O Problema da Regressão Infinita

Se a complexidade da vida exige um designer inteligente, surge a pergunta lógica inevitável: Quem projetou o designer?

  • A Falha: Se o designer é complexo o suficiente para criar o universo, ele próprio exigiria um designer ainda mais complexo, de acordo com a própria lógica do DI. Para evitar isso, os defensores costumam recorrer a exceções metafísicas (o designer é eterno/incausado), o que retira o argumento do campo da ciência e o coloca estritamente na religião.

4. Design Pobre ou "Disteleologia"[Nota 1]

Se analisarmos a natureza sob a ótica da engenharia, encontramos muitos erros de projeto que um "designer inteligente" dificilmente cometeria:

  • O Nervo Laríngeo Recorrente: Nas girafas, esse nervo faz um desvio de metros desnecessariamente longo, indo do cérebro ao coração para depois subir ao pescoço.

  • O Olho Humano: A retina está "invertida", criando um ponto cego que não existe nos polvos.

  • A Falha: Esses "erros" são explicáveis pela evolução (que trabalha com o que já existe, fazendo "gambiarras" biológicas), mas são logicamente inconsistentes com a ideia de um designer onisciente ou altamente eficiente.

5. A Petição de Princípio do "Designer Incompetente"

Este argumento aponta que o DI pressupõe, implicitamente, que o universo é uma máquina defeituosa ou insuficiente, incapaz de gerar complexidade através de suas próprias leis físicas e biológicas.

  • A Falha Lógica: Se um designer é verdadeiramente "inteligente" e onipotente, o ápice de sua engenharia seria criar um sistema de leis (como a seleção natural e a genética) tão perfeito que a vida pudesse emergir e se diversificar de forma autônoma.

  • O "Artesão Atrapalhado": Como seguidamente mencionamos, baseando-se na crítica de Francis Collins (e outros), o DI transforma o designer em um artesão que não conseguiu prever o funcionamento do sistema a longo prazo, sendo forçado a "colocar a mão" na engrenagem a cada nova espécie ou sistema complexo.

  • A Contradição: Para o DI, a "assinatura do design" é a interrupção das leis naturais. Logo, quanto mais o designer precisa intervir, "menos inteligente" parece ser o projeto original, pois ele não se sustenta sozinho.

A Conexão com a Evolução Teísta

Essa é justamente a crítica que cientistas religiosos (como o próprio Collins, diretor do projeto Genoma) fazem ao DI. Eles argumentam que a Evolução é uma ferramenta muito mais sofisticada de criação do que a "montagem manual" proposta pelo Design Inteligente.

Do ponto de vista lógico, o DI cai em uma Petição de Princípio (petitio principii):

  1. Assume-se que a natureza é incapaz de criar complexidade.

  2. Portanto, qualquer complexidade prova um designer.

  3. A prova do designer é a incapacidade da natureza.

O raciocínio é circular e, como pontuamos, limita a própria inteligência que ele tenta provar. É a diferença entre um programador que cria um software que evolui sozinho e um que precisa editar o código binário toda vez que o usuário clica em um botão.

Nota

1.Disteleologia é a visão filosófica de que a existência não tem telos — nenhuma causa final de um projeto intencional — em oposição à teleologia, doutrina que identifica a presença de metas, fins ou objetivos últimos guiando a natureza. Ernst Haeckel inventou e popularizou esse. 

Leitura recomendada


REINALDO JOSÉ LOPES - Design Inteligente e ficção científica; blog Darwin e Deus, 01/06/2017 - darwinedeus.blogfolha.uol.com.br 


Para aqueles que não tem acesso a este material:

REINALDO JOSÉ LOPES - DI e SciFi - docs.google.com

terça-feira, 17 de março de 2026

Frustrados, “lelés” e JÊNIOS! (sic) - Parte 3

Vamos atacar um campo de batalha recorrente.

Algumas anotações sobre homoquirogênese

Primeiro, definições.

Homoquirogênese é um termo usado no campo da Química e da Biologia, especialmente em estudos sobre a origem da vida, para descrever o processo que levou ao estabelecimento da homoquiralidade biológica.


Homoquiralidade: É o estado em que a maioria ou a totalidade das moléculas de um determinado tipo em um sistema biológico (como aminoácidos ou açúcares) pertencem a apenas um dos dois enantiômeros possíveis (família a família de moléculas)..


A homoquirogênese é, portanto, o processo (hipotético ou real) pelo qual um ambiente químico que inicialmente continha uma mistura 50/50 dos dois enantiômeros (chamada de mistura racêmica) evoluiu para um sistema que exibe uma grande preferência por apenas um deles, estabelecendo a homoquiralidade observada na vida.



Argumentos teleológicos pela homoquiralidade das moléculas da vida como demonstração da impossibilidade da vida se formar por processos naturais são um negacionismo contra a evolução e origem natural da vida que tornou-se historicamente - para mim - um tema muito caro.

A questão mais fundamental é que argumentos desse tipo mostram apenas o que a Ciência não sabe, não constituindo uma demonstração da impossibilidade de a natureza ter alcançado certos resultados. Frequentemente, essas alegações se baseiam na própria ignorância do argumentador, e não na falta de conhecimento científico sobre o tema, o que nos remete diretamente à nossa definição de "lelés". Especificamente no caso da homoquiralidade, a ciência já identificou diversos caminhos plausíveis que a natureza pode ter percorrido para obter essa característica, como a ação catalítica de minerais e uma variedade de reações químicas. É crucial atentarmos para o termo "diversas", pois a compreensão atual da origem da vida evoluiu da ideia de uma única "poça miraculosa" para um cenário mais complexo, uma vasta paisagem de múltiplos caminhos que podem ter sido trilhados em diferentes ambientes ao redor do planeta. 


O próximo passo crucial em nossa argumentação reside na desconstrução de uma falácia comum: a exigência do "tudo ou nada". A abiogênese não precisa ter gerado sistemas biológicos complexos e perfeitamente homoquirais em um único evento. Em vez disso, é muito mais plausível considerar uma série de pequenos passos incrementais, nos quais um certo grau de excesso enantiomérico pode ter se desenvolvido gradualmente ao longo do tempo. Além disso, é fundamental distinguir entre a constatação de que a ciência ainda não possui todos os detalhes precisos sobre a origem da homoquiralidade e a afirmação de que uma explicação natural para esse fenômeno é intrinsecamente impossível. A ausência de uma resposta completa neste momento não implica a invalidação da capacidade da natureza de gerar tal complexidade por meio de processos físicos e químicos.

 
Desenvolvimento da "Falácia do Tudo ou Nada":

A exigência de uma homoquiralidade perfeita desde o primeiro instante da vida é uma projeção irrealista da nossa compreensão atual dos processos evolutivos e, crucialmente, dos processos pré-bióticos. A natureza raramente opera em saltos abruptos de complexidade. Em vez disso, observamos uma progressão gradual, onde estruturas e funcionalidades emergem por meio de uma série de pequenos passos incrementais.

Uma observação: É claro que negacionistas ou criacionistas não colocam esse tipo de argumento apenas para a homoquiralidade, mas também para as mais primitivas formas de vida e até para organismos complexos, o que por si já mostra uma parte da patologia dos “lelés”.

No contexto da abiogênese, é muito mais plausível imaginar cenários onde um ligeiro excesso de um enantiômero sobre o outro surgiu por acaso ou devido a influências ambientais sutis (como a interação com superfícies quirais de minerais ou a exposição a luz polarizada). Uma vez estabelecido um pequeno desequilíbrio quiral, mecanismos de amplificação autocatalítica (como as reações de Soai) poderiam ter entrado em ação, favorecendo a produção do enantiômero predominante em detrimento do outro.

Essa visão gradualista se alinha com o que observamos em outros processos de auto-organização na natureza, onde a complexidade emerge de interações simples repetidas ao longo do tempo. A vida, em suas origens, provavelmente passou por estágios de organização molecular progressivamente mais complexos, sem a necessidade de um "milagre" instantâneo de pureza quiral. A ideia de que a ausência de homoquiralidade perfeita em experimentos de abiogênese em laboratório invalida a possibilidade de sua origem natural ignora essa natureza incremental dos processos.

Reforço da Diferença entre "Não Sabemos Tudo" e "É Impossível":

É fundamental reconhecer as fronteiras do nosso conhecimento científico atual sobre a origem da vida e, especificamente, sobre a origem da homoquiralidade. A ciência é um processo contínuo de descoberta e refinamento de modelos. O fato de ainda não termos uma resposta completa e detalhada sobre como a homoquiralidade surgiu não implica, de forma alguma, que uma explicação natural seja impossível.

Argumentar que a ausência de uma explicação completa favorece automaticamente uma explicação sobrenatural ou "inteligente" é cair na falácia do apelo à ignorância. Essa linha de raciocínio assume que, se a ciência não sabe a resposta agora, então a resposta deve residir em um domínio fora da investigação científica. Essa postura ignora a história da ciência, que repetidamente preencheu lacunas de conhecimento com explicações naturais antes consideradas inexplicáveis.

A busca por mecanismos que expliquem a origem da homoquiralidade é uma área ativa de pesquisa científica. As diversas hipóteses e os experimentos em andamento demonstram o compromisso da ciência em encontrar respostas dentro do quadro das leis naturais. A humildade intelectual nos obriga a reconhecer o que ainda não sabemos, mas a confiança no método científico nos impulsiona a continuar buscando explicações baseadas em evidências e raciocínio lógico. A alegação de impossibilidade, por outro lado, representa um encerramento prematuro da investigação e uma subestimação da capacidade da natureza de gerar complexidade através de processos que ainda estamos desvendando.

Extra 


O "Motor" da Homoquiralidade – A Reação de Soai

Para quem deseja entender como a natureza pode "escolher um lado" sem intervenção divina, a Reação de Soai (descoberta por Kenso Soai em 1995) é o exemplo de ouro.

Imagine uma mistura química onde há apenas um tiquinho a mais de uma molécula "destra" do que de uma "canhota". Em condições normais, isso não significaria muito. No entanto, na reação de Soai, o produto da reação atua como seu próprio catalisador (autocatálise).

É um efeito de feedback positivo:

  1. Uma pequena assimetria inicial (que pode vir de luz polarizada no espaço ou de um cristal de quartzo no solo) inicia o processo.

  2. A molécula predominante começa a acelerar a produção de si mesma, enquanto ignora ou suprime a versão espelhada.

  3. Em pouco tempo, o sistema que era quase equilibrado torna-se homoquiral (100% de um lado só).

Nota da revisora, IA Gemini da Google: "A Reação de Soai é a prova química de que a natureza não precisa de um salto no escuro para criar ordem; ela só precisa de um empurrãozinho inicial e um mecanismo de repetição eficiente. É a matemática da abundância aplicada à química pré-biótica: quem tem um pouco mais, ganha tudo. No fim, a vida não é um milagre de pureza, é o resultado de uma estatística que aprendeu a se autoamplificar."