O encolhimento do diâmetro solar
Mais um passo de nossa jornada: O Mito do Encolhimento Solar
Chegamos ao quarto pilar dessa célebre lista de argumentos da Terra Jovem: a alegação de que o Sol estaria encolhendo a uma taxa constante de 1,5 metro por hora (cerca de 5 pés por hora).
Se levada a sério de forma linear, essa premissa significaria que, há apenas 1 milhão de anos, a superfície do Sol seria tão grande que queimaria a Terra, tornando a existência da vida e a evolução biológica impossíveis. No entanto, de todos os argumentos criacionistas da época, este é provavelmente o mais absurdo e desonesto do ponto de vista da metodologia científica.
TERRA JOVEM REFUTADA - cienciaxreligiao.blogspot.com
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1. A Origem do Mito: Um Estudo Preliminar Jamais Publicado
Em 1979, os pesquisadores John Eddy e Aram Boornazian apresentaram um resumo (abstract) em um encontro da Sociedade Astronômica Americana sugerindo que, com base em dados visuais do Observatório de Greenwich entre 1836 e 1953, o diâmetro solar estaria diminuindo.
Em 1980, o físico criacionista Russell Akridge pegou esse dado preliminar e fez exatamente o mesmo movimento que Barnes fez com o campo magnético: aplicou uma extrapolação linear ingênua para o passado infinito.
O problema?
O estudo original nunca passou pela revisão de pares: O texto completo de Eddy e Boornazian jamais foi publicado em um periódico científico, pois análises posteriores revelaram falhas sérias na metodologia e no tratamento dos dados históricos de Greenwich (que dependiam de observações visuais humanas e imperfeitas no trânsito do Sol).
Invenção de prazos: Embora o estudo analisasse apenas um período de cerca de 117 anos (1836-1953), autores criacionistas começaram a citar o dado como se fosse uma "observação comprovada ao longo de 400 anos".
2. A Seleção Apetite de Dados (Cherry-Picking)
Quando Akridge publicou sua tese em 1980, a comunidade astronômica já havia produzido e publicado diversos outros estudos de diâmetro solar que desmentiam categoricamente a ideia de um encolhimento contínuo.
Dados históricos ignorados: Registros astronômicos do século XVIII e XIX (como observações de trânsitos de Mercúrio e Vênus em frente ao Sol, e medições de eclipses solares desde o século XVII) mostravam que o tamanho do Sol permanecia essencialmente o mesmo.
Escolha deliberada: Akridge e outros defensores da Terra Jovem optaram por ignorar todo o corpo de dados publicado e revisado pela comunidade internacional para abraçar exclusivamente um único resumo preliminar e falho.
3. O Sol Não Encolhe de Forma Linear: Ele Oscila
A astronomia moderna e a heliossismologia (o estudo das ondas acústicas dentro do Sol) demonstraram que a estrela não está em um processo de "morte por murchamento".
Comportamento Cíclico: O diâmetro do Sol sofre pequenas expansões e contrações mínimas e temporárias. Descobertas posteriores identificaram ciclos oscilatórios (como ciclos de cerca de 80 anos e variações acopladas ao ciclo de atividade magnética solar de 11 anos).
Física Estelar: O Sol está em equilíbrio hidrostático há bilhões de anos — a pressão de radiação gerada pelas reações de fusão nuclear no seu núcleo empurra a matéria para fora na exata medida em que a gravidade a puxa para dentro. Um encolhimento contínuo e rápido exigiria um mecanismo físico totalmente diferente do modelo nuclear validado da astrofísica.
4. A Permanência do Mito: Negligência ou Má-Fé?
A verdadeira ciência se caracteriza por corrigir suas premissas quando novos dados desmentem uma hipótese inicial. O próprio John Eddy, coautor do estudo preliminar de 1979, reavaliou a questão e abandonou a ideia do encolhimento secular à medida que estudos mais precisos surgiram.
No entanto, por décadas após o descarte completo da tese pela astronomia profissional, o "encolhimento solar de 1,5m por hora" continuou a ser repetido em livros, palestras e panfletos criacionistas. A manutenção de um argumento sabidamente falso, ignorando correções feitas pela própria literatura científica, ultrapassa o mero erro de interpretação e entra no campo da distorção deliberada.
Análise Comparativa dos Modelos
O mito do encolhimento solar é talvez a demonstração mais didática de como a negação do tempo profundo muitas vezes dependeu da escolha a dedo de anomalias metodológicas em detrimento do consenso científico. O Sol, longe de se esvaziar a passos largos, permanece como a engrenagem estável e duradoura do nosso Sistema Solar há 4,6 bilhões de anos.
