quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Dados arremessados contra a vidraça do determinismo - 3

Três pessoas, as causas, efeitos e eventos do mundo

Dramatis Personae

  • Philon (O Céptico Lógico): O purista da Razão. Herdeiro do Hume demolidor, enxerga em supercomputadores e redes neurais apenas uma indução cega e hipertrofiada.

  • Kallias (O Naturalista Pragmático): O defensor da sobrevivência e do processamento preditivo. Vê a causalidade não como revelação metafísica, mas como a moeda de troca metabólica da adaptação.

  • Theonas (O Realista Científico): O físico necessitarista. Defende que a ciência moderna não vive de estatística contingente, mas do mapeamento de restrições e simetrias invioláveis da matéria.




Ato I: O Fantasma de Hume no Silício

Philon: Olhem para estes centros de dados. Queimam terawatts de energia para mastigar o passado da humanidade. O que chamam de Inteligência Artificial Generativa não passa do hábito humeano elevado à escala industrial. A rede neural processa petabytes de texto e imagem, identifica conjunções constantes em uma matriz multidimensional e nos devolve a ilusão de um pensamento causal. Mas pergunto: onde está o nexo causal nos parâmetros de um modelo de linguagem? Ele prevê o próximo token com base em estatística histórica. Se o sol nasceu quatro bilhões de vezes, a IA calcula uma probabilidade altíssima de ele nascer de novo. Mas o modelo nada sabe sobre o sol, sobre a gravidade ou sobre a fusão do hidrogênio. É uma máquina de indução cega — o papagaio estocástico que David Hume descreveria se vivesse no século XXI.

Kallias: Você acusa o silício pelo mesmo motivo que o racionalista ingênuo acusaria o cérebro humano, Philon. Sua cobrança por uma "compreensão causal ontológica" é uma patologia conceitual. O cérebro humano consome vinte watts e opera sob o exato mesmo princípio: minimização do erro de previsão. Não percebemos fótons brutos; projetamos modelos top-down sobre o caos sensorial para economizar energia metabólica. Se o modelo de Deep Learning antecipa a estrutura da linguagem ou a dobra de uma proteína a partir de correlações massivas, ele está fazendo precisamente o que a seleção natural nos ensinou a fazer. A causalidade nunca esteve "nas coisas"; ela é a heurística pela qual sistemas finitos navegam na entropia. Criticar a IA por ser "apenas indutiva" é criticar o único mecanismo que permitiu à vida animal não ser devorada no minuto seguinte.

Theonas: Ambos estão presos em um falso dilema que a ciência moderna já ultrapassou. Philon reduz o silício a um mero agregador de contingências, e Kallias reduz a verdade à mera utilidade biológica. Mas vejam o que acontece quando saímos dos modelos de linguagem puramente estatísticos e entramos nos AIA-Causais ou nos modelos fundamentados na física (Physics-Informed Neural Networks). Nesses sistemas, não alimentamos a máquina apenas com dados do passado; nós embutimos no seu código as restrições invariantes do cosmos — a conservação de quantidade de movimento, a simetria de gauge, as equações de campo. A máquina não "espera" que o futuro seja igual ao passado por hábito; ela é impedida de gerar cenários que violem os limites metafísicos e físicos da matéria. O silício deixa de imitar o hábito para espelhar as necessidades estruturais da realidade.

Ato II: A Termodinâmica do Clima

Philon: Uma ressalva elegante, Theonas, mas que desmorona no instante em que aplicamos essa premissa aos sistemas complexos não lineares. Tomemos o exemplo definitivo de Faustino Vaz: a previsão de que o aquecimento global atingirá a marca de 1,5°C se a neutralidade de carbono for alcançada em 2035. O clima planetário é um sistema turbulento, dinâmico, onde o bater de asas de uma borboleta ou um desvio mínimo nas correntes oceânicas altera radicalmente os resultados. Como podem alegar que simulações de supercomputadores descobrem "necessidades naturais" quando lidam com dados incompletos e projeções de probabilidade? Dizer que o planeta aquecerá 1,5°C em 2035 é uma extrapolação indutiva, tão vulnerável ao erro lógico quanto a premissa de que o próximo cisne será branco porque todos os observados até hoje o foram. O futuro do clima não está contido logicamente nos registros meteorológicos dos últimos dois séculos.

Theonas: Você confunde a imprevisibilidade microesquêmica de um sistema caótico com a impossibilidade de restrição macroscópica, Philon. Prever se vai chover no seu gabinete às três da tarde do dia 12 de outubro de 2035 é de fato uma tarefa sujeita à sensibilidade das condições iniciais — o famoso caos determinístico. Mas prever o aquecimento global em 1,5°C não é uma previsão meteorológica local; é um cálculo de balanço energético planetário. O efeito estufa é governado pela Primeira e Segunda Leis da Termodinâmica e pela Lei de Stefan-Boltzmann. Se você retém mais radiação infravermelha em uma estufa fechada do que a quantidade que radia de volta para o vácuo, a energia interna do sistema tem que aumentar. Isso não é uma regularidade acidental que "tem acontecido até hoje". É uma necessidade natural duríssima. Um planeta que retém energia sem aumentar sua temperatura média não seria um "caso de exceção indutiva"; deixaria de ser um sistema físico neste universo.

Philon: E no entanto, Theonas, a taxa exata de absorção, os feedbacks das nuvens e o degelo do permafrost envolvem parâmetros que nenhum físico domina por completo. Vossos modelos matemáticos continuam sendo abstrações que tentam encaixar a natureza em equações. Se as premissas contêm a menor margem de erro, a conclusão provável desmorona. A suposição de que a natureza continuará operando sob essas exatas equações no futuro permanece sendo o que Hume demonstrou: uma petição de princípio. Vocês precisam assumir a Uniformidade da Natureza para provar que a Natureza é uniforme.

Ato III: O Veredicto Pragmático

Kallias: Deixemos essa pirotecnia lógica de lado por um instante. Philon, você exige uma garantia absoluta que a própria arquitetura do universo — e da vida — proíbe. A dúvida hiperbólica é um luxo de quem não precisa tomar decisões sob escassez de tempo e energia. Enquanto você aponta a circularidade da indução, o navio planetário está adentrando águas desconhecidas. A validade de um modelo climático ou de um algoritmo de inteligência artificial não se mede pela sua capacidade de resistir a um cético em um tribunal cartesiano, mas pela sua eficácia operativa.

[ Dúvida Hiperbólica / Lógica Pura ] ──> Paralisia (Custo Metabólico Infinito)


[ Processamento Preditivo / Modelação ] ──> Ação Adaptativa (Minimização da Entropia) 

Kallias (continuando): Tanto o cérebro do primata que recolhe a mão diante da chama quanto a comunidade científica que projeta cenários para 2035 operam sob a mesma moeda de troca: a sobrevivência através da redução da entropia. Se a projeção de 1,5°C nos permite alterar a matriz energética e evitar o colapso das cadeias alimentares, o modelo cumpriu seu papel adaptativo. Se a IA nos permite sintetizar novos fármacos em semanas em vez de décadas, a questão de saber se ela "compreende" a causa última se torna uma irrelevância acadêmica. A causalidade não é uma propriedade mística guardada nos objetos, nem uma ilusão vazia: é a ponte indispensável entre a estrutura física do cosmos e a ação do organismo finito que tenta continuar existindo nele.

Theonas: Concordo com o seu veredicto prático, Kallias, mas ajusto a sua lente. A eficácia operativa desses modelos não é um milagre acidental nem uma simples conveniência biológica. Eles funcionam — e salvam vidas — precisamente porque conseguem capturar, ainda que por aproximação, os canais de necessidade física que restringem a matéria.

Philon: De minha parte, continuarei no meu papel. Enquanto vocês constroem os modelos e celebram sua eficácia, lembrarei a ambos que a vidraça do determinismo continua sendo de vidro. Basta um único evento fora da distribuição — uma assimetria não prevista na física ou um ponto de ruptura sistêmico — para demonstrar que o futuro jamais pertencerá à lógica do passado.

Kallias: Que seja, Philon. Mas enquanto a vidraça não quebra, usaremos cada pedaço de dado arremessado contra ela para construir o próximo mapa.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Anotações científicas - 45

Reescrevendo o Código das Usinas Celulares: O Avanço da Edição Genética Mitocondrial

As mitocôndrias são conhecidas como as usinas de energia das nossas células, mas elas guardam um segredo fascinante: possuem seu próprio DNA, independente do núcleo celular. Mutações nesse material genético mitocondrial (mtDNA) são responsáveis por uma série de doenças metabólicas e degenerativas severas. Embora a famosa ferramenta de edição genética CRISPR/Cas9 tenha revolucionado a biologia ao permitir modificar o DNA do núcleo com precisão cirúrgica, aplicá-la com sucesso no DNA mitocondrial humano sempre foi um desafio gigantesco e envolto em debates.


 

Um estudo publicado na Science China Life Sciences trouxe evidências diretas de como contornar essas barreiras e manipular com sucesso o mtDNA humano.

O Desafio da Edição Mitocondrial

Diferente do DNA nuclear, o DNA mitocondrial tem mecanismos de reparo e proteção bastante particulares. Quando uma fita de DNA sofre uma quebra dupla (DSB), a célula precisa consertá-la para sobreviver. No entanto, demonstrar que o sistema CRISPR/Cas9 poderia não apenas cortar o mtDNA, mas induzir mutações específicas e controladas através desse reparo, era uma lacuna aberta na ciência.

As Principais Descobertas do Estudo

  • Cortes Específicos e Mutações Direcionadas: Utilizando versões engenheiradas da proteína Cas9, os pesquisadores conseguiram induzir quebras de fita dupla em regiões específicas do mtDNA humano, desencadeando mutações do tipo InDel (inserções e deleções de bases) em áreas chamadas de regiões microhomólogas.

  • Potencialização da Edição: A eficiência desse processo aumentou consideravelmente ao utilizar múltiplos RNAs de guia (sgRNA multiplexing) simultaneamente, permitindo atacar mais de um ponto do mtDNA ao mesmo tempo.

  • Reprogramando o Reparo Celular: A equipe descobriu que o uso do iniparib — um inibidor de enzimas de reparo de DNA — aumentou a taxa de mutogênese. Isso provou que é possível "reprogramar" a forma como a mitocôndria responde ao dano no DNA para favorecer a edição desejada.

O Impacto para a Medicina

Essa demonstração de que é possível manipular o mtDNA abrindo e direcionando o seu mecanismo de reparo abre duas grandes portas:

  1. Pesquisa Básica: Permite que cientistas criem modelos de laboratório para entender exatamente o papel de cada gene mitocondrial na saúde e na doença.

  2. Terapia Gênica Mitocondrial: Senta as bases para futuras abordagens terapêuticas capazes de corrigir ou eliminar mutações causadoras de doenças hereditárias mitocondriais, que hoje não possuem cura.



O artigo

Wang, B., Lv, X., Wang, Y. et al. CRISPR/Cas9-mediated mutagenesis at microhomologous regions of human mitochondrial genome. Sci. China Life Sci. 64, 1463–1472 (2021). https://doi.org/10.1007/s11427-020-1819-8   

https://link.springer.com/article/10.1007/s11427-020-1819-8  


A manipulação genética do DNA mitocondrial (mtDNA) poderia ser aproveitada para decifrar a função dos genes mitocondriais; ela também atua como uma abordagem promissora para a correção terapêutica de mutações patogênicas no mtDNA. No entanto, ainda há uma falta de evidências diretas mostrando a mutogênese editada dentro do mtDNA humano pelo sistema CRISPR/Cas9. Aqui, usando CRISPR/Cas9 projetado, observamos numerosos eventos de inserção/deleção (InDel) em várias regiões microhomólogas do mtDNA, os quais foram desencadeados especificamente por lesões de quebra de fita dupla (DSB) dentro do mtDNA. A mutogênese por InDel foi significativamente aprimorada pelo multiplexação de sgRNA e por um inibidor de reparo de DSB, o iniparib, demonstrando evidências de reprogramação do status de reparo de DSB para manipular o mtDNA usando CRISPR/Cas9. Essas descobertas fornecem novas percepções sobre a mutagênese do mtDNA e a terapia gênica mitocondrial para doenças que envolvem mtDNA patogênico.


terça-feira, 8 de setembro de 2026

Uma discussão enérgica: A origem das mitocôndrias

Como digo, esse tema dá samba, mas não do modo que negacionistas acreditam que dá. Assim, resolvi apresentar um quadro de ambos os lados da discussão, até para efeitos didáticos.


Embora a Teoria da Endossimbiose seja amplamente aceita pela comunidade científica, existem argumentos históricos, bioquímicos e estruturais que foram utilizados por contestadores para sugerir que as mitocôndrias poderiam ter surgido de forma endógena (dentro da própria célula).[Zachar] 

A teoria concorrente clássica é a Hipótese Autógena (ou de diferenciação celular), que propõe que as organelas membranosas surgiram a partir do invaginamento e da especialização da própria membrana plasmática da célula ancestral.
 


 

As principais evidências e questionamentos apontados por quem contesta ou debatia a origem endossimbiótica das mitocôndrias incluem: 

1. Dependência Genética Absoluta do Núcleo

Embora as mitocôndrias possuam DNA próprio, o genoma mitocondrial humano codifica apenas 13 proteínas. As outras mais de 1.000 proteínas necessárias para a estrutura e o funcionamento da mitocôndria são codificadas pelo DNA nuclear da célula hospedeira, sintetizadas no citoplasma e depois importadas pela organela. Cientistas céticos argumentavam que um organismo outrora independente não dependeria tanto de genes externos para funções vitais básicas. 

2. Presença de Íntrons e Similaridades com Eucariotos

O DNA de bactérias (procariontes) quase não possui íntrons (regiões de DNA que não codificam proteínas). No entanto, os genes encontrados em mitocôndrias de alguns fungos e plantas contêm íntrons. Além disso, muitas enzimas e mecanismos de replicação mitocondrial compartilham mais semelhanças com mecanismos tipicamente eucarióticos do que bacterianos. 

3. Diferenças Estruturais no DNA

A Teoria Endossimbiótica apoia-se fortemente no fato de o DNA mitocondrial ser circular, como o das bactérias. Porém, descobriu-se que o genoma mitocondrial de diversos organismos (como alguns fungos, algas e protozoários) é linear. Além disso, o processo de replicação do DNA mitocondrial e os códigos de trincas de bases em alguns organismos diferem significativamente dos padrões bacterianos. 

4. Incapacidade de Sobrevivência Autônoma

Diferente de simbioses modernas onde os parceiros ainda podem ser cultivados isoladamente, as mitocôndrias não sobrevivem fora da célula hospedeira sob nenhuma condição ambiental ou nutricional fornecida em laboratório. Para os defensores da hipótese autógena, isso indica que elas são componentes permanentes e inseparáveis da maquinaria celular desde a sua origem. 

5. O Paradoxo do Englobamento Procarionte

Muitos modelos sugerem que um procarionte ancestral englobou a bactéria que viria a ser a mitocôndria. Contudo, procariontes modernos não realizam fagocitose porque não possuem o citoesqueleto complexo e flexível necessário para envolver outra célula. Críticos apontam que, sem a maquinaria de englobamento já desenvolvida no hospedeiro, a endossimbiose inicial seria mecanicamente improvável. 

Embora procariontes clássicos realmente careçam de um citoesqueleto flexível para a fagocitose tradicional, a biologia celular moderna propõe que o hospedeiro ancestral era uma arqueia (possivelmente do grupo Asgard). Nesse cenário, o "englobamento" inicial pode ter ocorrido por meio de projeções membranosas ou protuberâncias que abraçaram a bactéria antes do surgimento da fagocitose sofisticada. 


Resumo da visão científica atual: Apesar desses contra-argumentos terem motivado debates intensos no passado, as análises filogenéticas modernas de sequenciamento genético comprovaram que os genes das mitocôndrias são diretamente aparentados com o grupo das alfaproteobactérias. Por isso, a comunidade científica internacional considera a endossimbiose um fato consolidado, explicando a dependência atual como o resultado de bilhões de anos de evolução e transferência de genes da organela para o núcleo da célula.[Mpakosi]

Referências


Mpakosi A, Kaliouli-Antonopoulou C, Cholevas V, Cholevas S, Tzouvelekis I, Mironidou-Tzouveleki M, Tsantes EA, Tsakri D, Vlachaki M, Baliou S, Ioannou P, Sokou R, Bonovas S, Tsantes AG. From Ancient Philosophy to Endosymbiotic Theory: The Bacterial Origin and Key Role of Mitochondria in Immune Responses. Microorganisms. 2025 Sep 15;13(9):2149. doi: 10.3390/microorganisms13092149. PMID: 41011480; PMCID: PMC12472402.  https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12472402/ 


Zachar I, Szathmáry E. Breath-giving cooperation: critical review of origin of mitochondria hypotheses : Major unanswered questions point to the importance of early ecology. Biol Direct. 2017 Aug 14;12(1):19. doi: 10.1186/s13062-017-0190-5. PMID: 28806979; PMCID: PMC5557255. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5557255/


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

TERRA JOVEM REFUTADA, A RELEITURA - 1. Radiohalos de Polônio

Por que Precisamos Voltar aos Radiohalos de Polônio?

Há quase duas décadas, tivemos a publicação por Elyson Scafati, no blog “Ciência X Religião”, de uma das análises mais lidas do acervo sobre as alegações da "Terra Jovem". Naquela época, o objetivo era direto: responder a alguns dos argumentos mais complexos do “criacionismo científico”. Entre eles, partiu-se da tese dos radiohalos de polônio, formulada pelo físico Robert Gentry, que por anos ostentou o status de "a prova definitiva de que a Terra foi criada em questão de minutos".

Aquele artigo cumpriu bem o seu papel, mas o debate sobre a idade do nosso planeta e a confiabilidade do método científico não parou no tempo. Se por um lado a geologia e a física nuclear acumularam ainda mais evidências sobre a dinâmica da crosta terrestre, por outro, os velhos argumentos continuam sendo reciclados em novas embalagens na internet, alimentando a desinformação.

Retomar esse assunto hoje não é apenas um exercício de nostalgia ou repetição. É uma oportunidade de olhar para o trabalho de Gentry com uma lente mais afiada, desmembrando o problema em três camadas fundamentais que muitas vezes passam despercebidas:

  1. O erro geológico de campo: A confusão entre rochas recicladas e o pretenso "solo primordial" da Terra.

  2. A mecânica do processo: Como a geofísica e o fluxo de fluidos explicam a formação natural do polônio sem a necessidade de eventos mágicos.

  3. O colapso termodinâmico: As contradições físicas e os problemas de dissipação de calor que tornam a tese de uma Terra jovem cientificamente inviável.

Nesta nova série, vamos além do simples "certo ou errado". Vamos entender como a ciência trabalha para identificar falhas metodológicas e por que o "álibi dos três minutos" se tornou um dos exemplos mais didáticos de como premissas equivocadas podem levar a conclusões ilusórias.

Acompanhe os próximos tópicos.


TERRA JOVEM REFUTADA - cienciaxreligiao.blogspot.com  


https://cienciaxreligiao.blogspot.com/2007/07/terra-jovem-refutada.html 


No nosso Google Drive:  https://docs.google.com/document/d/1n8KFzFablC95NfOWw--BmXsG-iG0sgh0gVIDc8pofHA/edit?tab=t.0 


A Ilusão da Criação Instantânea: Como a Geologia Refutou o “Álibi dos 3 Minutos”

Durante décadas, um dos argumentos mais célebres do criacionismo de Terra Jovem ostentou a roupagem de ciência de ponta. Formulada pelo físico Robert Gentry, a tese dos radiohalos de polônio prometia uma prova irrefutável: a Terra teria sido criada a frio e de forma praticamente instantânea em questão de minutos.

Para entender a fragilidade dessa afirmação, é preciso examinar como a análise geológica de campo e a física nuclear desmontaram o mito da "rocha primordial".

O Argumento e a Premissa Falha

Gentry analisou microscópicas marcas circulares (halos radioativos) deixadas pelo decaimento do Polônio-218 em cristais de biotita (mica). Como o Polônio-218 possui uma meia-vida de apenas 3 minutos, sua premissa foi direta: para que as marcas de radiação ficassem presas na rocha, o granito precisaria ter se solidificado instantaneamente ao redor do elemento. Caso contrário, o polônio teria desaparecido antes da rocha esfriar.

A tese, contudo, desmorona ao confrontar a origem das amostras e a física dos minerais.

As Três Falhas Incontornáveis

1. O Erro Geológico: O que é uma "Rocha Primordial"?

  • A Suposição: Gentry assumiu que qualquer granito pré-cambriano representava o solo original do planeta, criado no "Dia 1".

  • A Realidade: Granitos não são rochas congeladas na origem do universo, mas rochas ígneas intrusivas formadas pelo resfriamento de magma.

  • A Evidência de Campo: Mapeamentos promovidos por geólogos (como Jeffrey Wakefield) demonstraram que as amostras de Gentry vinham de formações que cortavam camadas sedimentares e metamórficas mais antigas. Uma rocha que intruda ou corta uma camada preexistente não pode ser a primeira rocha a existir.

2. O Encanamento Invisível: A rota do Radônio

  • O Mecanismo: Os radiohalos não estão dispersos ao acaso. Eles se alinham rigorosamente ao longo de microfraturas e falhas nos cristais.

  • O Fluxo Hidrotermal: O Urânio-238 presente nas rochas decai naturalmente em Radônio-222 (um gás com meia-vida de 3,8 dias). Esse gás navega pelos fluidos quentes através das microfraturas da mica e decai sucessivamente até virar polônio.

  • A Armadilha Química: O polônio se deposita nessas fendas, criando os halos secundários de forma contínua ao longo de milhares de anos. Não houve criação instantânea, mas um fluxo radioativo constante.

3. O Dilema Termodinâmico do Decaimento Acelerado

  • Para contornar as datações radiométricas de bilhões de anos, defensores do modelo sugerem que as taxas de decaimento eram milhões de vezes mais rápidas no passado.

  • O Problema do Calor: Se o decaimento do urânio, potássio e tório tivesse sido acelerado para caber em alguns milhares de anos, a quantidade de calor liberada seria suficiente para derreter a crosta terrestre e vaporizar os oceanos.

Análise Comparativa dos Modelos


Elemento de Análise

Modelo de Terra Jovem (Gentry)

Explicação Geológica Aceita

Natureza do Granito

Matéria-prima primordial criada no Dia 1.

Rocha intrusiva/metamórfica vinda de magma reciclado.

Origem do Polônio

Isótopos primários presos no ato da criação.

Decaimento secundário do Radônio transportado por fluidos.

Localização dos Halos

Isocromática e isolada na matriz mineral.

Concentrada ao longo de microfraturas e falhas do cristal.

Consistência Física

Exige variação arbitrária nas constantes físicas.

Respeita as leis de conservação de energia e termodinâmica.


A tentativa de transformar imperfeições na cristalização de minerais em um evento sobrenatural tropeçou no rigor metodológico. A ciência de campo demonstrou que as rochas de Gentry contam a história de uma Terra dinâmica, moldada por fluidos, calor e tempo profundo — e não um estalo de dedos em três minutos. 



Recomendação de leitura em nossas publicações:


O Enigma dos Halos e a Realidade da Terra - A Resposta de Baillieul a Robert Gentry

https://francisco-scientiaestpotentia.blogspot.com/2026/07/o-enigma-dos-halos-e-realidade-da-terra.html 


domingo, 6 de setembro de 2026

Notas biopoéticas 51

Príons antes da vida?

A pergunta que intitula esta divulgação encapsula perfeitamente a audácia da hipótese proposta por Lupi e colaboradores (2006). Ao inverter a ordem cronológica que costumamos dar aos componentes fundamentais da biologia — colocando a proteína conformacional antes do ácido nucleico digital —, abrimos espaço para redescobrir a própria origem da hereditariedade.

Se os príons representam, de fato, os remanescentes de um código analógico primordial, a evolução não começou tentando decifrar letras químicas complexas, mas sim garantindo que a estabilidade de uma dobra molecular pudesse resistir ao fogo da Terra primitiva. A vida, em sua raiz mais profunda, pode ter aprendido a persistir muito antes de aprender a ler.


 

Antes que o DNA e o RNA se consolidassem como os arquitetos moleculares da vida moderna, a biologia primitiva pode ter operado sob uma gramática completamente diferente. Em um ambiente terrestre hostil, marcado por temperaturas extremas e instabilidade, os ácidos nucleicos — complexos e termossensíveis — estariam longe de ser a opção ideal para o armazenamento e processamento de informações vitais. É nesse cenário de fronteira que surge a instigante hipótese de que os prions, proteínas capazes de autorreplicação conformacional, não sejam apenas agentes patológicos, mas sim fósseis vivos de uma era pré-nucleica.

A estabilidade incomum das proteínas em condições inóspitas sugere que a evolução molecular pode ter começado pelo reino dos peptídeos. Enquanto a genética contemporânea opera por meio de um código digital estrito baseado em sequências de bases nitrogenadas, os príons operam através de um código analógico, transmitindo informações biológicas por meio da adoção de conformações espaciais específicas. Esse mecanismo de transmissão de fenótipos de maneira não mendeliana — observado tanto em fungos quanto em mamíferos — revela que a herança biológica antecede a própria invenção dos genes modernos.

Essa perspectiva redefine a nossa compreensão sobre a origem da vida, sugerindo que a memória celular nasceu da própria capacidade da matéria proteica de dobrar-se, lembrar-se e propagar sua forma. Ao desvendar os prions sob a lente da biopoética evolutiva, reencontramos os vestígios de um tempo em que a informação e a estrutura física eram uma só substância, esculpida diretamente pelas pressões implacáveis de um planeta em formação.

 

O artigo


Lupi O, Dadalti P, Cruz E, Sanberg PR; Cryopraxis' Task Force for Prion Research. Are prions related to the emergence of early life? Med Hypotheses. 2006;67(5):1027-33. doi: 10.1016/j.mehy.2006.04.056. Epub 2006 Jun 30. PMID: 16814482. 

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16814482/ 


Resumo

DNA e RNA são as moléculas celulares modernas relacionadas ao armazenamento e processamento da informação genética. Porém, nas condições ambientais primitivas da Terra, estas duas moléculas estão longe de ser a melhor opção para esta função devido à sua grande complexidade e sensibilidade ao calor. Experimentos têm mostrado que as proteínas são moléculas muito estáveis ​​e confiáveis ​​mesmo em condições muito extremas e, em certas circunstâncias, podem estar relacionadas à transmissão de certos fenótipos que são herdados de forma não mendeliana. Os príons, proteínas infecciosas que estão associadas a diversas doenças neurológicas entre os mamíferos, substituindo seu estado nativo dominante de proteína príon por um mal dobrado, são notavelmente resistentes até mesmo aos ambientes mais extremos. Além disso, os príons também estão associados à transmissão de certas características fúngicas em um modelo epigenético. Estas duas características apoiam a hipótese de que os príons são uma possível relíquia da evolução peptídica em estágio inicial e podem representar a reminiscência de um código analógico muito antigo de transmissão biológica de informação, em vez do código digital representado pelos ácidos nucleicos modernos.


sábado, 5 de setembro de 2026

Dados arremessados contra a vidraça do determinismo - 2

A Ilusão Categórica e o "Regularismo" de Hume

Para David Hume, o universo assemelha-se a um filme em película: uma sucessão de quadros estáticos, discretos e independentes. Ao analisarmos uma bola de bilhar, nossa percepção apreende apenas suas propriedades chamadas categóricas — sua forma esférica, sua solidez, sua posição no espaço e seu vetor de velocidade em um instante t. Para o empirismo clássico, o objeto é completo em si mesmo; ele não carrega em suas entranhas nenhum "anúncio" do que fará no instante seguinte.

Essa visão gerou o Regularismo na filosofia da ciência: a tese de que as leis da natureza são meras crônicas estatísticas, descrições acidentais de regularidades que, por mero acaso ou contingência metafísica, têm se repetido até hoje. Se o evento A sempre precede o evento B, a "lei" é apenas o nosso relatório de observação, e não um decreto que o cosmos seja obrigado a seguir. O mundo humeano é inerte, passivo e fragmentado.



O Sepultamento pela Física Contemporânea

A física do século XX e XXI desfez essa vidraça estática. Tanto na escala cosmológica da Relatividade Geral quanto no tecido subatômico da Mecânica Quântica e da Teoria Quântica de Campos, a ideia de uma matéria definida exclusivamente por propriedades geométricas e espaciais (categóricas) revelou-se uma ilusão macroscópica.

Na física contemporânea, as propriedades fundamentais das partículas são intrinsecamente disposicionais. Elas não são "coisas" que possuem poderes; elas são os próprios poderes causais em operação.

  • A Relatividade Geral e o Campo Espaço-Tempo: Na mecânica clássica, o espaço e o tempo eram o palco inerte (categórico) onde os corpos se moviam. Com Einstein, o espaço-tempo assume um papel dinâmico. A massa de um corpo não é uma qualidade isolada, mas a disposição ativa de curvar o tecido do espaço-tempo ao seu redor, ditando geometricamente como outros corpos devem se mover. Não há separação entre o que a matéria é e o que a matéria faz.

  • A Teoria Quântica de Campos: No modelo padrão da física de partículas, o conceito humeano de "corpúsculo sólido" desaparece. O que chamamos de partículas são excitações localizadas de campos de força quantizados. Um elétron é uma manifestação do campo eletrônico interagindo permanentemente com o campo eletromagnético. A carga elétrica negativa do elétron não é um rótulo colado em sua superfície; é a sua disposição matemática e física inexorável de repelir outros elétrons através da troca de fótons virtuais.

Do Regularismo ao Necessitarismo Moderno

Essa mudança de paradigma substitui o Regularismo pelo Necessitarismo metafísico. A repulsão entre dois elétrons, ou o limite universal da velocidade da luz (c), não são comportamentos acidentais que podem mudar amanhã caso a natureza resolva "mudar de ideia". Eles expressam necessidades naturais baseadas na própria identidade dos constituintes do universo.

Se dois elétrons se atraíssem em vez de se repelirem, o problema não seria a quebra de uma regularidade estatística; é que as entidades envolvidas deixariam, por definição biológica e física, de ser elétrons. A identidade de uma propriedade física é indissociável das suas relações necessárias de simetria e conservação.

Portanto, a física contemporânea não encontra suporte na parsimônia de Hume. As leis duras da ciência não descrevem apenas o que tem acontecido, mas mapeiam a estrutura profunda de campos de força e interações necessárias que determinam o que pode e o que tem que acontecer. Os dados arremessados contra a vidraça do determinismo humeano não vêm da especulação abstrata, mas do próprio dinamismo intrínseco e irredutível da matéria.


O Hábito como Arquitetura Biológica e Economia Metabólica

Quando David Hume destitui a razão de seu trono na engrenagem da causalidade, ele opera uma das viradas mais iconoclastas da filosofia: se não podemos inferir o futuro a partir do passado por meio de demonstrações lógicas, fazemo-lo por meio do Hábito ou Costume. O que parecia um veredicto derrotista para o racionalismo estrito era, na verdade, a fundação de um naturalismo radical. Hume percebeu que a projeção causal não é uma operação da lógica pura, mas uma propensão instintiva, uma "sabedoria da natureza" partilhada entre humanos e outros animais como ferramenta fiável de adaptação prática.

A biologia evolutiva moderna e a neurociência cognitiva não apenas validam essa intuição humeana, como desvelam o seu mecanismo termodinâmico. O cérebro não é um registrador passivo que espera pelas impressões do mundo para então computá-las de forma puramente lógica; ele opera, fundamentalmente, como uma máquina de processamento preditivo (predictive processing).

  [ Sinais Sensoriais Brutos ] (Ruidosos, ambíguos, caros)
                |
                v  <-- Confronto na fenda sináptica (Erro de Previsão)
                ^
                |
  [ Modelos Preditivos Internos ] (O "Hábito" humeano / Mapas a priori)


Do ponto de vista da física biológica, o cérebro é um órgão faminto: consome cerca de 20% da energia metabólica do corpo humano, apesar de representar apenas 2% de sua massa. Processar a torrente de estímulos sensoriais brutos em tempo real, sem filtros ou expectativas prévias, geraria uma sobrecarga computacional intolerável e um custo energético inviável para a sobrevivência.

Para mitigar esse gasto e evitar a entropia, o sistema nervoso adota uma estratégia bayesiana de minimização do erro de previsão: o cérebro gera, de cima para baixo (top-down), modelos internos sobre o que causou o estímulo antes mesmo que ele termine de acontecer. O "hábito" de Hume é a tradução filosófica desses modelos internalizados pela repetição e pela seleção natural.

A Projeção Causal como Atalho Heurístico

O que Hume chamou de "grande propensão da mente para se projectar sobre os objectos externos" encontra seu correlato neurobiológico na forma como o cérebro projeta estruturas causais sobre o caos sensorial. Nós não vemos fótons flutuantes e frequências sonoras dispersas; nós percebemos uma "vidraça quebrando" ou uma "chama que queima".

Essa projeção de nexos causais funciona como uma heurística de sobrevivência. Ao agrupar regularidades estatísticas do ambiente sob a rubrica de "causa e efeito", o cérebro compacta a informação, transformando dados brutos pesados em conceitos operacionais leves. Projetar o "fio invisível" da conexão necessária no mundo exterior — ainda que ele seja metabolicamente gerado no interior — permite que um predador antecipe a rota de sua presa, ou que um primata recolha a mão antes de tocar o fogo.

A evolução não selecionou sistemas nervosos voltados para a precisão metafísica da verdade lógica, mas sim para a eficiência adaptativa.

O Confiabilismo Animal implícito na obra de Hume reside exatamente aqui: nossas inferências indutivas são justificadas não porque deciframos os decretos ocultos da ontologia do universo, mas porque o aparato cognitivo que as produz é uma ferramenta biológica altamente fiável e refinada pelo teste da sobrevivência.

O cérebro prefere errar por excesso de atribuição causal (mecanismo conhecido como hiperativação do dispositivo de detecção de agência) do que morrer por subestimar uma regularidade ambiental. Os dados que arremessamos contra a vidraça do determinismo lógico, portanto, revelam que a causalidade humeana não é uma ilusão vazia, mas a própria moeda de troca da economia metabólica e da sobrevivência das espécies.

O Limiar do Silício e do Caos

A evolução, portanto, não nos equipou com lentes de precisão metafísica voltadas para a verdade lógica absoluta, mas sim com um aparato cognitivo moldado pela eficiência adaptativa. O cérebro prefere errar por excesso de atribuição causal do que sucumbir por subestimar uma regularidade ambiental. Os dados que arremessamos contra a vidraça do determinismo lógico revelam que a causalidade humeana não é uma ilusão vazia, mas a própria moeda de troca da economia metabólica e da sobrevivência das espécies.

Contudo, essa engenharia de sobrevivência, que funcionou perfeitamente para primatas caçadores-coletores que precisavam antecipar o movimento de uma presa ou o calor de uma chama, enfrenta agora dois novos e colossais laboratórios de teste, onde a escala humana de percepção é obliterada.

De um lado, as nossas mentes biológicas criaram redes neurais artificiais — máquinas que operam sob um indutivismo hipertrofiado em escala industrial, processando petabytes de dados para projetar correlações sem jamais tocar nas causas subjacentes. Do outro, fomos forçados a antecipar o comportamento de sistemas complexos não lineares, como o balanço energético do próprio planeta, onde uma previsão climática para as próximas décadas desafia a fronteira entre a mera regularidade estatística e a necessidade física duríssima das leis termodinâmicas.

Quando o "hábito" é terceirizado para o silício e o objeto de análise é o caos climático global, a trégua entre o ceticismo lógico e o naturalismo pragmático se desfaz. Estarão as nossas simulações computacionais decifrando as necessidades íntimas da matéria, ou estarão apenas refinando, em supercomputadores, o mesmo vício psicológico que David Hume identificou na solidão do seu gabinete?

Essa é a arena onde o Céptico Lógico, o Naturalista Pragmático e o Realista Científico se enfrentarão em definitivo. Mas esse embate dialético pertence ao próximo capítulo.