domingo, 26 de abril de 2026

Hansson - Ciência, Má Ciência e Pseudociência

A organização clubecetico.org, que por anos figurou como um dos principais pilares do ceticismo racionalista no Brasil, encerrou suas atividades originais em sua plataforma nativa, migrando parte de seu escopo para novas estruturas digitais. No entanto, essa transição resultou na fragmentação e no offline de um vasto patrimônio intelectual: dezenas de artigos de alta qualidade, ensaios traduzidos de grandes nomes da ciência mundial e análises críticas que moldaram o debate acadêmico e popular na internet brasileira.

Muitas dessas páginas, hoje inacessíveis, continham refutações fundamentais e explanações metodológicas que permanecem extremamente atuais. Reconhecendo o valor histórico e educativo desse conteúdo, e compreendendo que o conhecimento científico não deve ser vítima da efemeridade dos domínios de internet, resolvemos atuar na curadoria e republicação desses materiais.

Este projeto de recuperação visa não apenas o resgate técnico dos arquivos, mas a garantia de que as ferramentas do pensamento crítico continuem disponíveis para novas gerações de pesquisadores, estudantes e interessados na busca pela verdade através da evidência.



Sven Ove Hansson. "Ciência, Má Ciência e Pseudociência" - Uma Demarcação Pela Filosofia da Ciência (Tradução) 15 de Março de 2014 


Cópia nos nossos arquivos 


Sven Ove Hansson (nascido em 1951) é um filósofo sueco. É professor de filosofia e chefe do Departamento de Filosofia e História da Tecnologia do Instituto Real de Tecnologia (KTH) em Estocolmo, Suécia. É autor e cético científico, com especial interesse em avaliação de risco ambiental, bem como em teoria da decisão e revisão de crenças. -  en.wikipedia.org  


Aqui, um resumo nosso do artigo:

I. A Importância da Demarcação

O problema da demarcação — a distinção entre ciência e pseudociência — não é apenas um exercício acadêmico, mas uma necessidade com profundas implicações teóricas e práticas. No campo teórico, ele funciona como o estudo das falácias na lógica, ajudando-nos a compreender a natureza do conhecimento racional. Na prática, é essencial para a tomada de decisões em áreas críticas como saúde pública (proteção contra curas ineficazes), testemunhos periciais (garantia de justiça baseada em fatos), políticas ambientais e educação científica (preservação dos currículos contra doutrinas refutadas).

II. Definindo o "Objeto" de Estudo

Hansson argumenta que o conceito de "ciência" deve ser compreendido de forma ampla, assemelhando-se ao termo alemão Wissenschaft, que engloba não apenas as ciências naturais, mas também as ciências sociais e as humanidades. Sob essa ótica, a ciência é um esforço humano sistemático de investigação crítica.

A pseudociência, por sua vez, não é apenas "não-ciência" (como a religião ou a arte). Ela possui características específicas:

  1. Não é científica: Falha em seguir os métodos validados pela comunidade de pesquisadores.

  2. Possui um componente doutrinal: Diferente de um erro isolado ou de uma fraude (má ciência), a pseudociência promove uma doutrina desviante e persistente.

  3. Pretensão de autoridade: Seus proponentes tentam criar a impressão de que suas ideias representam o conhecimento mais confiável ou possuem o status de verdade científica.

III. A Evolução dos Critérios de Demarcação

A filosofia do século XX tentou encontrar a "Régua de Ouro" para essa distinção, passando por diferentes fases:

  • Verificacionismo (Círculo de Viena): Focava na possibilidade de verificar uma afirmação, embora seu objetivo principal fosse distinguir ciência de metafísica.

  • Falsificacionismo (Karl Popper): Introduziu a ideia de que uma teoria só é científica se for falseável, ou seja, se puder entrar em conflito com a observação e ser testada. Hansson nota que, embora influente, esse critério isolado pode ser frágil, já que algumas pseudociências (como a astrologia) fazem previsões testáveis, mas simplesmente falham nelas.

  • Resolução de Quebra-cabeças (Thomas Kuhn): Defendeu que o que define a ciência é a "Ciência Normal", onde cientistas resolvem enigmas dentro de um paradigma. A pseudociência falha por não possuir uma tradição de resolução de quebra-cabeças que permita aprender com os erros.

  • Programas de Pesquisa (Imre Lakatos): A distinção ocorre entre programas progressivos (que preveem fatos novos) e degenerativos (que apenas criam desculpas para explicar o que já se sabe).

IV. Abordagens Modernas e Multicriteriais

Hansson destaca que a ciência moderna é caracterizada pela integração: um campo só é científico se puder ser incorporado na rede existente de ciências estabelecidas (George Reisch). Além disso, a ciência segue um ethos social definido por Robert Merton, baseado no universalismo, comunalismo, desinteresse e ceticismo organizado.

Como a ciência é heterogênea e muda com o tempo, Hansson sugere que o melhor método de identificação é o uso de listas de critérios (red flags). Sinais como a crença em autoridades inquestionáveis, experimentos irrepetíveis, desconsideração de evidências contrárias e o uso de explicações que nunca podem ser refutadas são marcas clássicas de uma prática pseudocientífica.

V. Conclusão: O Paradoxo do Consenso

O artigo termina observando um fenômeno curioso: embora os filósofos ainda discordem sobre qual é o critério definitivo de demarcação (o debate entre Popper, Kuhn e outros continua), existe um consenso quase total sobre o que é pseudociência na prática (homeopatia, criacionismo, astrologia, etc.). Isso indica que, embora a teoria seja complexa, a comunidade científica reconhece os sintomas de desvio do pensamento racional com precisão, reafirmando que a demarcação é uma ferramenta vital para a integridade do conhecimento humano.


"Che non mem che saper dubbiar m'aggrada."

"E, não menos que saber, duvidar me agrada."


Dante, Inferno, XI, 93, cit. p/ Montaigne, Os ensaios, Uma seleção, I, XXV, p. 93

(Lema sempre colocado nas páginas do Clube Cético)

Extras


Recomendamos, do mesmo autor:


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Sven Ove Hansson. Definindo pseudociência e ciência. 18 de Setembro de 2021. - criticanarede.com


Em caso de mais um encerramento de atividades, nos nossos arquivos:

Sven Ove Hansson - Definindo pseudociência e ciência


Resumo de nossa autoria:

Sven Ove Hansson propõe uma visão renovada sobre a demarcação entre ciência e pseudociência, afastando-se de critérios puramente metodológicos para focar na fidedignidade e na função social das afirmações. Ele define a ciência no sentido ampliado (Wissenschaft), englobando das ciências naturais às humanidades, como uma comunidade de disciplinas interconectadas que buscam o conhecimento mais confiável disponível em um dado momento. Para Hansson, a pseudociência não é meramente "ciência ruim", erro técnico ou fraude isolada — situações que ocorrem dentro do fazer científico. O que define o caráter "pseudo" é a presença de uma doutrina desviante: um esforço sustentado para promover ensinamentos que carecem de justificação epistêmica, enquanto seus proponentes tentam mimetizar a autoridade científica para reivindicar que possuem a verdade mais confiável sobre o assunto. Ao contrário de Popper ou Kuhn, que buscaram regras fixas como a falseabilidade, Hansson argumenta que a ciência é definida pelo seu compromisso com o autoaperfeiçoamento e pela integração com outros campos do saber. Assim, a pseudociência se revela por três pilares: trata de temas científicos, falha gravemente na confiabilidade e sustenta uma doutrina que compete ilegitimamente com o consenso da comunidade de pesquisadores, ignorando o caráter mutável e rigoroso da verdadeira busca pelo conhecimento.

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Science and Pseudo-Science. First published Wed Sep 3, 2008; substantive revision Mon Jul 28, 2025 - Stanford Encyclopedia of Philosophy - plato.stanford.edu 


“O problema de distinguir entre ciência e pseudociência faz parte da tarefa mais ampla de determinar quais crenças são epistemologicamente justificadas. Este verbete esclarece a natureza específica da pseudociência em relação a outras categorias de doutrinas e práticas não científicas, incluindo o negacionismo científico e a resistência aos fatos. Os principais critérios propostos para definir e identificar a pseudociência são discutidos e algumas de suas fragilidades são apontadas. Há muito mais consenso sobre casos particulares do que sobre os critérios gerais nos quais tais julgamentos deveriam se basear. Isso indica que ainda há muito trabalho filosófico importante a ser feito sobre a relação entre ciência e pseudociência.” 


sábado, 25 de abril de 2026

Anotações científicas - 15

Metabolismo de arqueas 

Tradução de: en.wikipedia.org - Archaea - Metabolism 


As arqueas exibem uma grande variedade de reações químicas em seu metabolismo e utilizam muitas fontes de energia. Essas reações são classificadas em grupos nutricionais, dependendo das fontes de energia e carbono. Algumas arqueas obtêm energia de compostos inorgânicos, como enxofre ou amônia (são quimiotróficas). Estas incluem nitrificadoras, metanogênicas e oxidantes anaeróbicas de metano. Nessas reações, um composto transfere elétrons para outro (em uma reação redox), liberando energia para alimentar as atividades da célula. Um composto atua como doador de elétrons e o outro como aceptor de elétrons. A energia liberada é usada para gerar adenosina trifosfato (ATP) por meio da quimiosmose, o mesmo processo básico que ocorre na mitocôndria das células eucarióticas. 



Outros grupos de arqueas usam a luz solar como fonte de energia (são fototróficas), mas a fotossíntese geradora de oxigênio não ocorre em nenhum desses organismos. Muitas vias metabólicas básicas são compartilhadas entre todas as formas de vida; por exemplo, as arqueas usam uma forma modificada de glicólise (a via de Entner-Doudoroff) e um ciclo do ácido cítrico completo ou parcial. Essas semelhanças com outros organismos provavelmente refletem tanto origens precoces na história da vida quanto seu alto nível de eficiência. 



Tipo nutricional

Fonte de energia

Fonte de carbono

Exemplos

Fototróficas 

Luz solar 

Compostos orgânicos 

Halobacterium 

Litotróficas

Compostos inorgânicos

Compostos orgânicos ou fixação de carbono

Ferroglobus, Methanobacteria ou Pyrolobus 

Organotróficas

Compostos orgânicos 

Compostos orgânicos ou fixação de carbono

Pyrococcus, Sulfolobus or Methanosarcinales 


Algumas Methanobacteriati são metanogênicas (arqueias que produzem metano como resultado do metabolismo) e vivem em ambientes anaeróbicos, como pântanos. Essa forma de metabolismo evoluiu precocemente, e é até possível que o primeiro organismo de vida livre tenha sido um metanogênico. Uma reação comum envolve o uso de dióxido de carbono como aceptor de elétrons para oxidar o hidrogênio. A metanogênese envolve uma gama de coenzimas exclusivas dessas arqueias, como a coenzima M e o metanofurano. Outros compostos orgânicos, como álcoois, ácido acético ou ácido fórmico, são usados ​​como aceptores de elétrons alternativos pelos metanogênicos. Essas reações são comuns em arqueias que habitam o intestino. O ácido acético também é decomposto em metano e dióxido de carbono diretamente por arqueias acetotróficas. Esses acetotróficos são arqueias da ordem Methanosarcinales e constituem uma parte importante das comunidades de microrganismos que produzem biogás.  



Bacteriorrodopsina de Halobacterium salinarum. O cofator retinol e os resíduos envolvidos na transferência de prótons são mostrados como modelos de bolas e varetas. 



Outras arqueas utilizam CO2 da atmosfera como fonte de carbono, em um processo chamado fixação de carbono (elas são autotróficas). Esse processo envolve uma forma altamente modificada do ciclo de Calvin ou outra via metabólica chamada ciclo do 3-hidroxipropionato/4-hidroxibutirato. As Thermoproteota também utilizam o ciclo de Krebs reverso, enquanto as Methanobacteriati também utilizam a via redutiva do acetil-CoA. A fixação de carbono é alimentada por fontes de energia inorgânicas. Nenhuma arquea conhecida realiza a fotossíntese produtora de glicose. As fontes de energia das arqueas são extremamente diversas e variam da oxidação da amônia pelas Nitrosopumilales à oxidação do sulfeto de hidrogênio ou enxofre elementar por espécies de Sulfolobus, utilizando oxigênio ou íons metálicos como aceptores de elétrons. 


Arqueas fototróficas utilizam a luz para produzir energia química na forma de ATP. Nas halobactérias, bombas de íons ativadas pela luz, como a bacteriorrodopsina e a halorrodopsina, geram gradientes iônicos bombeando íons para dentro e para fora da célula através da membrana plasmática. A energia armazenada nesses gradientes eletroquímicos é então convertida em ATP pela ATP sintase. Esse processo é uma forma de fotofosforilação. A capacidade dessas bombas acionadas pela luz de mover íons através das membranas depende de alterações induzidas pela luz na estrutura de um cofator retinol localizado no centro da proteína. 


sexta-feira, 24 de abril de 2026

CK, o cheio de dúvidas, fonte para divulgação

Vamos tratar de um criacionista, 'C.K.'*, frequentador assíduo de debates em redes sociais durante um período, que se tornou um exemplo didático e marcante do chamado 'apelo à própria ignorância' (uma variação dentro do clássico argumentum ad ignorantiam). Sua estratégia consistia em disparar uma sucessão rápida de questionamentos sobre lacunas no registro fóssil ou complexidades biológicas (o famoso “Galope de Gish”), operando sob a premissa falaciosa de que a ausência de uma explicação imediata ou o desconhecimento pessoal sobre um processo científico validariam, automaticamente, a sua visão de mundo, o que seria afirmar que a teoria da evolução "perdeu". Ao analisar suas intervenções, percebe-se não uma busca por esclarecimento, mas o uso da dúvida e de desconhecimento próprio do tema como uma ferramenta retórica para tentar deslegitimar consensos científicos estabelecidos.

 

Para entender o que seja essa falácia, diversa da muito mais clássica e profunda “apelo à ignorância”, recomendamos:

SEP - O apelo à própria ignorância


Observemos que, psicologicamente, esse comportamento esconde um sentimento de que o inquiridor descobriu 'fórmulas mágicas' ou verdades ocultas, alimentando a ilusão de uma genialidade revolucionária e incompreendida. Ao projetar suas próprias lacunas de conhecimento como falhas intransponíveis da ciência, o sujeito se coloca na posição de um detetive da verdade que desafia o establishment. Esse narcisismo intelectual frequentemente evolui para um complexo de perseguição: quando seus argumentos são refutados ou ignorados por falta de base técnica, ele não interpreta isso como um erro lógico pessoal, mas como prova de que está sendo 'censurado' por um sistema que teme sua suposta clarividência.


*Lamento pelo estilista americano de origem judaica húngara. Coincidências dessas são inescapáveis.

A sua argumentação criacionista/negacionista não apresenta absolutamente nada de novo no cenário do debate público; trata-se de uma reciclagem de objeções já refutadas há décadas. No entanto, sua insistência serve como um exemplo cristalino de falácia lógica e, mais importante, como uma plataforma estratégica. A partir de suas dúvidas enviesadas, podemos disparar diversos temas fundamentais de divulgação científica em evolução, transformando o ruído do negacionismo em texto educativo sobre a complexidade e a beleza da história da vida na Terra.


A Anatomia do Argumento do CK

O erro lógico fundamental dele é: "Eu não conheço a resposta (ou a ciência ainda não encontrou cada detalhe fóssil), logo, a minha conclusão (criacionismo) é a verdadeira."

1. O "Buraco" nos Fósseis (Transição)

Ele pergunta: "Kd os fósseis que ganharam asas gradualmente?" ou "pq não tem fóssil de transição de peixes se tornando anfíbios?".

  • A Falha: Ele assume que a ausência de um registro completo e contínuo (o que é geologicamente improvável) invalida o que já foi descoberto. O fato de ele não conhecer o Archaeopteryx ou o Tiktaalik não significa que eles não existam. Para o CK, o "não saber" dele é uma prova positiva contra a evolução.


Archaeopteryx 


Tiktaalik 

  • Especificamente sobre as aves, ignora fósseis como Archaeopteryx, Microraptor e Anchiornis, que mostram a transição gradual de penas para estruturas de voo. O voo não surgiu do nada; evoluiu de comportamentos de salto e planagem.


Microraptor

  • Pelo terreno da evolução peixes-anfíbios, o Tiktaalik roseae é o exemplo perfeito de "peixópode" com nadadeiras que possuíam pulsos e articulações, preenchendo exatamente a lacuna que o CK alega existir.

Sobre fósseis de transição, recomendamos:

SEP - Fósseis de Transição - 1

2. O Celacanto e as Samambaias ("Fósseis Vivos")

Ele usa a existência de espécies que mudaram pouco morfologicamente para dizer: "Pq as samambaias continuam idênticas?".

  • A Falha: Aqui ele ignora (ou desconhece) que a evolução não obriga a mudança se o ambiente e a pressão seletiva permitirem a estabilidade (estase). Ele usa a sua incompreensão sobre o mecanismo de seleção natural para afirmar que a teoria está errada.

  • Evolução é sobre adaptação ao meio. Se as samambaias continuam eficientes em seus ambientes há milhões de anos, não há pressão seletiva para mudanças drásticas. Por outro lado, devemos alertar que as maiores samambaias hoje vivas tem uma fração da altura que tiveram diversas espécies que formavam o que era as florestas do passado, o que já diz muito sobre seleção pelas pressões do meio e a variação dos biotas através da história da vida na Terra.

  • O Gigantismo Perdido: No Período Carbonífero, as samambaias arbóreas e as licófitas (como o Lepidodendron) chegavam a 30 ou 40 metros de altura. Hoje, as maiores samambaias mal passam dos 10-15 metros em condições ideais.


Uma floresta de Lepidodendron.

  • A Mudança no Contexto: Elas não "pararam" de evoluir. O que aconteceu foi que o ambiente mudou (menos umidade, flutuações de CO2, surgimento das angiospermas competindo por luz e solo), e a seleção natural favoreceu linhagens que se adaptaram a esses novos biotas.

  • O Erro da "Identidade": Dizer que são "idênticas" é como dizer que um lobo e um chihuahua são a mesma coisa só porque ambos têm quatro patas e cauda. O plano corporal básico funcionou, mas as variações genéticas e fisiológicas para sobreviver em um mundo com aves e mamíferos são imensas.

3. A Conclusão Precipitada

O grand finale: "como você pode ver, são diversas perguntas que você não teve capacidade de responder".

  • O Golpe: Ele confunde a limitação do interlocutor (ou a complexidade do registro fóssil) com a falsidade do fato científico. É o ápice do apelo à ignorância: "Se você não me explica agora, então Deus fez".

  • A Falácia do "Não sei, logo não é": A incapacidade de um indivíduo em responder ou a incompletude momentânea de um registro não validam explicações sobrenaturais. A ciência busca evidências, não preenche lacunas com ignorância.

Um Ponto Irônico

O CK menciona que o Celacanto foi encontrado vivo e que "achavam que as nadadeiras eram para locomoção na terra". Na verdade, a descoberta do Celacanto vivo foi fantástica para a Biologia, mas os fósseis de transição peixe-tetrapoda (como o Panderichthys) mostram estruturas ósseas nas nadadeiras que são, de fato, precursoras dos membros terrestres. O "erro" dos cientistas que ele aponta é, na verdade, como a ciência se autoajusta — algo que o pensamento dogmático não costuma fazer.



Celacanto - Getty Images


Panderichthys

Por outro ângulo de ataque ao erro de muitos criacionistas com esse caso sempre relembrado - e sempre usado de maneira errônea, a existência de "fósseis vivos" não nega a evolução. Se o nicho ecológico é estável, a morfologia tende a se manter (estase). Além disso, o Celacanto atual é do gênero Latimeria, diferente dos fósseis do Cretáceo.


A dúvida é o motor da ciência, mas quando ela é usada para fechar portas em vez de abri-las, deixa de ser investigação e vira dogma. O que você prefere: o conforto de uma ignorância mágica ou a aventura de descobrir os elos reais da nossa história?



Extras

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O Tiktaalik roseae é o "pesadelo" de quem afirma que não existem fósseis de transição entre peixes e anfíbios. O Tiktaalik exibe claramente escamas e brânquias de peixe, mas possui um pescoço móvel, uma caixa torácica robusta e, crucialmente, ossos nas nadadeiras que formam articulações de pulso — permitindo que ele se apoiasse em águas rasas ou na lama, exatamente como previsto numa marcha evolutiva do ambiente aquático para o terrestre.

Aqui está uma representação visual que captura esse momento crucial da nossa história evolutiva:



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O celacanto é um peixe sarcopterígio "fóssil vivo" com anatomia quase inalterada há milhões de anos. Destaca-se pelas nadadeiras lobadas (pares e musculosas, precursoras dos membros de tetrápodes), uma articulação intracraniana que amplia a boca, notocorda no lugar da coluna vertebral completa, e um "pulmão" vestigial preenchido por gordura


Principais Características Anatômicas:

  • Nadadeiras Lobadas: As nadadeiras peitorais e pélvicas possuem ossos robustos, semelhantes aos membros dos tetrápodes, permitindo um movimento peculiar no fundo do mar.

  • Cauda Trilobada: A nadadeira caudal tem três lóbulos, uma estrutura única entre os peixes atuais.

  • Crânio Articulado: Possui uma dobradiça no crânio que, junto com músculos poderosos, permite abrir amplamente a boca para sucção de presas.

  • Órgão Rostral: Localizado no focinho, funciona como um sensor elétrico para caçar em águas profundas e escuras.

  • Estrutura Interna: Possui uma notocorda oca, preenchida por fluido, em vez de uma espinha dorsal óssea completa. O coração é um tubo reto, e o "pulmão" é um órgão adiposo vestigial.

  • Armadura: Escamas espessas (cosmoides) protegem o corpo. 

Latimeria chalumnae, a espécie mais conhecida, vive em profundidades oceânicas e utiliza ureia para equilibrar a pressão osmótica.


https://realizeeducacao.com.br/wiki/cordados/ 



O Latimeria (celacanto) ocupa uma posição crucial no cladograma dos vertebrados, sendo um representante dos Sarcopterygii (peixes de nadadeiras lobadas). Eles são considerados mais próximos dos tetrápodes (animais de quatro patas) do que dos peixes de nadadeiras raizadas (Actinopterygii). 


Aqui está uma representação simplificada da posição filogenética do Latimeria


Cladograma Simplificado (Sarcopterygii)


└─ Vertebrata

   ├─ Actinopterygii (Peixes de nadadeiras raizadas)

   └─ Sarcopterygii (Peixes de nadadeiras lobadas)

      ├─ Actinistia

      │  └─ Latimeriidae (Latimeria chalumnae + L. menadoensis)

      └─ Rhipidistia

         ├─ Dipnoi (Peixes pulmonados)

         └─ Tetrapoda (Anfíbios, Répteis, Aves, Mamíferos)


Pontos-chave no Cladograma

  • Posição: O gênero Latimeria pertence à subclasse Actinistia, grupo irmão dos Rhipidistia (que inclui peixes pulmonados e tetrápodes).

  • Ancestralidade: Embora apareçam no registro fóssil há cerca de 350-400 milhões de anos e pouco mudaram anatomicamente, os celacantos atuais (Latimeria) não são ancestrais diretos dos tetrápodes, mas sim parentes próximos que compartilham um ancestral comum.

  • Espécies Atuais: O gênero Latimeria inclui duas espécies vivas: Latimeria chalumnae (africano) e Latimeria menadoensis (indonésio).

  • Parentesco: Os peixes pulmonados (Dipnoi) são considerados os parentes vivos mais próximos dos tetrápodes, com o Latimeria posicionado logo abaixo deles no cladograma.


“Os membros do celacanto se movimentam da mesma maneira de um animal terrestre, possuindo uma articulação de ossos bastante interessante, que pode remeter a um primórdio de articulação entre rádio, ulna e úmero, havendo também outros ossos que, por sua vez, se relacionam aos ossos do esqueleto da mão e ao cíngulo do membro superior. Além de possuir articulações de ossos parecidas, seus locais de fixação e as distancias entre tais são bastante indutivas, tendo ossos medias, proximais, distais e até inserção de ossos e músculo, remetendo uma característica ancestral dos tetrápodes viventes, incluindo humanos.“ - Celacanto: nadadeiras lobadas e membros superiores dos tetrápodas - biologiapontal.blogspot.com 

Origem da estrutura óssea dos membros dos anfíbios, a partir de um peixe ósseo ancestral que apresentava nadadeiras lobadas. - app.planejativo.com 

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A evolução heterocrônica explica o novo formato corporal de um celacanto do Triássico da Suiça


Lionel Cavin, Bastien Mennecart, Christian Obrist, Loïc Costeur & Heinz Furrer. Heterochronic evolution explains novel body shape in a Triassic coelacanth from Switzerland. Scientific Reports 7, Article number: 13695 (2017) doi: 10.1038/s41598-017-13796-0

Resumo


Um celacanto latimerídeo bizarro do Triássico Médio da Suíça apresenta características esqueléticas que se desviam da anatomia uniforme dos celacantos. A nova forma é intimamente relacionada a um celacanto de aparência moderna encontrado na mesma localidade, e as diferenças entre ambos são atribuídas à evolução heterocrônica. A maioria das estruturas osteológicas modificadas no novo celacanto tem sua origem no desenvolvimento da região da interface crânio/tronco no embrião. Alterações na expressão de genes de padronização do desenvolvimento, especificamente os genes Pax1/9, podem explicar uma rápida evolução na origem do novo celacanto. Esta espécie amplia a gama de disparidade morfológica dentro da linhagem desses "fósseis vivos" e exemplifica um caso de rápida evolução heterocrônica provavelmente desencadeada por pequenas alterações na expressão gênica.