quinta-feira, 14 de maio de 2026

Parapsicologia: O fracasso e paradoxais resultados

É fascinante observar como a parapsicologia, em sua tentativa obstinada de se validar como ciência, acabou prestando um serviço involuntário ao método científico: ela se tornou um dos maiores "laboratórios de refutação" da história moderna.

Ao aplicarmos o rigor estatístico e o controle experimental a alegações de telepatia, precognição ou psicocinese, o que emergiu não foi a confirmação do sobrenatural, mas sim uma cartografia detalhada dos limites da percepção humana e dos nossos próprios vieses cognitivos.



O Paradoxo da Falta de Efeito

A parapsicologia é frequentemente citada como uma pseudociência porque, ao contrário de disciplinas científicas legítimas, ela não apresenta um "efeito progressivo". Na física ou na biologia, conforme as ferramentas de medição melhoram, os fenômenos tornam-se mais claros e explicáveis. Na parapsicologia, ocorre o inverso: quanto maior o controle experimental e o rigor metodológico, menor o efeito observado, até que ele desaparece completamente (o chamado efeito de declínio).

A Utilidade Epistemológica do Fracasso

A utilidade paradoxal da parapsicologia reside em três pilares principais:

  • Refinamento da Estatística: A busca por sinais minúsculos em dados ruidosos forçou o desenvolvimento de métodos de análise mais rigorosos. O debate sobre o "p-hacking" (manipulação de dados para obter significância estatística) foi intensamente alimentado por experimentos parapsicológicos que pareciam provar o impossível.

  • Psicologia do Engano e Autoengano: Ao estudar médiuns e sensitivos, a ciência aprendeu muito sobre pareidolia (ver padrões onde não existem), ilusões de memória e a facilidade com que o cérebro humano confunde coincidências estatísticas com causalidade mística.

  • O Valor do Controle de Duplo-Cego: A história da parapsicologia é uma lição prática de por que o isolamento total entre pesquisador e objeto é vital. Muitos "sucessos" iniciais foram apenas vazamentos de informações sensoriais sutis (pistas visuais ou auditivas involuntárias).

O "Cemitério" das Evidências

Após mais de um século de pesquisas financiadas, inclusive por instituições de prestígio e governos (como o projeto Stargate), o resultado líquido é zero. Não existe um único fenômeno paranormal que possa ser reproduzido sob demanda em condições controladas.

Essa ausência de evidência, após tanta busca, torna-se, por si só, uma evidência de ausência. A parapsicologia demonstrou que, se esses fenômenos existissem, eles seriam tão fracos e inconsistentes que não teriam impacto prático na realidade física ou biológica.


Extras

1. O Caso J.B. Rhine: O Nascimento do Rigor e do Declínio

Joseph Banks Rhine, na Universidade Duke (anos 30), tentou transformar a parapsicologia em "hard science" usando as famosas Cartas de Zener. O paradoxo aqui é fascinante:

  • O "Sucesso" Inicial: No começo, Rhine relatou resultados estatisticamente significativos para telepatia.

  • A Falha de Protocolo: Descobriu-se que as cartas eram impressas em papel fino que permitia ver o símbolo contra a luz, ou que os experimentadores davam pistas involuntárias (linguagem corporal).

  • O Efeito de Declínio: À medida que Rhine introduzia controles cegos e isolamento físico, a "percepção extrassensorial" (PES) simplesmente evaporava.

  • A Lição: Rhine provou que o paranormal é inversamente proporcional ao rigor do experimento. O "sucesso" era apenas erro metodológico.

2. A Resposta da Neurociência: O Cérebro como Gerador de Fantasmas

Se não há fenômeno externo, por que tantas pessoas sentem que algo aconteceu? A neurociência moderna preenche o vácuo deixado pela parapsicologia ao explicar a "física da ilusão":

  • Lobo Temporal e Presenças: Estimulações magnéticas ou crises focais no lobo temporal podem gerar a nítida sensação de uma "presença invisível" no quarto. O cérebro falha ao processar o sentido do "eu" no espaço e projeta essa percepção para fora.

  • Paralisia do Sono: Explica 90% dos relatos de "ataques de íncubos" ou abduções alienígenas. É uma dessincronia entre o tronco encefálico (que mantém os músculos paralisados durante o sono REM) e o córtex (que acorda e tenta interpretar a imobilidade como uma força externa).

  • O Sistema de Detecção de Agentes (HADD): Evolutivamente, nosso cérebro é programado para ver intenção em tudo. É melhor confundir o barulho do vento com um predador (falso positivo) do que ignorar um predador achando que é o vento (falso negativo). A parapsicologia tenta validar esse erro de processamento como uma faculdade extra.

Imagem Shutterstock

3. A Estatística do Incrível

Um ponto crucial para o seu ensaio é a Lei de Littlewood, que postula que "milagres" (eventos com probabilidade de um em um milhão) devem acontecer a uma taxa de cerca de um por mês para qualquer pessoa, puramente por acaso. A parapsicologia falha ao tentar atribuir uma causa mística a uma inevitabilidade estatística.

Nota: Podemos argumentar que a parapsicologia foi a "alquimia" da mente; assim como a alquimia falhou em transmutar chumbo em ouro mas fundou a química (obtendo álcool (etanol), o ácido sulfúrico, desenvolvendo a destilação, etc) a parapsicologia falhou em achar a alma, mas ajudou a fundamentar a psicologia cognitiva e a psicofísica.


4. Mecanismos Biológicos: O Cérebro sob Estresse Extremo

Onde a parapsicologia vê um "portal para o além", a biologia enxerga um sistema complexo entrando em colapso ou operando em condições críticas.

  • Experiências de Quase Morte (EQM) e Anóxia: Quando o suprimento de oxigênio no cérebro cai (anóxia ou hipóxia), o córtex visual entra em um estado de hiperatividade desordenada. O famoso "túnel de luz" é, na verdade, uma falha na visão periférica — as células da periferia da retina ou do córtex param de disparar primeiro, restando apenas o centro visual ativo.

  • O "Desligamento" e a Dopamina: Em momentos de trauma extremo, o cérebro libera uma inundação de endorfinas e dopamina para mitigar a dor, o que explica a sensação de paz e euforia relatada, em vez do pânico esperado.

  • Experiências Fora do Corpo (EFC): A neurociência identificou que a estimulação da Junção Temporoparietal (JTP) — a área responsável por integrar informações sensoriais para criar a consciência de onde nosso corpo está — pode causar a nítida ilusão de que a consciência se descolou do corpo físico. Não é a alma saindo; é o GPS interno do cérebro "recalculando" a posição de forma errada.

5. O Vício da Estatística: P-hacking e o Ruído como "Prova"

A parapsicologia moderna sobrevive em uma zona cinzenta de manipulação estatística, muitas vezes involuntária, mas metodologicamente fatal.

  • O Problema do P-hacking: Em experimentos de parapsicologia, é comum que os pesquisadores testem dezenas de variáveis (cor das cartas, humor do participante, distância, hora do dia). Se você testa 20 variáveis diferentes, a estatística básica diz que, por puro acaso, uma delas terá um resultado "significativo" ($p < 0,05$). O erro está em publicar apenas esse "sucesso" e ignorar os 19 fracassos (o chamado File Drawer Effect).

  • Anomalias Não são Evidências: A parapsicologia comete a falácia lógica do Argumentum ad Ignorantiam. Eles pegam um pequeno desvio estatístico inexplicado no ruído dos dados e afirmam: "Como não sabemos o que causou isso, deve ser um fenômeno PSI". Na ciência rigorosa, uma anomalia sem reprodutibilidade é apenas erro de medição ou flutuação aleatória.

  • A Falácia do Atirador do Texas: O pesquisador "atira" os dados na parede e depois desenha o alvo ao redor de onde os furos ficaram mais próximos. Se um participante acerta mais cartas no final do teste, dizem que foi "aprendizado psíquico"; se acerta mais no início, foi "entusiasmo inicial". Qualquer resultado é torturado até confessar uma faculdade paranormal.


6. Extra Especial: O Legado Epistemológico do Fracasso

Se a ciência é o mapa da realidade, a Parapsicologia é o registro detalhado de todas as estradas que não levam a lugar nenhum. Embora tenha falhado em provar a existência da "alma" ou da "mente extrafísica", ela obteve um sucesso paradoxal ao mapear os seguintes pontos:

O "Cemitério de Ideias" como Adubo Científico

A Parapsicologia serviu para definir, por contraste, o que é o rigor científico. Ela nos ensinou que:

  • A mente é mestre em autodecepção: O cérebro não é um observador passivo; é um simulador faminto por padrões. Ele prefere uma "explicação fantástica" a aceitar o "silêncio do acaso".

  • O dualismo mente-corpo é um fantasma metodológico: Milhares de horas de testes provaram que a consciência não opera fora do substrato biológico. Cada "fenômeno" parapsicológico morre no exato momento em que o cérebro é devidamente isolado ou compreendido pela neurobiologia.

A Máquina de Criar Significados

O maior resultado da parapsicologia não foi sobre o "além", mas sobre o "aqui":

"A parapsicologia falhou em seu objetivo original (provar o dualismo mente-corpo), mas obteve um sucesso retumbante ao definir as fronteiras da mente humana. Ela nos ensinou como não fazer ciência e como nosso cérebro é uma máquina de criar significados, mesmo onde só existe o vazio e o acaso."

A Alquimia do Século XX

Assim como a alquimia foi o erro necessário para o nascimento da química, a parapsicologia pode ser vista como a "infância ruidosa" da psicologia cognitiva. Ela nos deu o Método de Controle de Duplo-Cego e a Análise Estatística Rigorosa não pelo que ela acertou, mas pelo esforço monumental que a ciência oficial teve que fazer para provar que ela estava errada.

A parapsicologia tentou encontrar uma melodia no vácuo, mas acabou apenas descrevendo a acústica perfeita da sala vazia (o cérebro).

Referências


Flew, Anthony, 1980. "Parapsicologia: Ciência ou pseudociência", Pacific Philosophical Quarterly , 61: 100-114.


quarta-feira, 13 de maio de 2026

Anotações científicas - 23

O Continuum da Complexidade: Da Geoquímica à Informação Biológica

A transição da matéria inanimada para os primeiros sistemas biológicos é frequentemente representada como um salto intransponível, mas as pesquisas em química prebiótica revelam um cenário muito diferente: um continuum de complexidade crescente, onde minerais, pequenas moléculas e ciclos ambientais colaboram para "moldar" a biologia. Este conjunto de anotações reúne estudos fundamentais que demonstram como os blocos construtores da vida não surgiram no vácuo, mas foram selecionados e organizados por forças ambientais e mecanismos de autocatálise.

Os artigos aqui selecionados exploram três pilares cruciais dessa transição:

  1. Catálise Mineral e Peptídica: Como óxidos de ferro comuns em sedimentos antigos (como a goethita) podem ter servido de "berço" para a formação de proteínas, e como pequenos peptídeos podem formar ciclos autocatalíticos, criando catalisadores que ajudam a sintetizar a si mesmos.

  2. A Plasticidade dos Ácidos Nucleicos: A descoberta de que o RNA e o DNA podem ter tido antecessores mais simples e flexíveis, como o FNA e o GNA. Esses "pré-RNAs" mostram que a transferência de informação genética não depende exclusivamente da estrutura rígida que conhecemos hoje, mas pode ocorrer através de moléculas acíclicas e menos exigentes do ponto de vista estereoquímico.

  3. Simbiose com o Ambiente: A evidência de que a quiralidade e a polimerização são propriedades que emergem da interação direta entre o organismo em formação e o meio fisioquímico ativo.

Esses apontamentos reforçam que a "demarcação" entre química e biologia é, na verdade, uma zona de transição vibrante. Ao observar como polimerases modernas ainda reconhecem análogos primitivos e como minerais simples ditam a formação de ligações peptídicas, percebemos que a vida é a manifestação de uma inteligência físico-química que já operava na Terra muito antes da primeira célula se fechar em uma membrana.

Cinco anotações sobre moléculas e reações
(com implicações na origem da vida)



1

Oligomerização de glicina e alanina catalisada por óxidos de ferro


Shanker, U., Bhushan, B., Bhattacharjee, G. et al. Oligomerization of Glycine and Alanine Catalyzed by Iron Oxides: Implications for Prebiotic Chemistry. Orig Life Evol Biosph 42, 31–45 (2012). https://doi.org/10.1007/s11084-012-9266-5
https://link.springer.com/article/10.1007/s11084-012-9266-5

Resumo

Minerais de óxido de ferro são prováveis ​​constituintes dos sedimentos presentes em regiões geotérmicas da Terra primitiva. Eles podem ter adsorvido diferentes monômeros orgânicos (aminoácidos, nucleotídeos, etc.) e catalisado processos de polimerização, levando à formação da primeira célula viva. No presente trabalho, testamos a atividade catalítica de três formas de óxidos de ferro (goethita, akaganeíta e hematita) na condensação intermolecular dos aminoácidos glicina e L-alanina. O efeito do óxido de zinco e do dióxido de titânio na oligomerização também foi estudado. Os estudos de oligomerização foram realizados durante 35 dias em três temperaturas diferentes: 50, 90 e 120 °C, sem a aplicação de ciclos de secagem/umidificação. Os produtos formados foram caracterizados por HPLC e ESI-MS. Todas as três formas de óxidos de ferro catalisaram a formação da ligação peptídica (23,2% para glicina e 10,65% para alanina). A reação foi monitorada a cada 7 dias. Observou-se que a formação de peptídeos iniciava-se após 7 dias a 50 °C. O rendimento máximo de peptídeos foi obtido após 35 dias a 90 °C. A reação a 120 °C favorece a formação de derivados de dicetopiperazina. É importante notar também que, após 35 dias de reação, a goethita produziu dímeros e trímeros com o maior rendimento entre os óxidos testados. Sugerimos que a atividade da goethita possa ser atribuída à sua elevada área superficial e acidez superficial.


2


A estrutura e as capacidades sintéticas de um peptídeo catalítico formado por mecanismo direcionado pelo substrato


Fleminger, G., Yaron, T., Eisenstein, M. et al. The Structure And Synthetic Capabilities Of A Catalytic Peptide Formed By Substrate-Directed Mechanism – Implications To Prebiotic Catalysis. Orig Life Evol Biosph 35, 369–382 (2005). https://doi.org/10.1007/s11084-005-4084-7 


Resumo


Anteriormente, demonstramos que um substrato pequeno pode servir como molde na formação de um peptídeo catalítico específico, um fenômeno que pode ter desempenhado um papel importante na síntese prebiótica de catalisadores peptídicos. Isso foi demonstrado experimentalmente pela formação de um metalo-dipeptídeo catalítico, Cys2-Fe2+, em torno de o-nitrofenil β-D-galactopiranosídeo (ONPG), por condensação assistida por dicianodiamida (DCDA) em meio aquoso. Esse dipeptídeo foi capaz de hidrolisar ONPG com uma atividade específica apenas 1000 vezes menor que a da β-galactosidase. Neste artigo, utilizamos técnicas de modelagem molecular para elucidar a estrutura desse catalisador e seu complexo com o substrato, e propomos um mecanismo hipotético para a formação do catalisador e seu modo de ação como uma “minienzima”. Esse modelo sugere que a interação do íon Fe2+ com os oxigênios do ONPG e com dois grupos SH de cisteína promove a formação específica do catalisador Cys2-Fe2+. De forma semelhante, a interação do catalisador com o ONPG é mediada pelo seu Fe2+ com os oxigênios do substrato, levando à sua hidrólise. Além disso, formas imobilizadas do catalisador foram sintetizadas em dois suportes – Eupergit C e esferas de vidro amino. Essas preparações foram capazes de catalisar a formação de ONPG a partir de β-D-galactose e o-nitrofenol (ONP) em condições anidras. A capacidade do catalisador de sintetizar o substrato que medeia sua própria formação cria um ciclo autocatalítico no qual o ONPG catalisa a formação de um catalisador que, por sua vez, catalisa a formação de ONPG. Tal ciclo autocatalítico só pode operar alternando entre condições de alta e baixa atividade da água, como em poças de maré que alternam entre ambientes úmidos e secos. As implicações da formação de peptídeos cataliticamente ativos dependente do substrato para processos prebióticos são discutidas.


3


Ácidos nucleicos flexíveis (FNAs) como moléculas informacionais


Chemama M, Switzer C. Flexible Nucleic Acids (FNAs) as Informational Molecules: Enzymatic Polymerization of fNTPs on DNA Templates and Nonenzymatic Oligomerization of RNA on FNA Templates. Methods Mol Biol. 2019;1973:213-236. doi: 10.1007/978-1-4939-9216-4_14. PMID: 31016705.

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31016705/ 


Resumo

Este artigo descreve a metodologia que permite a transferência de informação enzimática e não enzimática com FNAs. Essa metodologia inclui a síntese química de fNTPs e fosforamiditos de fN, além de protocolos para a transferência de informação enzimática e não enzimática.


4


Uma análise de um possível pré-RNA


Heuberger, B. D., & Switzer, C. (2008). A pre-RNA candidate revisited: Both enantiomers of flexible nucleoside triphosphates are DNA polymerase substrates. Journal of the American Chemical Society, 130(2), 448–449. https://doi.org/10.1021/ja078021a

https://pubs.acs.org/doi/10.1021/ja0770680 


Resumo


Uma das primeiras propostas para o pré-RNA é a estrutura do ácido nucleico flexível (FNA), baseada no acetal aminal misto do formilglicerol. O FNA alcança uma simplificação estereoquímica drástica pela deleção formal do grupo 2'-CHOH do RNA, substituindo assim os quatro estereocentros do RNA por um único (pro)estereocentro. Apesar da incapacidade documentada do FNA de formar duplexes estáveis ​​com o DNA, os nucleosídeos trifosfatados flexíveis (fNTPs) são substratos para as DNA polimerases. De acordo com previsões anteriores, a quiralidade do FNA é irrelevante, uma vez que as polimerases aceitam ambos os antípodas (S)- e (R)-fNTP. Esses resultados fornecem uma base renovada para postular o FNA como uma molécula informacional viável.



5


Um ácido nucleico glicólico simples


Zhang, L., Peritz, A., & Meggers, E. (2005). A simple glycol nucleic acid. Journal of the American Chemical Society, 127(12), 4174–4175. https://doi.org/10.1021/ja042562q 

https://pubs.acs.org/doi/10.1021/ja042564z 


Resumo


Um ácido nucleico glicólico (GNA) com uma cadeia principal de fosfodiéster de propilenoglicol acíclico forma duplexes antiparalelos estáveis ​​seguindo as regras de pareamento de bases de Watson-Crick. 




 

terça-feira, 12 de maio de 2026

Criacionismo e seu caráter

A demarcação entre ciência e pseudociência não é definida pelo que os defensores de uma ideia acreditam, mas pela metodologia e pela estrutura lógica de suas afirmações. No campo da Epistemologia e da Filosofia da Ciência, o Criacionismo (e sua variante, o Design Inteligente) falha em atender aos critérios fundamentais que permitem que um corpo de conhecimento seja chamado de científico.





1. A Falta de Falsificabilidade (O Critério de Popper)

Para Karl Popper, uma teoria só é científica se for possível conceber um experimento ou observação que possa prová-la falsa.

  • O Problema: O Criacionismo baseia-se em uma causa sobrenatural e onipotente. Se um criador pode fazer qualquer coisa, qualquer evidência encontrada na natureza pode ser interpretada como "vontade do criador".

  • Consequência: Como não existe nenhuma evidência imaginável que um criacionista aceitaria como prova de que não houve um criador, a teoria é infalsificável. Ela explica tudo e, por isso, epistemologicamente, não explica nada.

2. A Violação do Naturalismo Metodológico

A ciência moderna opera sob o Naturalismo Metodológico: a regra de que explicações científicas devem recorrer apenas a causas e processos naturais.

  • O Problema: O Criacionismo introduz uma "causa transcendente" (sobrenatural) no meio da cadeia de eventos físicos.

  • Consequência: Ao invocar o sobrenatural, interrompe-se a investigação científica. A ciência busca o "como" através de mecanismos observáveis; o Criacionismo substitui o mecanismo pelo mistério, o que é tecnicamente um "interrompimento cognitivo" que invalida a heurística científica.

3. Ausência de Poder Preditivo e Progressividade

Segundo Imre Lakatos, um programa de pesquisa é "progressivo" se ele prevê fatos novos e "degenerativo" se ele apenas cria explicações ad hoc para se ajustar a descobertas feitas por outros.

  • O Problema: O Criacionismo não prevê novas formas de vida, resistências bacterianas ou padrões genômicos; ele apenas tenta reinterpretar as descobertas da Biologia Evolutiva para que não contradigam sua premissa central.

  • Consequência: É um programa de pesquisa estagnado que não gera novos conhecimentos tecnológicos ou científicos, funcionando apenas como uma ferramenta apologética.

4. O Argumento da "Complexidade Irredutível" e a Falácia da Incredulidade

Muitas vezes, o Criacionismo utiliza a lacuna do conhecimento atual para validar sua tese (o "Deus das Lacunas").

  • O Problema: O argumento afirma que certos sistemas biológicos são complexos demais para terem evoluído. Contudo, na Filosofia da Ciência, a ausência de uma explicação completa para um fenômeno não serve como prova para uma explicação alternativa sem evidências próprias.

  • Consequência: Isso é um erro de lógica elementar. A incapacidade humana de explicar um passo evolutivo específico (no momento) é uma limitação da pesquisa, não uma evidência positiva de design.

Conclusão Epistemológica

O Criacionismo é classificado como pseudociência porque ele simula a forma da ciência (usa terminologia técnica, publica "periódicos" próprios, cita dados) mas rejeita a substância do método científico (a submissão ao erro, a dependência de leis naturais e a busca por novas previsões). Ele não é uma teoria rival, mas um sistema de crenças que busca a autoridade da ciência sem aceitar seus riscos intelectuais.

Referências

Kitcher, Philip, 1982. Abusando Science. O processo contra o criacionismo, Cambridge, MA: MIT Press.

Ruse, Michael (ed.), 1996. Mas é ciência? A questão filosófica na controvérsia criação / evolução, Prometheus Books.

Extras

1: Thomas Kuhn e a "Inexistência de um Paradigma"

Para Thomas Kuhn, a ciência não progride apenas por acúmulo de dados, mas através de Paradigmas — modelos compartilhados que definem quais problemas devem ser resolvidos e quais métodos são legítimos.

  • O Problema do Criacionismo: Um paradigma científico deve fornecer um "mapa" para a pesquisa. O Criacionismo não oferece um guia para novas descobertas biológicas; ele apenas reage às descobertas do paradigma vigente (a Evolução).

  • Incomensurabilidade: Kuhn argumenta que, para que o Criacionismo fosse uma alternativa, ele precisaria resolver as "anomalias" do paradigma atual melhor do que a própria Biologia Evolutiva. No entanto, o Criacionismo não resolve anomalias; ele apenas as ignora ou as atribui a um milagre, o que encerra o diálogo científico.

2: A Falta de "Ciência Normal" e Resolução de Quebra-Cabeças

Kuhn define Ciência Normal como o trabalho cotidiano dos cientistas: resolver "quebra-cabeças" (puzzles) dentro de um paradigma estabelecido.

  • O Trabalho do Cientista: Um biólogo usa a teoria da evolução para mapear o genoma de uma nova espécie ou entender a resistência de um vírus. Há um progresso constante e detalhado.

  • A Estagnação Criacionista: O Criacionismo não possui "Ciência Normal". Não existem laboratórios criacionistas desenvolvendo novos medicamentos, mapeando linhagens genéticas ou prevendo mudanças ecológicas baseadas no design inteligente.

  • Conclusão Técnica: Sem a capacidade de gerar "quebra-cabeças" resolvíveis e aplicações práticas, o Criacionismo permanece como uma conclusão filosófica estática, e não como uma atividade científica dinâmica.

3: O Critério da Fertilidade Epistemológica

Um conceito menos citado, mas vital, é a Fertilidade. Uma boa teoria científica deve ser "fértil", ou seja, ela deve abrir novas portas para perguntas que ninguém havia pensado antes.

  • O Vácuo Criacionista: Quando você diz "Isto foi projetado assim", a investigação termina ali. Não há uma pergunta seguinte que leve a um novo experimento.

  • A Ciência como Horizonte: A ciência é, por definição, incompleta. O Criacionismo tenta ser uma explicação completa e final. Epistemologicamente, uma "explicação final" é o oposto do empreendimento científico, que se nutre da dúvida e da busca por mecanismos cada vez mais profundos.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Anotações científicas - 22

Algumas observações sobre “filosofês” atacando evolução


Após um bom tempo, assisti um vídeo de uma live onde um negacionista, que jura que vai derrubar Ciência com o que chamo de "filosofês"* expressa toda sua ignorância misturada com presunção.


*Discursos baseados em cultura limitada de História da Filosofia, e não do atual estado da arte no campo. Parece uma construção “de e em” Filosofia, mas é apenas o uso de termos, de palavras e alguns conceitos específicos da Filosofia, e nesses, alguns completamente obsoletos, especialmente para tratar o mundo.

O "filosofês" usado por negacionistas costuma ser uma colcha de retalhos de conceitos mal compreendidos, geralmente tentando usar a lógica formal para negar evidências empíricas — o que é algo sem sentido. 




Aos interessados: 

Problemas filosóficos da teoria da evolução - Alexandre Galvão e Jadison Barbosa

EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ ( RESPOSTA AOS ATEUS)

https://www.youtube.com/live/tNVVuDBUjZk?si=6KozIr7eyh7nV_vp  


Assistir a 1h54min de uma live intitulada "Problemas Filosóficos da Teoria da Evolução" exige um estômago que nem a seleção natural nos prepara totalmente para ter.

O vídeo é um compêndio de tudo o que já diversas vezes descrevemos: uma tentativa desesperada de usar terminologia filosófica para mascarar lacunas de compreensão biológica. Aqui estão os pontos mais "sofríveis" que corroboram nossas anotações:

1. O Mal de "Filosofês" e a Lógica de Taubaté

O palestrante tenta aplicar a falácia da afirmação do consequente [16:53] para invalidar a evolução. O argumento deles é basicamente: "Se a evolução fosse verdade, veríamos adaptações. Vemos adaptações, mas isso não prova a evolução". O problema é que eles ignoram que a ciência não trabalha com verdades absolutas matemáticas, mas com a abdução (inferência para a melhor explicação), sustentada por montanhas de evidências convergentes que eles simplesmente fingem que não existem. Mas existe o pior: vemos adaptações, que são exatamente os objetos de artigos científicos que tratam de especiações mostrando modificações corporais as mais diversas.

2. O Espantalho do Naturalismo

Eles gastam um tempo enorme atacando o "naturalismo filosófico" como se fosse uma religião [17:13]. O argumento é o clássico: "Como o cientista sabe que só existe o natural se ele não conhece tudo?". É a famosa tentativa de nivelar a ciência (baseada em evidência) ao dogma (baseado em fé), tentando dizer que o cientista "tem fé no átomo" tanto quanto eles têm no sobrenatural.

3. A Confissão do Fundamentalismo

O momento mais tragicômico é quando um dos participantes assume com orgulho o rótulo de "fundamentalista radical" [01:50:15]. Ele faz um malabarismo etimológico dizendo que é "radical" porque tem "raiz" e "fundamentalista" porque tem "fundamentos". Logo em seguida, ele descamba para o Ad Hominem puro, chamando o ateísmo de "m3rda" e dizendo que quem vira ateu "fica burro e idiota" [01:50:50].

4. O Sequestro da Moralidade

Para fechar com chave de ouro o festival de horrores, ele usa o argumento do "padrão moral absoluto" [01:53:05]. Segundo ele, se você não acredita no Deus dele, você não tem base para dizer que "matar criancinhas é errado", porque estaria "sequestrando o padrão moral" do cristianismo. É a negação total da evolução da cooperação e da ética como fenômeno social e biológico.

Conclusão para nossas notas: O que já chamamos de "simples estupidez agarrada no fanatismo" fica evidente no final do vídeo [01:52:02]. Ele tenta dizer que chamar alguém de "burro" não é Ad Hominem, mas "constatação de fato".





Imagem gerada na Meta AI, que seria interessante para ilustrar alguma fábula infantil sobre uma criança em meio aos dinossauros às vésperas de um dilúvio. O imenso problema é quando mitos (fábulas) assim permeiam a visão de mundo e sua história de adultos.