quinta-feira, 19 de março de 2015

Colocando-se gelo em certos doloridos erros em Ciência


Para alguém que acha que ao se afirmar gelo nos pólos (sic), estes tem de ser eternos, e se os afirmamos variáveis e até em certo momento da história inexistentes, está se afirmando até um absurdo científico.

Quando afirmamos que a Ciência não afirma aquilo que é, mas aquilo que jamais evidenciou-se diferente, obviamente, não estamos tratando de que coisas imutáveis sejam apenas as observáveis e tratáveis pela Ciência.

Isto é evidentemente uma tolice, e péssima interpretação das afirmações da Filosofia da Ciência, mesmo apenas dos termos usados.

Um exemplo banal seriam as leis da termodinâmica, e vamos abordar uma leitura simplificada da 2a lei da Termodinâmica, no banal exemplo de uma xícara de café quente sobre uma mesa.

Termografia de uma xícara - www.iredltd.co.uk

É evidente que a xícara esfria até a temperatura ambiente com o tempo (assintoticamente, alertemos).  

Logo, o sistema evolui no tempo. Obviamente, não é imutável, “cristalizado” no tempo.

Podemos resumir a complexa teorização da Termodinâmica, com fortes elementos de empirismo na construção, com a afirmação:

Todo corpo mais quente que o ambiente esfria até o equilíbrio com esse.[Nota 1]

Esta afirmação é um jargão, pois mais formalmente, conforme a Filosofia da Ciência, deveria ser formalizada como:

Até evidência em contrário, jamais evidenciou-se corpo mais quente que o ambiente que não tivesse esfriado até entrar em equilíbrio com esse.

Ou, no nosso caso, jamais verificamos uma xícara aquecer-se em meio a um ambiente mais frio, e aqui entra a Entropia (termodinâmica, pois há outros conceitos que usam o termo), se dá apenas em um sentido no tempo - a seta termodinâmica dos processos.
.
Qual motivo de essa ser a formulação da frase correta, mais adequada?

Pois parece-me banal que jamais estudamos todas as xícaras de café (objetos quentes) em todas as mesas (ambientes) do universo, e muito menos, em toda a sua história (passada, muitíssimas vezes completamente inacessível, e futura, ainda por vir).

Por isso que o máximo que podemos afirmar é que tal afirmação é altamente confiável.

Esta questão filosoficamente fundamental, do permanente tentar refutar uma hipótese, “falsear”, como única possibilidade para a construção do conhecimento científico, na falseabilidade, é que permite afirmarmos os modelos científicos de comportamento da natureza, e até mesmo, classificações sobre as coisas, como as cores das penas de aves, como no meu didático “corvo vermelho”, para explicar a questão, que é mais profundamente, epistemológica.[Nota 2]

Nosso conhecimento sobre o mundo é apenas empírico, e não dedutivo, pois simplesmente não temos acesso a totalidade do tudo-que-existe (um conceito filosófico e um tanto mais amplo que um “universo”, que, aliás, nem sabemos realmente o que ele seja), nem na sua intimidade (qual o seu limite mínimo, a partição do que compõe o mundo).
O conhecimento, pois, do humano no mundo sobre o mundo é limitado, e assim para sempre permanecerá, por simples questão de sua própria natureza e lógica., a natureza do humano enquanto tal, como ser limitado sem acesso somente a parte do tudo e em sua linguagem limitada e limitações de premissas tomáveis, seus julgamentos sobre o que apreende de apenas parte do tudo.
Evidentemente que após certo número de experimentações e observações, em modelos e classificações que já tornaram-se extremamente confiáveis, como no caso acima, a segunda lei da Termodinâmica, não perdemos mais tempo, por pura questão prática, o que nos faz lembrar a frase:

Loucura é querer resultados diferentes fazendo tudo exatamente igual!” - Albert Einsten

O objeto é mutável, mas não o modelo que o trata, se confiável.

Alertemos que o modelo, exatamente pela falseabilidade, pode ser refutado (o “fluido térmico”, o flogisto, pelo calor), ser limitado em aplicações (exemplo na Mecânica Newtoniana), ser “afinado”, aumentando sua precisão (a Relatividade em suas “correções” à Mecânica Newtoniana), etc.

Retornando, o que jamais se evidenciou diferente é que é o cientificamente afirmado, não o objeto estudado e seu estado. Esse, pode ser inclusive um processo claro, ocorrendo no tempo - como o banal esfriar de uma xícara de café.

A Ciência não trata propriamente do que seja, à plena definição, a xícara de café, e sim, como esta se comporta no tempo, e algumas características que interessem, como composição química, transparência, condutividade térmica dos materiais, volatilidade de seu conteúdo, etc.

Mas questões com fatores históricos podem seu um tanto mais complexas, e comprometeram até certa coerência do próprio Popper, grande no tema.

Por exemplo, temos que os pólos (sic) em nosso tempo tem grande massa de gelo. Mas tal situação é imutável?

Evidente que não, pois afinal, evidenciamos derretimento e até desaparecimento de capas de gelo de grandes áreas no Ártico, destacadamente.

Logo, a temperatura média da região, e antes, o calor disponível para a região está aumentando - a questão do calor latente de solidificação, um tipo de valor fixo sem a modificação da temperatura, relacionado com o ”esforço” para a mudança de estado, é importante.

A incidência da radiação solar, relacionada com a latitude e a inclinação do eixo de rotação da Terra, as estações dos hemisférios, é só uma das variáveis. É importante, mas não a única.

Portanto, é obvio que o gelo nos pólos não pode ser afirmado como “imutável”. A simples variação, sem qualquer alteração de temperatura média global, evidente nas estações dos hemisférios norte e sul já seriam uma mostra que ele modifica-se no tempo.[Nota 3]




Portanto, afirmações, com registros fósseis e formações geológicas claras, como morenas de geleiras, erosões, sedimentações, formações geológicas relacionadas a variações e deslocamento de massas de gelo diversas, de que em certo momento no passado os polos não continham gelo, não são de forma alguma insustentáveis, pois o sistema é dinâmico - mutável - e com modelos bem estabelecidos - sobreviventes ao falseamento, logo  confiáveis, com as variáveis da temperatura da atmosfera e dos oceanos e perfil de suas correntes, plenamente sustentáveis, afirmáveis.


www.noeman.org


Apenas se deram no distante passado, e podem ser previstos para até próximo futuro.

Mas há um exemplo banal, noticiado no dia a dia, que sustenta que o gelo nos pólos (sic) não é “eterno e imutável” (afirmação que por diversas outras questões, já seria insustentável, vide a própria idade do planeta Terra).

Os acúmulos de gelo nas montanhas independem estritamente das latitudes. Dependem da altitude, das equações atmosféricas (outro modelo altamente confiável) e pelos mesmo motivos de correntes atmosféricas e outras, mesmo com posição no espaço - que somente com certas variáveis implica em presença de gelo - derretem, e portanto, não são imutáveis.

Sinceramentre, o óbvio dos óbvios.

Notas

1.Para mais informação sobre o empirismo na história da termodinãmica, recomendamos

Chaui-Berlinck, José Guilherme e Martins, Ricardo Alves; As duas primeiras leis - Uma introdução à termodinâmica; www.editoraunesp.com.br

2. Epistemologia (do grego ἐπιστήμη [episteme] - ciência; λόγος [logos] - estudo de), também chamada teoria/filosofia do conhecimento, é o ramo da filosofia que trata da natureza, das origens e da validade do conhecimento. Relaciona-se com a metafísica, a lógica e a filosofia da ciência, pois, em uma de suas vertentes, avalia a consistência lógica de teorias e suas credenciais científicas. - Da trivial Wikipedia - http://pt.wikipedia.org/wiki/Epistemologia

3. Sobre este tema, artigo da Sci Am Brasil neste mês:

Jeff Masters; A corrente de jato está ficando estranha; jan de 2015

Versão em inglês:

Jeff Masters; A Wacky Jet Stream Is Making Our Weather Severe - www.scientificamerican.com

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