Nagel e a Resistência da Objetividade
O debate contemporâneo sobre a natureza do conhecimento oscila, com frequência, entre a rigidez de um dogmatismo infalível e a dissolução relativista que reduz a ciência a uma narrativa cultural e local. No ensaio Ciência e Objectividade, Thomas Nagel propõe uma terceira via indispensável: uma defesa da razão que não camufla a sua falibilidade, mas que recusa capitular perante o subjetivismo. Para Nagel, a busca pela objetividade não é a posse de uma certeza absoluta, mas sim um compromisso regulador e incontornável com o universal.
O argumento de Nagel estabelece, logo de início, uma distinção crucial na topografia da mente. Há um núcleo duro da razão, composto pela lógica elementar e pela aritmética básica, onde o subjetivismo é filosoficamente impensável. Negar o modus ponens ou afirmar que $2 + 2 = 4$ é uma mera convenção local constitui um contrassenso, pois o próprio ato de formular essa negação pressupõe a validade das estruturas lógicas que se pretende destituir. Todavia, a maior parte da nossa aventura intelectual — na ciência, na história e na ética — desenrola-se fora deste porto seguro de autoevidência.
Fora da matemática, a incerteza é a norma. Nagel reconhece, com uma sobriedade refrescante, que o raciocínio científico e empírico não opera por demonstrações geométricas, mas sim pela acumulação de razões plausíveis que nos inclinam a preferir uma hipótese em detrimento de outra. Os dados são frequentemente limitados, os vieses cognitivos são uma ameaça constante e a discordância entre mentes razoáveis é perfeitamente legítima. Contudo, é precisamente aqui que o cepticismo radical comete o seu erro categorial: confunde a falibilidade do processo com a subjetividade do objeto.
Mesmo quando tateamos no escuro, guiados por intuições e evidências parciais, operamos sob a premissa de que a questão em debate possui uma resposta correta e independente de nós. Essa exigência é o que Nagel define como um princípio regulador de matriz kantiana. Raciocinar, em sentido estrito, implica a universalidade; significa assumir que qualquer sujeito colocado diante do mesmo corpo de evidências deveria, idealmente, alcançar a mesma conclusão. A procura do universal é o mecanismo pelo qual testamos os nossos pontos de partida pessoais e mensuramos o quão provincianos ou condicionados nós estamos.
A transição para o pensamento científico aprofunda essa intuição. Afinal, o que é a ciência senão o reconhecimento explícito da nossa própria insignificância? Cada ser humano, cada comunidade, é apenas uma parcela infinitesimal do tecido cósmico. Quando observamos o mundo, estamos cientes de que as nossas experiências são amostras locais de uma ordem que esperamos ser constante no tempo e no espaço. Para que o conhecimento científico seja inteligível, os seus métodos de identificação dessa ordem universal devem resistir às tentativas de redução sociológica ou psicológica.
Nagel aponta que a validação da ciência empírica ocorre de forma análoga à da lógica, embora sem o mesmo determinismo: a perspectiva externa e relativista é sistematicamente derrotada pelos juízos de primeira ordem vindos do interior do próprio domínio. Em termos práticos, a eficácia preditiva da física, a coerência da biologia evolutiva ou a solidez da química orgânica impõem-se com tal autoridade empírica que os diagnósticos de "autoengano" ou "construção social" se tornam teorias marginais e incapazes de explicar o funcionamento real do mundo.
Em última análise, o ensaio de Nagel lembra-nos de que a modéstia epistémica — a consciência de que podemos estar errados — não nos obriga ao niilismo. A razão pode ser incompleta, inexata e perenemente aperfeiçoável, mas continua a ser o único instrumento capaz de nos retirar do isolamento da nossa própria mente e nos ancorar na realidade objetiva do Universo.
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Thomas Nagel (nascido em 4 de julho de 1937 ) é um filósofo americano. Ele é Professor Universitário Emérito de Filosofia e Direito na Universidade de Nova York, onde lecionou de 1980 até sua aposentadoria em 2016. Suas principais áreas de interesse filosófico são filosofia política, ética e filosofia da mente.
Nagel é conhecido por sua crítica às explicações reducionistas materialistas da mente, particularmente em seu ensaio "Como é ser um morcego?" (1974), e por suas contribuições à teoria moral e política liberal em A Possibilidade do Altruísmo (1970) e escritos subsequentes. Ele continuou a crítica ao reducionismo em Mente e Cosmos (2012), no qual argumenta contra a visão neodarwinista da emergência da consciência. — en.wikipedia.org - Thomas Nagel

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