segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Peter Achinstein - O Problema da Demarcação

O Problema da Demarcação (termo cunhado por Karl Popper) é a busca por um critério universal que separe a ciência de outras disciplinas que também afirmam dizer verdades sobre o mundo (como a matemática, a metafísica, a teologia e a pseudociência).

Em seu ensaio “O Problema da Demarcação”, Achinstein destrincha o problema da demarcação mapeando historicamente os cinco critérios tradicionais que filósofos da ciência propuseram para salvaguardar o estatuto da ciência frente à não-ciência: o caráter empírico, a busca por certezas, a adesão a um método universal, a restrição ao mundo observável e a natureza cumulativa de seu progresso. Longe de abraçar qualquer uma dessas propostas de forma dogmática, o autor submete cada critério a um rigoroso escrutínio, confrontando as visões de empiristas, racionalistas, realistas e instrumentalistas para demonstrar que nenhuma dessas exigências goza de consenso absoluto ou opera como uma regra fixa e imutável ao longo da história. Contudo, em vez de abandonar a distinção, Achinstein resgata a validade dessas diretrizes ao sugerir que, se não servem como definições estritas, elas funcionam de forma defensável quando reinterpretadas como metas e objetivos práticos que orientam a atividade dos cientistas em determinadas épocas. 

Os 5 Critérios sob Escrutínio
 

Critério Tradicional

O que defende?

Onde os filósofos divergem?

1. É Empírica

Baseia-se na observação sensorial e experimentos.

Indutivistas: Cientistas generalizam a partir de casos observados.


Popper: Rejeita a indução; a ciência é empírica porque pode ser falsificada por um caso negativo.


Racionalistas (Descartes/Kant): Princípios fundamentais são conhecidos a priori (pela razão).

2. Procura Certezas

Busca conhecimento indubitável, afastando-se da mera especulação.

Descartes: Defende a certeza absoluta.


Newton: Admite exceções futuras, mas busca o máximo de certeza via indução/dedução.


Popper/Laudan: A certeza é impossível ou irrelevante; a ciência busca soluções adequadas para problemas.

3. Segue um Método

Existe um conjunto de regras universais para testar teorias.

Hipotético-Dedutivismo (Popper): Propõe conjecturas e deduz consequências para testá-las.


Indutivismo: Exige suporte indutivo independente.


Kuhn: Não há método universal; cientistas agem sob paradigmas de cada época.


Sociologia da Ciência: Fatores sociais e "negociações" explicam a aceitação de teorias.

4. Foca no Observável

Limita-se ao que se pode ver/medir, sem criar mundos invisíveis.

Realistas: A ciência deve descrever o mundo observável e o não observável (ex: quarks), pois ambos são reais.


Anti-realistas / Instrumentalistas: Teorias sobre o não observável são apenas instrumentos linguísticos para prever o observável.

5. É Cumulativa

Progride somando novas verdades sobre as antigas.

Positivistas: A ciência acumula tijolo por tijolo.


Kuhn / Feyerabend: Teorias novas e antigas são frequentemente incomensuráveis (incompatíveis); há rupturas e revoluções, não apenas acúmulo.


Conclusão: Uma Abordagem Prática

Achinstein sugere que, embora não exista um critério abstrato perfeito e imutável para todas as eras, a ciência (especialmente a física moderna) se diferencia da filosofia e da metafísica pelos seus objetivos práticos.

1.Formular hipóteses testáveis:O ponto de partida.

Diferente dos metafísicos, os cientistas podem até propor entidades inobserváveis, mas com o objetivo de torná-las testáveis e mensuráveis no futuro (como J.J. Thomson fez com os elétrons).

2.Buscar o máximo de certeza via testes:A validação.

A certeza na ciência é perseguida por meio de experimentos empíricos e argumentos lógicos (método), e não apenas por argumentação pura a priori ou mera "negociação social".

3.Construir sobre bases sólidas:O progresso.

Mesmo as ideias mais revolucionárias precisam respeitar princípios gerais solidamente estabelecidos (como as leis de conservação) para que o progresso continue ocorrendo de forma mais cumulativa do que na filosofia.

Em resumo: O papel da filosofia da ciência não é ditar uma regra dogmática e fixa, mas analisar criticamente como esses objetivos científicos mudam, se adaptam e operam em diferentes momentos históricos.


O ensaista e o ensaio


Peter Achinstein (nascido em 30 de junho de 1935) é um filósofo da ciência americano da Universidade Johns Hopkins, cujas ideias mais notáveis são o conceito explicativo de evidência, a teoria ilocucionária da explicação, propriedades semanticamente relevantes versus não semanticamente relevantes necessárias na construção de definições teóricas. - en.wikipedia.org 



Outra fonte: Crítica na Rede Tradução de Paulo Sousa

Nos nossos arquivos: Peter Achinstein - O problema da demarcação 

Publicado em Routledge Encyclopedia of Philosophy, org. Edward Craig (Londres: Routledge, 1998) - www.rep.routledge.com  

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