Quando a Ideologia Mutila a Realidade
A partir de anotações sobre relações da “Síndrome de Procusto” e a negação da ciência e a relativização de vidas humanas.
Na mitologia grega, Procusto era um anfitrião peculiar que possuía dois leitos de tamanhos diferentes. Ele convidava viajantes para descansar, mas impunha uma condição macabra: o corpo do hóspede deveria se ajustar perfeitamente à cama. Se o viajante fosse alto demais, Procusto amputava seus membros; se fosse baixo demais, era esticado em uma bigorna até atingir a medida "correta".
Hoje, a Síndrome de Procusto transcendeu o mito para descrever um fenômeno perigoso na esfera pública: a tentativa violenta de forçar a realidade a caber dentro de molduras ideológicas pré-concebidas.
A Negação da Ciência como Amputação
Quando falamos em negação da ciência, estamos observando Procusto em ação. A ciência opera através da observação de fatos que, muitas vezes, são desconfortáveis ou contrários aos nossos desejos. O negacionista, porém, inverte o processo: em vez de mudar sua opinião para se adequar aos fatos, ele tenta "amputar" as evidências.
Se um dado científico não cabe na narrativa política ou econômica vigente, ele é descartado, ignorado ou distorcido. A ciência é esticada ou cortada até que não reste nada além de uma caricatura da verdade.
A Relativização de Vidas Humanas
A consequência mais grave dessa síndrome é a relativização da vida. No mito, a prioridade de Procusto era a perfeição da medida, não a integridade do ser humano. No cenário contemporâneo, quando a ideologia se torna mais importante que a evidência empírica, a vida humana passa a ser um detalhe sacrificável.
Ignorar a ciência em nome de uma crença interna não é apenas um erro intelectual; é uma falha moral.
O custo do ajuste: Quando políticas públicas são baseadas no "leito de Procusto" em vez de dados concretos, o preço é pago em vidas. A recusa em aceitar a realidade biológica ou climática, por exemplo, é uma forma de dizer que o "ajuste" ao dogma é mais valioso que a sobrevivência do indivíduo.
A imagem de forçar a entrada da “peça quadrada” um buraco redondo, útil para se entender o vício de se querer que nossos dogmas sejam impostos à realidade do mundo.
Conclusão
O herói Teseu eventualmente derrotou Procusto fazendo-o provar de seu próprio método. No debate moderno, nossa "arma" contra essa síndrome deve ser o compromisso inegociável com a realidade. Reconhecer que o mundo não tem a obrigação de caber nas nossas certezas é o primeiro passo para uma moralidade que realmente protege a vida, em vez de mutilá-la.
Recomendações de leitura
Síndrome de Procusto: o que é e como identificá-la? - www.sbie.com.br
Julia Di Spagna - 8 sinais de que seu colega sofre da síndrome de Procusto -

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