Há alguns anos um conhecido criacionista brasileiro publicou um artigo criacionista dito “científico” numa revista predatória.[Nota 1]
Finalmente, resolvemos tratá-lo.
Neto, Sodre & Alves, Everton & Sá, Mariana. (2017). Speciation in real time and historical-archaeological and its absence in geological time. Academia Journal of Scientific Research. 5. 188-196. - www.researchgate.net - Versão em PDF
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Resumo traduzido
“Durante décadas, a biologia evolutiva tem se esforçado para compreender o significado de "espécie" e explicar o processo de formação. Atualmente, existem mais de vinte conceitos diferentes de espécie. O uso de diferentes conceitos leva a comparações impróprias e enganosas. Por outro lado, biólogos catastróficos usaram por décadas o termo "tipo" ou "grupo" para o que consideravam categorias de organismos não geneticamente relacionados. Assim, cada uma das várias categorias de espécies, subespécies e variedades observadas hoje foi concebida para diversificar um tipo ancestral comum básico. Padrões morfológicos relacionados ao sexo do táxon foram identificados com fósseis ancestrais enterrados em uma base recente catastrófica; Este modelo nos conta a história de um período de: 1) especiação rápida, 2) permanência com um grande número de espécies em um ambiente estável (repetição fóssil sem pressões evolutivas ambientais), 3) desastre seguido por soterramento em massa da população viva, evidenciado pela repetição das mesmas espécies fósseis (o que prejudica a pontualidade), 4) presença de várias espécies diferentes juntas no registro fóssil, muitos fósseis de vertebrados (o que caracteriza um desastre de grande magnitude e altas taxas de sedimentação) e 5) mudanças ambientais drásticas causando radiação de espécies em amostras de camadas recentes e em milhões de espécies na biodiversidade atual.”
Análise Crítica: O Mimetismo Científico no Discurso Catastrofista
O resumo em questão é um exemplo clássico de como a terminologia técnica pode ser sequestrada para dar um vernáculo de credibilidade a modelos que ignoram os pilares da geologia e da biologia modernas. A estratégia do texto baseia-se em três eixos de distorção:
1. A Fragmentação do Conceito de Espécie O autor inicia apontando, corretamente, que existem múltiplos conceitos de espécie na biologia. No entanto, ele utiliza essa complexidade acadêmica como uma "cortina de fumaça". O objetivo não é resolver a questão taxonômica, mas sim desacreditar a ancestralidade comum, sugerindo que, por não haver um consenso absoluto sobre o termo "espécie", as comparações evolutivas seriam inerentemente enganosas.
2. A Reabilitação do "Tipo" (Baraminologia) A substituição de clados evolutivos pelo termo "tipo" ou "grupo" é a peça central da estrutura pseudocientífica. Ao alegar que diferentes categorias (espécies, subespécies) foram "projetadas" para diversificar um ancestral comum básico, o texto tenta validar o conceito de baramin.[Nota 2] Isso permite que o autor aceite a adaptação biológica em pequena escala (microevolução), enquanto impõe uma barreira arbitrária e mística que impediria a macroevolução.
3. O Registro Fóssil como Fotografia de um Desastre Único O texto reinterpreta a sedimentação geológica através de uma lente puramente catastrofista. A "repetição do mesmo fóssil" e o "sepultamento de populações vivas" são descrições que tentam sustentar a ideia de um evento de inundação global recente (o Dilúvio). Para isso, ignora-se a cronologia das camadas geológicas e a datação radiométrica, tratando milhões de anos de deposição gradual como um evento de alta energia e curta duração.
Conclusão sobre esse resumo
Em suma, o resumo não busca expandir o conhecimento biológico, mas sim ajustar os dados observáveis a uma conclusão prévia e externa ao método científico. É um texto que "fala" como ciência, mas "pensa" como dogma, utilizando revistas predatórias como um atalho para obter um selo de validade que o rigor dos pares jamais concederia.
As afirmadas conclusões
Mas como se aprende necessariamente em Ciência, não se toma adequadamente um artigo científico pelo seu resumo, e sim pelas suas conclusões:
“Padrões morfológicos em torno do táxon do gênero (MPGT) são identificados com ancestrais básicos soterrados por catastrofismo (ABRC), visto que esse modelo está de acordo com o fato da rápida especiação observada, que exigiria uma variabilidade proporcional muito grande no registro fóssil se este representasse milhões de anos de evolução. Além disso, a ausência dessa variação taxonômica é confirmada pela estase morfológica, repetição das mesmas espécies e 4229 gêneros de fósseis vivos. Tal quadro reflete um soterramento repentino dos seres vivos no planeta, e não uma história evolutiva normal da vida. Relatos de especiação na história e na arqueologia, que justificam toda a biodiversidade em um curto período, também indicam que deveria haver muito mais variabilidade no registro fóssil do que existe. A explosão cambriana, a ausência de variabilidade fóssil na amostragem (estase fóssil morfológica) e a falta de radiação no registro fóssil até o Pleistoceno, contam-nos a história de um período de: 1) surgimento rápido, 2) permanência de um grande número de espécies em um ambiente estável (repetição fóssil sem pressões evolutivas ambientais), 3) desastre causando o soterramento massivo de populações vivas, evidenciado pela repetição das mesmas espécies fósseis (o que prejudica a pontualidade), 4) presença de várias espécies diferentes juntas no registro fóssil, fósseis de animais vertebrados enormes inteiros (o que caracteriza um desastre de grande magnitude e altas taxas de sedimentação) e 5) mudanças ambientais drásticas causando radiação de espécies em amostras de camadas recentes e em milhões de espécies na biodiversidade atual.”
A Anatomia da Conclusão: Distorção e Omissão
O texto final abandona qualquer sutileza e foca em três pilares que parecem sólidos para um leigo, mas que desmoronam sob análise:
1. O Paradoxo da Variabilidade Proporcional O autor afirma que, se houvesse milhões de anos de evolução, deveríamos ver uma "variabilidade proporcional" gigantesca nos fósseis.
O erro: Ele ignora o conceito de Equilíbrio Pontuado (Gould e Eldredge). A evolução não é uma rampa constante de mudanças; espécies podem permanecer em estase morfológica por milhões de anos se o ambiente estiver estável. O autor usa a estase (que é um fato biológico) não para entender a seleção estabilizadora, mas para alegar que "nada mudou porque não houve tempo".
2. O Sequestro da Explosão Cambriana A menção à Explosão Cambriana é o "padrão ouro" desse tipo de literatura.
A distorção: Ele a utiliza para sugerir um "aparecimento repentino" de tudo. No entanto, a ciência moderna já identificou precursores pré-cambrianos (a fauna de Ediacara).[Nota 3] Além disso, a "explosão" durou milhões de anos — um piscar de olhos geológico, mas uma eternidade se comparada à cronologia de "curto prazo" que o artigo defende.
3. A Falácia dos 4.229 Gêneros de Fósseis Vivos Ao citar "fósseis vivos", o autor tenta sugerir que, se o organismo não mudou, o tempo não passou.
A realidade: "Fóssil vivo" é um termo coloquial, não taxonômico. O fato de um Celacanto atual ser morfologicamente parecido com um de 400 milhões de anos não significa que a espécie é a mesma, mas que o seu bauplan (plano corporal) é extremamente eficiente para o seu nicho. O autor ignora as mudanças genéticas invisíveis à morfologia fóssil.
4. O "Desastre de Grande Magnitude" A conclusão aglutina fósseis de vertebrados e altas taxas de sedimentação como prova de um evento único.
A omissão: Ele ignora a bioestratigrafia. Se todos os animais tivessem morrido no mesmo desastre catastrófico (o Dilúvio implícito), encontraríamos fósseis de dinossauros, humanos, trilobitas e baleias misturados na mesma camada. Na realidade, o registro fóssil é estritamente ordenado: você nunca encontrará um plesiossauro na mesma camada que um mamute.
Ao analisarmos as conclusões do autor, percebemos que o argumento se sustenta em um falso dilema: ou o registro fóssil apresenta uma variação morfológica infinita e gradual, ou ele prova um soterramento catastrófico recente. Ao ignorar o Equilíbrio Pontuado e a seleção estabilizadora, o texto trata a estase morfológica — um fenômeno evolutivo bem documentado — como uma evidência de ausência de tempo geológico. A menção aos '4229 gêneros de fósseis vivos' é uma tentativa retórica de invalidar a macroevolução através de exemplos de sucesso adaptativo de longo prazo, omitindo o fato crucial de que o registro fóssil é estratificado e ordenado, algo impossível em um cenário de soterramento catastrófico único.
Notas
1.Revistas predatórias são publicações acadêmicas fraudulentas que cobram taxas (APCs, Taxa de Processamento de Artigos) para publicar artigos sem realizar uma avaliação por pares adequada, explorando a pressão por publicação. Elas se aproveitam do modelo de acesso aberto, prometem publicação rápida e enviam e-mails de spam agressivos, visando lucro em detrimento da qualidade científica, prejudicando a reputação dos autores e o conhecimento gerado, e são identificadas por falta de transparência, escopo genérico e informações falsas sobre impacto.
2.Um baramin é um conceito criacionista que se refere a um "tipo criado", um grupo de organismos descendentes de um ancestral comum especialmente criado por Deus, conforme descrito no Gênesis, formando uma unidade de classificação na biologia criacionista conhecida como Baraminologia. O termo combina o hebraico bara (criado) e min (tipo/espécie) e postula que, enquanto a evolução (microevolução) pode ocorrer dentro de um baramin (como diferentes cães), ela não pode criar um novo baramin (um cão não vira um gato).
BARAMITOLOGIA – O SISTEMA PSEUDOCIENTÍFICO DE CLASSIFICAÇÃO - netnature.wordpress.com
Fauna Ediacara - Vida marinha do período Ediacarano. Ilustração da vida marinha encontrada nos mares entre 580 milhões e 560 milhões de anos atrás, no que é conhecido como Período Ediacarano. Este período recebeu o nome das Colinas Ediacaranas do sul da Austrália, onde fósseis desses animais e plantas são encontrados. Este período se sobrepõe ao período Vendiano, mais longo, sendo ambos parte da era Pré-Cambriana. Fósseis semelhantes são encontrados em rochas do Vendiano em todo o mundo. Na imagem, vemos: medusa (Ediacaria flindersi, branca); Mawsonites spriggi (azul); Kimberella quadrata (em forma de bala); penas-do-mar (Charniodiscus arboreus e Charniodiscus oppositus); platelmintos (Dickinsonia costata, no fundo do mar); e algas (tufo verde-escuro). - www.sciencephoto.com

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