sábado, 28 de março de 2026

Dois pequenos ensaios sobre os machos humanos

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Trapaças para ter sexo


No episódio 10 da 5ª temporada da série Yellowstone (intitulado "The Apocalypse of Change"), Beth Dutton faz uma citação com sua agressividade intelectual característica para desarmar ou provocar alguém. Ela diz:

"Como disse H.L. Mencken: 'Todo homem que diz que nunca trapaceou para transar, simplesmente não estava com tesão suficiente'."

Taylor Sheridan realmente opera em uma frequência que ressoa com o atavismo — aquele retorno aos instintos ancestrais que a civilização tenta, mas nunca consegue, domesticar completamente.

Se pegarmos a citação de Mencken (pela voz da Beth) e passarmos pelo filtro da Psicologia Evolutiva, entramos no território da Seleção Sexual e das Estratégias Reprodutivas.

Aqui está o "mapa da mina" para essa análise:

1. O "Investimento Parental" e a Trapaça

Na psicologia evolutiva, Robert Trivers propõe que o sexo que investe mais na prole (geralmente a fêmea) é mais seletivo, enquanto o que investe menos (geralmente o macho) tende à competição e, muitas vezes, ao engodo.

  • A "trapaça" mencionada por Mencken/Beth pode ser lida como o Mimetismo de Valor: o indivíduo exagera seu status, recursos ou comprometimento para superar o rigor do filtro seletivo.

2. O Custo da Honestidade (Princípio do Handicap)

Amotz Zahavi sugeriu que sinais honestos devem ser "caros" (como a cauda do pavão).

  • A frase sugere que, quando o impulso biológico (o "tesão") atinge um nível crítico, o custo de ser honesto torna-se proibitivo. O "tesão suficiente" é o ponto onde o imperativo biológico de reprodução ignora o contrato social da honestidade. É a biologia gritando mais alto que a cultura.

3. A Beth Dutton como a "Árbitra" Evolutiva

O que torna Beth Dutton citando isso tão genial é que ela é a personagem que mais enxerga a vida como uma luta por sobrevivência e território (conceitos puramente biológicos). Ao validar a trapaça masculina sob pressão do desejo, ela está:

  • Reconhecendo a animalidade dos homens ao seu redor.

  • Se colocando acima do julgamento moral comum, assumindo uma postura de "observadora da natureza".

4. O Conflito Ético (Conectando com nossas notas)

Já mencionamos em nossos textos que uma moralidade desvinculada dos efeitos sobre os outros é incompleta. Noutras palavras, não existe plenamente uma moral “individual”. Aqui está o choque:

  • Psicologia Evolutiva: A trapaça é um mecanismo funcional para o sucesso reprodutivo.

  • Moralidade Social: A trapaça é uma violação do direito do outro à verdade.

Taylor Sheridan, o “showrunner” da série, coloca Beth Dutton nesse "ponto cego" onde a verdade biológica é imoral, mas é a única verdade que ela respeita.

Onde Taylor Sheridan brilha

Taylor Sheridan entende que o cenário de Yellowstone é um laboratório de Ethos Humano. O rancho é um lugar onde a "moralidade de fachada" morre de fome. Quando Beth Dutton cita Mencken, ela está dizendo: "Nós não somos cidadãos aqui; somos predadores e presas operando sob níveis de necessidade que vocês, da cidade, nem conhecem."

A Ética do Predador: Beth Dutton, Mencken e a Verdade Biológica".

I. O Imperativo Biológico: O Ponto de Ruptura do Contrato Social

A civilização, em termos freudianos e evolutivos, é um pacto de renúncia. Concordamos em não matar e não trapacear para que possamos viver em grupo. Mas Mencken (via Beth) aponta para o limiar de ativação: o "tesão suficiente".

  • O Conceito: Na psicologia evolutiva, o desejo não é apenas um sentimento, é um comando motor de alta prioridade. Quando o sinal biológico atinge uma voltagem X, ele sobrecarrega os fusíveis do neocórtex (a parte racional/moral).

  • A Ruptura: A frase sugere que a moralidade é um luxo de quem não está em estado de necessidade. O "contrato social" é uma fina camada de gelo sobre um oceano de instintos. Se o gelo quebra, caímos na água fria da sobrevivência.

II. A Trapaça como Ferramenta: O Fim do "Bom Mocismo" Evolutivo

Aqui entramos na "seleção sexual" pura. A natureza não é uma democracia e muito menos um tribunal de ética.

  • Estratégias de Acasalamento: A evolução favorece o Sucesso Reprodutivo, não a integridade. A trapaça (ou o deception na biologia) é uma ferramenta adaptativa. Aves mentem sobre a localização de ninhos; primatas fingem status.

  • O Custo da Honestidade: Se um homem é "honesto" mas isso o exclui da reprodução, seus genes de honestidade morrem com ele. A "trapaça" é o atalho evolutivo para garantir que a linhagem continue. Como Sheridan mostra no rancho, quem segue as regras da cidade em um ambiente de natureza selvagem acaba enterrado no "estacionamento".

III. O Espelho de Beth: A Honestidade da Desonestidade

Este é o ponto mais profundo. Por que Beth Dutton, que destrói pessoas que mentem para ela, sorri ao citar que homens trapaceiam por desejo?

  • A Ojeriza pela Hipocrisia: Para Beth Dutton, a maior imoralidade não é a trapaça em si, mas a negação da própria natureza. Ela respeita o homem que admite: "Eu sou um animal e faria qualquer coisa para satisfazer meu instinto".

  • A "Moralidade Interna" de Beth: Conectando com nossa nota sobre a moralidade desvinculada dos efeitos nos outros ser incompleta: Beth Dutton vê a honestidade sobre o desejo como uma forma de integridade interna. Ela prefere um pecador consciente a um santo hipócrita.

  • O Reconhecimento do Igual: Ela se vê nessa frase. Beth Dutton "trapaceia" o sistema financeiro, a lei e a política para proteger o rancho. Ela entende que quando o "tesão" (ou a necessidade de proteger a terra) é grande o suficiente, a ética vira um detalhe técnico.

Conclusão: A Verdade Bruta

O ensaio culmina na ideia de que a frase de Mencken não é uma desculpa para o mau comportamento, mas um diagnóstico da condição humana. Taylor Sheridan usa Beth Dutton para nos lembrar que, sob o terno caro de um banqueiro ou o chapéu de um cowboy, bate um coração que ainda responde às leis da savana.

Nota

Quem foi H.L. Mencken?

Henry Louis Mencken foi um influente jornalista, ensaísta e crítico social americano da primeira metade do século XX, conhecido como o "Sábio de Baltimore". Ele era famoso por seu estilo satírico, cínico e por suas críticas ferozes à moralidade vitoriana e à hipocrisia da classe média americana.


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O sentimento de posse e a memética do feminicídio

O Brasil passa por praticamente uma epidemia de feminicídios, na imensa maior parte das vezes, pelo sentimento absurdo de "posse" da mulher pelos seus companheiros, que não aceitam o fim da relação.

Será que existe um elemento de comportamento "memético", ligado a uma "cópia", num comportamento que no fundo é de “manada”?[Nota 1]

Essa é uma provocação sociológica profunda e muito necessária. Ela toca no ponto onde a psicologia individual se funde com a reprodução cultural em massa.

Para analisarmos se o feminicídio e o sentimento de posse operam como um meme (no sentido original de Richard Dawkins: uma unidade de informação cultural que se replica), precisamos olhar para como esse comportamento é validado socialmente.

1. O Sentimento de Posse como "Software" Cultural

O sentimento de posse não é instintivo, mas aprendido. Ele funciona como um código cultural transmitido de geração em geração.

  • A Replicação: O homem observa o pai, os amigos, o cinema e a música (lembrando que podemos mencionar letras de música, onde o "se não for minha, não será de ninguém" é um tema recorrente e perigoso).

  • A Validação: Quando a sociedade ou o grupo de pares reforça que o controle sobre a mulher é sinal de "virilidade", o meme da posse encontra um hospedeiro fértil.

2. A Memética do Feminicídio e o "Efeito de Cópia"

Existe um elemento de comportamento de manada ou mimetismo (imitação). Na criminologia, isso é às vezes discutido como o "Efeito Werther" (originalmente aplicado ao suicídio [Nota 2]), onde a ampla divulgação de um crime de forma sensacionalista pode "autorizar" ou "sugerir" a mesma solução para indivíduos em situações de crise semelhantes.

  • O "Roteiro" do Crime: O feminicídio muitas vezes segue um padrão quase ritualístico (ameaça, não aceitação do término, o crime, e às vezes o suicídio do autor). Quando esse padrão se repete à exaustão, ele se torna um "script" comportamental disponível no imaginário coletivo.

  • Normalização por Repetição: A "epidemia" cria uma percepção de que essa é a resposta "padrão" do homem abandonado. O agressor não se vê como um monstro isolado, mas como alguém agindo dentro de uma lógica que ele acredita ser legítima (a defesa da sua "propriedade").

3. A Moralidade Interna vs. O Meio Social

Conectando com suas reflexões anteriores sobre moralidade, o feminicídio é o exemplo máximo da falha da moralidade social.

Se a essência da moralidade reside em como afetamos o bem-estar dos outros, o feminicídio é a negação total da alteridade. A mulher deixa de ser um "outro" com direitos e passa a ser uma extensão do ego do agressor.

A inação da sociedade (o "não se mete a colher") é o que permite que esse meme de posse continue se replicando. O silêncio é o nutriente que mantém o comportamento de manada vivo.

A Memética como Ferramenta de Mudança

Se o comportamento é memético, a solução também passa pela contramemética:

  1. Quebrar o Script: Substituir a narrativa do "crime passional" (que romantiza a posse) pela do crime de ódio e controle.

  2. Desconstrução na Cultura: Analisar letras de música e produções culturais para identificar onde o meme da posse está escondido sob o disfarce de "amor excessivo".


Notas

1.O Caso do Atropelamento e a "Posse de Manada"

O crime recente, em que um ex-companheiro arrastou uma jovem com um veículo, causando a perda de suas pernas, e outro companheiro que assassinou sua amiga, é o "Estudo de Caso Zero" para o conceito de memética da posse.

  1. O Carro como Extensão do Meme: No imaginário do feminicida "memético", o veículo não é apenas transporte; é uma arma de domínio público. O ato de arrastar a vítima pelas ruas é uma exibição de poder — um "script" de humilhação que busca anular a autonomia da mulher diante da sociedade.

  2. A Amiga como "Dano Colateral" Moral: O assassinato da amiga revela a falência da alteridade. Na cabeça do agressor, qualquer um que valide a liberdade da mulher (ajudando-a a sair da relação) torna-se um alvo. Isso reforça o comportamento de manada: o agressor pune não só a mulher, mas outro agressor pune uma rede de apoio, enviando um "meme de terror" para outras mulheres e seus aliados.

  3. A Inação da "Vizinhança" Moral: Retomando sua anotação de 02/05/2025, a tragédia é o resultado final de uma série de omissões. Se o sentimento de posse é um "software" cultural, ele só roda porque o sistema operacional da sociedade (nossa moralidade externa) permite que o processo não seja interrompido nos primeiros sinais de erro (ameaças, controle, perseguição).


2.O Efeito Werther (Mimetismo Social)

  • Origem: O nome vem do romance de Goethe, Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774). Após a publicação, uma onda de jovens na Europa cometeu suicídio usando as mesmas roupas e métodos do protagonista.

  • O Mecanismo: Não se trata apenas de tristeza, mas de identificação e autorização. Quando um indivíduo em crise vê um par (ou uma figura pública) resolvendo um conflito através de um ato extremo, ele recebe um "script" comportamental. O crime deixa de ser impensável e passa a ser uma opção de saída.

  • Na Criminologia (Feminicídio): A cobertura sensacionalista de casos como o da moça arrastada pode, tragicamente, servir de modelo. O agressor potencial consome a notícia e aprende o método e a "lógica" da vingança. O crime se replica como um vírus cultural (meme).

  • A Quebra do Ciclo: Para combater o efeito, a recomendação (Diretrizes da OMS/Criminologia) é focar na punição e na dor das vítimas, nunca na "paixão" ou nas motivações do agressor, para evitar que o "meme da posse" encontre novos hospedeiros.


Extra: A Inação como Patologia Moral

Se aceitarmos que a moralidade só ganha corpo no impacto que causamos (ou deixamos de causar) nos outros, o sentimento de posse e a inação social são duas faces da mesma moeda de falência ética.

1. A Moralidade do "Efeito Colateral"

A frase de Mencken em Yellowstone trata de uma "trapaça" cujo efeito nos outros é, teoricamente, o prazer (ou pelo menos um jogo de sedução). No entanto, quando essa lógica de "satisfazer o instinto a qualquer custo" migra para o controle e a posse (como no caso da moça arrastada), o "efeito no outro" passa a ser a aniquilação.

  • A Falha: Uma moralidade que olha apenas para o "tesão" ou "desejo" do sujeito é solipsista (só o 'eu' existe). Ela é incompleta porque ignora que o outro não é um cenário, mas um sujeito de direitos.

2. O Pecado da Omissão (A Inação é Imoral)

Sua anotação de 02/05/2025 é o veredito aqui: a inação diante de um "meme de posse" em gestação é um ato imoral.

  • O Observador como Cúmplice: No comportamento de manada (Efeito Werther), o grupo que silencia diante das ameaças de um ex-companheiro está, na prática, alimentando o "software" do agressor.

  • Consequencialismo: Se a moralidade reside nas consequências, omitir-se diante de uma violência iminente produz a mesma consequência que o ato de violência: a dor do outro. Portanto, o "não se envolver" não é neutralidade, é uma escolha moral por um desfecho trágico.

3. Conclusão: A Ética da Responsabilidade

Beth Dutton é fascinante porque, embora seja brutal, ela opera sob uma moralidade de proteção: suas ações visam o bem-estar dos seus (o efeito nos outros é a sobrevivência da família). Já o feminicida opera sob uma moralidade de destruição: o efeito no outro é a anulação.

A frase final para o ensaio: > "Não basta ser 'bom' internamente se a sua inação permite que o meme da posse destrua a vida ao seu lado. A moralidade real não é o que você sente, é o que você impede que aconteça com o próximo."


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