quarta-feira, 15 de junho de 2011

Mostre-me o universo... II

e digo que lá não está o deus cristão

2a Parte

Observação inicial: esta deveria ser a primeira blogagem desta série, mas como minha vida seguidamente envereda por uma "turbulência de atividades", resolvi publicar primeiramente a parte já razoavelmente bem acabada, e não "os primeiros capítulos". Espero a compreensão de todos e uma certa estima pela minha preocupação com dar-lhes algo interessante para ler, nessa era em que a informação já deveria ter sido entregue ontem.


Caiu nas minhas mãos, num saguão de aeroporto, o seguinte livro:

Fred Heeren; Mostre-me Deus - O que a mensagem do espaço nos diz a respeito de Deus

Uma requentada de O Universo Inteligente, de Fred Hoyle, e para variar, com os mesmo erros de sempre, só talvez, desta vez sem o autor ter direito a ganhar uma falácia com seu nome, coisa que no terreno das "ostras", corresponde a algo como o Nobel ou a medalha Fields.

Uma entrevista com o autor: Jornalista retoma em livro união entre ciência e fé.

Assim, sentemos a pancada nestes novos relógios de Paley, argumentos teleológicos, camada por camada, desde o mais amplo, do macro, até o mínimo.



Big Bang

Seguidamente argumentadores por teleologias aparentes pontam que o extremo equilíbrio das partículas na natureza, suas simetrias, e até mesmo cada um dos processos mínimos que produz a natureza desde seus mais distantes tempos - e aqui, não direi "iniciais", pois veremos que a coisa, em Cosmologia, é um tanto mais complexa - tem de ser ação de uma divindade consciente e legisladora dos comportamentos da natureza (e jamais Zeus ou Odin, nem mesmo Brahman, e sim, claro que o deus dos hebreus e o citado na Bíblia).

Noutras palavras, o Big Bang é aceito ou tem de ser negado, se ele não é o próprio teológico Fiat Lux.

Poucas coisas são mais tolas.

O Big Bang nem sequer é o fenômeno a partir do qual o universo inicia. O Big Bang é o processo no qual o universo está.

A divertida imagem que foi capa da SciAm, com artigo sobre as novas luzes com as quais a Mecânica Quântica tem iluminado a Cosmologia (Paul J. Steinhardt; The Inflation Debate - Is the theory at the heart of modern cosmology deeply flawed?; Scientific American; April 6, 2011).


Eu e você, você e as letras que lê agora em seu monitor estão num fluxo de espaço-tempo que se expande, e só se mantém na mesma distância, fora variações típicas dos "newtonianismos" (adorei este meu neologismo, juro!) como sua oscilação pela respiração, batimentos cardíacos e vibrações desde o alto volume das caixas de som do vizinho metaleiro até o caminhão que na avenida passa porque exatamente estes "newtonianismos" incluem o atrito de sua cadeira, a resistência de seus ossos e músculos e até a estrutura de seu prédio, junto com a Terra e a gravidade do sistema solar e da galáxia inteira e até do grupo de galáxias próximas; por outras vias de argumentos com os "maxwellianismos" (juro, não resisto a sito!) que nas forças eletromagnéticas mantém, na menor escala, junto com a gravidade, como diria um amigo físico, "toda a bagaça grudada".[Nota 1]

Isto tudo, pelo menos, por enquanto, vide Big Rip.

Podemos estar, na verdade, num processo cíclico, e nem mesmo, teríamos tempo (notem a ironia) para poder colocar uma divindade cristã que tome decisões e realize atos.

Portanto, não necessariamente necessitou existir uma luz que se faça, mas sim, existe uma luz que é, sempre foi, e sempre será, eternamente sendo absorvida e emitida por uma matéria que se modifica, se agrega e se transmuta, inclusive, em luz pura.

Mas claro que crentes achariam aí uma brecha para inserir sua divindade consciente, providente e em suma, infantil e primitiva.

Não devemos afirmar que a natureza possui suas simetrias (que nem são tanto simétricas assim, vide o modelo padrão) e suas peças funcionam conforme um habilidoso ao infinito e no ínfimo relojoeiro. Ao verificarmos o passado da matéria, que podemos averiguar até em laboratório nas colisões de alta energia, percebemos que as partículas apresentam um determinado "grau de sobrevivência", uma certa "seleção natural" (por favor, criacionistas: sem ter coisa alguma direta na expressão a ver com evolução biológica!), e teríamos a "era da matéria". Em sua cronologia em maior escala, o universo mostra ser o resíduo de um processo um tanto radical, que estaria agora em seu estado, digamos, mais ameno, de menos brutalidade de processos.

De certa maneira, diria que o "poço de lava" solidificou-se e agora cabe no buraco um pouco d'água formando uma poça, mas jamais afirmaria que existimos porque o buraco foi moldado por alguém.


Precipício antrópico

Não, você não leu errado e tampouco eu tenha bebido.

A maior versão da falácias da poça d'água é dizer que o universo existe com as características que possui para que nós existirmos. É como a tola pulga que jura que o enorme mamute é fruto de milhões de anos de evolução para que sua vida seja vivida sugando sangue da enorme criatura, junto com sua "pulgar" (hoje estou terrível!) descendência.

Infelizmente, a própria escala da pulga para o elefante é enormemente mais favorável que a do ínfimo sistema solar e nosso planetinha para a escala do universo (1 milímetro para alguns metros contra umas 5 horas luz para uns 78 bilhões de anos luz).

O universo, se tivesse seguido determinadas constantes mais fundamentais, poderia apresentar hidrogênio apenas na forma de deutério, com um nêutron a mais, hélio poderia ser reativo, e nitrogênio formar cadeias, e habitarem formas de vida em planetas não com químicas diversas, mas com físicas nucleares diversas.

Recomendo: December 16, 2009; Fevereiro 2010.

E estes mundos hipotéticos podem existir agora, simultaneamente com o nosso universo de hidrogênios simples e hélios inertes, moléculas de nitrogênio que não gostam de companhia e cadeias de carbono formadas a menor oportunidade, até em cometas e no vácuo sob intensa radiação. Noutras palavras, como citado no artigo acima: universos com diferentes leis físicas, em comparação ao nosso, ainda podem ser habitáveis.

Logo, uma argumentação por um princípio antrópico dito "forte", teleológico, é apenas um raciocínio da tola pulga, e um precipício por onde escoa a também tola água da poça falaciosa.

Existimos, e somos formados pela matéria do universo, na sua apresentação atual resultante de evolução em composição e densidade, fruto de suas constantes mais fundamentais, e nada mais podemos afirmar.


Ao que tudo evidencia, o universo não é feito "de e para" a matéria trivial de nossas galáxias, da pulga até você e a Terra e as estrelas, mas sim, esta materia trivial nas galáxias são ilhotas de determinada natureza em meio a uma enorme trama, como digo, 'esponja', de matéria escura, esta sim, senhora em peso do universo, e sua modeladora em maior escala.


Sobre matéria escura, recomendo: 

Nota 1: Noutras palavras, a pulga e o mamute, você e as pedras que foram atiradas por nossos ancestrais do alto de um rochedo para matar o mamute (acabando com a vida da feliz e egocêntrica pulga), e o próprio rochedo, são mantidos na sua escala pelas forças eletromagnéticas, e todos estes são mantidos juntos à Terra e esta ao Sol e sistema solar, e este na Via Láctea, e as galáxias ao nosso grupo local, pela gravidade, todos os grupos galáticos se afastam na maior escala por motivos ainda misteriosos de acordo com a Relatividade Geral aplicada e talvez todos se afastem sempre aceleradamente pela ditar energia escura ou "quintessência", no jargão dos cosmólogos.

Matéria escura como uma teia que contém a matéria "trivial", nas galáxias (Stephen Battersby; Giant ropes of dark matter found in new sky survey; NewScientist).


Artigos clássicos sobre o tema Princípio Antrópico:
  • B.J. Carr and M.J. Rees, The Anthropic Principle and the Structure of the Physical World, Nature 278, 605-612 (1979).
  • G. Gale, The Anthropic Principle, in Scientific American, September, 1981, p.154-171.



Biopoese

Com a palavra, Francisco, O Herege, personagem de mim mesmo:

Eis que os crentes dirão, até em desespero, que são fruto das mãos habilidosas de seu relojoeiro, que gritarei: INCAPAZ!, pois não pode fazer uma máquina que operasse e ainda opere por si. E dirão que tal se deu desde o arranjo das mais primitivas e simples moléculas da vida, e eu direi: IMPOTENTE!, pois não podem suas perfeitas e magníficas peças por si reunirem-se para construir um relógio. E dirão que todos os passos dos processos da origem da vida tiveram a ação de seu senhor, e eu direi: ATRAPALHADO! pois miríades, Avogádricos números de moléculas pereceram, formaram estruturas que liquefizeram-se e não prospreraram, e o dito senhor teu deus tem que corrigir suas ações? Não podem suas formas vidas seguir seus caminhos sozinhas? 

Sois pois, macacos pelados que julgam-se divinos, fruto da sobrevivência ao hostil mundo e universo, e não houve sobre ti uma única ação inteligente, só o desesperado e desesperante  fluxo de energia tentando se manter.

Palavra do Herege, palavra da salvação, volta e meia, saindo em pleno bar com criacionistas no bufetão.


Serei arrogante.


Acredito que pelo lado técnico e com minha face mais séria, praticamente esgotei dentro das minhas capacidades o assunto aqui:

Vida, um produto do universo, não um milagre

E corroborações a estas questões somente tem nos levado a entender que a vida seja um "geologismo":

Clareando as nuvens sobre Gliese 581g

E quando menos se espera, mais sólidas evidências surgem que "as moléculas se bastam":


A origem da vida: pesquisadores criam molécula de RNA auto-replicante

A natureza realmente conspira, e nos comunica pela ciência, que de coisa alguma mais necessita para ter-nos produzido que ela mesma.

RNA ("Was It the Origin of Life"? Biologists Create Self-replicating RNA Molecule; April 12, 2011 - www.dailygalaxy.com)

A formação da vida, desde a complexação em moléculas polimerizantes até as "colaborantes" e a genética do DNA de L.U.C.A. (o primeiro ser vivo, ancestral universal), é tratada no campo intermediário entre a geologia e a química, e até envolvendo a astrofísica na própria composição do planeta em sua formação no sistema solar, e constitui o campo intermediário entre a mais pura bioquímica e a biologia, no que se chama biopoese.

A biopoese não é um milagre e não depende de ação sobrenatural alguma, pois as potencialidades de tal estão presentes na natureza mais íntima da matéria, incluindo, sua instabilidade e tendência sob condições à complexação, somadas e "sob a luz" da abundante energia das estrelas e da geologia (em menor proporção), no nosso caso, nosso Sol.

E alerto: a posição evolucionista teísta não é nem de perto relacionada diretamente ou substituível pelo Design Inteligente.

Evolucionistas teístas acreditam numa divindade criadora da natureza e ordenadora das leis físicas, um "deus sustentáculo das regras do mundo", mas cuja atuação "providente" é indetectável, e é exatamente a dos fenômenos naturais.

Nenhuma afirmação de um evolucionista teísta irá contra uma afirmação científica.

Design Inteligente afirma que determinados processos bioquímicos são tão complexos que não podem ser realizados pelos processos da evolução biológica tal como descrito na teoria da evolução, e "portanto" (um non sequitur) são devidos à uma intervenção de uma entidade sobrenatural inteligente. É um argumento teleológico requentado, na verdade, o "argumento do relojoeiro". Por n vias é uma tolice.

E por favor, crianças, aprendam:

NÃO HÁ FRONTEIRA ABSOLUTAMENTE DEFINÍVEL ENTRE O QUE SEJA NÃO VIDA E VIDA.

Vida é apenas um conjunto de moléculas colaborantes com fluxo de energia, em rota de organização e sistemas contrária à entropia do meio (mas não no sentido termodinâmico, e sim no de informação) pelo aproveitamento da energia livre de Gibbs.


Um dos meus primeiros textos de divulgação científica, do qual muito ainda me orgulho:


Este mundo, o mesmo de todos os seres, nenhum deus, nenhum homem o fez, mas era, é e será um fogo sempre vivo, acendendo-se em medidas e apagando-se em medidas. - Heráclito de Éfeso



Evolução e os  argumentos de Hume


Toda argumentação do tipo "o beija-flor foi planejado para seu bico alcançar a profunda flor" (ou tolice pegajosa similar) é estraçalhado até os átomos, a meu ver, pela brilhante argumentação de Hume. Com a palavra, a simples Wikipédia em português:


  1. Para o argumento teleológico funcionar, seria necessário que só nos pudessemos aperceber de ordem quando essa ordem resulta do desígnio (criação). Mas nós vemos "ordem" constantemente, resultante de processos presumivelmente sem consciência, como a geração e a vegetação. O desígnio (criação) diz apenas respeito a uma pequena parte da nossa experiência de "ordem" e "objectivo".
  2. O argumento do desígnio, mesmo que funcionasse, não poderia suportar uma robusta fé em Deus. Tudo o que se pode esperar é a conclusão de que a configuração do universo é o resultado de algum agente (ou agentes) moralmente ambíguo, possivelmente não inteligente, cujos métodos possuam alguma semelhança com a criação humana.
  3. Pelos próprios princípios do argumento teleológico, a ordem mental de Deus e a funcionalidade necessitam de explicação. Senão, podemos considerar a ordem do universo, etc, inexplicada.
  4. Muitas vezes, o que parece ser objectivo, onde parece que o objecto X tem o aspecto A por forma a assegurar o fim F, é melhor explicado pelo processo da filtragem: ou seja, o objecto X não existiria se não possuisse o aspecto A, e o fim F é apenas interessante para nós. Uma projeção humana de objectivos na natureza. Esta explicação mecânica da teleologia antecipou a seleção natural, e é de se observar que um século antes de Darwin.

Assim, nunca podemos dizer que somos projeto, e sim, podemos ser resultado final de uma filtragem (obviamente, a seleção natural). Somos apenas umas bactérias, uns vermes, uns peixes estranhos, uns colocadores de ovos, uns roedores modificados (perdão, amigos biólogos, o argumento é didático, não técnico!), um lêmures mais hábeis, uns grandes macacos carniceiros, todos, sempre, sobreviventes.

Mas desejando acreditar que tal total de processos, até que levaram a tola pulga do lanoso mamute, a ter a vida feliz que tem (esquecendo o pequeno detalhe que o fim da era glacial e mais um determinado macaco pelado e suas lanças acabaram com sua feliz vida, começando pelo pulguento mamute), é fruto da ação de sua divindade consciente, esquecendo que tal mente não se justifica (a começar porque mente é fruto do evolutivo, e não o que gera aprioristicamente o que quer que seja - o mais contundente argumento,na minha opinião, de "Deus, Um Delírio", de Dawkins), recomendaria inicialmente Cândido, de Voltaire, que acredito que basta, e em casos mais radicais de otimismo pela condição humana, achando que a divindade fez o mundo perfeito e belo para que o habitemos, recomendaria, até para conhecer o demais macacos pelados e seus atos por vontade, meia dúzia dos filósofos do século XIX, destacadamente, Nietzsche.

E após isto, ir, aos moldes do recomendado pelo próprio Cândido, cultivar o seu jardim.





Ver o que está bem diante do seu nariz exige luta constante. - George Orwell



Extras


Proporção Áurea

Segudamente, encontro citações de criacionistas e outros crentes (sim, usemos esta palavra), afirmando que a existência da proporção áurea, especialmente nas estruturas biológicas (como as pinhas, conchas, flores, etc), seria uma prova a presença/ação da divindade (qual?) nos processos naturais.



Assim, primeiro, mostremos num artiguinho singelo, que poderá mais adiante ser grandemente melhorado, que tal afirmação nem matematicamente é sólida.


Impossibilidade da Natureza Produzir a Proporção Áurea Exata



Observação: x^y é x elevado a potência y e SQR x é a raiz quadrada de x.

Pela proporção áurea, se a está para b  como a+b está para a, fazendo a=x e b=1, temos que (x+1)/x=x/1 .'. (x+1)/x=x, temos

x+1=x^2 .'. (x^2)-x-1=0 .'. x={1 +/- SQR [1-(4*1*-1)]}/2=[1 +/- SQR (1+4)]/2 = (1 +/- SQR 5)/2

Onde temos que a única solução útil é (1+SQR 5)/2.

Assim, temos que phi é relacionado à raíz quadrada de 5, então, nos parece simples, verificar que phi ser racional ou irracional depende da demonstração de que a raíz quadrada de 5 seja racional ou irracional.

Por Euclides, supomos SQR 5 como racional, logo, razão de dois inteiros:

SQR 5 = a/b, onde a e b são inteiros.

5=(a^2)/(b^2) .'. (b^2)=5/(a^2)

Como b é inteiro:

(b^2)=[(5*c)^2]/5=25*(c^2)/5 .'. (c^2)=(b^2)/5

Assim, c tendo de ser inteiro, leva a

(c^2)=[(5*d)^2]/5=25*(d^2)/5 .'. (d^2)=(c^2)/5

O que levaria a se necessitar de um número infinitamente divisível por 5, o que é absurdo (descréscimo infinito). Assim sendo, SQR 5 não pode ser racional, e consequentemente, phi é irracional.

Observação: existe uma demonstração por aritmética modular muito mais curta e elegante, mas julgo a de descenso infinito de Euclides mais facilmente entendível e suficiente para nossos propósitos.

Assim, como um número irracional exige infinitas partições, não poderá ser representado por estrutura natural alguma, que sempre chega a uma unidade mínima, no caso do biológico, a célula, no caso do atômico, como nos minerais - e também destes o biológico, os próprios átomos.

Logo, as sequências de Fibonacci das reproduções celulares, que produzem pentágonos, pentagramas e espirais de proporções áureas são aproximações de PHI e nunca PHI propriamente dito.




Fazendo uma pausa, um excelente vídeo sobre a sequência de Fibonacci e a proporção áurea aproximada na natureza:

Cristóbal Vila - Nature By Numbers



Noutras palavras, as reproduções celulares, produtoras de estruturas pela sequência de Fibonacci tendem a phi.


Leitura recomendada:

Mario Livio; Razao Áurea - A Historia De Fi; Editora Record, 2006.
Mario Livio; Deus é Matemático?; Editora Record, 2010.

Razão e Proporção - matematicamania.wordpress.com

Um importante conjunto de apontamentos sobre esta questão, de certa maneira, ainda mais destruidores que este meu texto:

Kentaro Mori; “Nature By Numbers”: Fibonacci e a matemática como descrição do mundo

Neste texto, é citado e linkado o excelente: Nature by numbers. The theory behind this movie

E o simplesmente devastador: Donald E. Simanek; Fibonacci Flim-Flam

E jogando a pá de cal: O Mito que não vai embora - Tradução de artigo do Devlin's Angle, de maio de 2007

Perdão, não resisti.


OdC novamente



Na blogagem anterior desta série, apenas citei e não tratei dos ataques do senhor OdC a Newton.

Por incrível que pareça, o que virá a seguir seria dispensável, pois a Relatividade, a Cosmologia a usando, burlaram n dos dilemas com que se defronta a Física lássica, e até determinados paradoxos, como o de Olbers.

A fonte do "colar que virá": Nas origens da burrice ocidental

...a não ser por referência a um observador vivo dotado do sentido da temporalidade. 

Falso. A existência dos fenômenos independe da existência dos seres vivos que o observem. Uma obviedade, pois a vida é posterior a todos os fenômenos que a levaram a existir. Uma afirmação de uma entidade consciente que seja um 'observador universal', pode ser uma fé até honesta, mas não é uma conclusão lógica (na verdade, uma petição de princípio). Até em termos mais simples e curtos, a vida existe no tempo, e não o tempo é produto da vida (o que me parece uma obviedade escandalosa!).

Antes, o dito senhor afirma uma coisa perigosa:

...a eternidade do movimento e a lei de inércia - sem parar por um instante sequer para notar que eram mutuamente contraditórios...

Não são, no sentido prático. São colocados como postulados para a construção de um modelo físico. São frutos de uma observação experimental (e não existe, na verdade, outro tipo em ciência). Se existe um momento no passado no qual iniciam-se todos os movimentos, trata-se de algo distante o suficiente para estarmos, hoje, num estado que aceite este modelo. Por similaridade, é óbvio que os raios de luz oriundos do Sol saem da esfera/disco de projeção que ele é. Logo, formam ângulos. Mas para a escala humana, mesmo da Terra inteira (6378 km de raio médio), são considerados paralelos, e com tal aproximação, calculou-se já no tempo dos gregos o diâmetro da Terra.

Aqui, devemos apontar que um dos muitos méritos de Newton é colocar uma Física desprovida da necessidade de uma divindade, rompendo com uma "causa primeira" ou "primeiro motor", substituindo-as por uma sequência infinita (hipoteticamente) de enventos naturais.


Atrevo-me  dizer que algo similar faz com o espaço, colocando-o como infinito (ou pelo menos, com uma escala tal que possa ser colocado como 'infinito no prático') e desconsiderando o problema que não possuia observação que apresentava um limite para tal. De certa maneira, por estas duas coisas, tanto no que seria o teológico (crença de uma divindade criadora sem evidências) quando no observacional (não apresenta hipóteses sobre o que não tem evidências), tenho a ousadia de dizer que Newton é um dos primeiros cientistas a colocar algo que hoje chamamos hoje de demarcação. Newton foca-se em modelos de tratamento do natural, de seu comportamento, e não numa Metafísica de respostas últimas sobre o que seja o "tudo" e quando este se inicia.


Não há "estados" - seja de repouso ou de movimento.


Tanto há que mesmo considerando um postular movimento eterno, aquilo que em Física Clássica seria uma quantidade de movimento universal, esta quantidade de movimento não necessitaria ser distribuída entre todas as partículas do universo, mas poderia se concentrar entre uma e outras. Por exemplo simples, as bolas de uma mesa de bilhar não necessitam todas se mover, mesmo quando numa delas é aplicada a mais poderosa das tacadas. 

Aqui, o senhor OdC parece ter um grave problema com o que seja "referencial". Havendo duas bolas de bilhar soltas no vácuo do espaço, uma se aproximando (ou afastando-se) da outra, existe obviamente movimento de uma ou de outra, dependendo de qual tomamos como referencial (assim como indenticamente, existe repouso de uma), e podemos afirmar que existe movimento das duas, considerando outro referencial, mas percebamos que de forma alguma eu poderia afirmar que não existe movimento das duas, exatamente, e gritantemente, por haver aproximação (ou afastamento) das duas. Em Relatividade, se aprende que todos os corpos, mesmo num 'newtoniano repouso', estão em movimento, ao futuro, na velocidade da luz, pois o tempo, em Relatividade, é uma das dimensões.


Aliás, quando OdC achar que não existe o estado de movimento, alguém atire uma pedra na sua cabeça, talvez aprenda que a pedra (ou sua cabeça) não estão interessados em sua semânticas pobres sobre o que seja movimento e/ou repouso.


"Estado" é apenas uma impressão subjetiva que o observador, ele próprio envolvido no movimento geral, obtém ao medir os movimentos físicos pelo seu tempo interior.

Como sempre recomendamos aos idealistas, independendo da questão "vivo", tratada anteriormente: Chute uma pedra. O estado da pedra estar em movimento em relação ao seu sensível pé lhe mostrará talvez a mesma questão da pedra que atingiu sua testa, na questão anterior.
 

Mas realmente dá para rir da Nota 1, em História e pseudo-história da Ciência - I.

Existem pessoas que só aprendem física básica sentindo, como diria um determinado professor meu, "na carne".


Espiritismo

Uma coisa é clara: Quando o "espírito" sobe, sua qualidade desce. É inconcebível que grandes criadores de nossa língua, depois da morte fiquem por aí gargarejando o tatibitate espírita" (Léo Gilson Ribeiro, crítico literário, Revista "Realidade", Novembro, 1971, pág. 62).[Nota]

Coisa que me impressiona e já em sua própria natureza está a clara inocência, quando não xipófaga da desonestidade, dos espíritas é que seu mundo de psicografias se dá apenas no terreno da linguagem, em prosa e até pobres versos.

Jamais se estabelece a psicografia de níveis mais complexos e formais de linguagem, como a lógica, a matemática, a física, as ciências naturais em geral, a genética ou mesmo a composição musical.
Não se manifesta um grande ex-professor de física da USP, um geólogo contemporâneo de Dom Pedro I, um químico que foi aluno de Dalton, um dentre os inúmeros matemáticos que gerações de famílias remeteram ao exterior, onde eram obrigados a aprender línguas características da cultura da época, como o francês ou mesmo o difícil para nós latinos alemão - com grande peso nas ciências ditas exatas.
Nem mesmo uma mínima linha de álgebra. Uma única estrutura molecular. Um única partitura de um chorinho dos saraus de suas vidas carnais.

Quando enveredam por nuances de algo que se aproxime do científico ou do filosófico, o que vemos é a manifestação do trivial, da formação de secundário, da formação de básico de faculdade, ou mesmo o lugar comum de uma moral de livro de autoajuda impresso em "papel jornal" - cunhemos a expressão "Pulp Philosophy".

Pelo visto algo se perde entre os mais poderosos cérebros dos homens quando estes morrem, e fica, pelo visto, preso em seu corpo primata em decomposição, e talvez, apresente-nos os kardecistas (eles odeiam este termo, e por isso mesmo, o uso) que Kardec escondeu mecanismos por algum exótico e nebuloso motivo moral.

Todas as religiões devem ser toleradas, pois cada um de nós tem o direito de ir para o céu à sua maneira. - Frederico, O Grande

Nota: Para um tratamento mais contemporâneo da introdução do espiritismo no Brasil, vale a pena ler o grande Machado de Assis.





Tempo

Até as questões de "deus criou no tempo" (a partir de um momento, o fiat lux)  ou "criou o próprio tempo" (aqui, Agostinho certa ao dizer que o tempo nasce com a própria criação) são perigosas, assim como são perigosas determinadas afirmações mesmo dos mais céticos.

Apriorismos de tempo são lindinhos em Física trivial, como a da "astrofísica para baixo". Na maior escala, a Cosmologia, e na menor, a Mecânica Quântica, deve-se ter tremendo cuidado com o uso do tempo num sentido newtoniano, que na verdade, é kantiano.

O universo não existe no tempo. Ele produz o tempo, pois este é correlato com a expansão de sua métrica. Aqui, Leibniz parece ter sido muito feliz.

Assim, na singularidade que nos leva o Modelo FLRW, que é a aplicação da Relatividade ao trato do universo em sua maior extensão e comportamento, num determinado momento no passado o tempo deixa de ter inclusive nexo.

Cosmologias cíclicas tratam de universos que expandem-se e contraem-se, e nos pontos de intersecção da métrica com o "volume zero" e temperatura infinita, também o tempo "trivial" deixa de ter sentido, e tem-se de usar outras definições de tempo (e aqui deveria ter escrito "tempo", com as destacadas aspas), mais complexas, onde estes ciclos ocorrem.

A coisa não é simples, e não pode-se enveredar, nem para uma argumentação apriorística kantiana, nem para um simplismo de argumentos como os tomistas.

O tempo é dependente de massa-energia, dentro da relatividade, mas a energia não é dependente do movimento no sentido newtoniano.

Tanto que o universo, em seus primeiros instantes, não possuia movimento algum, e exatamente, já continha todo o seu arcabouço de energia, e disto, advém seu "bolsão espaço-temporal".

E mesmo assim, em cosmologias relacionadas com branas, não é ele que possui sua energia originalmente, mas as recebe do dito "toque" de tais branas (na verdade, ela surge, juntamente com o "ponto de toque", que é o universo).

Aqui, seguidamente, leigos até bem intensionados enveredam por afirmações perigosas em Física.

Li de um menino na internet:


Energia é movimento. Tempo, temperatura, decibéis, são medidas de movimento. 

Aqui, acabou-se, de "à força" (percebam a ironia), transformar um escalar em vetorial. Tempo não é uma medida de movimento. Ele pode ser associado, na sua medição pelo humano, por movimentos, basta ver o já multicentenário relógio de pêndulo. Tanto é, que movimento se dá na variação de um intervalo, em relatividade, que inclui o tempo, ou de uma distância, no tempo, em Física Clássica, e o primeiro é uma "correção" do segundo.


O ontem é história. O amanhã é um mistério. Mas o hoje é uma dádiva, e é por isso que se chama presente. - Mestre Oogway, a sábia tartaruga de Kung Fu Panda, em momento muito mais sério e profundo que alguns dos "revolucionários gênios incompreendidos" que seguidamente lemos ou ouvimos.



Aborto


Deixemos bem claro:

Sou completamente a favor do aborto desde que realizado dentro das N semanas atribuídas pela medicina como da "individualidade não existente" [Nota 2] na exata medida que o estado propicie a educação para a não concepção. Antes do aborto seguro, a adoção facilitada, no caso de gestação consumada, ligado à gestação segura e 'previdenciada' e com isto tudo, que ele possa ser descriminalizado para a mãe.

Antes de tudo acima, e mais um pouco, ser realizado em conjunto, vai continuar, como já citado, a lambança miserável que aí está, desde a menina pobre na aborteira da favela até a "patricinha" da alta sociedade, com sua mãe, se fazendo de "liga da senhora católica", e sob a lei, na verdade, cometendo um crime, junto com o médico coautor.

E a lei, em grande parte injusta, colocando todo mundo no que é chamado por alguns de "confronto dos absolutos", na maior parte, pelos "absolutos" serem definidos por dogmas religiosos, e não por racionalidade.



[Nota 2]: Vida existe nas células de sua boca que você expele quando cospe ou escova os dentes, nas cutículas que corta. O problema é que vida não caracteriza individualidade por si. Assim, a concepção, a fecundação do óvulo pelo espermatozóide, constitui, pelas próprias células que a produziram, a continuidade da vida, mas não a configuração de uma individualidade, que só se dá pela formação dos tecidos cerebrais e início das sensações, que são o próprio funcionamento cerebral.


Um temerário paradoxo

Talvez, dos discursos em "duplipensar" do Herege.

Curiosamente, muito do que aqui escrevo nasce dos criacionistas, e estes, como sabemos, são imensamente formados por crentes de determinadas denominações religiosas. Afirmo que eles muito me propiciam diversão, e desta, muito didatismo em ciência. Chego a proferir a barbaridade de que nossos jovens e (entendam bem a expressão!) "interessados e esforçados ignorantes" podem vir a receber muito do que se origina do conflito da Ciência e Filosofia com os dogmas religiosos e determinadas teologias.

Em outras palavras, se não existissem criacionistas, teríamos de representá-los!

Mas cito um grande estrategista:

Não se deve pressionar demais um inimigo desesperado. - Sum Tzu
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sábado, 28 de maio de 2011

Presságios Sobre Nosso Sol III

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Tratei em 'Presságios Sobre Nosso Sol', blogagem I e blogagem II, sobre as questões de "super-erupções solares", emissões gigantescas de matéria superficial* e coronal por parte de nossa estrela e do quanto difícil seria acontecer, com consequências realmente catastróficas para a Terra e sua frágil vida, como apresentado no filme Presságio.



*O conceito do que seja "superficial" para o Sol é um tanto mais complexo que este termo, que pode até lembrar algo como nossa crosta terrestre. Para tanto, ver Estrutura solar.


Mas a questão é que "mostrar o quanto é difícil" sem números, cálculos, e "coisa alguma" em Física dá praticamente no mesmo. Então dispus-me a colocar a coisa num modelo físico simples, quase de secundário, para que se entenda o quão favorável é a posição de nosso planeta para estarmos protegidos deste tipo de evento. Construiremos então um modelo de comportamento físico simples dos gases ao sair do Sol, um modelo "facão", como costumo dizer (uma ironia com a navalha de Ockham).

Primeiramente, consideraremos gases saindo do Sol como um gás ideal.

Obs.: Esta consideração é na verdade um absurdo, e a usaremos apenas para simplificar nossos cálculos de maneira extrema. Um gás ideal pressupõe interação nula entre as partículas do gás, até as considera pontuais. O Sol, assim como a maior parte das estrelas em atividade de fusão, é composto de plasma a alta temperatura, sob intensos campos magnéticos, e suas partículas apresentam alta intensidade de interação, tanto, que até visualmente, comportam-se de maneira similar a um líquido em alta convecção.Para uma amostra do quão complexa é a modelagem de plasmas, Plasma modeling.

Lembremos que a equação de Clapeyron determina que para os gases ideais:

PV = nRT

Consideremos, por hipótese, que 10% da massa do Sol será expelida (atentem para o absurdo que é este valor que aqui coloco), o que dá 1,9891 × 1029 kg.

Consideremos que a sua massa molar média (de composição), seja uma média ponderada entre a massa do hidrogênio e a média da massa do hidrogênio e a massa do hélio, pois para simplificar nossos cálculos, o Sol tem a composição confortável de 74% em massa de hidrogênio e 24% em massa de hélio). Com isto, teremos, em números bem redondos, massa média de 2,5 kg/mol. Isto nos leva a que o número de moles da massa emitida será de 7,9564 × 1028 moles, nosso n.

Obs.: Aqui, cometi um sutil, e nem tanto, atropelo, pois o Sol possui um altíssimo gradiente de densidade. Seu centro é o local mais denso do sistema solar, com densidade de 150 g/cm³, aproximadamente umas 5 vezes mais denso que a mais densa materia trivial em nosso planeta na sua superfície, que são os metais irídio e ósmio, mas sua densidade média é de uns 1,4 g/cm³, o mesmo que muitos solventes clorados que usamos em diversas aplicações, menos que por exemplo, o ácido sulfúrico concentrado. A razão destas propriedades bizarras para nossos parâmetros de terráqueos, podemos simplificar, é sua gigantesca coluna de fluido, no caso, de uma "profundidade" de quase 700 mil quilômetros, e obviamente, sua imensa gravidade.



Como nossa emissão se dará a partir do material mais externo, consideraremos esta densidade média, que me parece ser um valor até honesto, pois poderíamos, pelo próprio termo "médio", usar uma menor. Esta densidade nos dará, para a massa que expeliremos, um volume "enquanto junto ao Sol" de 1,4208 x 1026 m³.

Consideraremos a temperatura que tal massa parte de seu "acoplamento" à massa solar como sendo do dobro da temperatura da superfície solar, o que me parece também um valor honesto, o que nos dá uns 11600 K.


Desejamos T2, na posição da Terra, portanto, consideraremos que o volume que sai do Sol, que podemos afirmar como sendo originalmente de uma "casca esférica", avança sem grandes expansões no sentido radial em direção à Terra, apenas ampliando sua "área" até uma nova casca esférica que tenha o raio da órbita da Terra (150 bilhões de metros) e passe a ter uma espessura de 1 milhão de km, ou 1 bilhão de metros (a diferença de considerar uma espessura como plana e como realmente é, que é curva, neste caso, é insignificante).

Um esquema simples, e completamente fora de escala para qualquer elemento que represente, de nosso modelo:



Notemos que neste cálculo todo, desprezamos a perda de temperatura por irradiação, e consideramos o processo inteiro como uma expansão adiabática (sem perdas para o ambiente, o que novamente é um argumento extremo, pois o espaço é o melhor meio para a perda de calor por radiação).

Pelos números acima, a casca esférica de gases terá então área de 4piR²=2,827 x 1023 m², que com a espessura de 1 x 109 m nos leva a um volume de 2,827 x 1032 m³.

Lembremo-nos:

P1V1=NRT1


P1.1,4208 x 1026 m³ = 7,9564 × 1028 . 8,314 J·K−1mol−1.11600K

P1 = 54007200 N/m² (ou Pascal, o que corresponde a umas 533 atmosferas, um valor bem razoável para o ambiente solar)

Obs.: O valor pode parecer excessivamente alto mas é o que faz um gás leve como uma mistura de hidrogênio e hélio chegar a atingir a densidade de um líquido mais denso que a água em nosso ambiente dito "normal".



Aqui, observemos que o nuvem de gás possui massa 1,9891 × 1029 kg, como vimos acima, e volume de 2,827 x 1032 m³, que nos dá aproximadamente uma densidade de 7,036× 10-4 kg/m³, o que é uma densidade umas 1700 vezes menor que a densidade do ar ao nível do mar, que gira em torno de 1,2 kg/m³.

A partir destas condições, lembraremos que a expansão que adotamos é adiabática em energia, mas se processa no vácuo, e ainda que a limitemos produzindo uma casca de menos de 1% do raio da expansão, a consideraremos uma expansão livre, que nos leva a relação:

PiVi=PfVf


O produto do volume e da pressão iniciais é igual ao produto da pressão e volume finais. De onde temos:



54007200 . 1,4208 x 1026 m³ = Pf . 2,827 x 1032 

(Tenho de confessar: meu cérebro ainda não funciona bem para equacionamentos expressos no mundo da informática, mesmo em LaTex. Portanto, cortemos no razoável a expressão das unidades, ainda que as mantenhamos coerentes e homogêneas.) 


Pf  = 27,14 Pa


Retomando, como aqui Pf é P2, e o processo se dá por uma expansão livre adiabática de um gás ideal, apliquemos:



T2 = T1 * {(P2/P1)^[(γ-1)/γ]}

Observando que γ para gases ideais gira em torno de 3/2 a 5/2, mas aqui, usaremos um valor médio de 4/2, ou, simplesmente, 2, pela mistura de gases diatômicos e monoatômicos com que estamos lidando (respectivamente, o hidrogênio e o hélio).

T2 = 11600 * {(27,14/54007200)^[(2-1)/2]}

T2 = 11600 * [5,025 x 10-7^(1/2)]=11600 * 7,0889 x 10-4



E finalmente, T2 = 8,2 K.


Uma outra maneira de se entender tudo acima, que consideraria bastante mais simples, é considerar toda a massa do Sol como passando a dispersar-se, já sem reações nucleares, pois não haveria pressão para tal, e desta, as temperaturas necessárias, numa esfera com raio igual a órbita terrestre. Sendo a massa do Sol 1,9891 × 1030 kg, e o volume desta esfera hipotética 1,4137 × 1025 km³ ou 1,4137 × 1034 m³, ficaríamos com uma densidade de aproximadamente 1,407 × 10-4 kg/m³, ou para ficar em números mais perceptíveis, 0,14 g/m³, sendo que a densidade do hidrogênio nas condições ambientes é de 0,08988 g/L, ou 89,88 g/m³, ou 642 vezes maior. Em suma, o Sol, diluído nos volumes típicos das órbitas dos planetas, é um gás bastante rarefeito.

Portanto, temos que os gases chegarão à proximidade da Terra com baixíssima temperatura, mesmo considerando todos os exageros e limitaçõe favoráveis ao argumento do filme Presságio.



Tudo isso é válido, porque os mecanismos nucleares e até diria a geometria do sistema são do Sol como anã amarela da sequência principal, no seu caso, operando fusão pela cadeia próton-próton. Quando o estoque de hidrogênio (estes prótons) acabarem e no seu centro a taxa de núcleos de hélio for dominante, o Sol começará a se comportar como uma gigante vermelha, na qual a força de gravidade causa a pressão que produz as reações nucleares de fusão de núcleos de hélio (no caso do Sol em seu futuro, pois estrelas maiores "queimam" ainda outros núcleos), mas não consegue manter seu tamanho, digamos, sob controle, e o excedente de calor produzido começará a expelir suas camadas externas ao ponto de se comportar como uma enorme nuvem rubra de gases aquecidos que atingirão inclusive a órbita terrestre (o que implica, para o raio do Sol, em este crescer umas 200 e poucas vezes). Neste caso, não seremos atingidos por flares de uma estrela com erupções, mas estaremos nadando em suas camadas atmosféricas mais externas, como um pedaço de mussarela imerso no fogo. [NOTA]


A Terra sendo absorvida pelo Sol em sua fase de gigante vermelha. Para um vídeo sobre este fenômeno, Red Giant...And the Earth Burned.

Enquanto o caso que analisamos pertence à hipótese a ser analisada e ao argumento de uma ficção, este quadro apresentado pertence aos fatos claros e inexoráveis pelos que passam todos os planetas dentro de um determinado raio de distância de suas estrelas. Pela nossa posição e atual estágio de evolução de nossa estrela, podemos, quanto às erupções, dormir mais que tranquilos pelos próximos um ou dois bilhões de anos (pois primeiro enfrentaremos problemas de aquecimento pelo aumento de produção de energia pelo Sol), antes dele entrar na fase em que nos absorverá, restando apenas preocupações quanto a efeitos eletromagnéticos em nossos sistemas de comunicações e distribuição de energia elétrica.


Nota: E um tanto tardia. Talvez o leitor me pergunte como o Sol, em seu atual conjunto de características, expandido para o volume de uma esfera de raio da órbita terrestre não calcine a Terra, como julgo demonstrar naquele parágrafo, mas no futuro se expandirá até derreter-nos. A resposta é que o Sol se expandindo na sua atual composição, diminuiria suas reações nucleares que aqueceriam esta nuvem de gás em que se tornou, exatamente pois a pressão em seu centro diminuiria, mas quando se expandir como gigante vermelha, tal se dará porque as reações em seu centro serão muito mais energéticas, e manterão a massa de gases em expansão absorvendo radiação e se aquecendo. No primeiro caso, estaríamos dentro de um bolsão de gás que pouco antes era uma estrela, e no segundo, estaremos dentro de uma estrela, em plena atividade de uma fase turbulenta, que por fim, a levará à extinção.



Anexos

Tenho alguns problemas eventuais com matérias deste site, mas este artigo pode ser bastante interessante:

Outros links:

Um conceito que deve sempre ser conhecido por quem se interessar sobre Astrofísica:

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segunda-feira, 16 de maio de 2011

Humanidade Como Força Geológica V

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Os animais e vegetais que nos orbitam

Ou "como a humanidade tornou-se além de força geológica, força ecológica e seleção natural"

Para onde quer que olhemos a presença humana, seja no meio urbano, seja no rural, percebemos que as espécies que exploramos tornaram-se as dominantes. Onde antes havia Mata Atlântica, por exemplo, já houve e ainda há cafezais e agora explodem plantações de cana de açúcar e até eucaliptos e pinheiros. Onde haviam pradarias e cerrado, é plantada soja, especialmente com o fim de alimentar-se desde porcos em terras distantes até galinhas e vacas em nossas proximidades.


Por sua vez, onde havia no máximo, em tamanho, antas e onças que as predavam, controlando sua população, agora colocam-se as mesmas vacas que serão nutridas de distante soja.

Substituímos ecossistemas inteiros por arremedos de ecossistemas, sempre em permanente desequilíbrio, no limiar do colapso, mantidos em tal perigoso estado pelo dispendio de energia e nosso engenho. Ou alguém em sã consciência afirmaria que o gado do cerrado e das áreas desmatadas da floresta amazônica manteria seu número sem a ação humana por uns 5 anos?

Já nossos "ecossistemas" agrícolas, apesar de recentes programas da eliminação da ação da química no controle de insetos e outras pragas (e nem tanto, vide-se o uso de glifosato), ainda depende continuamente da ação humana, e destacaria nesta, com o uso de combustíveis fósseis. O próprio solo não sustentaria tal ritmo de produção vegetal em monocultura (a universal na biologia 'geração de biomassa') sem a produção e aplicação de fertilizantes, demandando tanto na matéria prima como na logística combustíveis fósseis.



Como nossa população mostra-se crescente, e neste crescente de número ainda se acrescenta um crescente de necessidades (ou melhor dizendo consumo/desejos), temos a necessidade de mais terras para possibilitar mais pasto ou produzir ração e nossos alimentos vegetais, sobre os quais, agora, acrescentam-se as fontes de etanol e óleos vegetais, dada não a extinção de nossas fontes de energia fósseis, mas a crescente demanda por combustíveis, componente de uma perigosa e impossível ao final demanda exponencial de energia.

Mas devemos alertar que a destruição de terras selvagens para a produção de biocombustíveis, no Brasil, é ainda menor que a de outras nações, como a Malásia. Pelo menos, por enquanto.

A plantação de palmeiras de óleo adjacentes á floresta em Sabah, Malásia. Foto por R. A. Butler (news.mongabay.com).


No ambiente urbano, basta uma olhada em qualquer praça para vermos que pombos tem uma população explodida, para os edifícios, pardais, nos tetos de determinados prédios, gatos (afinal de contas, sobram pardais para alimentá-los, fora nossos restos). Já na América do Norte, encontram espaço urbano o guaxinim e o urso negro, capazes de viver de nossos lixos com excedente de alimentos (e seus relacionados roedores), sem falar em toda a América do puma ou onça parda (o maior dos gatos), que seguidamente encontra-se com algum morador ou trabalhador da construção civil, pois afinal, sobram gatos, cachorros e nossos animais de abate como galinhas e porcos para alimentá-los em nossas periferias urbanas.


Uma onça parda encontrada numa residência na cidade de Vinhedo (eptv.globo.com).


Nem teremos de neste texto destacar a presença de camundongos, ratos (o "rato de forro") e as ratazanas, que dependem de nossos grãos e alimentos diversos e rações de nossos animais domésticos, assim como de nossos esgotos (no caso das ratazanas) e evidentemente, as onipresentes baratas.

Até mesmo os répteis como as lagartixas encontram seu nicho em nossos ambientes domésticos. Morcegos vivem em nossos prédios. Criamos um número infindável de relações ecológicas contendo nossa presença, hábitos e excedente de nutrientes como pivô de todas estas criaturas. Mesmo no vegetal forçamos a existência de nichos urbanos, basta ver nossos mais arborizados bairros e seus jardins. E devemos destacar que toda esta reprodutibilidade, em explosões de populações, é fomentada por nossa crescente demanda de energia e produção de alimentos.

Somos uma força não só geológica, ao modificar paisagens, removendo montanhas e modificando rios, mas também uma força ecológica, ainda que no mais profundo do termo, nossa ação vai de encontro ao que mais naturalmente seja chamável de ecologia como sinônimo de um 'sistema ecológico equilibrado'.




Para o homem verdadeiramente ético toda vida é sagrada, mesmo aquela que, sob o ponto de vista humano, nos parece inferior. Ele só fará distinções de caso para caso e sob a pressão da necessidade, por exemplo quando a situação o forçar a decidir qual a vida a ser sacrificada para conservar uma outra. - Albert Schweitzer


Anexos

É recomendável, para aqueles que acham que plantações de pinheiros e eucaliptos são "reflorestamento", se familiarizarem com o conceito de deserto verde.

Recomendo também:
Para a questão dos fertilizantes serem atrelados aos combustíveis fósseis como sua matéria prima:
Para a problemática da plantações com foco na produção de biocombustíveis:
Sobre "guaxinins urbanos", basta a bem referenciada Wikipédia em inglês: Urban raccoons

Pequei no passado por já não ter recomendado o primoroso texto de Milton Mendonça Jr, Professor do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da UFRGS, publicado no jornal Zero Hora:
    Sobre a questão da água na agricultura, suas limitações e seus problemas:

    WASHIGTON CARLOS DE ALMEIDA; A ÁGUA NA AGRICULTURA ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O USO DA ÁGUA NA AGRICULTURA. - http://www.abda.com.br/
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    Extras

    Os ursos eslovacos e seu comportamento:
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    quarta-feira, 4 de maio de 2011

    Aliens (ou vida extraterrestre) I

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    Como a maior parte das pessoas hoje (digamos claramente: jovens) não são muito afeitos a ler ficção científica mas muito a assistir filmes, tratarei neste artigo do tema em torno de filmes, e aqui e ali, uns pingos de literatura da área.


    Os arquétipos


    Viajantes microscópicos



    A ficção científica já colocou formas de vida no espaço interestelar e interplanetário, destacadamente a microscópica, como em Enigma de Andrômeda.

    Confesso que não sou muito simpático a esta ideia. O espaço é permeado de radiações ionizantes, até as mais intensas, que são os raios cósmicos. A própria química interesterlar/interplanetária é bastante dinâmica pela ação dos raios ultravioleta, raios X e raios gama, sem falar das partículas aceleradas, modificando até mesmo a composição em átomos (por alterações dos núcleos atômicos) constantemente.

    No filme (a minissérie de TV, apesar da esmagadora capacidade de produção em efeitos especiais de hoje, é um desastre ecologistóide/viagens no tempo completo) a forma de vida é capaz inclusive de transformar energia de uma explosão nuclear em sua fonte de energia bioquímica, o que me revela que o roteirista e outros não alertaram Michael Crichton de que energia de partículas e temperatura permitem apenas determinados estados (fases, como preferimos mais tecnicamente) da matéria. Assim, a superfície do Sol e até mesmo determinadas profundidades de Júpiter, por exemplo, não permitem determinado tamanho de moléculas complexas, e até mesmo, nem mesmo uma única molécula, e ao se chegar a determinada temperatura não teríamos nem mesmo átomos íntegros. Explosões nucleares de fissão vitrificam solos e volatilizam ossos, que são na sua parte inorgânica, em termos de engenharia, um material refratário.

    Neste ponto, a criatura "programa" de Vírus, a produção "terrorzenta" de 1999, me parece mais plausível, ainda que a dissipação por ruído e pelas próprias leis da Mecânica Quântica (que impedem inclusive determinada segurança em podermos nos comunicar por rádio com civilizações extraterrestres) me leva a ter confiança em que tal tipo de ser vivo ou comunicação (ou ataque!) não seja possível.

    Apesar desta, usemos meus termos, 'imensa babada', a cena do pulso cortado e liberando poeira de sangue coagulado cristalizado é inesquecível, e tal metabolismo não seria um absurdo.

    Mas esquecendo que a pobre coitada forma de vida advinda do espaço teria (se sobrevivesse as incandescentes temperaturas de entrada na nossa atmosfera) de enfrentar bilhões de anos de evolução de bactérias que foram capazes de digerir tudo, desde óxidos de ferro e sulfato, passando, evidentemente, por celulose de belas plantas floridas e até a pele, musculatura, pulmões e ossos desde peixes até macacos pelados munidos de poderosa (e nem tanto) tecnologia médica. Noutras palavras: mesmo dizimando todas as formas de vida mais complexas de nosso planeta, teriam de enfrentar as mais simples. Deixemos os imprudentes aliens de Guerra dos Mundos para adiante e lembremos, e no futuro talvez até tratemos, que somos as formas mais simples modificadas, e fomos (nós, os complexos) mais extintos por climas, vulcões, eras glaciais e impactos meteoríticos de que pelas terríveis bactérias que dissolveriam o mais resistente organismo do espaço (sem falar nos vírus, que até atacam as bactérias).

    Obs.: Devo alertar que vírus (os terrestres!) são os parasitas por excelência, pois só se repoduzem pelos mecanismos de produção de genética alheios, e portanto, para serem algo - em uma forma similar - a nos atacar, teriam de ter se desenvolvido em algo que fosse a nossa genética, e tal é uma enorme impossibilidade, da mesma maneira que o vírus letal para um cão, um gato ou uma galinha não necessariamente é letal para um humano, e muitos não são letais nem de um destes animais para os outros, quanto mais levando em conta toda a diversidade de vida na Terra. Tanto isto é fato que se pesquisa vírus bacteriófagos, que são moléstias para bactérias, para aplicação em medicina e veterinária.


    Um vírus bacteriófago (www.portalsaofrancisco.com.br).


    Mas uma forma de vida encistada, "bacteriana" (no sentido de química simples e básica) poderia chegar a distantes pontos de seus mundos de origem inseridas em corpos celestes blindados por sua própria configuração e dimensões às radiações e temperaturas de entrada. Sua partida seria causada por impactos, como na Terra chegaram pedaços de Marte oriundo de impactos no planeta vermelho. A meu ver, aqui, o problema seria, nas distâncias interestelares, uma bioquímica que fosse estável pelos gigantescos períodos de tempo que seriam necessários para distâncias de anos-luz serem vencidas por velocidades de dezenas de quilômetros por segundo, quanto muito, e contar-se com a sorte de chegarem a algum sistema solar, orbitarem por talvez milhões de anos antes de se precipitarem num mundo agradável, e não serem absorvidos pelas imensas gravidades dos gigantes gasosos (obrigado por nos proteger, Júpiter "O Gordo"!), não colidirem com alta velocidade com um corpo impropício à vida e na colisão, enfrentarem fragmentação de sua "cápsula" ou temperaturas de calcinação, sem falar nas estrelas, que são as senhoras absolutas da absorção de corpos nos sistemas planetários, e fonte de grande parte da radiação que impediria tal fenômeno.


    Insetos vorazes


    Agora falemos de formas de vida mais complexas, que surgiriam num processo evolutivo não porque a vida busca a complexidade, mas porque a complexidade surge em um processo estocástico pelo simples erro, que produz distribuições.

    Tratei disto em:

    Modelos Matemáticos Simples em Evolução - II - O aumento da complexidade do ponto de vista de combinações possíveis

    Lembrando que no Cambriano chegamos a ter dezenas de designs básicos, dos quais sobreviveram apenas entre os mais complexos os cordados (um bacalhau, um elefante e você), os moluscos (lesmas, caracóis e os inteligentíssimos polvos e lulas em suas diversas variações) e os artrópodes (desde os tatuzinhos de jardim, os caranguejos e para desespero de alguma leitora, até as baratas), podemos então supor que num planeta propício, lá também pelos 3 bilhões de anos de existência da vida, surgiriam designs variados, exatamente em acordo com os mesmo princípios e mecanismos que levaram o nosso planeta a ter mais originalidade nos designs básicos que possui hoje (na verdade, nos últimos trezentos a quatrocentos milhões de anos).

    A fauna do Cambriano (uua.cn).


    Assim, neste planeta, poderiam os "artrópodes de lá" passar a desenvolver pulmões (ou algo parecido, diferente dos túbulos funcionando por capilaridade de nossas baratas), e atingir tamanho acima dos três metros que no máximo chegaram os nossos (desprezemos aqui questões gravitacionais) ou passar a desenvolver um esqueleto interno, sustentando o relativamente grande corpo em posições mais verticalizadas (coisa, que até o momento, nossa paleontologia jamais encontrou - as maiores lacraias da história e os maiores escorpiões marinhos nunca conseguiram a posição elevada de uma mísera galinha, quanto mais de um dinossauro, nem mesmo de um de nossos quadrúpedes domésticos).

    Claro que este preâmbulo foi para citar o mais assustador dos alienígenas do cinema, aliás, que levou o termo alienígena a ser praticamente um sinônimo de extraterrestre: a criatura de Alien, o Oitavo Passageiro. Um das características sensacionais desenvolvidas a partir do episódio 3, meu segundo na ordem de preferência, é a sua capacidade de incorporar a genética do ser parasitado na sua reprodução (neste filme, a criatura é mais próxima em postura de um cão que de um humano) e já nos péssimos "Alien x Predador", absorve até a estrutura bucal do caçador "rastafari" do espaço. Descobrimos que bactérias - terrestres, fique bem claro! - possuem tal capacidade em determinado nível.

    Vide "Transformação":

    Mecanismos devariabilidade genética em agentes fitopatogênicos - www.fcav.unesp.br

    Quanto a aspecto muito criativo de seu sangue ser corrosivo, há insetos produtores de substâncias cáusticas,  como a pederina dos potós (Paederus irritans) e os produtores de misturas termogênicas, como o antigamente tão citado pelos criacionistas besouro-bombardeiro (Brachynus crepitans), mas da mesma maneira que o mercúrio nos é tóxico, o cobre, o zinco em determinadas taxas, o cádmio, o chumbo, o arsênio, etc, talvez alienígenas não possam nem se aproximar de nosso sangue com sua hemoglobina contendo ferro, o cálcio e o fósforo de nossos ossos, e até do teor de salinidade de todos nossos fluidos. Talvez nossa urina, contendo nitrados, seja causador de terríveis queimaduras em algum et que nos pretenda como refeição. Mas não me venham citar que alienígenas seriam queimados por água potável, quando nossa atmosfera é sempre cheia de vapor d'água, como em Sinais, pois os furos de roteiro daquele senhor me irritam há anos.

    Paederus irritans e Brachynus crepitans, dois pequenos seres, capazes de produzir respectivamente causticidade e líquidos quentes.


    Mas já criamos no terreno da ficção oceanos vivos (Solaris), algo parecido com um fungo (o pólipo de A Cidade e As Estrelas, romance de A.C. Clarke), uma "amebona" nos dois A Bolha Assassina e até gigantescos cristais no - diria primitivo, não ruim - The Monolith Monsters/Rastros do Espaço, e mais recentemente, mais e mais formas de vida bastante distantes do que temos em nosso planeta, em toda a sua história, vide os até divertidos docufiction, como Alien Planet, da Discovery Channel, e outros similares da THC e NatGeo, aqui já com um tratamento cientificista e didático, que nos poupa, inclusive, de assistir formas de vida saltando do tórax de seus hospedeiros em plena refeição.

    Na verdade, não haveria limites para o que um processo de arranjo de células (se células), completamente estocástico, poderia fazer em sua estruturação, as conformações que seriam possíveis, ao longo de milhões de anos. Já basta ver no nosso quintal, mesmo entre os limitados em tamanho insetos, suas miríades de formas (na verdade, basta você olhar para seu prato de comida, pois devo lembrá-lo, leitor, que é primo muito distante não só da galinha ou da vaca, mas também do pé de alface que come).


    Pelo menos a computação gráfica e a qualidade dos consultores dos grandes orçamentos dos filmes de ficção nos poupa de assistir brócolis de dois metros de altura correndo atrás de moças em trajes de banho dos desastrados filmes de ficção-terror dos anos 50 e 60, embora em alguns momentos, vagens gigantes tenham produzido razoáveis histórias, como nos vários "Invasores de Corpos", e até simpáticos personagens que possuiam as características das plantas de fazer fotossíntese e ficarem felizes com a luz de estrelas, como a belíssima Virginia Hey, no papel de Pa'u Zotoh Zhaan, na série 'modernosa' mas sofrível Farscape, mas tratarei de seres inteligentes/civilizados adiante. Na própria Terra, devemos lembrar, temos uma lesma, a Elysia chlorotica, que por absorção dos genes da provenientes da alga que come, a Vaucheria litorea, disso se aproxima.

    Elysia chlorotica (meubioblog.blogspot.com).


    Mas antes de seguirmos, até porque o citarei de novo, dentro do gênero scifi-terror, tenho de citar Enigma de Outro Mundo (The Thing, 1982), refilmagem de um dos B relativamente sérios dos anos 50 (O Monstro do Ártico/The Thing from Another World, 1951), de John Carpenter, onde a criatura não é amorfa no sentido de uma gosma, como a bolha antes citada, mas sem forma no sentido que vai copiando as formas de vida as quais contamina e absorve. 


    Civilizações

    Sou obrigado a confessar (dado alguns céticos mais radicais, tenho de dizer isso) que guardo muito carinho por dois filmes sobre extraterrestres, ET e Contatos Imediatos do Terceiro Grau, ambos dirigidos por Spielberg, e outro tanto por Starman, de1984, de John Carpenter. Suas mensagens são positivas, tem um tom quase piegas de esperança, bondade, etc, e apresenta os seres humanos sempre no papel dos piores personagens. No mesmo campo, podemos incluir também O Dia Em Que A Terra Parou, neste campo, apesar das diferenças do que chamaria até de "ingenuidade biológica" do primeiro, contra a falta na verdade de uma mensagem mais elaborada no segundo (para que raios precisam os seres de uma aliança de civilizações avançadíssimas exterminar uma espécie e suas obras, se pode forçá-las pela eminente destruição a salvar todas as outras e ainda obterem baratíssimos "jardineiros"? exatamente o argumento do primeiro - mas tratarei este filme mais longamente noutro artigo).

    Percebamos que com exceção de Starman, e o segundo O Dia Em Que A Terra Parou, no qual é dito inclusive "assumi esta forma pois a minha verdadeira lhe seria repulsiva" (ou frase similar), que são mantidas como um mistério, ou ainda de Contato, da qual só se vê algo como uma lula ou medusa flutuante distorcida por uma parede de projeção do ambiente criado para ser agradável à Dra Eleanor Arroway em sua jornada, as formas de vida de ET e 'Contatos' são na verdade, humanizadas e mesmo no caso de ET, que podemos afirmar como uma "criança deformada por um software de tratamento de imagem", ainda mantém uma disposição de órgãos e parte do corpo de um humano e seus parentes mais próximos.

    Gosto de Inimigo Meu, de 1985, o qual também colocaria no terreno das grandes mensagens morais dos filmes de ficção científica, com uma via um tanto inversa de Distrito 9 (neste blog), pois onde o segundo mostra que mesmo os brancos odiando os negros e vice versa, ainda mais odeiam quem seja de outra espécie, e em determinado momento de Inimigo Meu, é preferível salvar um ser com quem eu possa conversar, ainda que o considere feio, do que ter de enfrentar sozinho um predador que julgue mais feio ainda. Mas ainda sim o sábio Jeriba Shigan, capaz de se reproduzir sozinho, esfrega na cara de nós, macacos pelados, que temos a triste realidade de termos de nos completar para perpetuar nossa espécie (ainda que espere a clemência de algum biólogo, pois sei bem que a reprodução sexuada é o que permite ser ainda mais rápida a evolução e a formação, nesta, de populações mais aptas ao meio, o que aliás, já tinha sido observado por vias ainda sem a genética por Darwin, em A Origem das Espécies).

    Basta resumirmos que se os decendentes da "explosão do Cambriano" de cada um dos mundos que permitiu vida (digo 'permitiu' pois defendo que vida não é uma raridade, e sim um produto inexorável da química e da astrofísica/exo-geologia) permitiu um conjunto de designs básicos diversos para seus animais mais complexos (ou animais-plantas, ou fungo-animais, ou qualquer coisa possível no biológico, desde que se mova e possua características que lhe levem a ter um "operador sensorial e lógico"), da mesma maneira que entre nós sobreviveram o conjunto cordados-moluscos-artrópodes, qualquer forma seria possível, e o cenário mais adequado para mostrar-se isso seria o das inúmeras criaturas do cômico mundo imaginado em Men In Black.

    Talvez nada mais chocante para a humanidade que sair de uma nave pousada numa grande praça de alguma grande cidade do planeta algo parecido com uma lagosta, um louva-a-deus, uma lula ou ainda algo que lembre um centauro ou um elefante com uma muito mais hábil tromba (ou duas, três ou quatro trombas), que possua escamas ou penas, ou ainda outro exótico revestimento corpóreo, olhos de calcita, como tiveram nossos trilobitas, e que sejam mais, do ponto de vista do que realmente devemos classificar como o humano enquanto mental e social, mais humano que nós, e após ver nossa surpresa, nos alerte queo relojoeiro não só é cego, mas odeia repetir suas criações.

    Um design básico perfeitamente possível para um extraterrestre (no.comunidades.net).


    Mas quero abordar outro ponto, não ficar na biologia pura e simples. Mas já que temos que para isso colocar vida, provavelmente a partir da evolução de bactérias ou seres simples similares, temos de tratar de seu substrato.

    Pa'u Zotoh Zhaan, única imagem de ficção desta blogagem, pois Virginia Hey merece.



    Leitura recomendada

    quinta-feira, 14 de abril de 2011

    Ecologia Industrial e limites da reciclagem

    _
    O texto a seguir é um primeiro esboço de um artigo mais formal.



    Na minha pós-graduação em Gestão Ambiental, coube-me a análise do artigo:

    Sean Patrick Bradley,  Asher Kiperstok; ECOLOGIA INDUSTRIAL E PROJETO PARA O MEIO AMBIENTE (DfE); Prevenção da Poluição - Cap 6.indd 193 5/2/2003; http://www.sibr.com.br/sibr/DownloadFile?idObj=84&tipoObj=artigo

    Nele são apresentados os conceitos de Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente (DfE, Design for Environment).

    O conceito de Ecologia Industrial nasce do conceito de Metabolismo Industrial, no qual cada indústria é tratada como um organismo, e nestes "organismos" entram matéria primas/recursos e energia e saem produtos e resíduos.[1]


    Resumidamente, o conceito de Ecologia Industrial seria a ampliação do conceito de Metabolismo Industrial para uma similaridade com a Ecologia entre os seres vivos, nos quais as interrelações entre os "organismos indústrias" exercem suas atividades de forma que os resíduos de umas se tornam os recursos de outras, um 'ambiente de indústrias'. Por fim, o objetivo desta maneira de pensar seria a atividade humana, industrial, integrar-se à biosfera.[2][3][4]

    No artigo são apresentados infográficos  de como evoluíram os processos industriais sobre o aspecto de como a atividade industrial relaciona-se com o ambiente na tomada de recursos e na emissão de resíduos.

    Na primeira etapa deste processo evolutivo, as indústrias consideram que os recursos são infinitos e  capacidade de absorção da natureza é igualmente infinita.


    Obs.: Os esquemas aqui apresentados possuem sutis modificações daqueles do artigo original e do artigo de Allenby [26].

    Noutras palavras, citando exemplos claros, neste esquema as florestas são consideradas infinitas e nossos processos com resíduos tóxicos de zinco e chumbo (casos clássicos em Cubatão, SP, e Santo Amaro, BA) podem ser realizados sem a menor preocupação da deposição destes.[5][6][7][8]

    Numa etapa, digamos, "mais ecológica", as indústrias passarão (e passaram) a reciclar seus resíduos, diminuindo a tomada de recursos, até mutuamente em interações diversas.



    Mas num sistema totalmente integrado, passariam, segundo os autores, a reciclar totalmente os resíduos, passando o sistema a necessitar somente energia.



    O problema é que a "tendência entálpica" e entrópica das reações químicas, relacionadas com a segunda lei da termodinâmica/entropia, impede tal absoluta eficiência e sistema fechado materialmente.

    Expliquemos com conceitos mais científicos:

    1) Toda reação química é quimicamente reversível, mas toda reação química é termodinamicamente irreversível. Sempre há, no global, perda de energia para o meio, e na forma de calor (dissipação e ineficiência).[9][10]

    É impossível a construção de um dispositivo que, por si só, isto é, sem intervenção do meio exterior, consiga transformar integralmente em trabalho o calor absorvido de uma fonte a uma dada temperatura uniforme. Enunciado de Kelvin-Planck da Segunda Lei da Termodinâmica.

    2) Num sistema de reações químicas, a tendência dos produtos formados será aquela de maior estabilidade ao meio.[11][12][13]


    Gráfico de entalpia de uma reação exotérmica (educacao.uol.com.br).

    Observe-se que após a adição da energia de ativação, o sistema tenderá ao estado de maior estabilidade, perdendo energia para o meio pela segunda lei da termodinâmica.

    Exemplifiquemos, para clarear o apresentado:

    O aço e demais ligas de ferro podem ser bastante reciclados, assim como diveros metais e suas ligas, mas sempre ocorrerá corrosão.

    Simplificada e quimicamente[14]:

    2 Fe + 3/2 O2Fe2O3

    Na metalurgia/siderurgia, realizamos por diversos e até complexos processos a reação inversa. Inclusive necessitamos de determinados compostos que já tenham sido processados pela própria natureza para diminuir nossos custos (como o uso de magnetita, mineral formado pelos óxidos de ferro II e III, FeO.Fe2O3 [15]), mas realizamos, em suma, a reação inversa, como no caso do aço/ferro, a partir de óxido de ferro hematita com o carbono[16]:

    2 C + O2 → 2 CO


    Fe2O3 + 3 CO → 2 Fe + 3 CO2


    2 Fe2O3 + 3 C → 4 Fe + 3 CO2

    Poderíamos, grosseiramente, colocando o papel das plantas e sua fotossíntese, dizer que a reação final é a inversa da oxidação acima :

    Fe2O3 → 2 Fe + 3/2 O2


    Mas sempre, na reação de oxidação, que é a da corrosão, ocorrem perdas no meio, como o banal exemplo de uma estrutura, como um simples corrimão das laterais de um viaduto, perdendo pedaços de ferrugem para o meio ambiente.

    Ferro torna-se naturalmente no ambiente óxido de ferro, mas óxido de ferro não forma ferro naturalmente, no ambiente terrestre.
    Logo, sempre se necessitará de óxidos e outro minérios de ferro advindo do ambiente.

    Igualmente, todo o vidro produzido pode ser captado posteriormente e reintroduzido na produção de vidro novo, no jargão da indústria, o cullet (consideraremos aqui o vidro vulgar, dito soda-cal, mas o tratado seria também similar para o dito vidro cristal, com alto teor de óxidos de chumbo e o borossilicato, com alto teor de boro).[17] Mas mesmo desprezando as perdas no meio, na sociedade, como simples quebras, sempre será necessária adição de matérias primas, diremos "virgens", como o calcário, a barrilha, a sílica mineral, etc, pois o vidro, fundido e refundido, começa a apresentar o fenômeno chamado, também no jargão da indústria, de "porcelanização", que é uma perda de transparência, tendendo a se tornar seu composto/compósito mais estável, que é uma dentre as muitas ditas cerâmicas.


    O vidro, mesmo reciclado ao extremo pela indústria, como na Alemanha, encontra um equilíbrio no balanço de massas colocando-se um excedente do reciclo como pulverizado, para a produção de abrasivos para adição a pisos, carga para fundições de menor transparência exigida, como tijolos e telhas, assim como peças diversas de construção civil e de distribuição de eletricidade, além do esmaltamento dos produtos cerâmicos. Tudo objetivando "abrir espaço" para as matérias primas "virgens", focando-se na produção de vidro, digamos, "novo".[18][19][20]


    Associada à proteção da corrosão estariam as tintas e diversos revestimentos, resistindo às intempéries, mas perdendo suas cargas e pigmentos, independente de suas bases terem origem renovável.

    Igualmente, a borracha apresenta degradação por atrito, fragmentação e perde-se no ambiente, levando consigo, entre outros, o enxofre de sua vulcanização, que não relaciona-se com a produção renovável do látex. O mesmo poderia ser afirmado dos polímeros diversos, com suas cargas e pigmentos. Todos, elastômeros, polímeros e componentes de tintas e revestimentos apresentam degradação por fotodegradação/fotodissociação.[21]

    Noutro exemplo, os restos de tecidos podem ser usados para a fabricação de feltros para veículos e inúmeros outros processos fins, mas por atrito, sempre se perderá cargas, aditivos e diversos produtos de origem mineral para o ambiente, não renováveis a priori.[22]

    As ligas de alumínio podem ser bastante recicláveis, mas somam a perda por formação de óxido de alumínio, o seu tipo de corrosão típica, e não permitem o reciclo em determinadas aplicações, como as ligas de uso aero-espacial, necessitando de alumínio "virgem".[23][24]

    O zinco utilizado no revestimento de peças de ligas de ferro, por galvanoplastia ou aplicação em fusão (dita zincagem), também apresenta corrosão e oxidação característica, que resulta na chamada 'corrosão ou "ferrugem" branca', uma mistura de óxido e hidróxido de zinco, posteriormente carbonato, também a se pulverizarem e dispersarem-se no ambiente.[25]


    A chamada "ferrugem branca" do zinco (photographicdictionary.com).


    Com estas e múltiplas outras questões similares, percebe-se que um sistema fechado em materiais e apenas aberto em energia mostra-se impossível na prática, e sempre se terá uma determinada tomada de recursos materiais da natureza.


    Assim, pode-se construir um gráfico com uma curva assintótica a uma reta horizontal de reciclo de 100% (o "Fator 10" proposto no artigo em questão), que não será alcançada (a priori): 





    Mas, ao nosso ver quando (se) a escala das atividades humanas atingirem a mesma escala dos processos da natureza (na verdade, englobá-las), o reciclo atingirá 100%, por exemplo, dentro dos apresentados, quando todo o óxido de ferro captado na natureza para ser reduzido e produzir aço (entre outras ligas de ferro) for oriundo da própria corrosão dos produtos industriais humanos, quando todo o enxofre para a vulcanização da borracha advir da própria absorção liberado no ambiente pelo humano, quando todos os metais mais raros advirem do perdido nas massas d'água, nos mares e oceanos, por dissolução, das perdas da circulação destes dentre a civilização.


    Referências 

    1. EHRENFELD, J. R. Industrial ecology: a framework for product and process desig [s.l.], J. Cleaner Prod., v.5, n. 1-2, p. 87-95, 1997.
    2. ERKMAN, S. Industrial ecology: an historical view, [s.l.], J. Cleaner Prod., v.5, n. 1/2, p. 1-10, 1997. 
    3. MARINHO, M.; KIPERSTOK, A. Ecologia Industrial e prevencao da poluição: uma contribuição ao debate regional. Tecbahia, v. 15, n. 2, p. 47-55, 2000.
    4. SOCOLOW, R.; ANDREWS, C.; BERKOUT, F.; THOMAS, V. (Eds.) Industrial ecology and global change. Cambridge: University Press, 1994. v. 1 
    5. CETESB – COMPANHIA DE TECNOLOGIA DE SANEAMENTO AMBIENTAL – Poluição das águas do Estuário e Baía de Santos. Relatório Técnico São Paulo, Volume I. 71p. 1979. 
    6. CETESB – COMPANHIA DE TECNOLOGIA DE SANEAMENTO AMBIENTAL - Avaliação
    Complementar do material a ser dragado pela CODESP – São Paulo , 1998.

    7. Carvalho FM, Souza SP, Tavares TM, Linhares P. Absorção e intoxicação por chumbo e cádmio em pescadores da região do Rio Subaé. Ciência e Cultura 1983;35(3):360–366.
    8. Carvalho FM, Tavares TM, Souza SP, Linhares P. Lead and cadmium concentrations in the hair of fishermen from the Subaé River basin, Brazil. Environ Res 1984;33(2):300–306. 
    9. Zumdahl, Steven S. (2005) Chemical Principles. 5th Edition. (Houghton Mifflin Company) 
    10. Giancoli, D.C. (2000), Physics for Scientists and Engineers (with Modern Physics), 3rd edition (Prentice-Hall.) 
    11. Atkins, Peter W. and Julio de Paula Physical Chemistry, 4th Edition, Wiley-VCH, Weinheim 2006.
    12. Henderson, Douglas; Eyring, Henry; Jost, Wilhelm (1967). Physical Chemistry: An Advanced Treatise. Academic Press. p. 29.
    13. Laidler, Keith (1995). The World of Physical Chemistry. Oxford University Press. p. 110. 
    14. Greenwood, N. N.; & Earnshaw, A. (1997). Chemistry of the Elements (2nd Edn.), Oxford:Butterworth-Heinemann. ISBN 0-7506-3365-4. 
    15. Cornell, RM; Schwertmann, U (2003). The iron oxides: structure, properties, reactions, occurrences and uses. Wiley VCH. ISBN 3-527-30274-3. 
    16. Biddle, Verne, and Gregory Parker. Chemistry: Precision and Design. Pensacola: A Beka Book, 2000. 
    17. B. H. W. S. de Jong, "Glass"; in "Ullmann's Encyclopedia of Industrial Chemistry"; 5th edition, vol. A12, VCH Publishers, Weinheim, Germany, 1989, ISBN 3-527-20112-5, pp. 365–432. 
    18. Nachhaltigkeitsbericht mit Umwelterklärung 2007 der Austria Glas Recycling GmbH
    19. K.H. Poutos, A.M. Alani, P.J. Walden, C.M. Sangha. (2008). Relative temperature changes within concrete made with recycled glass aggregate. Construction and Building Materials, Volume 22, Issue 4, Pages 557-565. 
    20. British Standards Institute (2005) PAS 102, Specification for processed glass for selected secondary end markets.
    21. R. Schinke (1993). Photodissociation Dynamics, Cambridge Univer-sity Press, Cambridge. 
    22. Alfons Hofer: Textil- und Modelexikon, Deutscher Fachverlag, Frankfurt/Main, 7. Auflage, Band 2, 1997, Filz, Seite 264 
    23. R.E. Sanders, Technology Innovation in aluminium Products, The Journal of The Minerals, 53(2):21–25, 2001.
    24. Degarmo, E. Paul; Black, J T.; Kohser, Ronald A. (2003). Materials and Processes in Manufacturing (9th ed.). Wiley.. ISBN 0-471-65653-4. 
    25. Stwertka, Albert (1998), "Zinc", Guide to the Elements (Revised ed.), Oxford University Press, ISBN 0-19-508083-1
    26. Braden R. Allenby, “Industrial Ecology:  The Materials Scientist in an Environmentally
    Constrained World,” MRS Bulletin 17, no. 3 (March 1992):  46–51 

    segunda-feira, 4 de abril de 2011

    Pérolas, peixes, pH, dilúvio e uma dita tautologia II

    Observemos um conceito:

    Anfibologia (do grego) vem a ser, na lógica e na linguística moderna, o mesmo que ambiguidade (do latim ambiguitas, atis), isto é, a duplicidade de sentido em uma construção sintática. Um enunciado é ambíguo e, portanto, anfibológico quando permite mais de uma interpretação.

    Exemplo irônico: Vende-se mesa de comer velha de quatro pés. - Trata-se de uma elegante mesa de quatro pernas, um móvel antigo ou uma mesa onde se pratica perversões com exóticas e raras idosas com quatro membros posteriores?

    Por que inicio este texto assim?

    Pois afirmar simplemente que os mais aptos sobrevivem e que os que  sobrevivem são os mais aptos, desta maneira simplificada, e errônea, como já vimos em parte e mais veremos, é uma anfibologia, e não um tautologia.

    Mas retornemos à questão em si.

    Por outro lado, tanto Criacionistas "classicos" quanto D.I.stas usam de um raciocínio tautológico (para mais detalhes, e em texto a ser traduzido - Reading Evolution).


    E as provas que fazem do processo evolutivo uma evidência com caráter já quase de axioma (postulado científico em Biologia, daí a Teoria da Evolução ser sua "teoria eixo" [Nota 1]), são as que procedem no fundamental de quatro aspectos:

    1º) Os estudos de fósseis realizados pela Paleontologia

    2º) Os estudos de Anatomia comparada realizados pela Zoologia e Biologia

    3º) Os estudos em Embriologia comparada

    4º) Os estudos em Bioquímica e Genética

    Hoje quase nenhum biólogo sério questiona a evolução (das formas de vida) e a seleção natural. Trata-se de um paradigma científico muito bem assentado e que aguentou perfeitamente todos os ataques desde 1859. E aqui está imperturvável na sua nova roupagem denominada Neo-darwinismo.

    Karl Popper disse que a seleção natural era tautológica porque estava mal habituado pela simplicidade da Física (no sentido que, por exemplo, as leis de kepler apresentam regularidade de séculos para as órbitas dos planetas, enquanto que bactérias modificam-se a cada dia - mais uma vez, Mayr: Biologia, Ciência Única). Ele baseou o seu argumento numa única frase: A sobrevivência dos mais aptos. O que Popper diz, basicamente é que há sobrevivência dos mais aptos. E quem são os mais aptos? São os que sobrevivem.

    Para Popper isto é uma banalidade que não deve servir de base a qualquer teoria credível.

    Hoje em dia, a palavra aptidão não é usada no sentido "original" de Spencer (o pai do "Darwinismo social" e grande aventureiro intelectual por áreas em que infelizmente errou e feio [Nota 2]). Aptidão, termo mais usado em genética, significa sucesso reprodutivo e não está ligado à adaptação de forma absoluta.

    O grande Herbert Spencer, meu filósofo favorito, mas criador de meia dúzia de conceituações confusas, errôneas e até imorais a partir da pouca Biologia que conhecia.




    Aptidão não é nenhum esforço para a sobrevivência (isto lembra-nos o lamarkismo). O próprio Darwin dizia que o que existe são variações aleatórias que são selecionadas. Na maioria dos casos os melhores frutos sobrevivem ou reproduzem-se mais. Mas não em todos os casos. Muitas vezes, os melhores frutos são eliminados por acaso (ao nivel dos genes variações estatisticas aos acaso podem eliminar "bons" genes). catástrofes naturais são o exemplo mais cristalino disto. O Vesúvio pode ter eliminado as mais aptas uvas. Tambora, os melhores cocos. Krakatoa, os melhores peixes de determinada espécie. E muitas vezes maus frutos ganham vantagem no jogo da reprodução por causa disto, ou então porque vão à boleia de bons frutos (é frequente genes "doentes" em ligação com genes "saudáveis" serem selecionados indiretamente de forma positiva, porque os genes "saudáveis" são selecionados diretamente de forma positiva.)

    Concluindo, se imaginarmos (como Popper fez mas não Darwin) uma ligação rígida entre aptidão (sucesso reprodutivo) e sobrevivência (adaptação) temos uma tautologia. Mas como essa ligação não existe não há tautologia nenhuma.

    O velho erro de achar que evolução se dá "em escada" e não "em árvore" (arn.org).


    Muitos Biologos odeiam a frase: sobrevivência dos mais aptos. Porque abre caminho a ideias errôneassobre o que a evolução é. Uma dessas ideias errôneas, e consequentemente, no humano, , é o social-Darwinismo que produziu os piores resultados durante parte dos seculos XIX e XX. Distorce completamente o Darwinismo e põe as pessoas a pensar em lutas ferozes, ou que os ricos são mais aptos que os pobres e assim têm o direito (ou dever) de os esmagar (explorar).

    Na realidade, é curioso, mas os supostamente mais aptos de todos (a realeza europeia dos séculos passados) estavam cheios de defeitos genéticos porque se casavam todos entre si. O pool genético era limitado e a homozigotia tornava-se frequente trazendo à tona todo o tipo de doenças genéticas recessivas, como a hemofilia.

    Ninguém para ironizar os fundamentalismos estadunidenses como eles próprios.


    Mais uma vez, grande parte deste texto foi elaborado a partir de texto do biólogo Roberto Takata e outros interlocutores em um debate então disponível na internet, adicionado de textos de outro debate, dentro do possível modificados, corrigidos (nos poucos erros gramáticos e ortográficos que possuiam) e adaptados.


    Se você rouba ideias de um autor, é plágio. Se você rouba de muitos autores, é pesquisa. - Wilson Mizner.

    Nota 1

    Num contexto da Filoofia da Ciência de Kuhn, por "estrutura de afirmações", nada mais adequado que usar o termo axioma, com este tratamento moderado - o "quase". Temos tanta confiança que os seres vivos evoluem, e evoluiram, e evoluirão, e em outras palavras, temos tanta certeza que não surgiram nem miraculosamente nem são eternos e muito menos fixos, que todas as afirmações da Biologia serão amparadas sobre este postulado básico (construindo a dita "estrutura"), e por consequência, que os mecanismos deste processo evolutivo sejam aqueles afirmados pela Teoria Sintética da Evolução. Por similaridade, em Física, temos tanta confiança no Princípio Universal da Conservação da Energia que construímos todas as afirmações nesta ciência e suas derivadas (incluindo a Biologia) considerando que a energia se conserva, sem nem nos preocuparmos que estamos tomando esta premissas de maneira axiomática.

    Como digo seguidamente para quem apresento questões complicadas e nas quais a própria linguagem se mostra limitada: -Pegaram?

    Nota 2: Wikipédia PT, Wikipedia EN

    Juro que tentei resistir...