quarta-feira, 15 de abril de 2009

Presságios Sobre Nosso Sol

Assisti esta segunda feira, Presságio (Knowing) , com Nicolas Cage, mais motivado pelo nome de seu diretor, Alex Proyas, da ótima "extensão e fusão" feita aos contos de Isaac Asimov em Eu, Robô (I, Robot de 2004).

Tentarei revelar o mínimo possível sobre o roteiro, apenas citando que no filme, uma história de ficção científica, com nuances de religiosidade judaico-cristã, há um acidente de metrô muito bem feito e um acidente de avião que colocaria entre as cenas mais bem feitas da história do cinema até hoje, com nuances da mesma técnica de "mínimos cortes" de Filhos da Esperança (Children of Men, 2006), com fotografia similar e igualmente, um clima sombrio dentro de um "suspense" do início ao fim.

Curiosamente, a história em questão passa-se em 2009 (próximo a outubro se não me engano), e portanto, ano que vem já se tornará uma ficção sobre um universo alternativo onde ocorreu o narrado.

O ápice do filme se dá quando uma "super-erupção" do Sol ameaça a Terra, e neste ponto e argumento (nos termos cinematográficos), tratarei do que vi no filme, e pretendo com isto tratar algumas questões em minha área científica favorita, que é a Astrofísica.

Nota: Astrofísica é aquela ciência que deveria de chamar Astrologia, pois trata do comportamento no tempo e composição (similarmente à Geologia) dos Astros, mas infelizmente, uma pseudociência de muita popularidade parece que roubou o nome antes e NÃO DEVOLVEU.

Erupções do Sol

O Sol não é uma esfera tranquila. Muito pelo contrário, é o corpo mais dinâmico, agitado, turbulento, móvel, pois nos arrasta pela Via Láctea com ele (embora em relação aos planetas, pareça o que para Kepler num determinado momento era o próprio centro de um universo perfeito e geometricamente exato), do nosso sistema solar.

Não contente com isto, ainda é o corpo celeste mais barulhento do sistema solar, no que temos de agradecer que o som não se transmita no vácuo.

O Sol é tudo isto porque embora seja uma estrela bastante insignificante dentro da Via Láctea, sendo classificado como uma "anã amarela", de diâmetro médio de menos de 1,4 milhão de quilômetros, de temperatura de superfície que nem chega a 6000°C (há estrelas muito mais quentes), temperatura interior de menos de 16 milhões de °C, o que lhe permite apenas, por enquanto e por muito tempo, fundir prótons em núcleos de hélio pela cadeia próton-próton.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Cadeia_pr%C3%B3ton-pr%C3%B3ton
(sendo o verbete de abertura e vigília minha, eu garanto o ali tratado)

Notem que de todas as formas procurei humilhar nosso "astro rei".

Mas se assim insignificante nosso monarca não fosse, não estaríamos aqui, e apenas este tema já dá margem a páginas e páginas deste autor (medíocre) e já deu a milhares de autores (incluindo gênios).

Sendo, ainda que uma insignificante, uma estrela, ela apresenta um comportamento um tanto heterogêneo no tempo, tal qual uma chaleira com água fervendo, as vezes produz respingos.

Estas erupções, mesmo na escala de nosso Sol, com seu jorros de plasma de altíssima temperatura, ao sair do Sol enfrentam um inimigo das estrelas muito mais poderoso que qualquer capacidade delas gerarem energia. Enfrentam o vácuo do espaço, suas enormes distâncias e em conjunto com isso, duas características da natureza: os gases não possuem volume fixo, sempre se expandem quando não encontram limitação e sempre o calor tende a se dissipar, esfriando os corpos.

Convenhamos que não há ambiente maior para qualquer coisa se esfriar que o espaço.

Mas pensemos na maior erupção possível a sair do Sol, e imaginemos como ela atingiria nosso planeta, antes mesmo de sabermos, na verdade, de que tamanho elas podem ser.

Nosso planeta se encontra a quase 150 milhões de quilômetros médios do Sol. Nosso planeta está sempre em movimento a quase 30 quilômetros por segundo orbitando o Sol. Mesmo para um "canhão" de calibre do Sol, somos um alvo de 12 mil quilômetros de diâmetro, o que por outras proporções poderia tratado como o equivalente a acertar com um canhão de 155 mm (usual entre forças armadas do mundo) uma pulga a 15 metros.

Se você pensa que a proesa acima é fácil, seria conveniente lembrar que a pulga em questão está num deslocamento tal que percorreria o diâmetro do projétil em 12 segundos.

Claro, que nesta escala, com esta velocidade, a priori, a proesa seria fácil. Mas infelizmente para os mais pessimistas e simpatizantes das pulgas o Sol não é um canhão que mira, e nem miraria no plano onde a Terra orbita, e sim é um atirador desnorteado e cego que atira para todos os lados.


A pulga já passa a ter, mesmo com sua velocidade proporcionalmente baixa, muito mais chances.

Mas acontece que as erupções solares não são um jorro de gás do diâmetro do Sol, e sim, um espirro, fração de seu diâmetro, de onde a pulga cruzaria o diâmetro em menos tempo.

Some-se a isto que as erupções solares não são um projétil sólido, e sim um jorro de gás, de onde a analogia com uma arma de fogo é completamente inadequada.

Qualquer um que tenha andado de balão ou simplesmente tenha lidado com uma tocha ou maçarico sabe que uma boca de chama de 15 cm acesa a 15 metros não provoca queimadura ou propaga chama seja no que for. Mas chamas não estão no vácuo, e portanto são "colimadas", seguem um caminho mais restrito, pela pressão da atmosfera onde se dão. Já as erupções solares enfrentam um "cone" de dissipação no espaço que para chegar até nós, teria um eixo de comprimento de 150 milhões de quilômetros e seria percorrido, mesmo que a velocidade da luz, em oito segundos, de onde o plasma perderia muito de sua energia já por radiação, mas notemos que ele não viaja nesta velocidade e portanto, seria o mesmo que uma chama, por mais quente que o seja, viajando pelo espaço por minutos, horas, antes de atingir um anteparo.

Mais e mais a pulga tem sorte.

Mas analisemos um vizinho da pulga, Vênus, que pode ser comparado ao Sol, assim como fizemos com a Terra, com uma outra pulga, mas agora a um pouco mais de 10 metros do mesmo canhão (ou tocha).

Se as erupções solares fossem significativas como danosas às atmosferas dos planetas como jorro de gases que as volatizariam e varreriam, Vênus, nos seus mais de 4 bilhões de anos, não seria o que é, com sua atmosfera pesada e fraco campo magnético (em relação a Terra). Lá, os fenômenos são de efeito estufa (recomendo ver minha blogagem "Prevenindo um futuro aquecimento global") e dissociação de determinadas substâncias pelas radiações ionizantes do Sol. Já que ele não é Mercúrio, completamente varrido de seus gases e torrado até a 427°C, embora tenha no outro lado temperaturas de -182°C - o que por si só nos dará outro argumento - sabemos igualmente que a Terra, mais distante, nestes anos todos e pela existência contínua da vida na Terra e pelos seus verdadeiros motivos de extinções em massa, também não o foi e nem será, dentro do atual comportamento do Sol.

Como já antecipei nas linhas acima, é evidente que o Sol não é um maçarico, ainda que proporcionalmente, para o caso das pulgas em movimento em questão, muito menos perigoso até o momento.

O Sol produz erupções que se dissipam e chegam aqui tremendamente diluídas e consideravelmente frias, isto já vimos. Mas lembremos que a pulga não é uma pulga trivial, e possui um "campo de força", o que foi, ainda que num filme catástrofe eu diria infantil, tratado em O Núcleo - Missão ao Centro da Terra (The Core, 2003) - tema para outra blogagem. E notemos com destaque que o campo magnético terrestre é protegido da ação de qualquer coisa vinda do Sol pelo nosso raio planetário, da ordem de 6 mil quilômetros de material denso. E vento solar nada mais é que a constante emissão de partículas pelo Sol, não suas erupções. Aliás, nossas sondas e até astronautas o enfrentaram e enfrentam, abrigados em blindagens não muito mais espessas que latas de refrigerante.


Mas que tipo de radiação do Sol podemos enfrentar, e em que quantidade?

O Sol produz radiação infravermelha e microondas, que em nada relacionam-se nem com nosso campo magnético nem com nossa atmosfera como proteção, e apenas nos aquece ao nível que temos, com o esfriamento pelo espaço que temos, com o efeito estufa que temos.

Logo, o Sol não nos torra, não nos incendeia, apenas nos aquece amenamente, e talvez, por nossos erros, transformemos conforto em desconforto.

O Sol produz radiação ultravioleta, que é diminuída em sua incidência na superfície pelo ozônio e pelas partículas em suspenção na atmosfera, e é barrada mesmo pela nossa pele, não atingindo nossos músculos, por exemplo. Mas o ozônio também é PRODUZIDO pela radiação solar, de onde a única maneira de o ozônio ter sua taxa diminuída, fora nossa ação e a de, talvez ,vulcões , seria o próprio Sol parar de produzí-la. Lembremos que ultravioleta produz câncer, cegueira, mas não gera calor.

O Sol, felizmente, é um péssimo produtor de radiação gama, exatamente porque apenas opera na cadeia próton-próton. Mas mesmo esta radiação, em determinada taxa e nível de energia, não consegue penetrar determinadas espessuras de materiais, razão porque podemos usar com bastante segurança reatores nucleares apenas com o isolamento de paredes de metal e concreto.

Não preciso dizer, acredito, que qualquer colina do interior paulista tem muito mais espessura que qualquer parede de qualquer instalação nuclear do mundo.

Assim sendo, mesmo um jorro de radiação anômala colimada, "coerente", como um laser, diretamente acertando a Terra, faria apenas uma ação menor que a que temos ao longo de anos em termos de radiações, e apenas durante alguns segundos. Ainda que ficasse nos "mirando", não esqueçamos que a Terra gira em sua superfície a 40 mil quilômetros a cada 24 horas, o que dá uma passagem por um jorro radioativo a velocidade de 1600 quilômetros por hora, e quem estivesse "no por do Sol", ficaria ao abrigo de qualquer radiação deste jorro pelas próximas 12 horas, grosseiramente falando. Quem estivesse sob a radiação, dela sairia a esta velocidade.

Logo, as bactérias que estão nas costas da pulga talvez não sejam das mais bem comportadas esolidárias, mas tem muito mais sorte que imaginamos em nossas paranóias de catástrofes.

Claro que nossa sorte não será eterna, e aqui meus presságios, pois quando o Sol sair da cadeia próton-próton, vai entrar na "combustão" de hélio, e aí já teremos ter nos mudado, como espertas bactérias, para outra pulga.

Mas tenhamos certeza: também não haverão almas caridosas que nos levem para outra pulga nem levem nossa pulga para outro cachorro que nos aqueça.


Acréscimos

Vídeo com animação que mostra no filme, completamente fora de escala, uma 'ejeção de massa coronal' destruindo a Terra:

Solar flare destroys earth

Artigos Wiki

Ejeção de massa coronal

Em português

Em inglês

2 comentários:

Vanius disse...

Olá Francisco,
Também vi o filme ontem, quis maiores detalhes sobre as erupções solares e acabei aqui no seu blog.
Bem, tive a impressão que no momento da erupção os planetas estavam mais ou menos alinhados (os atores viam a simulação no computador).
Como a força gravitacional é exercida tanto pelo sol quanto pelos planetas (salvo as devidas proporções) pergunto:
se ocorresse uma erupção solar ela não iria seguir onde o campo gravitacional estivesse mais fraco (em direção aos planetas)?
Não existe uma distorção do espaço (nem que seja pequena) entre os planetas e o sol? Se sim, então talvez a direção de uma erupção não seja tão aleatória assim?

Parabéns pelo blog

Anônimo disse...

Francisco, como é bom conhecer pessoas como você. A sua sabedoria é radiante. Esterei sempre visitando o seu blogger, para cada vez mais aprender com os seus textos de assuntos importantes e convensedores. Você com sua sabedoria expressiva tem o que qualquer ser humano precisa ... a felicidade e o prazer do saber !!!!
MARIA TEREZA PALERMO (amiga do Piassa)