O glicerol (também conhecido como glicerina) é muito mais do que um subproduto da produção de biodiesel ou um ingrediente em cosméticos. Na química orgânica fina, ele se destaca como uma molécula de partida fundamental para a síntese de compostos complexos e biologicamente ativos.
O grande desafio, e o cerne desta área de pesquisa, reside em transformar o glicerol, que é uma molécula pró-quiral e simétrica, em seus derivados opticamente ativos (ou quirais) de forma controlada.
O Glicerol como Bloco Quiral
O glicerol possui três átomos de carbono e dois grupos enantiotópicos (grupos quimicamente idênticos, mas que se comportam de maneira diferente na presença de um agente quiral).
Materiais de Partida Vitais: Derivados do glicerol quirais servem como blocos de construção essenciais de três carbonos para a síntese de moléculas complexas de alto valor, incluindo:
Glicerofosfolipídeos (componentes das membranas celulares).
Beta-bloqueadores (fármacos cardiovasculares).
Prostaglandinas e PAF (Fator de Agregação Plaquetária), importantes mediadores biológicos.
A capacidade de preparar esses derivados com a configuração espacial correta (ou seja, como um único enantiômero) é crítica, pois a atividade biológica de um fármaco geralmente reside em apenas um dos enantiômeros (o outro pode ser inativo ou até prejudicial).
O Desafio da Enantiosseletividade
A transformação do glicerol em um composto quiral exige um processo chamado dessimetrização. Este processo "diferencia" os grupos enantiotópicos da molécula pró-quiral para criar o primeiro centro quiral.
1. Estratégias de Síntese
Uma vez que o primeiro centro quiral é estabelecido no glicerol, as etapas seguintes se tornam diastereosseletivas, aproveitando a quiralidade já existente. A quiralidade é induzida por:
Auxiliares Quirais: Moléculas quirais ligadas covalentemente ao substrato. Elas direcionam a reação para produzir um diastereômero preferencialmente. Ao serem removidas no final, o processo se torna globalmente enantiosseletivo.
Catálise Assimétrica: O indutor quiral (catalisador) está presente em quantidades catalíticas e não se liga permanentemente ao substrato. Ele se complexa temporariamente com o substrato, criando um intermediário diastereotópico que reage seletivamente com um reagente simétrico, resultando em um produto com excesso enantiomérico.
2. Resolução Cinética (Biocatálise)
A resolução cinética é uma tática poderosa para obter um composto enantiomericamente puro a partir de uma mistura racêmica (mistura 50:50 dos dois enantiômeros).
Princípio: A reação (química ou, mais comumente, enzimática) ocorre com diferentes velocidades para os dois enantiômeros (taxa de reação k1 ≠ k2).
Seletividade: Apenas um dos enantiômeros é seletivamente transformado em produto, deixando o enantiômero não reativo (e.g., o outro enantiômero) em excesso na mistura.
Biocatálise (Uso de Enzimas): Esta abordagem é altamente favorecida. As enzimas são catalisadores biológicos que demonstram uma estereosseletividade excepcional, muitas vezes resultando em excessos enantioméricos (e.e.) acima de 90%, sob condições reacionais brandas (temperatura e pH neutros).
Desafios Industriais e Inovação
A síntese tradicional de blocos quirais importantes, como o gliceraldeído acetonídeo (composto S-2), historicamente partia do D-manitol (derivado da D-sacarose).
Limitações: A obtenção da série oposta de compostos, como o isopropilideno quiral 3 e seus derivados, frequentemente requer o uso de procedimentos complexos e pouco amigáveis para escala industrial, como o uso de tetracetato de chumbo.
Avanço: A pesquisa busca métodos mais eficientes, verdes e escaláveis, onde a biocatálise e a dessimetrização direta do glicerol desempenham um papel central, oferecendo uma rota mais limpa e econômica para a produção de fármacos e intermediários quirais.
Extras
1. Diferença entre Enantiômeros e Diastereômeros
Enantiômeros e diastereômeros são tipos de estereoisômeros, que são moléculas que possuem a mesma fórmula molecular e a mesma conectividade atômica, mas que diferem no arranjo tridimensional dos seus átomos.
Exemplo Simples (Moléculas com 2 Centros Quirais):
Se considerarmos um composto com dois centros quirais, as possíveis configurações são: (R, R), (S, S), (R, S), e (S, R).
Par de Enantiômeros:
(R, R) e (S, S)
(R, S) e (S, R)
Pares de Diastereômeros:
(R, R) e (R, S)
(R, R) e (S, R)
(S, S) e (R, S)
(S, S) e (S, R)
Nota: É a diferença nas propriedades físicas que permite a separação dos diastereômeros por métodos padrão (como destilação ou cristalização), enquanto os enantiômeros exigem métodos especiais, como a resolução cinética ou o uso de auxiliares quirais.
2. Exemplo de Síntese de Fármaco a partir do Glicerol
Muitos fármacos importantes, especialmente os que contêm um centro quiral de três carbonos, podem ter sua origem na glicerina. Um excelente exemplo é a síntese do (S)-Propranolol, um betabloqueador amplamente utilizado.
O Fármaco: (S)-Propranolol
O Propranolol é usado para tratar hipertensão, angina, arritmias e ansiedade. Sua atividade biológica reside predominantemente no enantiômero (S).
Rota de Síntese Biocatalítica a Partir do Glicerol
Uma rota comum e eficiente usa derivados quirais do glicerol para construir a estrutura do Propranolol de forma enantiomericamente pura:
Passo 1: Obtenção do Bloco Quiral
O material de partida é o Glicerol.
É realizada uma dessimetrização ou uma resolução cinética (geralmente biocatalítica, usando lipases ou oxidorredutases) para transformar o glicerol em um bloco de construção quiral, como o (S)-Glicidol ou o (S)-Gliceraldeído acetonídeo.
Passo 2: Formação do Intermediário Epóxido
O bloco quiral de glicerol é convertido no intermediário (S)-Glicidol (óxido de 2,3-propileno).
Passo 3: Reação com o Grupamento Naftila
O (S)-Glicidol reage com 𝞪-naftol, um passo chave que incorpora o grupamento aromático do Propranolol, formando um intermediário éter.
Passo 4: Formação do Aminoálcool (Propranolol)
O intermediário da etapa anterior (um epóxido quiral) é submetido a uma abertura de anel com isopropilamina (i-PrNH2). Esta reação de adição nucleofílica é altamente regiosseletiva e estereosseletiva devido à quiralidade preexistente.
O produto final é o (S)-Propranolol com alta pureza enantiomérica.
Este exemplo ilustra perfeitamente como a capacidade de obter um derivado do glicerol com a configuração quiral correta logo no início (seja por resolução ou dessimetrização) é fundamental para a síntese enantiosseletiva de fármacos complexos, evitando a formação do enantiômero indesejado.
Dando continuidade à nossa divulgação sobre a química do glicerol, vamos detalhar esses dois tópicos fundamentais: a estrutura dos glicerofosfolipídeos e o mecanismo da resolução cinética por enzimas.
1.Glicerofosfolipídeos: Os Arquitetos das Membranas
Os glicerofosfolipídeos são os principais componentes das membranas celulares e são exemplos clássicos de moléculas complexas de alto valor que podem ser sintetizadas a partir de derivados quirais do glicerol.
Estrutura Básica: Imagine a molécula de glicerol como um esqueleto de três carbonos. Nos glicerofosfolipídeos:
Os carbonos 1 e 2 estão ligados a ácidos graxos (caudas hidrofóbicas).
O carbono 3 está ligado a um grupo fosfato, que por sua vez se liga a uma "cabeça" polar (como colina, etanolamina ou serina).
A Importância da Quiralidade (sn): Na biologia, essas moléculas seguem a nomenclatura sn (stereospecific numbering). O glicerol em si é pró-quiral, mas assim que o fosfato é adicionado ao carbono 3, a molécula torna-se quiral. O sn-glicerol-3-fosfato é a forma onipresente na natureza.
Função: Além de formar a bicamada lipídica que isola a célula, eles são cruciais para a fluidez da membrana e atuam como precursores de moléculas de sinalização, como o PAF (fator de agregação plaquetária).
A síntese química desses lipídeos em laboratório exige que o químico comece com um bloco de construção do glicerol que já tenha a orientação espacial correta, garantindo que o fosfolipídeo final tenha a mesma bioatividade dos naturais.
2.Resolução Cinética Enzimática: O "Filtro" de Enantiômeros
A resolução cinética é uma das ferramentas mais elegantes da biocatálise para separar misturas racêmicas (50% de cada enantiômero).
Como funciona?
Diferente de uma separação física, aqui usamos a velocidade da reação.
Velocidades Diferentes (k1 ≠ k2): Uma enzima é adicionada à mistura racêmica. Devido ao seu sítio ativo ser quiral (como uma luva para uma mão específica), ela reage muito mais rápido com um dos enantiômeros do que com o outro.
O Resultado: Após um certo tempo, quase todo o "enantiômero preferido" foi transformado em um novo produto, enquanto o "enantiômero preterido" permanece inalterado na mistura.
Por que usar Enzimas (Biocatálise)?
As enzimas, especialmente as lipases, são as favoritas nesta área por vários motivos:
Alta Estereosseletividade: Frequentemente produzem excessos enantioméricos (e.e.) acima de 90%.
Condições Brandas: Operam em pH neutro e temperaturas amenas, o que é energeticamente eficiente e evita a degradação de moléculas sensíveis.
Versatilidade: Muitas dessas enzimas são baratas, estão disponíveis no mercado e, curiosamente, funcionam muito bem em solventes orgânicos, facilitando a síntese de substâncias que não se dissolvem em água.
Conexão Prática
Um exemplo que une esses conceitos é a síntese do (S)-Propranolol. O processo começa com o glicerol sendo submetido a uma resolução cinética enzimática (usando lipases) para gerar o (S)-Glicidol puro. Esse pequeno bloco quiral é então "montado" com outras peças químicas para formar o fármaco final, garantindo que ele tenha a configuração correta para interagir com os receptores no coração humano.
Referência
Glicerol: um precursor versátil na síntese de moléculas opticamente ativas", publicado na revista Química Nova (Vol. 29, No. 6, 1205-1211, 2006), pelos autores L. S. M. de Miranda, R. O. M. A. de Souza e M. L. A. A. Vasconcellos.
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Faber, K.; Biotransformations in Organic Chemistry, 5th ed., Springer-Verlag: Berlin, 2004. (O "manual" clássico para o uso de enzimas em síntese).
Jurczak, J.; Pikul, S.; Bauer, T.; Tetrahedron 1986, 42, 447. (Trata do uso de ácidos ascórbicos e isoascórbicos como blocos quirais).
Hubschwerlen, C.; Synthesis 1986, 962. (Método de preparação do gliceraldeído acetonídeo).
Schmid, C. R.; Bryant, J. S.; Org. Synth. 1995, 72, 6; Schmid, C. R.; Bryant, J. S.; Dowlatzedah, M.; Phillips, J. L.; Prather, D. E.; Schantz, R. D.; Sear, N. L.; Vianco, C. S.; J. Org. Chem. 1991, 56, 4056. (Descreve a síntese em larga escala a partir do D-manitol).
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