A Dualidade do Cérebro Moderno
Anos atrás, eu publiquei as seguintes frases em uma rede social:
"O substrato cerebral da humanidade ainda é o mesmo que catava carniça a tapa pelas savanas africanas. Não se espere muita coisa."
Essas frases tocam em um ponto nevrálgico da neurobiologia e da psicologia evolutiva: o "descompasso evolutivo" (evolutionary mismatch). Enquanto nossa tecnologia e cultura avançam em progressão geométrica, nossa arquitetura cerebral ainda opera com o "software" moldado pelo Pleistoceno.
Vamos desenvolver essa ideia explorando o contraste entre o nosso potencial civilizatório e as nossas raízes biológicas.
A ironia dessas frases reside na coexistência de duas realidades opostas dentro do mesmo crânio. Temos o neocórtex, capaz de compôr sinfonias e calcular órbitas planetárias, sobreposto ao sistema límbico e ao tronco encefálico, que ainda respondem a estímulos de sobrevivência básica.
1. A Economia da Sobrevivência
Aquele hominídeo que "catava carniça a tapa" (um exagero, pois rapidamente adotamos pedras em outros predadores e carniceiros, e isso muito antes do Homo sapiens) precisava de decisões rápidas, não de reflexões éticas profundas. O cérebro é um órgão caro (consome cerca de 20% da nossa energia); por isso, ele prioriza o atalho cognitivo.
O Viés de Negatividade: Na savana, ignorar um ruído no arbusto podia ser fatal. Hoje, esse mesmo mecanismo nos torna viciados em notícias catastróficas e conflitos digitais.
Tribalismo: A sobrevivência dependia da coesão do grupo e da desconfiança do "outro". Esse instinto, que antes nos protegia, hoje se manifesta na polarização extrema e na intolerância.
2. O Custo da Biologia
Percebemos como esse substrato cerebral nos sabota. A moralidade exige um esforço consciente do córtex pré-frontal para superar o instinto de autopreservação ou a apatia do "espectador". Se o nosso cérebro ainda está programado para poupar energia e focar no imediato, a omissão torna-se o estado padrão. Por esse motivo é que repetidos casos de agressões, crimes, são assistidos por pessoas praticamente paralisadas, que pouco fazem para impedir a ação má. Agir moralmente, portanto, é um ato de "rebeldia" contra a nossa própria fiação biológica.
3. "Não se espere muita coisa" (A Armadilha do Dopaminérgico)
Nossa busca por status e recursos — que outrora era a busca por proteínas e parceiros — foi sequestrada por algoritmos. O sistema de recompensa, mediado pela dopamina, não distingue entre uma conquista real e uma curtida em rede social. Estamos usando um hardware de 200 mil anos para navegar em uma realidade de realidade virtual e inteligência artificial.
Conclusão: A Superação é Cultural, não Biológica
Nossas frases são um lembrete de humildade biológica. Se esperarmos que a "natureza humana" resolva nossos problemas de forma espontânea, sofreremos uma certa decepção. A natureza quer apenas que sobrevivamos o tempo suficiente para reproduzir.
A "esperança" de que duvidamos nas frases talvez não resida no substrato físico, mas na nossa capacidade de criar sistemas culturais e éticos que funcionem como "próteses" para nossas limitações cerebrais. Somos o único animal que, apesar de ter os pés no barro da savana, consegue olhar para as estrelas e questionar por que ainda sente o impulso de brigar pela carniça.
Extra
1.O caso Kitty Genovese
Um caso interessante, embora de mecanismos distintos do que aqui apreesentamos, é o assassinato de Kitty Genovese em 1964, em Nova York. Este caso ficou famoso por, supostamente, ter tido dezenas de testemunhas que não agiram nem chamaram a polícia, tornando-se um estudo clássico na psicologia social para explicar o fenômeno do "efeito espectador" (ou apatia do espectador/síndrome de Genovese).
O que ocorreu com Kitty Genovese
O Crime: Na madrugada de 13 de março de 1964, Kitty Genovese, de 28 anos, foi esfaqueada e abusada. O ataque ocorreu em etapas, perto do prédio onde ela morava no bairro de Kew Gardens, no Queens.
As Testemunhas e a Inação: Relatos iniciais e amplamente divulgados na época, especialmente por um artigo do The New York Times, afirmavam que 38 testemunhas ouviram os gritos de socorro ou assistiram a partes do ataque e, ainda assim, não intervieram ou ligaram para a polícia em tempo hábil. Um vizinho chegou a gritar para o agressor, fazendo-o fugir momentaneamente, mas ele retornou para terminar o ataque. Apenas uma pessoa ligou para a polícia, e isso só ocorreu após a vítima já estar gravemente ferida ou morta.
O Estudo na Psicologia
A tragédia chocou o público e levou os psicólogos sociais Bibb Latané e John Darley a investigar a razão da inação coletiva. Eles desenvolveram a teoria do efeito espectador (bystander effect), que postula que:
Indivíduos são menos propensos a ajudar uma vítima quando outras pessoas estão presentes.
Quanto maior o número de testemunhas, menor a probabilidade de qualquer uma delas prestar ajuda individualmente.
Os pesquisadores atribuíram esse fenômeno a dois fatores principais:
Difusão de responsabilidade: Cada testemunha sente menos responsabilidade pessoal de agir, presumindo que outra pessoa o fará.
Influência social: Indivíduos observam o comportamento dos outros para interpretar a situação. Se ninguém mais parece alarmado ou age, a pessoa conclui que a situação não é uma emergência real ou que a intervenção não é necessária.
Embora pesquisas mais recentes tenham sugerido que o número exato de 38 testemunhas pode ter sido exagerado pela mídia na época, o caso de Kitty Genovese continua sendo a ilustração mais famosa e o ponto de partida para os estudos sobre o efeito espectador na psicologia social.
Charlotte Ruhl. What Happened to Kitty Genovese. August 3, 2023
https://www.simplypsychology.org/kitty-genovese.html
Observações:
Embora o "Efeito Espectador" seja um conceito da psicologia social, ele tem raízes evolutivas. Na savana, destacar-se do grupo para enfrentar um perigo desconhecido era uma sentença de morte. O cérebro que "catava carniça" aprendeu que a segurança reside na conformidade do bando. Se ninguém se move, o instinto primário diz: "não se mova, ou você será o próximo alvo".
É irônico que, em uma das cidades mais densamente povoadas do mundo (Nova York), a proximidade física tenha gerado um isolamento moral. Isso reforça a ideia do "primata no Wi-Fi": estamos cercados de tecnologia e de semelhantes, mas nosso hardware processa a multidão como um ruído estatístico, não como uma comunidade de indivíduos que dependem uns dos outros.
Nota Histórica Pertinente: Como o texto bem aponta, revisões posteriores mostraram que o New York Times exagerou no número 38, mas o impacto do caso foi real e positivo em um aspecto: ele foi o grande catalisador para a criação do sistema de emergência 911 nos EUA. Foi uma tentativa da civilização de criar um "atalho tecnológico" para facilitar a ação humana onde a biologia falha.
2.Do "Meu Carro" ao "Meu Mundo" – A Extensão do Eu e a Armadilha Ambiental
Se o nosso substrato cerebral ainda é o de um caçador-coletor da savana, é natural que a noção de "meu" vá muito além da pele. A possessão, a territorialidade e a defesa de recursos são instintos primários para a sobrevivência e a reprodução. Quando transpomos isso para a complexidade da sociedade moderna, o simples "meu carro" revela camadas profundas de nossa biologia e de nossa percepção do mundo.
1. O Fenótipo Estendido (Richard Dawkins)
Richard Dawkins, em seu livro "O Gene Egoísta" e, mais explicitamente, em "O Fenótipo Estendido", propôs que o impacto de um gene não se limita ao corpo do organismo. Ele pode se estender para o ambiente, manipulando-o para beneficiar a sobrevivência e a replicação do gene.
Exemplos Biológicos: A barragem de um castor (uma construção ambiental que protege seus genes), a teia de uma aranha, ou mesmo o parasitismo que altera o comportamento de um hospedeiro. Todas são extensões do efeito genético para além dos limites físicos do corpo.
O Humano e Seu "Fenótipo Estendido": O carro, a casa, as ferramentas, a roupa, e até mesmo a cultura e a linguagem podem ser vistos como extensões do nosso fenótipo. Eles são produtos do nosso cérebro (e, portanto, de nossos genes), projetados para nos proteger, facilitar a obtenção de recursos, exibir status e, em última instância, aumentar nossas chances de sobrevivência e reprodução. O carro, por exemplo, estende nossa capacidade de locomoção, proteção e demonstração de status – um "fenótipo estendido" sobre rodas.
2. O "Umwelt" (Jakob von Uexküll) e a Bolha da Percepção
O conceito de "Umwelt" (do alemão, significando "mundo ao redor" ou "ambiente") foi cunhado pelo biólogo estoniano Jakob von Uexküll no início do século XX. Ele descreve o mundo subjetivo ou a percepção particular que cada organismo tem de seu ambiente. Não existe um "mundo objetivo" único, mas múltiplos "Umwelten" coexistem.
Cada Organismo, um Mundo: Uma abelha percebe cores ultravioleta e campos elétricos que são invisíveis para nós. Um cão vive em um mundo de odores que mal podemos imaginar. O "Umwelt" não é o ambiente em si, mas a interpretação que o cérebro do organismo faz dele, filtrada por seus sentidos e necessidades.
O "Umwelt" Humano e a Possessividade: Nosso "Umwelt" é profundamente influenciado por nossas construções sociais e materiais. "Meu carro" não é apenas um objeto; ele é parte do meu "Umwelt". Ele representa segurança, liberdade, status, identidade. A agressão a "meu carro" é uma agressão ao meu "Umwelt", uma violação da minha bolha perceptiva e, em última instância, uma ameaça ao meu "eu" estendido.
3. A Percepção de Fronteiras e o Desafio Ambiental
A junção do Fenótipo Estendido com o Umwelt nos ajuda a entender por que a crise ambiental é tão difícil de ser abordada.
A Expansão Insustentável do Eu: Se "meu carro" e "minha casa" são extensões do meu eu, e se meu "Umwelt" é construído em torno da minha conveniência e conforto, então "reduzir meu consumo" ou "limitar minha liberdade de ir e vir" é percebido como um ataque direto à minha identidade e sobrevivência.
A Cegueira do Umwelt: Nosso "Umwelt" é naturalmente antropocêntrico. Vemos o "ambiente" como algo externo a nós, um recurso a ser explorado ou um cenário para nossas vidas. Nosso cérebro, moldado pela escassez da savana, tem dificuldade em processar ameaças a longo prazo e em escala global que não se encaixam em nosso "Umwelt" imediato de necessidades. A poluição distante, o aquecimento global gradual, a perda de biodiversidade que não afeta nosso dia a dia – tudo isso fica fora do nosso foco perceptivo mais urgente.

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