Uma experiência pessoal:
O negacionismo do número de mortos que ocorreria na pandemia
O Embate da Razão contra a Aritmética do Descaso
No início de 2020, o Brasil não enfrentava apenas a ameaça biológica de um novo vírus, mas uma guerra de narrativas que se desenrolava em tempo real. Foi nesse cenário, em meio ao ambiente hostil do então Twitter, que travei um embate direto com uma das vozes mais proeminentes da minimização da pandemia: “um certo médico ex-ministro”. O conflito não era meramente político; era um choque entre a modelagem honesta da realidade e uma retórica que usava frações de verdade para construir uma mentira catastrófica.
A tese defendida por ele era sedutoramente perigosa: afirmava-se que o número de mortos no Brasil não passaria de "poucos milhares". O argumento baseava-se estritamente na taxa de letalidade do vírus, apresentada como baixa. No entanto, o erro — crasso e fatal — residia no desprezo deliberado pelo fator de escala. Ao ignorar que mesmo uma taxa de mortalidade pequena, se elevada à contaminação de uma significativa fatia da população (como os 210 milhões de brasileiros), se traduziria inevitavelmente em centenas de milhares de vidas em risco. O negacionismo transformava a estatística em uma ferramenta de anestesia social.
O que tornava o embate ainda mais surreal era a agressividade da rede de proteção que cercava esse discurso, no jargão a “bolha” desse segmento da sociedade quanto à ideologia política. Não se tratava apenas de militantes políticos, mas de uma falange de defensores "nervosos" que incluía, surpreendentemente, profissionais da saúde. Médicos, munidos de seus diplomas, emprestavam prestígio para validar o erro matemático, atacando com fúria qualquer tentativa de modelagem realista. Esse "negacionismo de autoridade" criou uma cortina de fumaça: ao verem médicos minimizando o risco, muitos cidadãos sentiram-se seguros para ignorar o perigo. A autoridade técnica, que deveria servir à preservação da vida, foi sequestrada para silenciar a crítica e legitimar a inação.
Diante daquela negação, restou-nos a tentativa de enxergar o tamanho do abismo. Adotei um modelo simplíssimo: a curva de mortos em ascensão projetada simetricamente em uma curva de declínio para estimar o total de perdas. Mesmo esse esforço honesto de previsão ainda subestimava a realidade, pois a geometria da pandemia revelou-se mais cruel do que a simetria de uma curva “sino”. Onde esperávamos (no modelo) um declínio rápido após o ápice, encontramos o platô — aquela linha reta e alta que se recusa a cair, onde a morte se torna uma constante diária, banalizada pelo tempo e pela política.
Este episódio personifica uma falha moral profunda. A essência da moralidade reside na forma como nossas ações e omissões afetam o bem-estar alheio. A inação, motivada por uma aritmética fantasiosa e defendida por gritos nervosos, não foi um erro neutro; foi uma escolha que resultou em danos irreparáveis. Ali, entre caracteres e gráficos, o que estava em jogo era a clareza sobre o abismo. O tempo provou que os "poucos milhares" eram, na verdade, uma multidão de ausências, confirmando que negar a ciência quando a vida do outro está em jogo é, antes de tudo, um ato de profunda imoralidade social, revelando um lado sombrio da retórica pseudocientífica: o uso de números reais para construir conclusões fictícias.
As bases do erro
1. A Armadilha da Taxa de Letalidade
O argumento de figuras como “tal médico ex-ministro” era uma perversão matemática. Ao focar apenas na "baixa letalidade" (estimada inicialmente entre 0,5% e 2%), eles omitiam o fator multiplicador: o contágio em massa. Se a estratégia fosse deixar o vírus circular, a base de cálculo seria a população inteira. 1% de um país é uma catástrofe; chamar isso de "poucos milhares" não foi um erro de cálculo, foi uma fraude retórica para justificar a inação.
Aqui existe a obviedade (maltusiana) de que a progressão exponencial ultrapassa rapidamente uma progressão linear.
Se um vírus mata "apenas" 1% dos infectados, mas a estratégia de "imunidade de rebanho por contágio" (defendida por esses grupos) permite que 100 milhões de brasileiros se infectem, a matemática é implacável: estamos falando de 1 milhão de mortos. A tentativa de transformar uma catástrofe humanitária em "poucos milhares" exigia que se ignorasse a velocidade do contágio e a ausência de vacinas.
2. Modelagem Humana vs. Negacionismo Político
Enquanto o negacionismo tentava "estancar" a realidade com frases de efeito, o esforço cidadão tentava antecipar o tamanho do abismo. Descrevemos um modelo intuitivo e honesto: observar a curva de mortos por tempo e projetar sua descida.
A diferença ética é clara: quem modela e erra pelo "platô" está tentando salvar vidas através da previsão. Quem nega a base da conta (o contágio total) está condenando pessoas através da falsa segurança.
3. A Moralidade do Erro e o Peso do Platô
Como seguidamente pontuamos em nossas reflexões, a moralidade reside nos efeitos das nossas ações. O modelo que até ainda não tinha assistido o platô, mesmo que imperfeito, exigia ação. O modelo que previa "poucos milhares" justificava o cruzamento de braços. O platô da COVID-19 no Brasil foi o monumento fúnebre dessa subestimação: um período prolongado de perdas que poderia ter sido encurtado se a aritmética do início não tivesse sido contaminada pela ideologia.
O nosso modelo
O tratamento do “modelo” durante o período da pandemia, e o histórico de certos fatos e dados pode ser lido aqui:
Um modelo LN para a epidemia de COVID-19 no Brasil - docs.google.com
Destacamos nesse nosso trabalho:
“Questão importante: sem uma medicação concludentemente eficaz ou vacinação, deve ficar bem claro que as infecções continuam, os mortos continuarão a se acumular e a área da curva é a variável chave, que quanto mais tempo passar, mais aproximará a amostra que temos da população.
Observação importantíssima: uma pista clara que o Brasil ainda se encontra numa fase de crescimento exponencial e a clara redução dos tempos para cada ‘degrau’ de mil mortos a mais, que se aproximava em 03/05/2020 das 48 horas, e infelizmente, os quadros apontados pelos especialistas de avanços dos contágios entre os mais altos do mundo. Já em 13/05/2020, o ritmo já se estabelece num piso diário acima de 800 mortos.”
A Ciência como Antídoto
O Modelo “LN” e o Embate contra a Desinformação
Muitas vezes, o negacionismo não se apresenta como uma negação pura da realidade, mas como uma distorção técnica feita para anestesiar a opinião pública. Durante o auge das incertezas da pandemia de COVID-19 em 2020, vivenciamos isso de perto ao confrontar previsões que, sob um manto de "autoridade", prometiam que o Brasil sofreria apenas "poucos milhares" de perdas. Devemos destacar aqui que ao meu lado, no Twitter, em mostrar esse erro, estava o economista Alexandre Schwartsman. Mas para combater essa aritmética do descaso, não bastava apenas indignação; era preciso método.
Apresentamos hoje o resgate do Modelo LN, um documento técnico que elaborei na época para projetar o avanço da tragédia com base em dados, e não em desejos políticos. Ao contrário das previsões estáticas que ignoravam o fator de escala, o Modelo LN (uma ironia - infelizmente - com Lacochambre-Naskochovisky) foi construído como um cálculo dinâmico, alimentado por uma amostra de países que somava 15% da população mundial.
Os pontos fundamentais que o modelo revelou na época:
O Xeque-Mate na Letalidade Isolada: Enquanto vozes como a do “médico ex-ministro” focavam na "baixa taxa de morte" do vírus para minimizar o perigo, o modelo demonstrou que, ao aplicarmos essa taxa sobre a população brasileira, o resultado seria catastrófico. A escala era o fator que o negacionismo tentava esconder.
O Ajuste pela Realidade Geográfica: O modelo não foi uma cópia cega de outros países. Ele utilizou "corretores" de área territorial, densidade populacional e a dinâmica de transporte entre cidades brasileiras para prever que a nossa curva seria mais longa e persistente que a europeia.
A Descoberta do Platô: Já em junho de 2020, o modelo identificou a "horizontalização" da curva — o terrível platô. Enquanto esperávamos uma descida rápida, a matemática honesta nos avisava que havíamos estacionado em um patamar de mortes diárias que se recusava a cair, elevando as estimativas para patamares que os negacionistas chamavam de "alarmistas".
A Ética da Previsão: No fechamento do documento, recorremos a Walter Benjamin para lembrar que "nem os mortos estarão seguros" se o inimigo (o negacionismo e a inação) vencer. Prever não era apenas um exercício matemático; era um dever moral de proteção ao outro.
Este resgate serve como lembrete de que a ciência honesta — aquela que admite erros e se ajusta aos fatos — é a única ferramenta capaz de desmascarar a retórica que, sob o pretexto de “salvar a economia”, acaba por sacrificar vidas. O Modelo LN foi a nossa trincheira contra o silêncio e o erro deliberado.

Nenhum comentário:
Postar um comentário