Entre a Fúria da Terra e o Labirinto do ID
Nosso ensaio "Alices no Planeta dos Vulcões", publicado em 23 de abril de 2010, estabelece uma jornada intelectual que desmantela, camada por camada, a zona de conforto da civilização moderna. O texto organiza-se em torno de uma tensão central: a ilusão humana confrontada pela esperança patológica. O texto não apenas descreve perigos, mas mapeia a arquitetura da nossa negação, dividindo-se entre o apocalipse geológico que nos cerca e a esquizofrenia biológica que ocultamos.
A Escala do Inevitável: Perigos que nos Rondam
No primeiro momento, somos confrontados com a Saturação da Tranquilidade. Vivemos sob o equívoco de que a estabilidade geológica é a norma, quando, na verdade, a relativa calma de nossa era é apenas um hiato estatístico. Ao classificar erupções modernas como meros "soluços" diante da magnitude de eventos como a grande catástrofe de Toba, a mais recente das megaerupções, e os diversos supervulcões, o texto destrói a percepção de segurança, revelando que a nossa sobrevivência é um acidente de tempo e não um mérito de controle.
Essa desconstrução estende-se à Soberba Científica. Através da imagem poderosa da impossibilidade de modelar as partículas de canela em uma xícara de café, somos lembrados de que a ciência é uma "criação limitada e imperfeita". Se não dominamos o ínfimo, a pretensão de prever ou controlar o infinito torna-se um delírio. Aqui, a Esperança Patológica surge como o grande cerne filosófico: um mal que se traveste de virtude para nos impedir de aceitar a tragédia e o limite do impossível — o Ad impossibilia nemo tenetur (“ninguém é obrigado ao impossível”).
O Labirinto do Eu: Perigos que Ocultamos
A análise torna-se ainda mais visceral ao mergulhar na Esquizofrenia Humana, a dualidade neurocientífica entre o cérebro superior/frontal — o berço das sinfonias e da ética — e o cérebro inferior/traseiro, onde residem a perversidade e os impulsos primários. Somos, como define o ensaio, "macaquinhos que embestaram de ser deuses", mas que ainda arrastam os monstros do ID pelos porões da mente.
Essa sombra é personificada no contraste entre Lewis Carroll e J.M. Barrie. Alice deixa de ser apenas um símbolo da inocência literária para tornar-se o objeto de uma intencionalidade sombria, revelando como a criatividade pode ser usada como máscara para desejos inaceitáveis. A moralidade, portanto, é apresentada não como uma verdade absoluta, mas como um mecanismo Freudiano frágil, uma construção da parte frontal do cérebro que tenta, muitas vezes sem sucesso, conter a brutalidade instintiva que nos define como primatas.
Conclusão: A Alice Realista
Ao final, o texto nos coloca diante de uma Alice que não caminha por espelhos, mas cruza rios de lava e enfrenta pastores malévolos. O verdadeiro "acordar" não é o despertar de um sonho, mas o reconhecimento de que a esperança é uma procrastinação. A maturidade reside em aceitar que o universo não possui um autor empenhado em nossa salvação, e que a nossa única dignidade reside em agir conscientemente apesar da tragédia iminente.
Alices no planeta dos vulcões
Uma jornada trágica entre os perigos que nos rondam e aqueles que ocultamos
https://francisco-scientiaestpotentia.blogspot.com/2010/04/alices-no-planeta-dos-vulcoes.html
Para estimular o debate
E você? Ainda se sente uma Alice perdida em devaneios ou está pronto para encarar os vulcões à sua frente? Qual dessas questões mais incomoda a sua visão de mundo hoje? Deixe seu comentário.
Eixo 1: A Ilusão de Controle e a Ciência
Até que ponto a nossa confiança na ciência é uma forma moderna de "esperança patológica"? Se não conseguimos modelar o comportamento da canela no café, como você se sente em relação à nossa pretensão de prever o destino do planeta?
A "Saturação da Tranquilidade" nos tornou arrogantes? O fato de termos vivido um século XX sem grandes eventos geológicos nos cegou para a nossa própria fragilidade?
Eixo 2: A Dualidade da Natureza Humana
Você concorda com a ideia de que somos "macaquinhos que embestaram de ser deuses"? Como você percebe essa tensão entre o nosso "cérebro frontal" (arte e ética) e o "cérebro traseiro" (instinto e brutalidade) no seu dia a dia?
A moralidade é apenas um "estratagema" frágil? Se a moralidade é uma construção Freudiana para conter o ID, o que acontece quando os nossos "pastores" e líderes mostram os seus próprios monstros internos?
Eixo 3: Esperança vs. Realismo
A esperança é uma virtude ou uma forma de procrastinação? Você acredita que "aceitar a tragédia" nos tornaria mais propensos à ação ou nos levaria ao niilismo?
"Ad impossibilia nemo tenetur" (Ninguém é obrigado ao impossível): Reconhecer as nossas limitações geológicas e biológicas é um ato de libertação ou de derrota?
Eixo 4: A Alice Literária e a Realidade
O caso de Lewis Carroll muda a sua percepção sobre a obra Alice no País das Maravilhas? A arte deve ser separada da moralidade do autor, ou a "sombra" de Carroll é parte indissociável da experiência estética?

Nenhum comentário:
Postar um comentário