sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O Limite de Probabilidade Universal

Onde a Matemática Encontra o Design Inteligente (e fracassa)

O conceito de Limite de Probabilidade Universal (LPU), proposto por William A. Dembski, surge como uma tentativa de estabelecer uma fronteira intransponível para o acaso. Em termos simples, o LPU é um "grau de improbabilidade" tão extremo que, uma vez ultrapassado, tornaria irracional atribuir um evento à mera sorte, independentemente de quantos recursos o universo tenha à disposição.

Resumo

O "Cadeado Probabilístico" de Dembski sugere que o universo é uma mão finita tentando adivinhar uma senha infinita. No entanto, para a ciência moderna, a vida não está tentando adivinhar uma senha; ela está participando de um sistema de feedback onde a própria natureza "anota" os números corretos à medida que eles aparecem, tornando o impossível, inevitável.




O conceito


Traduzido de: en.wikipedia.org - Universal probability bound


Um limite de probabilidade universal é um limite probabilístico cuja existência é afirmada por William A. Dembski e é usado por ele em suas obras promovendo design inteligente. É definido como


Um grau de improbabilidade abaixo do qual um evento específico dessa probabilidade não pode razoavelmente ser atribuído ao risco, independentemente de quaisquer recursos probabilísticos do universo conhecido serem tidos em conta.


Dembski afirma que se pode efetivamente estimar um valor positivo que é um limite de probabilidade universal. A existência de tal limite implicaria que certos tipos de eventos aleatórios cuja probabilidade esteja abaixo desse valor podem assumir-se que não ocorreram no universo observável, dados os recursos disponíveis em toda a história do universo observável. Contrapositivamente, Dembski usa o limiar para argumentar que a ocorrência de certos eventos não pode ser atribuída ao acaso sozinha. O limite de probabilidade universal é então usado para argumentar contra a evolução aleatória. No entanto, a evolução não se baseia apenas em eventos aleatórios (deriva genética), mas também na seleção natural.


A ideia de que os eventos com probabilidades fantasticamente pequenas, mas positivas, são efetivamente insignificantes foi discutido pelo matemático francês Émile Borel principalmente no contexto da cosmologia e da mecânica estatística. No entanto, não existe uma base científica amplamente aceita para afirmar que certos valores positivos são pontos de corte universais para a negligência efetiva dos eventos. Borel, em particular, teve o cuidado de ressaltar que a negligência era relativa a um modelo de probabilidade para um sistema físico específico. 


Dembski apela à prática criptográfica em apoio ao conceito de probabilidade universal vinculada, observando que os criptógrafos às vezes compararam a segurança dos algoritmos de criptografia contra ataques de força bruta pela probabilidade de sucesso de um adversário utilizando recursos computacionais delimitados por restrições físicas muito grandes. Um exemplo dessa restrição pode ser obtido, por exemplo, assumindo que cada átomo no universo observável é um computador de um determinado tipo e esses computadores estão executando e testando todas as chaves possíveis. No entanto, as medidas universais de segurança são usadas com muito menos frequência que as assintóticas. O fato de que um espaço de chaves é muito grande é inútil se o algoritmo criptográfico usado tiver vulnerabilidades que o tornem suscetível a outros tipos de ataques. 


O Cálculo Original: O Limite da Realidade

Dembski tentou calcular o número máximo de eventos físicos que poderiam ter ocorrido no universo desde o Big Bang. A lógica é: se o universo não teve "tempo" ou "espaço" suficiente para tentar todas as combinações, certas coisas não poderiam acontecer por acaso.

Ele multiplicou três números gigantescos:

  • 1080 (Partículas): Quantas coisas existem para interagir (átomos/partículas no universo observável).

  • 1045 (Velocidade): O quão rápido as coisas podem mudar (baseado no tempo de Planck, o menor intervalo de tempo físico).

  • 1025 (Tempo): Uma estimativa generosa da idade do universo (cerca de um bilhão de vezes a idade atual, para ser "seguro").

O resultado: 10150

Isso significa que, em toda a história do universo, só houve "espaço" para 10150 eventos. Se a chance de uma proteína se formar sozinha for de 1 em 10200, Dembski diria que o universo "esgotou suas fichas" e não conseguiu completar a jogada.

Nossos complementos e criticismos

A Refinação (2005): O Limite Computacional

Mais tarde, ele mudou o foco para a informação. Ele pegou emprestado o trabalho de Seth Lloyd sobre a capacidade de processamento do universo:

  • 10120 operações lógicas: O máximo que o universo consegue "computar".

  • Complexidade de Rank: Um valor variável dependendo do que está sendo analisado.

Se o "custo" de informação para gerar um sistema biológico excede a capacidade de processamento total do universo, Dembski conclui que o acaso está descartado.


Traduzindo a "Confusão" (Críticas Comuns)

Para entender por que isso é polêmico e muitas vezes chamado de "confusão", precisamos olhar para o que a ciência diz:

  • O Alvo Móvel: Dembski assume que a vida precisa "acertar o alvo" de primeira (como um cadeado de 100 dígitos que você precisa abrir na primeira tentativa). A biologia funciona por seleção cumulativa: você não precisa acertar os 100 dígitos de uma vez; se acertar um, ele fica "preso" e você só precisa tentar o próximo. Isso destrói o cálculo de 10150.

  • Eventos em Paralelo: O cálculo assume que os eventos são lineares ou limitados pela contagem de partículas, mas processos químicos ocorrem simultaneamente em trilhões de locais ao mesmo tempo, o que torna a probabilidade estatística muito mais complexa do que uma multiplicação simples de três fatores.

  • A Falácia da Inércia Probabilística e a Omissão de Mecanismos: Um dos erros fundamentais na tese de Dembski é a presunção de que a "inação" estatística — a baixa probabilidade de um evento ocorrer por acaso — é prova automática de um design inteligente. Críticos apontam que Dembski comete a falácia do falso dilema: ele assume que, se o acaso puro (deriva genética) não pode explicar um fenômeno dentro do limite de 10150, então a única alternativa restante é a intervenção externa. 

Essa abordagem falha ao ignorar mecanismos determinísticos e sistemas de feedback, como as leis da física e a seleção natural, que não são aleatórios. Ao tratar a evolução como um sistema estático que "espera pela sorte", Dembski ignora que a natureza possui processos dinâmicos que filtram resultados e acumulam informações. Portanto, o limite de probabilidade universal acaba sendo um cálculo de um cenário que a ciência moderna sequer defende: o da criação espontânea e puramente acidental de sistemas complexos.


Em resumo:

Dembski criou um "Cadeado Probabilístico". Ele diz que o universo é uma mão que só consegue tentar um número X de combinações. Se a combinação da vida for maior que X, ele afirma que alguém deve ter vindo e aberto o cadeado para nós.


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