segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Acendam-se futuras lanternas - II

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Retornemos aos nossos problemas, que são na verdade como se apresentam as leis de Clarke e suas relações com aquilo que o anel dos Lanternas Verdes seria capaz de fazer.

Juro que tentei resistir, embora sirva para citar que talvez algum dia conheçamos espécies inteligentes (e certamente não tão atrapalhadas) que assemelhe-se a cada um dos personagens dos Looney Tunes.


I. Quando um cientista distinto e experiente diz que algo é possível, é quase certeza que tem razão. Quando ele diz que algo é impossível, ele está muito provavelmente errado.

Obviamente quando dizemos que com magnetismo se pode levitar até um navio, basta lembrar os enormes guindastes de ferros-velhos, ou os maglevs que sabemos que o magnetismo permite elevar uma carga imensa.

Mas se eu disser que existe possibilidade no futuro de anularmos a gravidade, você diria sem titubear que estou enganado?

Mas percebamos que é mais fácil aceitar a manipulação de um campo do que o surgimento de algo sólido a partir de energia (as proezas dos anéis dos Lanternas Verdes).

Porém, vejamos que já temos hoje o conhecimento que partículas "de energia" (como os fótons - mas veja as aspas, estas e as próximas, e as procure entender) são "tranformáveis" em partículas de matéria (a produção de par). teremos aí um elétron e sua anti-partícula, o pósitron, por exemplo, que se "unidos" voltarão a resultar num fóton (a anulação matéria-anti-matéria). 



Mas poderá agora você me dizer que no futuro poderemos tomar as partículas que produzem massa "trivial" e não aproveitarmos a anti-matéria como fonte de energia neste processo?

Nos descolamentos à altíssimas velocidades, as partículas que estão "vindo" no espaço e com a quais nossas naves  "enfrentemos", não teriam agora alta energia em relação a nós e não produziriam enorme quantidade de produção de pares (tal como insetos que nos atingem num para-brisa de automóvel, tal qual o ar entrando nas nossas turbinas)?

Não poderíamos criar nanomáquinas tão pequenas que em conjunto obedecessem aos comandos de um acoplamento aos nosso cérebros (e talvez colocados nos dedos) e que aproveitassem permanentemente este gerar de matéria que a natureza propicia?

Ou talvez do "vácuo quântico"?

As possibilidades são na prática infinitas, e não teria de forma alguma coragem de dizer que tais coisas sejam "impossíveis".

Se eu fosse teletransportado para a cabine dos operadores de "telégrafo sem fio" do Titanic e dissesse que uns 90 anos no futuro estaria falando de um telefone do tamanho de uma pequena barra de chocolate com um de seus descendentes, estes me julgariam um anjo que vinha lhes trazer uma redentora messagem de esperança? (Ou um louco em delírios perto da morte com roupas esquisitas.)


Devo preparar o leitor para que nas próximas linhas citarei o lamentável "filme documentário" 'Quem somos nós?'.

Uma coisa que ele apresenta com alguma fidelidade é que as coisas físicas não se tocam, exatamente porque partículas subatômicas não tem fronteiras plenamente definidas (em suma, não há o sólido euclidiano na natureza). O que existe é o "confronto" de elétrons repelindo elétrons, por meio de fótons da força eletromagnética, por exemplo, na matéria trivial, e neste caso quando nossos dedos  "tocam" uma bola de basquete, na verdade sempre estamos pressionando uma repulsão entre os átomos de nossos dedos e da bola.

Para o vídeo deste fenômeno basal e banal na natureza, recomendo ver a parte do filme (uma das poucas que realmente é séria em Quem Somos Nós ? parte 03 / 12 a 4m19s).

Para entender com mais detalhes a questão da matéria trivial como sendo algo rarefeito, recomendo ler minha blogagem onde apresento "a joaninha no centro do Maracanã".

Para uma escala de densidades e pressões nos corpos celestes (pois só os maiores permitem as pressões e densidades que implicam em não ser mais os fótons que sustentam o "não se tocar" de átomos), recomendo minha outra blogagem com "a joaninha na banheira": Das moléculas aos buracos negros - Uma revista à escala da massa e ao processo de agregação dos corpos celestes.

Aliás o "tocar" é a repulsão de qualquer coisa mesmo na mais densa matéria, e quando chegamos à densidade de estrelas anãs brancas, o que resta é a resistência da repulsão daquela pasta de elétrons e núcleos). Adiante (na pressão e densidade), este "não se tocar" se dará por nêutrons com seus agitados quarks, posteriormente, pelo menos em conjecturas, pelos quarks em alo similar a um fluido, e depois, a Física nada mais pode afirmar.

Uma de minhas mais robustas contribuições românticas na Wikipédia http://pt.wikipedia.org/wiki/Mat%C3%A9ria_degenerada

Mas retornemos ao anel dos lanternas verdes...

Se a própria matéria trivial é a "confrontação" de fótons causando reposição, e assim que empurramos, moldamos e até pulverizamos coisas, como poderia se afirmar que o domínio destes mesmo fótons não vá empurrar, modelar e até pulverizar coisas?

Se as partículas mássicas surgem no vácuo a partir de luz, e são partículas mássicas que formam as coisas que empurramos, como não poderia a luz sob controle moldá-las, e numa avançadíssima tecnologia até pulverizá-la. Por isso, que me parece embora extremamente distante mas não um absurdo físico, que não posso afirmar que o anel dos lanternas seja um absurdo.

Os estranhos ao nosso julgamento inicial orbitais eletrônicos, muito diferentes do que poderia ser pensado como  algo similar a planetas ao redor de uma estrela.


A confiança que existia nos finais do século XIX sobre a capacidade explicativa daFísica era enorme. William Thompson, mais tarde feito Lord Kelvin, chegou ao ponto de declarar que a Fisíca lhe parecia um conjunto harmonioso e, no essencial, acabado, não vendo no horizonte senão duas núvens negras; o resultado negativo da experiência de Michelson-Morley e a catástrofe ultra-violeta da lei de Raleigh-Jeans. - flipflop.no.sapo.pt

There is nothing new to be discovered in physics now. All that remains is more and more precise measurement. (Não há coisa alguma nova a ser descoberta em física agora. Tudo que resta é medição mais e mais precisa.) - Frase atribuída de maneira duvidosa à Kelvin, provavelmente oriunda de "An eminent physicist remarked that the future truths of physical science are to be looked for in the sixth place of decimals." (Um físico eminente destacou que as futuras verdades da ciência física são olhar-se na sexta casa de decimais)Albert A. Michelson


O próprio Isaac Asimov criou um corolário para a primeira lei de Clarke: "Se o público leigo apóia com fervor uma idéia dita impossível pelo tal cientista distinto e de idade avançada, este último está provavelmente certo." ("Asimov's Corollary", The Magazine of Fantasy and Science Fiction, Fev. 1977) - Wikipédia

Leitura recomendada:

  • Vários pontos da Física de ponta, tanto em partículas quanto em Cosmologia, incluindo o "vácuo quântico": Quantum Vacuum - horizons-2000.org
  • White Dwarfs - www.ezizka.net - Para um entendimento bem agradável de como se formam as anãs brancas e suas propriedades (que são na verdade as propriedades da matéria degenerada que as compõe), inclusive, a estranha ao nosso mundo que quando mais massivas, menores e mais densas são.


  • Algo sério e bem escrito sobre estrelas, incluindo anãs brancas e a história de seu descobrimento: NASCIMENTO, VIDA E MORTE DAS ESTRELAS - www.cdcc.usp.br        


Obs.: Separei as leis de Clarke com o mesmo motivo de que novelas televisivas brasileiras são uma enorme enrolação quase infindável em capítulos de quase uma hora - fazer textos mais curtos e com isto manter você leitor entre duas situações; ter textos mais compactos e digeríveis e manter-se vindo aqui lê-los.

Como sou um democrata, aceito reclamações e sugestões.

O que é escrito sem esforço em geral é lido sem prazer. - Samuel Johnson



Extras


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sábado, 20 de agosto de 2011

Acendam-se futuras lanternas - I

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Uma questão interessante em todo o universo ficcional de Star Trek é o que eu chamaria de "parapsicologia moderada". Um exemplo é o "toque vulcano": a interação de mentes através de tato. Deste, decorre até o "carregamento" da mente de Spock no dr. McCoy, extrema ironia.Um que outro personagem ao longo das séries com dotes de telecinese, telepatia, etc, mas atrelada a um imenso desenvolvimento tecnológico e evolutivo, não a dotes em si disto, como seria em simples humanos e outras espécies de mesma, digamos, idade. Quando nós e similares a nós estes poderes possuem, é em função de receberem tal capacidade de outrem muito mais poderoso ou por exóticas mutações aos moldes dos acidentes de Stan Lee, que disto usou em doses cavalares no universo Marvel.

A imagem simples e poderosa, quase uma letra de um alfabeto místico, do logo de Lanterna Verde.


Abordando por outra via, o que quero dizer é que simpatizo com Star Trek por não acrescentar personagens que derrubam naves com simples pensar, como se vê no universo de Star Wars - destacadamente nos jogos e seus trailers - e em diversas outros cenários de ficção científica. Ninguém é mais que humano (ou algo similar). Se sangra, morre, já nos ensinava o Major Alan "Dutch" Schaeffer, Arnold Schwarzenegger, em O Predator. Não há superforças, teletransportes produzidos pelo próprio cérebro. Seres vivos sangram, sofrem, machucam-se, falham, erram, morrem como morriam marinheiros ao atravessar os oceanos por séculos, aliás, o que Star Trek homenageia de maneira permanente.

Mas, entremeado nas peripécias da moralista tripulação de Star Trek, sempre houveram encontros que lembraram a origem de ficção "hard core" de onde foi esteticamente nitidamente inspirada, Planeta Proibido e seu avançado povo extinto, os Krell. Sempre houve as civilizações/seres que por meio de avançada tecnologia, conseguem o que para nós parece mágica (e para alguns, apenas atos de uma divindade tal a que afirmam ter criado o "tudo"): solidificar coisas (matéria) a partir de energia (ou algo igualmente longe da visão e do tato, como neutrinos, como em Solaris). Novamente em Star Trek, a própria tecnologia de holodeck da "Nova Geração" já dá passos humanos (e federados) nesta direção.

Aqui, evidentemente pelo título, quero chegar ao universo ficcional de Lanterna Verde. Desde que o conheci, dezenas de anos atrás, sempre foi meu super-herói favorito. Não é o extraterrestre que ganhou superpoderes e invulnerabilidade pelo nossa estrela amarelo e sua densidade molecular altíssima. Não é herdeiro riquíssimo e sua saga de justiça e vigilância contra o crime, nem mesmo o industrial que de mesma maneira, cria armaduras de alta tecnologia. Não é nem mesmo vítima de um acidente radioativo exótico, nem mesmo fruto de um deslize feliz da genética. Lanterna Verde é o sujeito comum, apenas intrépido e destemido, que na redenção de sua vidinha um tanto desregrada e sem grandes responsabilidades, é escolhido para ser o primeiro de nós a usar uma tecnologia que nos parece mágica sobre toda análise. Uma tecnologia tão fantástica que é colocável num pequeno anel, e deste, tudo se pode produzir.

Independentemente de ser alimentado à distância , e em algumas versões de seu mundo ficcional, com apenas comando de voz, seu carregador surge de um universo (hiperespaço?) paralelo onde fica guardado e carrega-se o anel como nós carregamos nosso celular ligando-o num carregador e na tomada. Não necessita de máquina colossal, como em o Planeta Proibido, nem da nave gigantesca de V'Ger, de Star Trek - The Motion Picture. Possui dados, possui sensores de defesa, cria até a "roupa" que seu usuário necessita. Dispensa naves para voar pelo espaço. Depende em limites apenas da imaginação de quem o use. Destaquemos: basta o anel.



É tão poderoso que limita até os atos maus de seu usuário, e o filme já mostra isto bem claro, e limitaria os "monstros do IDI", que foi a desgraça dos Krell, de Planeta Proibido.

Somemos na nossa apologia ao 'Lanterna': não respira de baixo d'água e se comunica com peixes (quem não vai rir com a ironia que foi feita em Big Bang Theory sobre Aquaman?), não é um personagem da mitologia grega ou nórdica. É onde o humano comum encontra a tecnologia extrema, que se funde com o que poderíamos chamar de divindade. É onde o mundo sem grandes pretensões intelectuais (aliás, quase nenhuma) dos quadrinhos de super-heróis encontra a ficção mais "hard core", ainda que na superfície, pincelada com as cores típicas da adolescência que domina as ideias destes quadrinhos.


Por estas razões e muitas outras que poderia detalhar, Lanterna Verde permite, em minha modesta opinião, vôos muito mais altos de criação em ficção científica que qualquer outro super-herói. - Perdão,  não resisti ao trocadilho. - Permite, inclusive, a construção de ficção científica "pura", independente de vilões, sonhos de dominar mundos ou mesmo destruí-los. E é claro, é visualmente mais elegante que capas, cuecas por fora das calças, colãs amarelos ou mesmo combinações berrantes de cores passando dos cabelos até as botas. Até sua logotipia é feliz e icônica, como vemos no topo desta blogagem.






Esqueçamos o mundo piegas e um tanto infantilóide típico dos personagens clássicos da DC (com exceção, fique bem claro, do "faca na bota" ao natural que é Batman), esqueçamos que o universo é um tanto maior só em supergrupos de galáxias para bastarem uns poucos milhares de indivíduos para policiá-lo. Só nas nossas cercanias já contamos planetas às centenas, e a recém estamos observando e detectando o beco estreito e escuro em que vivemos e morremos, tal qual os pais de Bruce Wayne. Esqueçamos as distâncias, esqueçamos as implicações da Relatividade, e até mesmo de que em velocidades imensas e impossíveis, simples cálculos de v=d/t .'. t=d/v .'. d=v*t  implicariam em impossibilidades de tais "estórias" demandarem séculos para seus "fatos" (tema que foi sempre muito bem cuidado pelo universo um tanto ópera de Perry Rhodan, com milhares de anos de enredos apenas focado em nossa galáxia).


Pulemos, é claro, a derrapada misticóide de "energia da vontade", "energia do medo", e outras bobagens típicas. Claro que poderia escrever, e o pretendo, longamente sobre a questão "vontade", que é ligada ao quase religioso "livre-arbítrio", à filosófica "liberdade" e sempre relacionada, questão difícil, aos físicos "aleatoriedade e indeterminismo". 


Pulemos, e de preferência esqueçamos, conflitos entre cores, seja verde, amarela ou qual for, pois o que nos interessará será, por exemplo, fótons e sua capacidade de transformarem-se em partículas "sólidas".


Pensemos apenas no que pode ser possível, que resumiria numa pergunta:


Podemos chegar (e pode alguém ou algo chegar) a ter tecnologia tão avançada que nos permita a partir de energia, seja na forma que for, produzirmos qualquer objeto que imaginemos?


Assim, chegamos onde pretendia, que são as leis de Clarke:

I. Quando um cientista distinto e experiente diz que algo é possível, é quase certeza que tem razão. Quando ele diz que algo é impossível, ele está muito provavelmente errado.


II. O único caminho para desvendar os limites do possível é aventurar-se um pouco além dele, adentrando o impossível.


III. Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia.



Então, que se acendam futuras lanternas, e se não encontramos ainda homens honestos e íntegros, como Diógenes de Sínope em vão parecia buscar, iluminemos as implicações disto, e no que os poderes dos anéis, lanternas e bateria dos Guardiões podem servir como modelo de explicar tais conjecturas.

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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Pestes

Leia com atenção leitor: somos a mais devastadora peste que este planeta já produziu.[NOTA]

A começar, pois nenhuma outra contou com acréscimo até de fissão nuclear como fonte de energia em seu substrato. Lembremos também que não somos uma espécie que "substituiu" outras. Somos a continuidade de espécies que sucederam-se, modificaram-se continuamente desde L.U.C.A., assim como todas as que nos cercam e que inclusive colaboramos com a extinção. Somos uma praga persistente, e agora, tremendamente poderosa.

Mas sempre tememos novas e antigas pragas, como recentemente, a "Febre Mexicana". Reafirmo: somos uma praga tão resistente que para desespero de alguns criacionistas, sobrevivi ao H1N1, e com não mais de 3 dias de uma suportável febre, um bocado de dores no corpo e um tanto de inconvenientes náuseas.

Claro que com pragas poderosas, referindo-se ao número de mortos, nos dias de hoje (e em qualquer tempo) teremos de considerar o fator população. A epidemia de gripe de 1918 teria infectado mais de 1 bilhão de pessoas, metade da população mundial naquela época. A população mundial atual totaliza quase 7 bilhões de pessoas (bastará outubro para passarmos deste número). Logo, na mesma proporção, teríamos um número muito maior de doentes e mortos. Mas não acredito que poderia ser muito a mais que isso, e adiante explicarei os motivos desta minha fé otimista.

Neste artigo tratarei de três filmes e temas relacionados, para abordar esta ideia.

Antes, um lembrete útil, há muito guardado: Antibióticos não ajudam em coisa alguma diretamente contra as viroses, mas não para infecções oportunistas que virão com as infecções por vírus. Nem pesquisarei números, mas mais gente morre de pneumonia, que é causada por bactérias, decorrentes de infecções em organismos debilitados por infecções por vírus, como gripes e resfriados, do que pelas próprias gripes e resfriados. Mantenha sempre seu sistema imunológico "para cima", ele fará com os vírus muito boa parte do serviço.

Epidemia (Outbreak, 1995 - IMDB)

Convenhamos: qual parte do planeta ainda não empestamos, e mesmo em nossos povos mais primitivos (aqui, com o sentido de fora do processo civilizatório, indústria e tecnologia) não habitou exatamente as mais profundas florestas?

Com quais dos animais do mundo, especialmente primatas, não mantém contato há milênios?

Então, como raios vai por um surto, começar a morrer exatamente numa destas populações lá há séculos?

Evidente que um vírus agressivo como o Ebola ou o Hanta seja extremamente letal. Mas percebamos que mesmo um Ebola modificado, como o ficcional "Motaba" se existente, já teria se disseminado por países como o Congo (ou Zaire, como queiram), ou mesmo pela África inteira, e aí, caro leitor, enfrentaria há séculos o que a humanidade produziu de mais eficiente para enfrentar (e enfrentou, em sua ancestralidade, por milhões e até bilhões de anos) estas pragas: sua diversidade. Não somos guepardos que por nossa própria ação são praticamente clones uns dos outros. Mesmo na áfrica possuímos etnias e subetnias tão diversas que uma virose letal à uma tribo ou povo inteira poderia apenas ser uma febre inconveniente para a tribo vizinha da primeira dizimada.


Mesmo grupos familiares dentro de um grupo étnico podem apresentar genética que suporte esta ou aquela virose. Mesmo questões menores, como o ordenhar vacas, poupou humanos ao longo da história de moléstias terríveis como a varíola, e aí está meu pai para mostrar isso, ainda em pleno século vinte, e mesmo sem a suave varíola bovina para uma vacinação natural e preparar sistemas imunológicos para apresentar uma limitada ainda que útil resistência, nosso indígenas, por toda a América, resistiram firmes e fortes à milhares de agentes infectantes trazidos por transmissores, que aqui podemos também chamar de espanhóis, portugueses, franceses, holandeses, ingleses e mais um tanto de africanos talvez com "Motabas" até já extintos, por serem predados implacavelmente por algum sistema imunológico oriundo de determinada genética que ainda não tinha enfrentado.

O ficional Motaba.

Claro que um vírus até inofensivo, como a "gripe das galinhas", pode mutar e se tornar a mais devastadora das gripes mexicanas ou gripe de um país logo ali na esquina. Mas também pelo mesmo motivo, a menininha frágil que nasceu há 300 anos, que mal sobreviveu a uma gripe fraca e teve tempo de produzir uma descendência que hoje chega aos milhares, que talvez em algum navio de escravos ou emigrantes foi levada para a América, onde morreu de uma outra infecção, também pode ter produzido um sistema imunológico que resistirá implacavelmente a esta mutada nova virose.

Assim, a aleatoriedade das mutações pode nos causar problemas, mas também é a fonte das soluções que nos perpetuarão.


O jogador de basquete Shaquille O’Neal e sua namorada, mostrando o quanto nossa espécie é diversa.


Vírus (Carriers, 2009 - IMDB)

Exemplo do que chamo de "meus preconceitos que viram pó". Quando vi sua resenha na barra de informações da TV por assinatura, julguei precipitadamente que se tratava de outra aventura dramaticóide de soluções fáceis como Epidemia. Trata-se de uma tragédia terrível razoavelmente bem contada, uma distopia com traços realistas. Mostra, de maneira chocante, o quanto podemos chegar a ser egoístas para proteger nossa própria vida, e o quanto teríamos de nos tornar "duros" (até com a mais íntima pessoa amada) para não propagar ainda mais a doença que nos aflige.



Não soma coisa alguma contra a argumentação que fiz acima, e igualmente, tem o mesmo erro fundamental: parte do pressuposto que nenhum sistema imunológico humano sobreviveu ao longo destes milhões de anos a todas as variações dos vírus que nos atacaram.

Pelo que já vi, o em breve a ser lançado Contagion envereda por uma infecção cujo principal fator é determinada proteína. O mesmo argumento teria eu de repetir: em milhões de anos, qual a variação que ainda não testou a aleatoriedade da natureza contra nós, que ainda não respondemos com aleatoriedade de igual impacto?

Cena de Contagion (trailer no YouTube).


Eu sou a lenda (I Am Legend, 2007 - IMDB)

Aqui, a variação criada no vírus do sarampo combate o câncer (perdão, ficcionista-pálida, mas fora a possibilidade real disto, da qual não discordo de forma alguma, qual câncer?) ou mata humanos (nada anormal, mas vejamos novamente a limitação apresentada anteriormente) ou os transforma em zumbis terríveis, com algumas nuances de sensibilidade à luz de vampiros.

Pausa: é evidente que a novela original é um clássico entre os clássicos, mas não muda em coisa alguma a questão.

Qualquer variação numa estrutura de vírus será limitada pelas leis da bioquímica (que são leis da química). Esta variação não será algo de transcendente, exótico, às variações já feitas e testada pela cruel sobrevivência - leia-se a seleção natural, implacável, que já apresentei nas entrelinhas acima - e mais uma vez, a frágil menininha com mutação favorável a isto, pode ter surgido em nosso passado, e estar aí, entre nossos daqui a pouco 7 bilhões de macacos pelados a empestar o planeta.

Agora, meu lado cruel com as ficções que não escrevi: que raios de ser vivo, ainda mais uma modificação de um humano, passa a ter força descomunal, temperatura corporal de um periquito, batimentos cardíacos de um gato num coração do tamanho de um porco de pequeno a médio (como é o nosso) e sobrevive sem alimento abundante anos a fio, em população significativa, não levando bala a torto e direito dos mais fortes de nós (a começar pelo sistema imunológico que resistiu a pior das pragas imagináveis) e ainda mais sem racionalidade que se compare ao mais limitado intelectualmente de nossos trabalhadores braçais (que em minutos aprenderia a sentar bala num zumbi estúpido)?

Nem vou abordar que se cães infectados seriam, por qual motivo não o seriam (e no filme são) ratos, camundongos e ratazanas, e de suas abundantes pulgas, o doutor e seu cão perambulando dando tiros pelo Times Square em veados, também com roedores e cães aparentados, e tais veados são perdidos para leões, com cães também aparentados, todos eles com suas pulgas numa teia infindável de contagios cruzados?




Sim, sou um chato detalhista, e de tais erros, procuro apresentar conceitos em Biologia e seus derivados, e prepotentemente, do máximo de ciências que eu consiga.

Na verdade, não somos resistentes por sermos fortes, senão estaríamos dividindo a Terra com tigres-dentes-de-sabe, mas somos resistentes por sermos fortes num sentido muito mais amplo e profundo que simplesmente músculos, dentes, garras ou couraças. Somos fortes exatamente por nos comportarmos como uma peste. Aqui, o agente Smith, de Matrix, nos analisa muito melhor que as mais temerosas distopias nas quais somos vítimas, e não os autores de erros fatais.

Claro que a mensagem de prudência da novela e filme são válidos, mas julgo que tudo advém de nossa característica particular de sermos paranóicos com os fatores errados, aliás, característica que nos foi também selecionada. Expandimos nosso medo pessoal da morte. O apocalipse não advirá de pequenos organismos - deles pode vir inclusive nosso rico futuro, ou virá da toda poderosa natureza em sua maior escala, como o Sol ou algum asteróide ou cometa de bom tamanho e rota perigosa (recomendo Escolha a Catástrofe de Isaac Asimov), ou por ação do mais pernicioso dos seres que já habitou este planeta:

Nós.



"Teu iate de marfim, teu sapato de diamante, vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável". - Drummond

(Garimpado a partir de excelente texto de Lucas Echimenco)

A investigação das doenças progrediu de tal forma que é quase impossível encontrar alguém totalmente saudável. - Aldous Huxley


Nota: Para um panorama geral do quanto sustento esta afirmação, recomendo ler minhas blogagens:
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quarta-feira, 15 de junho de 2011

Mostre-me o universo... II

e digo que lá não está o deus cristão

2a Parte

Observação inicial: esta deveria ser a primeira blogagem desta série, mas como minha vida seguidamente envereda por uma "turbulência de atividades", resolvi publicar primeiramente a parte já razoavelmente bem acabada, e não "os primeiros capítulos". Espero a compreensão de todos e uma certa estima pela minha preocupação com dar-lhes algo interessante para ler, nessa era em que a informação já deveria ter sido entregue ontem.


Caiu nas minhas mãos, num saguão de aeroporto, o seguinte livro:

Fred Heeren; Mostre-me Deus - O que a mensagem do espaço nos diz a respeito de Deus

Uma requentada de O Universo Inteligente, de Fred Hoyle, e para variar, com os mesmo erros de sempre, só talvez, desta vez sem o autor ter direito a ganhar uma falácia com seu nome, coisa que no terreno das "ostras", corresponde a algo como o Nobel ou a medalha Fields.

Uma entrevista com o autor: Jornalista retoma em livro união entre ciência e fé.

Assim, sentemos a pancada nestes novos relógios de Paley, argumentos teleológicos, camada por camada, desde o mais amplo, do macro, até o mínimo.



Big Bang

Seguidamente argumentadores por teleologias aparentes pontam que o extremo equilíbrio das partículas na natureza, suas simetrias, e até mesmo cada um dos processos mínimos que produz a natureza desde seus mais distantes tempos - e aqui, não direi "iniciais", pois veremos que a coisa, em Cosmologia, é um tanto mais complexa - tem de ser ação de uma divindade consciente e legisladora dos comportamentos da natureza (e jamais Zeus ou Odin, nem mesmo Brahman, e sim, claro que o deus dos hebreus e o citado na Bíblia).

Noutras palavras, o Big Bang é aceito ou tem de ser negado, se ele não é o próprio teológico Fiat Lux.

Poucas coisas são mais tolas.

O Big Bang nem sequer é o fenômeno a partir do qual o universo inicia. O Big Bang é o processo no qual o universo está.

A divertida imagem que foi capa da SciAm, com artigo sobre as novas luzes com as quais a Mecânica Quântica tem iluminado a Cosmologia (Paul J. Steinhardt; The Inflation Debate - Is the theory at the heart of modern cosmology deeply flawed?; Scientific American; April 6, 2011).


Eu e você, você e as letras que lê agora em seu monitor estão num fluxo de espaço-tempo que se expande, e só se mantém na mesma distância, fora variações típicas dos "newtonianismos" (adorei este meu neologismo, juro!) como sua oscilação pela respiração, batimentos cardíacos e vibrações desde o alto volume das caixas de som do vizinho metaleiro até o caminhão que na avenida passa porque exatamente estes "newtonianismos" incluem o atrito de sua cadeira, a resistência de seus ossos e músculos e até a estrutura de seu prédio, junto com a Terra e a gravidade do sistema solar e da galáxia inteira e até do grupo de galáxias próximas; por outras vias de argumentos com os "maxwellianismos" (juro, não resisto a sito!) que nas forças eletromagnéticas mantém, na menor escala, junto com a gravidade, como diria um amigo físico, "toda a bagaça grudada".[Nota 1]

Isto tudo, pelo menos, por enquanto, vide Big Rip.

Podemos estar, na verdade, num processo cíclico, e nem mesmo, teríamos tempo (notem a ironia) para poder colocar uma divindade cristã que tome decisões e realize atos.

Portanto, não necessariamente necessitou existir uma luz que se faça, mas sim, existe uma luz que é, sempre foi, e sempre será, eternamente sendo absorvida e emitida por uma matéria que se modifica, se agrega e se transmuta, inclusive, em luz pura.

Mas claro que crentes achariam aí uma brecha para inserir sua divindade consciente, providente e em suma, infantil e primitiva.

Não devemos afirmar que a natureza possui suas simetrias (que nem são tanto simétricas assim, vide o modelo padrão) e suas peças funcionam conforme um habilidoso ao infinito e no ínfimo relojoeiro. Ao verificarmos o passado da matéria, que podemos averiguar até em laboratório nas colisões de alta energia, percebemos que as partículas apresentam um determinado "grau de sobrevivência", uma certa "seleção natural" (por favor, criacionistas: sem ter coisa alguma direta na expressão a ver com evolução biológica!), e teríamos a "era da matéria". Em sua cronologia em maior escala, o universo mostra ser o resíduo de um processo um tanto radical, que estaria agora em seu estado, digamos, mais ameno, de menos brutalidade de processos.

De certa maneira, diria que o "poço de lava" solidificou-se e agora cabe no buraco um pouco d'água formando uma poça, mas jamais afirmaria que existimos porque o buraco foi moldado por alguém.


Precipício antrópico

Não, você não leu errado e tampouco eu tenha bebido.

A maior versão da falácias da poça d'água é dizer que o universo existe com as características que possui para que nós existirmos. É como a tola pulga que jura que o enorme mamute é fruto de milhões de anos de evolução para que sua vida seja vivida sugando sangue da enorme criatura, junto com sua "pulgar" (hoje estou terrível!) descendência.

Infelizmente, a própria escala da pulga para o elefante é enormemente mais favorável que a do ínfimo sistema solar e nosso planetinha para a escala do universo (1 milímetro para alguns metros contra umas 5 horas luz para uns 78 bilhões de anos luz).

O universo, se tivesse seguido determinadas constantes mais fundamentais, poderia apresentar hidrogênio apenas na forma de deutério, com um nêutron a mais, hélio poderia ser reativo, e nitrogênio formar cadeias, e habitarem formas de vida em planetas não com químicas diversas, mas com físicas nucleares diversas.

Recomendo: December 16, 2009; Fevereiro 2010.

E estes mundos hipotéticos podem existir agora, simultaneamente com o nosso universo de hidrogênios simples e hélios inertes, moléculas de nitrogênio que não gostam de companhia e cadeias de carbono formadas a menor oportunidade, até em cometas e no vácuo sob intensa radiação. Noutras palavras, como citado no artigo acima: universos com diferentes leis físicas, em comparação ao nosso, ainda podem ser habitáveis.

Logo, uma argumentação por um princípio antrópico dito "forte", teleológico, é apenas um raciocínio da tola pulga, e um precipício por onde escoa a também tola água da poça falaciosa.

Existimos, e somos formados pela matéria do universo, na sua apresentação atual resultante de evolução em composição e densidade, fruto de suas constantes mais fundamentais, e nada mais podemos afirmar.


Ao que tudo evidencia, o universo não é feito "de e para" a matéria trivial de nossas galáxias, da pulga até você e a Terra e as estrelas, mas sim, esta materia trivial nas galáxias são ilhotas de determinada natureza em meio a uma enorme trama, como digo, 'esponja', de matéria escura, esta sim, senhora em peso do universo, e sua modeladora em maior escala.


Sobre matéria escura, recomendo: 

Nota 1: Noutras palavras, a pulga e o mamute, você e as pedras que foram atiradas por nossos ancestrais do alto de um rochedo para matar o mamute (acabando com a vida da feliz e egocêntrica pulga), e o próprio rochedo, são mantidos na sua escala pelas forças eletromagnéticas, e todos estes são mantidos juntos à Terra e esta ao Sol e sistema solar, e este na Via Láctea, e as galáxias ao nosso grupo local, pela gravidade, todos os grupos galáticos se afastam na maior escala por motivos ainda misteriosos de acordo com a Relatividade Geral aplicada e talvez todos se afastem sempre aceleradamente pela ditar energia escura ou "quintessência", no jargão dos cosmólogos.

Matéria escura como uma teia que contém a matéria "trivial", nas galáxias (Stephen Battersby; Giant ropes of dark matter found in new sky survey; NewScientist).


Artigos clássicos sobre o tema Princípio Antrópico:
  • B.J. Carr and M.J. Rees, The Anthropic Principle and the Structure of the Physical World, Nature 278, 605-612 (1979).
  • G. Gale, The Anthropic Principle, in Scientific American, September, 1981, p.154-171.



Biopoese

Com a palavra, Francisco, O Herege, personagem de mim mesmo:

Eis que os crentes dirão, até em desespero, que são fruto das mãos habilidosas de seu relojoeiro, que gritarei: INCAPAZ!, pois não pode fazer uma máquina que operasse e ainda opere por si. E dirão que tal se deu desde o arranjo das mais primitivas e simples moléculas da vida, e eu direi: IMPOTENTE!, pois não podem suas perfeitas e magníficas peças por si reunirem-se para construir um relógio. E dirão que todos os passos dos processos da origem da vida tiveram a ação de seu senhor, e eu direi: ATRAPALHADO! pois miríades, Avogádricos números de moléculas pereceram, formaram estruturas que liquefizeram-se e não prospreraram, e o dito senhor teu deus tem que corrigir suas ações? Não podem suas formas vidas seguir seus caminhos sozinhas? 

Sois pois, macacos pelados que julgam-se divinos, fruto da sobrevivência ao hostil mundo e universo, e não houve sobre ti uma única ação inteligente, só o desesperado e desesperante  fluxo de energia tentando se manter.

Palavra do Herege, palavra da salvação, volta e meia, saindo em pleno bar com criacionistas no bufetão.


Serei arrogante.


Acredito que pelo lado técnico e com minha face mais séria, praticamente esgotei dentro das minhas capacidades o assunto aqui:

Vida, um produto do universo, não um milagre

E corroborações a estas questões somente tem nos levado a entender que a vida seja um "geologismo":

Clareando as nuvens sobre Gliese 581g

E quando menos se espera, mais sólidas evidências surgem que "as moléculas se bastam":


A origem da vida: pesquisadores criam molécula de RNA auto-replicante

A natureza realmente conspira, e nos comunica pela ciência, que de coisa alguma mais necessita para ter-nos produzido que ela mesma.

RNA ("Was It the Origin of Life"? Biologists Create Self-replicating RNA Molecule; April 12, 2011 - www.dailygalaxy.com)

A formação da vida, desde a complexação em moléculas polimerizantes até as "colaborantes" e a genética do DNA de L.U.C.A. (o primeiro ser vivo, ancestral universal), é tratada no campo intermediário entre a geologia e a química, e até envolvendo a astrofísica na própria composição do planeta em sua formação no sistema solar, e constitui o campo intermediário entre a mais pura bioquímica e a biologia, no que se chama biopoese.

A biopoese não é um milagre e não depende de ação sobrenatural alguma, pois as potencialidades de tal estão presentes na natureza mais íntima da matéria, incluindo, sua instabilidade e tendência sob condições à complexação, somadas e "sob a luz" da abundante energia das estrelas e da geologia (em menor proporção), no nosso caso, nosso Sol.

E alerto: a posição evolucionista teísta não é nem de perto relacionada diretamente ou substituível pelo Design Inteligente.

Evolucionistas teístas acreditam numa divindade criadora da natureza e ordenadora das leis físicas, um "deus sustentáculo das regras do mundo", mas cuja atuação "providente" é indetectável, e é exatamente a dos fenômenos naturais.

Nenhuma afirmação de um evolucionista teísta irá contra uma afirmação científica.

Design Inteligente afirma que determinados processos bioquímicos são tão complexos que não podem ser realizados pelos processos da evolução biológica tal como descrito na teoria da evolução, e "portanto" (um non sequitur) são devidos à uma intervenção de uma entidade sobrenatural inteligente. É um argumento teleológico requentado, na verdade, o "argumento do relojoeiro". Por n vias é uma tolice.

E por favor, crianças, aprendam:

NÃO HÁ FRONTEIRA ABSOLUTAMENTE DEFINÍVEL ENTRE O QUE SEJA NÃO VIDA E VIDA.

Vida é apenas um conjunto de moléculas colaborantes com fluxo de energia, em rota de organização e sistemas contrária à entropia do meio (mas não no sentido termodinâmico, e sim no de informação) pelo aproveitamento da energia livre de Gibbs.


Um dos meus primeiros textos de divulgação científica, do qual muito ainda me orgulho:


Este mundo, o mesmo de todos os seres, nenhum deus, nenhum homem o fez, mas era, é e será um fogo sempre vivo, acendendo-se em medidas e apagando-se em medidas. - Heráclito de Éfeso



Evolução e os  argumentos de Hume


Toda argumentação do tipo "o beija-flor foi planejado para seu bico alcançar a profunda flor" (ou tolice pegajosa similar) é estraçalhado até os átomos, a meu ver, pela brilhante argumentação de Hume. Com a palavra, a simples Wikipédia em português:


  1. Para o argumento teleológico funcionar, seria necessário que só nos pudessemos aperceber de ordem quando essa ordem resulta do desígnio (criação). Mas nós vemos "ordem" constantemente, resultante de processos presumivelmente sem consciência, como a geração e a vegetação. O desígnio (criação) diz apenas respeito a uma pequena parte da nossa experiência de "ordem" e "objectivo".
  2. O argumento do desígnio, mesmo que funcionasse, não poderia suportar uma robusta fé em Deus. Tudo o que se pode esperar é a conclusão de que a configuração do universo é o resultado de algum agente (ou agentes) moralmente ambíguo, possivelmente não inteligente, cujos métodos possuam alguma semelhança com a criação humana.
  3. Pelos próprios princípios do argumento teleológico, a ordem mental de Deus e a funcionalidade necessitam de explicação. Senão, podemos considerar a ordem do universo, etc, inexplicada.
  4. Muitas vezes, o que parece ser objectivo, onde parece que o objecto X tem o aspecto A por forma a assegurar o fim F, é melhor explicado pelo processo da filtragem: ou seja, o objecto X não existiria se não possuisse o aspecto A, e o fim F é apenas interessante para nós. Uma projeção humana de objectivos na natureza. Esta explicação mecânica da teleologia antecipou a seleção natural, e é de se observar que um século antes de Darwin.

Assim, nunca podemos dizer que somos projeto, e sim, podemos ser resultado final de uma filtragem (obviamente, a seleção natural). Somos apenas umas bactérias, uns vermes, uns peixes estranhos, uns colocadores de ovos, uns roedores modificados (perdão, amigos biólogos, o argumento é didático, não técnico!), um lêmures mais hábeis, uns grandes macacos carniceiros, todos, sempre, sobreviventes.

Mas desejando acreditar que tal total de processos, até que levaram a tola pulga do lanoso mamute, a ter a vida feliz que tem (esquecendo o pequeno detalhe que o fim da era glacial e mais um determinado macaco pelado e suas lanças acabaram com sua feliz vida, começando pelo pulguento mamute), é fruto da ação de sua divindade consciente, esquecendo que tal mente não se justifica (a começar porque mente é fruto do evolutivo, e não o que gera aprioristicamente o que quer que seja - o mais contundente argumento,na minha opinião, de "Deus, Um Delírio", de Dawkins), recomendaria inicialmente Cândido, de Voltaire, que acredito que basta, e em casos mais radicais de otimismo pela condição humana, achando que a divindade fez o mundo perfeito e belo para que o habitemos, recomendaria, até para conhecer o demais macacos pelados e seus atos por vontade, meia dúzia dos filósofos do século XIX, destacadamente, Nietzsche.

E após isto, ir, aos moldes do recomendado pelo próprio Cândido, cultivar o seu jardim.





Ver o que está bem diante do seu nariz exige luta constante. - George Orwell



Extras


Proporção Áurea

Segudamente, encontro citações de criacionistas e outros crentes (sim, usemos esta palavra), afirmando que a existência da proporção áurea, especialmente nas estruturas biológicas (como as pinhas, conchas, flores, etc), seria uma prova a presença/ação da divindade (qual?) nos processos naturais.



Assim, primeiro, mostremos num artiguinho singelo, que poderá mais adiante ser grandemente melhorado, que tal afirmação nem matematicamente é sólida.


Impossibilidade da Natureza Produzir a Proporção Áurea Exata



Observação: x^y é x elevado a potência y e SQR x é a raiz quadrada de x.

Pela proporção áurea, se a está para b  como a+b está para a, fazendo a=x e b=1, temos que (x+1)/x=x/1 .'. (x+1)/x=x, temos

x+1=x^2 .'. (x^2)-x-1=0 .'. x={1 +/- SQR [1-(4*1*-1)]}/2=[1 +/- SQR (1+4)]/2 = (1 +/- SQR 5)/2

Onde temos que a única solução útil é (1+SQR 5)/2.

Assim, temos que phi é relacionado à raíz quadrada de 5, então, nos parece simples, verificar que phi ser racional ou irracional depende da demonstração de que a raíz quadrada de 5 seja racional ou irracional.

Por Euclides, supomos SQR 5 como racional, logo, razão de dois inteiros:

SQR 5 = a/b, onde a e b são inteiros.

5=(a^2)/(b^2) .'. (b^2)=5/(a^2)

Como b é inteiro:

(b^2)=[(5*c)^2]/5=25*(c^2)/5 .'. (c^2)=(b^2)/5

Assim, c tendo de ser inteiro, leva a

(c^2)=[(5*d)^2]/5=25*(d^2)/5 .'. (d^2)=(c^2)/5

O que levaria a se necessitar de um número infinitamente divisível por 5, o que é absurdo (descréscimo infinito). Assim sendo, SQR 5 não pode ser racional, e consequentemente, phi é irracional.

Observação: existe uma demonstração por aritmética modular muito mais curta e elegante, mas julgo a de descenso infinito de Euclides mais facilmente entendível e suficiente para nossos propósitos.

Assim, como um número irracional exige infinitas partições, não poderá ser representado por estrutura natural alguma, que sempre chega a uma unidade mínima, no caso do biológico, a célula, no caso do atômico, como nos minerais - e também destes o biológico, os próprios átomos.

Logo, as sequências de Fibonacci das reproduções celulares, que produzem pentágonos, pentagramas e espirais de proporções áureas são aproximações de PHI e nunca PHI propriamente dito.




Fazendo uma pausa, um excelente vídeo sobre a sequência de Fibonacci e a proporção áurea aproximada na natureza:

Cristóbal Vila - Nature By Numbers



Noutras palavras, as reproduções celulares, produtoras de estruturas pela sequência de Fibonacci tendem a phi.


Leitura recomendada:

Mario Livio; Razao Áurea - A Historia De Fi; Editora Record, 2006.
Mario Livio; Deus é Matemático?; Editora Record, 2010.

Razão e Proporção - matematicamania.wordpress.com

Um importante conjunto de apontamentos sobre esta questão, de certa maneira, ainda mais destruidores que este meu texto:

Kentaro Mori; “Nature By Numbers”: Fibonacci e a matemática como descrição do mundo

Neste texto, é citado e linkado o excelente: Nature by numbers. The theory behind this movie

E o simplesmente devastador: Donald E. Simanek; Fibonacci Flim-Flam

E jogando a pá de cal: O Mito que não vai embora - Tradução de artigo do Devlin's Angle, de maio de 2007

Perdão, não resisti.


OdC novamente



Na blogagem anterior desta série, apenas citei e não tratei dos ataques do senhor OdC a Newton.

Por incrível que pareça, o que virá a seguir seria dispensável, pois a Relatividade, a Cosmologia a usando, burlaram n dos dilemas com que se defronta a Física lássica, e até determinados paradoxos, como o de Olbers.

A fonte do "colar que virá": Nas origens da burrice ocidental

...a não ser por referência a um observador vivo dotado do sentido da temporalidade. 

Falso. A existência dos fenômenos independe da existência dos seres vivos que o observem. Uma obviedade, pois a vida é posterior a todos os fenômenos que a levaram a existir. Uma afirmação de uma entidade consciente que seja um 'observador universal', pode ser uma fé até honesta, mas não é uma conclusão lógica (na verdade, uma petição de princípio). Até em termos mais simples e curtos, a vida existe no tempo, e não o tempo é produto da vida (o que me parece uma obviedade escandalosa!).

Antes, o dito senhor afirma uma coisa perigosa:

...a eternidade do movimento e a lei de inércia - sem parar por um instante sequer para notar que eram mutuamente contraditórios...

Não são, no sentido prático. São colocados como postulados para a construção de um modelo físico. São frutos de uma observação experimental (e não existe, na verdade, outro tipo em ciência). Se existe um momento no passado no qual iniciam-se todos os movimentos, trata-se de algo distante o suficiente para estarmos, hoje, num estado que aceite este modelo. Por similaridade, é óbvio que os raios de luz oriundos do Sol saem da esfera/disco de projeção que ele é. Logo, formam ângulos. Mas para a escala humana, mesmo da Terra inteira (6378 km de raio médio), são considerados paralelos, e com tal aproximação, calculou-se já no tempo dos gregos o diâmetro da Terra.

Aqui, devemos apontar que um dos muitos méritos de Newton é colocar uma Física desprovida da necessidade de uma divindade, rompendo com uma "causa primeira" ou "primeiro motor", substituindo-as por uma sequência infinita (hipoteticamente) de enventos naturais.


Atrevo-me  dizer que algo similar faz com o espaço, colocando-o como infinito (ou pelo menos, com uma escala tal que possa ser colocado como 'infinito no prático') e desconsiderando o problema que não possuia observação que apresentava um limite para tal. De certa maneira, por estas duas coisas, tanto no que seria o teológico (crença de uma divindade criadora sem evidências) quando no observacional (não apresenta hipóteses sobre o que não tem evidências), tenho a ousadia de dizer que Newton é um dos primeiros cientistas a colocar algo que hoje chamamos hoje de demarcação. Newton foca-se em modelos de tratamento do natural, de seu comportamento, e não numa Metafísica de respostas últimas sobre o que seja o "tudo" e quando este se inicia.


Não há "estados" - seja de repouso ou de movimento.


Tanto há que mesmo considerando um postular movimento eterno, aquilo que em Física Clássica seria uma quantidade de movimento universal, esta quantidade de movimento não necessitaria ser distribuída entre todas as partículas do universo, mas poderia se concentrar entre uma e outras. Por exemplo simples, as bolas de uma mesa de bilhar não necessitam todas se mover, mesmo quando numa delas é aplicada a mais poderosa das tacadas. 

Aqui, o senhor OdC parece ter um grave problema com o que seja "referencial". Havendo duas bolas de bilhar soltas no vácuo do espaço, uma se aproximando (ou afastando-se) da outra, existe obviamente movimento de uma ou de outra, dependendo de qual tomamos como referencial (assim como indenticamente, existe repouso de uma), e podemos afirmar que existe movimento das duas, considerando outro referencial, mas percebamos que de forma alguma eu poderia afirmar que não existe movimento das duas, exatamente, e gritantemente, por haver aproximação (ou afastamento) das duas. Em Relatividade, se aprende que todos os corpos, mesmo num 'newtoniano repouso', estão em movimento, ao futuro, na velocidade da luz, pois o tempo, em Relatividade, é uma das dimensões.


Aliás, quando OdC achar que não existe o estado de movimento, alguém atire uma pedra na sua cabeça, talvez aprenda que a pedra (ou sua cabeça) não estão interessados em sua semânticas pobres sobre o que seja movimento e/ou repouso.


"Estado" é apenas uma impressão subjetiva que o observador, ele próprio envolvido no movimento geral, obtém ao medir os movimentos físicos pelo seu tempo interior.

Como sempre recomendamos aos idealistas, independendo da questão "vivo", tratada anteriormente: Chute uma pedra. O estado da pedra estar em movimento em relação ao seu sensível pé lhe mostrará talvez a mesma questão da pedra que atingiu sua testa, na questão anterior.
 

Mas realmente dá para rir da Nota 1, em História e pseudo-história da Ciência - I.

Existem pessoas que só aprendem física básica sentindo, como diria um determinado professor meu, "na carne".


Espiritismo

Uma coisa é clara: Quando o "espírito" sobe, sua qualidade desce. É inconcebível que grandes criadores de nossa língua, depois da morte fiquem por aí gargarejando o tatibitate espírita" (Léo Gilson Ribeiro, crítico literário, Revista "Realidade", Novembro, 1971, pág. 62).[Nota]

Coisa que me impressiona e já em sua própria natureza está a clara inocência, quando não xipófaga da desonestidade, dos espíritas é que seu mundo de psicografias se dá apenas no terreno da linguagem, em prosa e até pobres versos.

Jamais se estabelece a psicografia de níveis mais complexos e formais de linguagem, como a lógica, a matemática, a física, as ciências naturais em geral, a genética ou mesmo a composição musical.
Não se manifesta um grande ex-professor de física da USP, um geólogo contemporâneo de Dom Pedro I, um químico que foi aluno de Dalton, um dentre os inúmeros matemáticos que gerações de famílias remeteram ao exterior, onde eram obrigados a aprender línguas características da cultura da época, como o francês ou mesmo o difícil para nós latinos alemão - com grande peso nas ciências ditas exatas.
Nem mesmo uma mínima linha de álgebra. Uma única estrutura molecular. Um única partitura de um chorinho dos saraus de suas vidas carnais.

Quando enveredam por nuances de algo que se aproxime do científico ou do filosófico, o que vemos é a manifestação do trivial, da formação de secundário, da formação de básico de faculdade, ou mesmo o lugar comum de uma moral de livro de autoajuda impresso em "papel jornal" - cunhemos a expressão "Pulp Philosophy".

Pelo visto algo se perde entre os mais poderosos cérebros dos homens quando estes morrem, e fica, pelo visto, preso em seu corpo primata em decomposição, e talvez, apresente-nos os kardecistas (eles odeiam este termo, e por isso mesmo, o uso) que Kardec escondeu mecanismos por algum exótico e nebuloso motivo moral.

Todas as religiões devem ser toleradas, pois cada um de nós tem o direito de ir para o céu à sua maneira. - Frederico, O Grande

Nota: Para um tratamento mais contemporâneo da introdução do espiritismo no Brasil, vale a pena ler o grande Machado de Assis.





Tempo

Até as questões de "deus criou no tempo" (a partir de um momento, o fiat lux)  ou "criou o próprio tempo" (aqui, Agostinho certa ao dizer que o tempo nasce com a própria criação) são perigosas, assim como são perigosas determinadas afirmações mesmo dos mais céticos.

Apriorismos de tempo são lindinhos em Física trivial, como a da "astrofísica para baixo". Na maior escala, a Cosmologia, e na menor, a Mecânica Quântica, deve-se ter tremendo cuidado com o uso do tempo num sentido newtoniano, que na verdade, é kantiano.

O universo não existe no tempo. Ele produz o tempo, pois este é correlato com a expansão de sua métrica. Aqui, Leibniz parece ter sido muito feliz.

Assim, na singularidade que nos leva o Modelo FLRW, que é a aplicação da Relatividade ao trato do universo em sua maior extensão e comportamento, num determinado momento no passado o tempo deixa de ter inclusive nexo.

Cosmologias cíclicas tratam de universos que expandem-se e contraem-se, e nos pontos de intersecção da métrica com o "volume zero" e temperatura infinita, também o tempo "trivial" deixa de ter sentido, e tem-se de usar outras definições de tempo (e aqui deveria ter escrito "tempo", com as destacadas aspas), mais complexas, onde estes ciclos ocorrem.

A coisa não é simples, e não pode-se enveredar, nem para uma argumentação apriorística kantiana, nem para um simplismo de argumentos como os tomistas.

O tempo é dependente de massa-energia, dentro da relatividade, mas a energia não é dependente do movimento no sentido newtoniano.

Tanto que o universo, em seus primeiros instantes, não possuia movimento algum, e exatamente, já continha todo o seu arcabouço de energia, e disto, advém seu "bolsão espaço-temporal".

E mesmo assim, em cosmologias relacionadas com branas, não é ele que possui sua energia originalmente, mas as recebe do dito "toque" de tais branas (na verdade, ela surge, juntamente com o "ponto de toque", que é o universo).

Aqui, seguidamente, leigos até bem intensionados enveredam por afirmações perigosas em Física.

Li de um menino na internet:


Energia é movimento. Tempo, temperatura, decibéis, são medidas de movimento. 

Aqui, acabou-se, de "à força" (percebam a ironia), transformar um escalar em vetorial. Tempo não é uma medida de movimento. Ele pode ser associado, na sua medição pelo humano, por movimentos, basta ver o já multicentenário relógio de pêndulo. Tanto é, que movimento se dá na variação de um intervalo, em relatividade, que inclui o tempo, ou de uma distância, no tempo, em Física Clássica, e o primeiro é uma "correção" do segundo.


O ontem é história. O amanhã é um mistério. Mas o hoje é uma dádiva, e é por isso que se chama presente. - Mestre Oogway, a sábia tartaruga de Kung Fu Panda, em momento muito mais sério e profundo que alguns dos "revolucionários gênios incompreendidos" que seguidamente lemos ou ouvimos.



Aborto


Deixemos bem claro:

Sou completamente a favor do aborto desde que realizado dentro das N semanas atribuídas pela medicina como da "individualidade não existente" [Nota 2] na exata medida que o estado propicie a educação para a não concepção. Antes do aborto seguro, a adoção facilitada, no caso de gestação consumada, ligado à gestação segura e 'previdenciada' e com isto tudo, que ele possa ser descriminalizado para a mãe.

Antes de tudo acima, e mais um pouco, ser realizado em conjunto, vai continuar, como já citado, a lambança miserável que aí está, desde a menina pobre na aborteira da favela até a "patricinha" da alta sociedade, com sua mãe, se fazendo de "liga da senhora católica", e sob a lei, na verdade, cometendo um crime, junto com o médico coautor.

E a lei, em grande parte injusta, colocando todo mundo no que é chamado por alguns de "confronto dos absolutos", na maior parte, pelos "absolutos" serem definidos por dogmas religiosos, e não por racionalidade.



[Nota 2]: Vida existe nas células de sua boca que você expele quando cospe ou escova os dentes, nas cutículas que corta. O problema é que vida não caracteriza individualidade por si. Assim, a concepção, a fecundação do óvulo pelo espermatozóide, constitui, pelas próprias células que a produziram, a continuidade da vida, mas não a configuração de uma individualidade, que só se dá pela formação dos tecidos cerebrais e início das sensações, que são o próprio funcionamento cerebral.


Um temerário paradoxo

Talvez, dos discursos em "duplipensar" do Herege.

Curiosamente, muito do que aqui escrevo nasce dos criacionistas, e estes, como sabemos, são imensamente formados por crentes de determinadas denominações religiosas. Afirmo que eles muito me propiciam diversão, e desta, muito didatismo em ciência. Chego a proferir a barbaridade de que nossos jovens e (entendam bem a expressão!) "interessados e esforçados ignorantes" podem vir a receber muito do que se origina do conflito da Ciência e Filosofia com os dogmas religiosos e determinadas teologias.

Em outras palavras, se não existissem criacionistas, teríamos de representá-los!

Mas cito um grande estrategista:

Não se deve pressionar demais um inimigo desesperado. - Sum Tzu
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sábado, 28 de maio de 2011

Presságios Sobre Nosso Sol III

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Tratei em 'Presságios Sobre Nosso Sol', blogagem I e blogagem II, sobre as questões de "super-erupções solares", emissões gigantescas de matéria superficial* e coronal por parte de nossa estrela e do quanto difícil seria acontecer, com consequências realmente catastróficas para a Terra e sua frágil vida, como apresentado no filme Presságio.



*O conceito do que seja "superficial" para o Sol é um tanto mais complexo que este termo, que pode até lembrar algo como nossa crosta terrestre. Para tanto, ver Estrutura solar.


Mas a questão é que "mostrar o quanto é difícil" sem números, cálculos, e "coisa alguma" em Física dá praticamente no mesmo. Então dispus-me a colocar a coisa num modelo físico simples, quase de secundário, para que se entenda o quão favorável é a posição de nosso planeta para estarmos protegidos deste tipo de evento. Construiremos então um modelo de comportamento físico simples dos gases ao sair do Sol, um modelo "facão", como costumo dizer (uma ironia com a navalha de Ockham).

Primeiramente, consideraremos gases saindo do Sol como um gás ideal.

Obs.: Esta consideração é na verdade um absurdo, e a usaremos apenas para simplificar nossos cálculos de maneira extrema. Um gás ideal pressupõe interação nula entre as partículas do gás, até as considera pontuais. O Sol, assim como a maior parte das estrelas em atividade de fusão, é composto de plasma a alta temperatura, sob intensos campos magnéticos, e suas partículas apresentam alta intensidade de interação, tanto, que até visualmente, comportam-se de maneira similar a um líquido em alta convecção.Para uma amostra do quão complexa é a modelagem de plasmas, Plasma modeling.

Lembremos que a equação de Clapeyron determina que para os gases ideais:

PV = nRT

Consideremos, por hipótese, que 10% da massa do Sol será expelida (atentem para o absurdo que é este valor que aqui coloco), o que dá 1,9891 × 1029 kg.

Consideremos que a sua massa molar média (de composição), seja uma média ponderada entre a massa do hidrogênio e a média da massa do hidrogênio e a massa do hélio, pois para simplificar nossos cálculos, o Sol tem a composição confortável de 74% em massa de hidrogênio e 24% em massa de hélio). Com isto, teremos, em números bem redondos, massa média de 2,5 kg/mol. Isto nos leva a que o número de moles da massa emitida será de 7,9564 × 1028 moles, nosso n.

Obs.: Aqui, cometi um sutil, e nem tanto, atropelo, pois o Sol possui um altíssimo gradiente de densidade. Seu centro é o local mais denso do sistema solar, com densidade de 150 g/cm³, aproximadamente umas 5 vezes mais denso que a mais densa materia trivial em nosso planeta na sua superfície, que são os metais irídio e ósmio, mas sua densidade média é de uns 1,4 g/cm³, o mesmo que muitos solventes clorados que usamos em diversas aplicações, menos que por exemplo, o ácido sulfúrico concentrado. A razão destas propriedades bizarras para nossos parâmetros de terráqueos, podemos simplificar, é sua gigantesca coluna de fluido, no caso, de uma "profundidade" de quase 700 mil quilômetros, e obviamente, sua imensa gravidade.



Como nossa emissão se dará a partir do material mais externo, consideraremos esta densidade média, que me parece ser um valor até honesto, pois poderíamos, pelo próprio termo "médio", usar uma menor. Esta densidade nos dará, para a massa que expeliremos, um volume "enquanto junto ao Sol" de 1,4208 x 1026 m³.

Consideraremos a temperatura que tal massa parte de seu "acoplamento" à massa solar como sendo do dobro da temperatura da superfície solar, o que me parece também um valor honesto, o que nos dá uns 11600 K.


Desejamos T2, na posição da Terra, portanto, consideraremos que o volume que sai do Sol, que podemos afirmar como sendo originalmente de uma "casca esférica", avança sem grandes expansões no sentido radial em direção à Terra, apenas ampliando sua "área" até uma nova casca esférica que tenha o raio da órbita da Terra (150 bilhões de metros) e passe a ter uma espessura de 1 milhão de km, ou 1 bilhão de metros (a diferença de considerar uma espessura como plana e como realmente é, que é curva, neste caso, é insignificante).

Um esquema simples, e completamente fora de escala para qualquer elemento que represente, de nosso modelo:



Notemos que neste cálculo todo, desprezamos a perda de temperatura por irradiação, e consideramos o processo inteiro como uma expansão adiabática (sem perdas para o ambiente, o que novamente é um argumento extremo, pois o espaço é o melhor meio para a perda de calor por radiação).

Pelos números acima, a casca esférica de gases terá então área de 4piR²=2,827 x 1023 m², que com a espessura de 1 x 109 m nos leva a um volume de 2,827 x 1032 m³.

Lembremo-nos:

P1V1=NRT1


P1.1,4208 x 1026 m³ = 7,9564 × 1028 . 8,314 J·K−1mol−1.11600K

P1 = 54007200 N/m² (ou Pascal, o que corresponde a umas 533 atmosferas, um valor bem razoável para o ambiente solar)

Obs.: O valor pode parecer excessivamente alto mas é o que faz um gás leve como uma mistura de hidrogênio e hélio chegar a atingir a densidade de um líquido mais denso que a água em nosso ambiente dito "normal".



Aqui, observemos que o nuvem de gás possui massa 1,9891 × 1029 kg, como vimos acima, e volume de 2,827 x 1032 m³, que nos dá aproximadamente uma densidade de 7,036× 10-4 kg/m³, o que é uma densidade umas 1700 vezes menor que a densidade do ar ao nível do mar, que gira em torno de 1,2 kg/m³.

A partir destas condições, lembraremos que a expansão que adotamos é adiabática em energia, mas se processa no vácuo, e ainda que a limitemos produzindo uma casca de menos de 1% do raio da expansão, a consideraremos uma expansão livre, que nos leva a relação:

PiVi=PfVf


O produto do volume e da pressão iniciais é igual ao produto da pressão e volume finais. De onde temos:



54007200 . 1,4208 x 1026 m³ = Pf . 2,827 x 1032 

(Tenho de confessar: meu cérebro ainda não funciona bem para equacionamentos expressos no mundo da informática, mesmo em LaTex. Portanto, cortemos no razoável a expressão das unidades, ainda que as mantenhamos coerentes e homogêneas.) 


Pf  = 27,14 Pa


Retomando, como aqui Pf é P2, e o processo se dá por uma expansão livre adiabática de um gás ideal, apliquemos:



T2 = T1 * {(P2/P1)^[(γ-1)/γ]}

Observando que γ para gases ideais gira em torno de 3/2 a 5/2, mas aqui, usaremos um valor médio de 4/2, ou, simplesmente, 2, pela mistura de gases diatômicos e monoatômicos com que estamos lidando (respectivamente, o hidrogênio e o hélio).

T2 = 11600 * {(27,14/54007200)^[(2-1)/2]}

T2 = 11600 * [5,025 x 10-7^(1/2)]=11600 * 7,0889 x 10-4



E finalmente, T2 = 8,2 K.


Uma outra maneira de se entender tudo acima, que consideraria bastante mais simples, é considerar toda a massa do Sol como passando a dispersar-se, já sem reações nucleares, pois não haveria pressão para tal, e desta, as temperaturas necessárias, numa esfera com raio igual a órbita terrestre. Sendo a massa do Sol 1,9891 × 1030 kg, e o volume desta esfera hipotética 1,4137 × 1025 km³ ou 1,4137 × 1034 m³, ficaríamos com uma densidade de aproximadamente 1,407 × 10-4 kg/m³, ou para ficar em números mais perceptíveis, 0,14 g/m³, sendo que a densidade do hidrogênio nas condições ambientes é de 0,08988 g/L, ou 89,88 g/m³, ou 642 vezes maior. Em suma, o Sol, diluído nos volumes típicos das órbitas dos planetas, é um gás bastante rarefeito.

Portanto, temos que os gases chegarão à proximidade da Terra com baixíssima temperatura, mesmo considerando todos os exageros e limitaçõe favoráveis ao argumento do filme Presságio.



Tudo isso é válido, porque os mecanismos nucleares e até diria a geometria do sistema são do Sol como anã amarela da sequência principal, no seu caso, operando fusão pela cadeia próton-próton. Quando o estoque de hidrogênio (estes prótons) acabarem e no seu centro a taxa de núcleos de hélio for dominante, o Sol começará a se comportar como uma gigante vermelha, na qual a força de gravidade causa a pressão que produz as reações nucleares de fusão de núcleos de hélio (no caso do Sol em seu futuro, pois estrelas maiores "queimam" ainda outros núcleos), mas não consegue manter seu tamanho, digamos, sob controle, e o excedente de calor produzido começará a expelir suas camadas externas ao ponto de se comportar como uma enorme nuvem rubra de gases aquecidos que atingirão inclusive a órbita terrestre (o que implica, para o raio do Sol, em este crescer umas 200 e poucas vezes). Neste caso, não seremos atingidos por flares de uma estrela com erupções, mas estaremos nadando em suas camadas atmosféricas mais externas, como um pedaço de mussarela imerso no fogo. [NOTA]


A Terra sendo absorvida pelo Sol em sua fase de gigante vermelha. Para um vídeo sobre este fenômeno, Red Giant...And the Earth Burned.

Enquanto o caso que analisamos pertence à hipótese a ser analisada e ao argumento de uma ficção, este quadro apresentado pertence aos fatos claros e inexoráveis pelos que passam todos os planetas dentro de um determinado raio de distância de suas estrelas. Pela nossa posição e atual estágio de evolução de nossa estrela, podemos, quanto às erupções, dormir mais que tranquilos pelos próximos um ou dois bilhões de anos (pois primeiro enfrentaremos problemas de aquecimento pelo aumento de produção de energia pelo Sol), antes dele entrar na fase em que nos absorverá, restando apenas preocupações quanto a efeitos eletromagnéticos em nossos sistemas de comunicações e distribuição de energia elétrica.


Nota: E um tanto tardia. Talvez o leitor me pergunte como o Sol, em seu atual conjunto de características, expandido para o volume de uma esfera de raio da órbita terrestre não calcine a Terra, como julgo demonstrar naquele parágrafo, mas no futuro se expandirá até derreter-nos. A resposta é que o Sol se expandindo na sua atual composição, diminuiria suas reações nucleares que aqueceriam esta nuvem de gás em que se tornou, exatamente pois a pressão em seu centro diminuiria, mas quando se expandir como gigante vermelha, tal se dará porque as reações em seu centro serão muito mais energéticas, e manterão a massa de gases em expansão absorvendo radiação e se aquecendo. No primeiro caso, estaríamos dentro de um bolsão de gás que pouco antes era uma estrela, e no segundo, estaremos dentro de uma estrela, em plena atividade de uma fase turbulenta, que por fim, a levará à extinção.



Anexos

Tenho alguns problemas eventuais com matérias deste site, mas este artigo pode ser bastante interessante:

Outros links:

Um conceito que deve sempre ser conhecido por quem se interessar sobre Astrofísica:

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