terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A Receita Universal dos Gigantes

O cosmos, em sua vasta e aparente aleatoriedade, parece seguir um livro de receitas rigoroso. A 133 anos-luz de distância, no sistema HR 8799, o telescópio James Webb acaba de encontrar "pratos" que conhecemos muito bem: versões colossais de Júpiter e Saturno que, apesar de terem nascido em um berçário estelar diferente do nosso, compartilham o mesmo DNA químico.


O Banquete de Sólidos

Durante décadas, astrônomos debateram se gigantes gasosos nasciam do colapso súbito de nuvens de gás ou se eram construídos peça por peça. A descoberta de sulfeto de hidrogênio (H2S) nesses mundos distantes encerrou o debate em favor da persistência. O enxofre, que costuma viajar em estado sólido pelo espaço, é a prova de que esses planetas não apenas "flutuaram" para a existência; eles foram comilões ativos.

Para atingir sua massa atual, esses gigantes precisaram "engolir" uma quantidade absurda de rocha e gelo — cerca de 600 vezes a massa da Terra em elementos pesados, sendo o ferro, pelos processos de nucleossíntese e evolução estelares, o mais significativo. Esse processo, chamado de acreção de núcleo, sugere uma ordem quase moral no caos do disco protoplanetário: primeiro constrói-se um alicerce sólido e pesado; só depois a gravidade reclama para si o véu de gás que define um gigante.

Uma Assinatura Molecular

Pela primeira vez, temos um inventário completo. Não estamos mais apenas supondo o que existe lá fora; estamos lendo os rótulos:

  • Água (H2O): O solvente universal, presente em abundância.

  • Metano (CH4) e CO2: Indicadores de uma atmosfera complexa e dinâmica.

  • O Enxofre: A peça final do quebra-cabeça que confirma a origem "sólida" do núcleo.

O Limiar da Uniformidade

Como aponta o professor Pedro Bernardinelli (USP), essa semelhança levanta uma questão profunda: seria a arquitetura do nosso Sistema Solar o padrão ouro do universo? Se a "receita de bolo" é a mesma em sistemas tão distintos, a formação de planetas pode ser um processo muito mais uniforme e previsível do que imaginávamos.

Não somos apenas um caso especial; somos parte de uma linha de produção cósmica que replica ‘Júpiteres’ e Saturnos por toda a galáxia, seguindo as mesmas leis de ferro, gelo e gás.

Leitura adicional


Lara Cáfaro, Planetas gigantes seguem 'receita' parecida com a de Júpiter e indicam possível padrão na formação do Universo - g1 - 14/02/2026

https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2026/02/14/planetas-gigantes-seguem-receita-parecida-com-a-de-jupiter-e-indicam-possivel-padrao-na-formacao-do-universo.ghtml 

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