Uma Refutação Rigorosa
1. A Premissa do Ajuste Fino
O argumento do Ajuste Fino (AF) sustenta que as constantes fundamentais do universo (como a força da gravidade ou a massa do elétron) residem em um espectro tão estreito que qualquer variação infinitesimal impediria a formação de estruturas complexas. Conclui-se, portanto, que a probabilidade de um universo "biófilo" (que permite a vida) surgir por acaso é virtualmente zero, exigindo um "Ajustador" inteligente.
2. A Falácia da Probabilidade Ex Post Facto
A primeira falha lógica reside na aplicação de probabilidades a eventos que já ocorreram. No cálculo de probabilidades, devemos distinguir entre a probabilidade de um evento ocorrer no futuro e a constatação de que ele ocorreu.
Se você embaralhar um baralho de 52 cartas e distribuí-las, a sequência resultante tem uma probabilidade de aproximadamente 1 em 8×10^67. É um evento astronomicamente improvável, mas alguma sequência precisava ocorrer. Declarar que a sequência obtida é "especial" a ponto de exigir um designer apenas porque ela ocorreu é um erro de raciocínio. O argumento do AF isola o resultado atual e o rotula como "objetivo final", ignorando que qualquer outro universo (mesmo um estéril) seria estatisticamente tão improvável quanto o nosso.
Contudo, é crucial observar que a matéria não se organiza através de um "sorteio cego" ou de probabilidades puras, como dados lançados ao acaso. A organização da matéria não é um processo estocástico desgovernado, mas sim orientado por leis determinísticas. * Afinidade e Estrutura: Partículas subatômicas não se tornam átomos por sorte; um plasma de prótons e elétrons, ao esfriar, organiza-se em hidrogênio por necessidade física. No coração das estrelas, a colisão de prótons forma núcleos de hélio seguindo leis de força nuclear, não por "quinas ou sequências” fortuitas em um jogo de cinco dados.
Auto-organização Química: Aminoácidos não se polimerizam em "moléculas monstruosas" e caóticas; eles formam ligações amida e cadeias peptídicas seguindo geometrias moleculares específicas. Moléculas anfifílicas em solução aquosa auto-agrupam-se em micelas por uma tendência termodinâmica de proteger suas partes hidrofóbicas.
Esses exemplos evidenciam que as agregações da matéria possuem "motores" que são tendenciosos e determinísticos em sua essência. O argumento do AF ignora que, dadas as leis da física e da química, a complexidade não é um acidente improvável, mas uma consequência emergente e, em muitos níveis, inevitável da interação dessas leis.
3. O Problema da Normalização de Probabilidades
Para afirmar que o nosso universo é "improvável", o proponente do AF deve conhecer o espaço amostral de todos os universos possíveis e a função de distribuição de suas constantes.
Não sabemos se as constantes físicas podem assumir qualquer valor ou se são restritas por leis de uma física mais profunda.
Se as constantes forem consequências necessárias de uma lei unificada (Teoria de Tudo), a probabilidade do universo ser como é seria de 100%, e não próxima de zero. Portanto, a afirmação de "improbabilidade" é uma conjectura sem base estatística real, pois não temos acesso a outros universos para comparação.
4. O Viés de Observação (O Efeito de Seleção Antrópico)
Este é o ponto onde a "analogia da poça" de Douglas Adams se torna logicamente superior ao exemplo do “cachorro no carro” de um pequeno ensaio na RationalWiki.[Nota 1] O argumento do AF ignora o fato de que observadores só podem existir em universos que permitam observadores.
Se estivéssemos em um universo que não permitisse a vida, não estaríamos aqui para notar a sua "falta de ajuste". A nossa existência atua como um filtro: a probabilidade de observarmos um universo inóspito é zero. Assim, a constatação de que vivemos em um universo ajustado para nós não é uma evidência de design, mas uma pré-condição lógica para a própria pergunta ser formulada.
5. O Salto Teológico Imotivado
Mesmo que aceitássemos a premissa de que o universo é improvável, o argumento do AF comete um non sequitur ao apontar para uma divindade específica.
Falta de Correlação: A complexidade ou improbabilidade de um sistema físico não informa nada sobre as propriedades de seu suposto criador (onipotência, benevolência ou unicidade).
Regressão Infinita: Se a vida complexa exige um designer devido à sua improbabilidade, o próprio designer (sendo uma entidade capaz de projetar o universo) deve ser infinitamente mais complexo e improvável, exigindo, pela mesma lógica, um "super-designer".
Conclusão
O argumento do ajuste fino é, em última análise, um "argumento da incredulidade pessoal" revestido de linguagem matemática. Ele confunde a nossa capacidade de imaginar variações nas leis físicas com a probabilidade real dessas variações ocorrerem, e falha ao não considerar que o observador é parte integrante do sistema que ele tenta avaliar.
Notas
1
Tradução de um pequeno ensaio que consideramos problemático como argumentação contra o “ajuste fino”
Ensaio: Por que o argumento do "universo finamente ajustado" é falso
rationalwiki.org - Essay:Why the "fine-tuned universe" argument is bogus
Os criacionistas usam o argumento do universo finamente ajustado como evidência da existência de Deus. A vida (ou a formação de estrelas, dependendo da fonte) pressupõe uma gama estreita de constantes físicas, e qualquer universo com constantes alternativas não suporta vida. Como existem muitas possibilidades fora dessa gama de valores, a vida deve ser astronomicamente improvável, e o universo em que vivemos não deve ter se formado por acaso. Portanto, Deus (ou outro agente sobrenatural) deve ter tido um papel na formação do universo.
Neste ensaio, demonstrarei que esse argumento do universo finamente ajustado é falacioso por dois motivos: (1) a improbabilidade do universo que ele pretende avaliar é desconhecida ou irrelevante e (2) não há relação alguma com a existência de Deus. Para demonstrar isso, usaremos o exemplo do seu cachorro no carro.
O exemplo do cachorro no carro
Suponha que você deixe seu carro em um estacionamento lotado. O recado que você está fazendo levará apenas um minuto, então você deixa seu cachorro no carro trancado e fechado. (Você nunca deve fazer isso, é claro; não tente isso em casa.) Ao retornar, você não encontra seu carro, mas depois de procurar um pouco, vê seu cachorro dentro de um carro.
Sendo uma pessoa com inclinação para a matemática, você considera as seguintes probabilidades:
1. Qual é a probabilidade de o carro em que seu cachorro está ser o seu?
Isso é óbvio. A menos que aconteça um evento mágico, a probabilidade de seu cachorro estar no seu carro é de 100%. Isso equivale a dizer que a probabilidade condicional de o carro ser seu, dado que seu cachorro está nele, é de 100%.
2. Qual é a probabilidade de seu cachorro estar dentro de um carro?
Isso também é óbvio. Como você observa que seu cachorro está dentro de um carro, essa probabilidade é de 100%. Portanto, a probabilidade condicional de seu cachorro estar em qualquer carro, dado que você o observa, é de 100%.
3. Qual é a probabilidade de você encontrar seu cachorro ao procurar aleatoriamente dentro de um carro?
Isso depende do número de carros, e a probabilidade é 1/n, sendo n igual ao número de carros. No entanto, esse número é desinteressante e em grande parte irrelevante. Como você já sabe onde seu cachorro está, pensar em quando você estava procurando por ele não é particularmente interessante. Você já sabe que o cachorro está no carro e, portanto, isso é um dado adquirido ao considerar uma nova probabilidade no futuro. Além disso, para obter um número, seria necessário saber o número de carros, que é desconhecido.
Os elementos correspondentes no argumento do universo finamente ajustado são os seguintes: (1) a vida corresponde ao cachorro; (2) o universo atual, supostamente "finamente ajustado", corresponde ao seu carro; e (3) outros universos hipotéticos correspondem aos outros carros no estacionamento.
As probabilidades correspondentes a serem consideradas são as seguintes:
1. Qual é a probabilidade de existir vida em nosso universo atual?
Ao se beliscar, a resposta é óbvia: 100%. A probabilidade condicional de estarmos em nosso universo (supostamente "ajustado com precisão") é de 100%.
2. Qual é a probabilidade de existir vida em um de todos os universos possíveis?
Beliscando-se e olhando ao redor, essa probabilidade é novamente de 100%.
3. Qual é a probabilidade, ao considerarmos universos hipotéticos com constantes físicas alternativas, de existir vida em um universo escolhido aleatoriamente?
Assim como acima, isso depende do número de universos. No entanto, também como acima, é irrelevante. Como você já sabe que nosso universo contém vida, considerar universos hipotéticos não fornece nenhuma informação adicional interessante, porque você sabe que está em seu universo e sabe que a vida existe. Todas as probabilidades futuras consideradas levam em conta esse conhecimento. A maioria das pessoas confunde a probabilidade considerada no ponto 2 com a do ponto 3.
Para avaliar a probabilidade de existir vida, você precisaria saber o número de universos viáveis, que é desconhecido. Não podemos observar esses universos, nem podemos procurar por um que não contenha vida. Na realidade, a probabilidade de a vida existir também dependeria da probabilidade de tais universos existirem, uma complicação não abordada no exemplo do cachorro no carro. Afinal, a vida não deveria se tornar menos provável só porque se consideraram mais universos hipotéticos.
O fato de uma gama restrita de constantes físicas poder sustentar a existência de vida também é irrelevante, já que a consideração de qualquer universo hipotético, independentemente de como seja definido, não altera o conhecimento atual do universo.
E quanto a Deus?
Em nenhum momento da discussão se considera a probabilidade de Deus existir. Os criacionistas partem do pressuposto de que, se um evento é improvável, Deus o fez. Qualquer evento com probabilidade inferior a um número arbitrário é considerado "por acaso" e, portanto, não há justificativa para essa afirmação.
Também não está claro se o universo, formado por processos naturalistas, se baseou em universos alternativos e se estabeleceu aleatoriamente no atual. De muitas maneiras, o universo simplesmente é.
Nossa crítica:
1. Confusão entre Probabilidade Epistêmica e Ontológica
O autor do ensaio usa o exemplo do cachorro para dizer que, como já estamos aqui, a probabilidade de a vida existir é 100%. Isso é uma obviedade estatística (probabilidade ex post), mas não aborda o problema filosófico do Ajuste Fino (Fine-Tuning).
A falha: O argumento do Ajuste Fino não pergunta "qual a chance de estarmos aqui agora?", mas sim "por que as condições iniciais permitiram que qualquer coisa existisse?". Ao dizer que "a probabilidade é 100% porque eu existo", o autor comete a falha de ignorar a improbabilidade das condições que permitiram esse "100%".
2. A Analogia do Cachorro é "Miopia Lógica"
A analogia falha porque:
No exemplo do carro, você sabe que colocou o cachorro lá (há uma causa prévia conhecida). No universo, a questão é justamente a origem.
Se você encontra seu cachorro em um carro que não é o seu, em uma cidade onde você não levou seu cachorro, a probabilidade de ele estar ali continua sendo 100% (afinal, você está vendo ele), mas o espanto e a necessidade de uma explicação (foi sorte? alguém o trouxe?) permanecem. O autor descarta o "espanto" como se fosse irrelevante, mas a filosofia nasce desse espanto.
3. O Salto sobre a Existência de Deus
O texto termina de forma abrupta e um tanto preguiçosa ao dizer que "os criacionistas apenas assumem que foi Deus". Embora seja verdade que a ciência não usa Deus como variável, o texto não refuta a lógica do design; ele apenas diz que "não foi considerada a probabilidade de Deus existir". Ele ataca a conclusão sem desmontar as premissas de forma rigorosa.
4. Tom Informal e Falta de Estrutura Dialética
Como notamos, a estrutura é de "ensaio de blog". Ele não define bem os termos, mistura ironia com matemática de forma superficial ("pinch yourself") e não lida com as contra-argumentações mais robustas (como a ideia de que as leis da física poderiam ser necessárias e não contingentes).

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