quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Mais uma esparrela de Eberlin



E dela, extraiamos divulgação e um argumento que julgo interessante.


A pérola:

A imagem pode conter: 1 pessoa , pessoas sorrindo , texto

Passando para texto com algumas correções, mas ainda mantendo o estilo ‘eberliniano’/'eberlinesco':
“Gente... além de destruirmos a tal pretensa evolução dos olhos de vertebrados, encontraram melanina (e parte de das células que as produzem, melanossomas), em um bicho de 300 milhões de anos. Pode, gente? E aí a conclusão é que a preservação de uma biomolécula por 300 milhões de anos é o que? Para eles, “surpreendente”, que bem traduzido é impossível. Kaput evolução, kaput milhões de anos, kaput o deus do devagarinho.”

O artigo “fonte” de Enézio:


Fósseis de lampreia e enguia de 300 milhões de anos derrubam teoria da evolução dos olhos de vertebrados - pos-darwinista.blogspot.com.br


Trazido pelo amigo Roger Regis De Araujo.


Como bem alertado num grupo por Eliane B. Evanovich Dos Santos, a visão evoluiu muito antes de 300 milhões de anos, sem saltos.

O processo foi claramente progressivo, a seleção natural é dominante (e alerto que sempre é) e decisiva.

Alertamos seguidamente que caminho de argumentação por “design” com associação com “perfeição” da visão é sempre errôneo, pois os inúmeros defeitos da visão das diversas formas de vida, e inclui-se aí os humanos são bem perceptíveis.


Acrescento que a evolução da visão não ocorreu linearmente, mas em construção de estruturas em paralelo (diferentes tipos de "olhos"), em mais de um "ramo".

Noutras palavras, entre os “vermes” (perdão dos amigos das biológicas pelo termo), não existe um surgimento da visão “único”, tendo ocorrido a partir de determinadas estruturas em mais de um processo de formação do que chamamos olho.

Tratei da questão longamente aqui:

Lançando olhos sobre a rodopsina - Scientia est Potentia


E o senhor Eberlin continua com graves problemas de Química quando ela sai do que seja o limitado que conhece do “mundinho P.A.” (na gíria de um certo grupo da nossa profissão, “pura análise”, químicos e outros que só entendem aquelas condições com as quais lidam em laboratório).

Expliquemos:
A preservação de biomoléculas (mais corretamente dizendo, blocos de sua construção, o que chamamos moiety/moieties) é coisa tão banal na natureza que existem os marcadores de combustíveis fósseis, comprovando que famílias de organismos abasteceram as formações, como por exemplo, as complexas moléculas fotossintetizantes, como as porfirinas.

Tratei desse tema longamente em:

Petróleo abiótico, uma nova fé insustentável - I - Scientia

Publicado originalmente na Revista Livre Pensamento - criandocondicoesaliberdade.blogspot.com.br

Agora, uma pausa de pancadas leves e percebamos que encontrei mais um dos argumentos que chamo de “marreta” (qualquer lembrança com “navalha” de um certo senhor medieval não é desprovida de propósito).:

Se os ditos criacionistas negam que as biomoléculas (ou seus moieties) não são oriundos de seres vivos, tem de admitir a origem complexante de moléculas dos defensores de petróleo abiótico por processos puramente geológicos. Se aceitam que elas existem e são oriundas de seres vivos, a base de argumentos do tipo deste de Eberlin, “não podem se conservar por tanto tempo!”, perde o sentido, pois a geocronologia relacionada aos combustíveis fósseis é esmagadora para “Terra Jovem” (com o que concordam inclusive os outros tontos de petróleo abiótico).

Como sempre, criacionistas e similares colocam-se em “sinucas de bico”, e lamento pela piada até de mau gosto relacionada com sua fé: entre a cruz e a espada.


Sobre o uso do termo “involução”…

Não existe em evolução dos seres vivos sentido num termo “involução”, ainda mais com o significado que esses personagens tentam colocar.

Evolução dos seres vivos não tem propriamente o que seja um “sentido”, uma orientação de direção, como do mais simples para o mais complexo. Por exemplo, é banal e matéria de secundário o entendimento que seres vivos parasitas simplificam-se, como os triviais “mata-paus”, mas corretamente, como das espécies de "cipós chumbo" ou vermes parasitas, como as tênias e as lombrigas, no seu processo evolutivo.





Cipó-chumbo - nplantas.comCitando olhos, é trivial o exemplo da perda de olhos de peixes que habitam cavernas. E me parece claro que perder os olhos é “tornar-se mais simples”, mesmo dentro das confusas definições do que seja complexidade da Biologia, e do que seja a triste e simplória visão de complexidade dos criacionistas e defensores da dedução idiot… perdão, do design inteligente.

Logo, evoluir é mais que tudo modificar-se, e não tem sentido associar-se com “tornar-se mais complexo”, e portanto, associar “involução” - que sequer tem nexo com o termo evolui em sua origem - com “tornar-se mais simples” ou o que julgamos grosseiramente “primitivo”, não tem, biologicamente falando, igualmente nexo.

Já fazendo uma ponte para o personagem Enézio, já tão conhecido por suas confusões, vale ler o texto:

DNA IRREDUTIVELMENTE COMPLEXO OU A IGNORÂNCIA IRREDUTIVELMENTE COMPLEXA DE ENÉZIO? - netnature.wordpress.com


Lembrando que citar Enézio, que sequer entende que modificações na teoria Evolutiva não são correlatas com seu berreiro por “derrubada da teoria da evolução” (ou esparrela ridícula similar) é um exemplo de Lei de Scopie.


Mas o fantástico da esparrela dos dois personagens é que o artigo não trata disso!

Sarah E. Gabbott, Philip C. J. Donoghue, Robert S. Sansom, Jakob Vinther, Andrei Dolocan, Mark A. Purnell; Pigmented anatomy in Carboniferous cyclostomes and the evolution of the vertebrate eye; Published 3 August 2016.DOI: 10.1098/rspb.2016.1151 - rspb.royalsocietypublishing.org


Traduzamos, com algumas pequenas mas úteis alterações, o abstract (ou, segundo um notório criacionista das redes sociais sem muita formação e desprovido de um certo nível de inglês, o “abstrato”):

“O sucesso dos vertebrados está ligado à evolução de um olho de estilo câmera e um sistema visual sofisticado. Na ausência de dados úteis de fósseis, os cenários para a montagem evolutiva do olho dos vertebrados têm sido baseados necessariamente em evidências de desenvolvimento, genética molecular e anatomia comparada em vertebrados que ainda vivem.

Infelizmente, passos na transição de uma 'mancha olho' sensível à luz em cordados invertebrados para um olho de estilo câmara de formação de imagem em vertebrados com mandíbula são limitados apenas pelos hagfish (Myxini) e lampreias (ciclóstomos), que são interpretadas de modo a refletir quer um intermediário ou condição degenerada.
Aqui, relatamos — baseados em evidências de tamanho, forma, modo de preservação e localização da ocorrência — a presença de melanossomas (organelas portadoras de pigmentos) nos olhos fósseis de ciclóstomos.

Tempo de “voo” em análises de espectrometria de massa de íons secundários revela íons secundários com uma característica de intensidade relativa de melanina como revelado por meio de análises de componentes principais.

Os nossos dados suportam a hipótese de que os olhos hagfish existentes são degenerados, não rudimentares, que ciclóstomos são monofiléticos, e que o vertebrado ancestral tinha um sistema visual funcional.

Também demonstramos pigmentação em tegumento em lampreias fósseis, abrindo a excitante possibilidade de investigar padrão de cores em vertebrados do Paleozoico. Os exemplos que relatamos adicionam ao registro de melanossomas em preservação em fósseis do Carbonífero e atestam a surpreendente durabilidade dos melanossomas e da melanina biomolecular.”



Myxinoidea - David Bardack; First Fossil Hagfish (Myxinoidea): A Record fkom the Pennsylvanian of Illinois; SCIENCE, VOL. 254, 1 NOVEMBER 1991 - www.ganino.com

Vejamos a sempre esquecida “conclusão”, novamente, com pequenas e espero que úteis alterações:

“A descoberta de melanossomas nos ciclóstomos de Mazon Creek fornece informações sobre ambos os aspectos ecológicos e evolutivos desses animais profundamente em sua história.


Até recentemente, o registro fóssil tem permanecido mudo sobre aspectos da evolução do olho dos vertebrados, simplesmente porque ele não forneceu olhos suficientemente bem preservados, com resolução suficiente para ser informativo. Como tal, apenas os dados da taxa existente poderia ser exercida sobre reconstruir a série de passos evolutivos que levaram a partir de uma primitiva "mancha olho” até a formação da imagem no olho dos vertebrados - “estilo câmera”.

No entanto, a recente descoberta de olhos de peixe fósseis com fidelidade ultra-estrutural de conservação mostrou que, embora raramente, o registro fóssil pode capturar aspectos detalhados da anatomia do olho. Nossas novas análises cladísticas confirmar que Myxinikela é um hagfish, e o reconhecimento de olhos pigmentados neste taxon indica que os olhos de hagfish existentes são degenerados, não primitivamente simples. Isso se compara dados de embriologia, mostrando que hagfish perderam, ao invés de primitivamente faltava, personagens vertebrados. Nossa evidência fóssil sugere que o último ancestral comum dos vertebrados tinha um olho que foi pelo menos tão complexo como a de lampreias.”


Literatura relacionada

Humildemente, aos amigos das biológicas:

Jørgen Mørup Jørgensen, J.P. Lomholt, R.E. Weber, H. Malte; The Biology of Hagfishes; Springer Science & Business Media, 1997. pg 10 - books.google.com.br


Extras

Algo útil e relacionado, pois nem só de sovar esses personagens vive minha divulgação científica

en.wikipedia.org - Porphyrin


Geoquímica orgânica


O campo da geoquímica orgânica, o estudo dos impactos e processos que os organismos tiveram na Terra, teve suas origens no isolamento de porfirinas de petróleo. Esta descoberta ajudou a estabelecer as origens biológicas (também ditas bióticas) do petróleo. O petróleo possui, por vezes, "impressões digitais" através da análise de vestígios de porfirinas de níquel e vanádio (radical vanadil).

A clorofila é uma porfirina de magnésio e heme é uma porfirina de ferro, mas nenhuma dessas porfirinas está presente no petróleo. Por outro lado, as outras porfirinas, de níquel e vanádio poderiam estar relacionadas com moléculas catalíticas a partir de bactérias que se alimentam de hidrocarbonetos primordiais.


Refs a serem acrescentadas:

Bruce G. Miller; Fossil Fuel Emissions Control Technologies: Stationary Heat and Power Systems; Butterworth-Heinemann, 2015. - books.google.com.br

Schobert, H. H. The Chemistry of Hydrocarbon Fuels, London, Butterworths, 1990.


Harold Schobert; Chemistry of Fossil Fuels and Biofuels; Cambridge University Press, 2013. - books.google.com.br

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Olha dirão não ver certas estrelas…


Uma dúvida e uma confusão recorrente sobre até mesmo o que seja o “céu”,

Seguidamente encontro pessoas com dúvidas que existam constelações que possam ser vistas durante o ano inteiro, ou pior, sejamos bem diretos, que afirmam que estas não podem existir.

O motivo de terem tal dúvida, ou de pensarem assim, dogmaticamente, é considerar - ainda que sem perceber, no céu como um cilindro, e curiosamente, na Terra também como tal.

Explico o motivo pelo qual afirmo tal coisa estranha.

Já ouvi e li que se estamos à noite, e vemos determinada estrela (ou constelação), quando estamos no “lado oposto” do Sol, não poderíamos ver as mesmas estrelas, pois agora o Sol está entre nós e elas, o que, noutras palavras, implica em que estão no céu “de dia” naquela época do ano.

O argumento parece até ter um mínimo sentido quando pensamos em um sistema relativamente “plano”, tal como é o sistema solar. Digamos, reforçando a coisa por esse ponto, que podemos estar de um lado do Sol enquanto Júpiter, que é tão visível no céu à noite, estaria “do seu lado oposto”, ou seja, eclipsado pela sua claridade no mesmo ponto em que o vemos da Terra.

Aos leitores com mais experiência em Astronomia, o erro já se mostra claro.

O raciocínio dessas pessoas pode ser facilmente entendido pela figura abaixo:

Colatitude 2.png

Acredito que aqui percebe-se o “cilindro” que tornou-se o céu e o mesmo para a Terra que afirmo.

Os corpos celestes não encontram-se no “plano” do sistema solar. As aspas são pois nem plano ele é. Seria o que podemos chamar de um certo volume bastante achatado, um disco, dentro do qual posições máximas das órbitas dos planetas ocorrem, pois suas órbitas não são coplanares.




O que dizer para as estrelas, que são, mesmo com a certa “platitude” (ou, ironizando, baixa “cilindritude” ou ainda “duplo ovo-frititude”) de nossa galáxia, formam uma região contida para o visível de uma esfera aproximada de uns 1500 anos-luz de raio (certos astrônomos conhecidos e amigos terão quase uma crise nervosa, mas acho que o argumento é entendível facilmente com certas afirmações grosseiras e menos exatidão e detalhes).





A coisa é de uma premissa tão falsa que a Estrela Polar está sempre, dada nossa atual inclinação de eixo da Terra, no mesmo ponto do céu e visível a medida que nos aproximamos das regiões árticas, até que finalmente, sobre o eixo, estará exatamente acima de nossa posição.

Uma nota cinematográfica: mesmo sendo o atropelo total do histórico, do biológico e pelontologico, e do digamos científico e cético que é, o filme “pipoca” 10.000 a.C., do diretor Roland Emmerich, tem um momento de certo rigor, quando um personagem, digamos nas proximidades do que hoje é o Egito, observa que tem um ponto no céu que é fixo, ainda ali (devido à data e à precessão do equinócios) sem nossa atual Estrela Polar (hoje, Norte).

Acredito que estas pessoas teriam primeiramente de entender o que seja colatitude:

en.wikipedia.org - Colatitude

Assim, entenderiam que a determinadas latitudes, um ponto no céu estará visível seja de dia, seja de noite, mesmo que seja extremamente junto ao horizonte.

Desta maneira, entenderiam que uma estrela (ou qualquer corpo celeste) se fixo (como relativamente são as estrelas) é visível de um ponto da Terra dependendo de sua posição no céu, independente de “qual lado estamos no Sol” (estações e meses), como podemos ver para um caso afirmativo (à esquerda) e um negativo (à direita), para o Sul, na figura abaixo.

Colatitude 1.png

Assim, deixemos bem claro: Sim, existem constelações que são visíveis á noite durante o ano inteiro, dependendo de qual constelação e de que ponto você esteja na Terra.



Extras

1

A posição que interessa nessa questão é o que os astrônomos chamam de “declinação”.

Deve-se também entender (e até utilizar) o que seja “planisfério”:

pt.wikipedia.org - Planisfério

Planisférios para o Brasil - www.if.ufrgs.br


Como bem destacado numa conversa pelo Facebook sobre o tema, as Plêiades tem declinação de 24°.


Num caso destacado de uma conversa um tanto irritante num balcão de bar, o Cruzeiro do Sul (Crux) tem de -60°.


Uma citação:
“Sem dúvida esta é a constelação mais popular em nosso país pois pode ser visto durante quase todo ano (exceto na Primavera quando fica muito baixa).” - archive.is

Obs.: Entenda-se aqui a expressão “em nosso país” como sendo em todo seu território. Ao Sul do RS*, abaixo de uns 32° de latitude, sempre é visível à noite.

*SUL (ponto mais meridional): Arroio Chuí (extremo sul do estado do Rio Grande do Sul, fronteira com o Uruguai) - Latitude: -33° 45'07" - www.suapesquisa.com




O planisfério Sul é rico em constelações, e com ainda maiores declinações:

“Em relação a essas estrelas, o Cruzeiro do Sul estará sempre acima do horizonte para todos os lugares situados entre o pólo sul e o paralelo austral de latitude igual a -32 graus 54 minutos e poderá ser visto durante o ano a qualquer hora da noite. Na zona compreendida entre os paralelos de -32 graus 54 minutos e +27 graus 50 minutos, ainda se poderá observar a Cruz do Sul, porém tanto menos tempo durante a noite quanto mais o observador se deslocar para o norte, podendo deixar de ser visível nas épocas do ano em que se acha mais próxima do Sol.”

Viagem à constelação do Cruzeiro do Sul - super.abril.com.br

2

A um certo Olavo (não é “aquele”!) grato pela inspiração por um título minimamente interessante para esse muito menos dotado para a poesia autor

Ouvir Estrelas

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite,
enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo? "

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e e de entender estrelas".

Olavo Bilac

terça-feira, 26 de julho de 2016

Pseudociências - 2


Escrevi esses dias, num tópico no Facebook sobre “curas quânticas e etc”:

Valei-me, pequenos "Amits Goswamis" procriando como bactérias!
amit 1.jpg
“Fofo”, não?

O mundo “pseudoquântico” aproveita conceituações sérias e formais, como a interação que existe entre observado e observador - na medida que eu observo um elétron, por exemplo, o fóton que vem dele em minha direção produz/produziu uma alteração em sua posição ou velocidade, o princípio de incerteza - o que pode ser entendido nesse caso como em que não havendo esse fóton que vem/veio em minha direção, não há/haveria a observação, assim como em essa havendo, altera-se o estado da partícula em questão (inicialmente, pois ela perdeu energia, o fóton, que foi absorvido pelo seu instrumento de medida ou simples e direta visão).

Mas os “pseudo” dão um salto falacioso, e afirmam que o meu observar “altera a realidade”. Sim, dentro de um comportamento “puntual”, claro, acabei de o sustentar, mas não de um ponto de vista macroscópico, mediano, estatístico, e praticamente todas as coisas do mundo tem um natureza multiparticulada, mas voltaremos a esse ponto um tanto adiante.

Primeiramente, temos de perceber que eu altero um elétron, voltando a nosso exemplo mais que típico, exatamente pois esse interagiu com meus sentidos ou meus instrumentos, mas não que essa alteração foi causada por ato de minha vontade. Noutras palavras, não desejei e comandei o que seja a alteração em seus valores (a direção, o sentido, o ângulo, a própria intensidade, a escala dessa). Tratando com mais ênfase do ponto “intensidade”, me parece bem racional que vejo fótons do vindos do Sol, mas tenho certeza que não é minha vontade capaz de alterar sequer as turbulências e convecção dos quentíssimos gases de suas camadas mais externas, quanto mais, o colossal conjunto de reações e trocas que ocorreram em seu centro. E após essa emissão ter ocorrido, goza de uma certa aleatoriedade nos próximos passos, pois o elétron continua interagindo com o mundo, a começar pois dentro da própria verborreia dos “pseudo”, há outros observadores. Há uma relação causal da alteração com minha observação, que por sua vez, é consequência de uma emissão que causou a alteração frações de segundo que seja desde a emissão do fóton, mas não há um comando nessa alteração obtida - o “eu (por vontade e genericamente) altero a realidade”.

Resumindo em palavras simples, as afirmações dos “pseudo” são ao final, uma “quantizada telecinese”, sem mecanismo, que não se ampara nas reais e formais afirmações da Mecânica Quântica. Se na verdade não decido realmente com minha observação sequer o mais detalhado andar pelo mundo de um único e levíssimo elétron, como “decidiria” e atuaria sobre números de dezenas de casas decimais de elétrons e ainda muito mais massivas partículas, como há numa simples bola de bilhar?

Assim, não, altero muito limitadamente o mundo, mas muito mais, o mundo me altera.

Voltando ao que seja o multiparticulado, o simples caso de um meteoro ou um cometa caindo (vindo de um universo essencialmente estocástico e caótico, e mais que obviamente pultiparticulado), um vulcão (a caoticidade e igualmente natureza estocástica da geologia), o desabamento de uma caverna (idem), outro exemplos dos muitos processos estocásticos da natureza, a imposição da vontade alheia (a relativa liberdade - segundo a moderna Neurociência), pois os humanos em seu conjunto também são um processo estocástico (população, “manada”, “hordas”, “turbas”, etc, como bem mostram nossa história não muito racional), e esses humanos, mesmo em grandes populações, são vítimas e objetos a serem impulsionados pela miríade de processos estocásticos anteriormente citados. Nem falemos da vontade dos predadores, ação por mais instintiva e automática que seja de parasitas e outras pragas, pois nem só de humanos e sua vontade foi alterada e até encerrada o viver dos humanos em sua história

Assim, é fisicamente coerente dizer que minha (nossa!) existência altera o mundo, mas não é muito distante da simples tolice dizer que minha vontade, “quanticamente”, altera o universo.

O universo - a natureza - incluindo a nós mesmos, simplesmente no seu conjunto, desde a escala microscópica até a cosmológica, simplesmente é indiferente à nossa vontade além de uma escala muito limitada em massa (não conheço ninguém que per capita movimente mais que algo próximo de tonelada, e mesmo assim, em situações bem limitadas) e em tempo (se conhecerem alguém com valor significativo de idade acima de um século, por favor, me avisem!).

Recomendação de leitura
Osvaldo Pessoa Jr. ; O Sujeito na Física Quântica; Epistemologia, Lógica e Filosofia da Linguagem – Ensaios de Filosofia Contemporânea, ISBN 85-7395-055-2, Núcleo de Estudos Filosóficos – UEFS, Feira de Santana, 2001, pp. 157-96. - www.fflch.usp.br

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Pseudociências - 1



O físico Robert L. Park publicou no Chronicle Review um artigo intitulado "The Seven Warning Signs of Bogus Science" - "Os sete sinais de aviso de pseudociência" - para que os leigos possam identificar mais facilmente o que é ciência do que não é...

O texto está aqui: www.quackwatch.com

Obs.: Acrescento traduções parciais dos “sinais”. Com o tempo, espero publicar a tradução completa do texto.


voodoo-science.jpg


Os sinais são

1- O pesquisador expõe sua descoberta diretamente na mídia;

A integridade da ciência repousa sobre a disposição dos cientistas em expor novas ideias e descobertas para o escrutínio de outros cientistas. Assim, os cientistas esperam que os seus colegas revelem novas descobertas inicialmente para eles. Uma tentativa de contornar a revisão por pares, tendo um novo resultado diretamente para a mídia, e daí para o público, sugere que o trabalho é pouco provável que surja fechando o exame por outros cientistas.


Um exemplo notório é a reivindicação feita em 1989 por dois químicos da Universidade de Utah, B. Stanley Pons e Martin Fleischmann, que tinham descoberto a fusão fria - a maneira de produzir fusão nuclear sem equipamentos caros. (Nota: e condições extremamente rigorosas.) Os cientistas não reivindicam afirmações até que leem relatórios em uma conferência de imprensa. Além disso, o anúncio foi tratado em grande parte com o potencial econômico da descoberta e era desprovido do tipo de detalhes que poderiam ter habilitado outros cientistas a avaliar a força da reivindicação ou repetir a experiência. (O anúncio de Ian Wilmut que tinha clonado com sucesso uma ovelha era tão público como a alegação de Pons e Fleischmann, mas no caso da clonagem, abundantes detalhes científicos permitiram aos cientistas julgar a validade do trabalho.)


Algumas afirmações científicas evitam até mesmo o escrutínio de repórteres aparecendo em anúncios comerciais pagos. Uma empresa de alimentos saudáveis comercializou um suplemento dietético chamado de "vitamina O" em de página inteira de anúncios de jornal. A "vitamina O" acabou por ser água salgada comum.



2- O pesquisador alega que forças do "status quo" boicotam seu trabalho;

A ideia é que o establishment (científico) presumivelmente parará sem motivo para suprimir descobertas que podem mudar o equilíbrio de riqueza e poder na sociedade. Muitas vezes, o descobridor descreve a ciência mainstream como parte de uma conspiração maior que inclui a indústria e o governo. Afirmar que as companhias de petróleo estão frustrando a invenção de um automóvel que funciona com água, por exemplo, são um sinal claro de que a ideia de um tal carro é bobagem. No caso de fusão a frio, Pons e Fleischmann culparam sua recepção fria aos físicos que estavam protegendo a sua própria investigação em fusão “quente”.
3- O efeito alegado sempre está no limite do experimentalmente detectável;
Infelizmente, nunca há uma fotografia clara de um disco voador, ou do monstro de Loch Ness. Todas as medições científicas devem lidar com algum nível de ruído de fundo ou flutuação estatística. Mas se a relação sinal-ruído não pode ser melhorada, mesmo em princípio, o efeito não é provavelmente real e o trabalho não é ciência.
Milhares de artigos publicados em parapsicologia, por exemplo, afirmam denunciar casos verificados de telepatia, psicocinese ou precognição. Mas esses efeitos aparecem apenas em análises torturando estatísticas. Os pesquisadores podem encontrar alguma maneira de aumentar o “sinal”, o que sugere que ele não está realmente lá.


4- A evidência da descoberta é anedótica, ou seja, é uma evidência pessoal que nunca foi comprovada cientificamente.


Se a ciência moderna tem aprendido alguma coisa no século passado, é a desconfiar de evidências anedóticas. Porque anedotas têm um impacto emocional  muito forte, que serve para manter crenças supersticiosas vivas numa época de ciência. A descoberta mais importante da medicina moderna não são vacinas ou antibióticos, é o teste duplo-cego randomizado, por meio do qual sabemos o que funciona e o que não funciona. Ao contrário do que diz o ditado, "dados" não é o plural de "anedota".


5- O pesquisador diz que alguma crença tem crédito pelo simples fato desta ter durado por séculos;

Há um mito persistente que centenas ou mesmo milhares de anos atrás, muito antes que alguém soubesse que o sangue circula por todo o corpo, ou que os germes causam doenças, nossos ancestrais possuíam remédios milagrosos que a ciência moderna não pode entender. Muito do que é chamado de "medicina alternativa" é parte desse mito.


A sabedoria popular antiga, redescoberta ou reembalada, é improvável que coincida com a produção de laboratórios científicos modernos.

6- O pesquisador trabalhou em isolamento;


A imagem de um gênio solitário que luta em segredo num laboratório no sótão e acaba fazendo um avanço revolucionário é um “gancho” de filmes de ficção científica de Hollywood, mas é difícil encontrar exemplos na vida real. Avanços científicos hoje em dia são quase sempre sínteses do trabalho de muitos cientistas.

Nota: O tema é relacionado á questão da singularidade tecnológica. Pelo volume e profundidade do que seja hoje uma descoberta científica, ela, com significativa probabilidade, obrigatoriamente é coletiva.


7- O pesquisador precisa propor novas leis da natureza para poder explicar sua descoberta;


Uma nova lei da natureza, invocada para explicar algum resultado extraordinário, não deve entrar em conflito com o que já é conhecido. Se temos de mudar as leis existentes da natureza ou propor novas leis para explicar uma observação, (o apresentado) é quase certamente errôneo.

Comecei esta lista de sinais de alerta para ajudar os juízes federais a detectar um absurdo científico. Mas, assim que terminei a lista, percebi que em nossa sociedade cada vez mais tecnológica, perceber “ciência vodu” é uma habilidade que todos os cidadãos devem desenvolver.