sexta-feira, 23 de abril de 2010

Alices no planeta dos vulcões

Uma jornada trágica entre os perigos que nos rondam
e aqueles que ocultamos

Inicialmente, expliquemos que entre determinado grupo de minha geração originalmente em Porto Alegre diz-se "Acorda Alice!" com um tom jocoso quando percebe-se que determinada pessoa esteja perdida em devaneios, sonhos impossíveis ou altamente improváveis ou não percebendo determinada coisa óbvia. A gíria é mais que adequada para tratar muito do que cerca o humano, hoje e sempre, em inúmeros campos.



Homem, um animal naturalmente esperançoso

Os recentes acontecimentos na Europa, colocando no chão durante dias todos os aviões, trouxe a tona uma coisa que pode ser resumida pela frase de uma moça entrevistada num dos aeroportos (aproximadamente): - A natureza mostrando que não somos nada (sic) frente à ela.

Claro que em meio ao pronunciado nestas semanas, houveram pérolas de ignorância sobre a questão como as destacadas por jornalista como "Isto é a natureza se revoltando contra nós" ou "a natureza se vingando".

Não façamos argumentos "antiteleológicos" (isto dá outro artigo por si), mas deixemos bem claro que o que pode se tornar pejudicial, ao passar para determinado regime com nossa presença, o que poderíamos chamar de "vingança", são sistemas ecológicos, e até em grande escala, o clima, como a grande quantidade de evidências pelo nosso despejo de dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa tem levado a crer. Somos, como já tratei aqui, uma força geológica, mas ainda nossa ação é apenas isto que aí está. As demais forças geológicas em muito nos ultrapassam.

Os geologismos, e nestes os vulcanismos, sempre ocorreram. Existe uma imagem um tanto errônea, provavelmente oriunda da paleontologia da virada do século XIX para o XX nos EUA, que mostra os dinossauros em imagens com vários vulcões em atividade ao fundo, talvez por diversas descobertas que mostravam grande atividade vulcânica nas agora agradáveis e tranquilas paisagens da América do Norte, coincidentemente com as descobertas de fósseis. Houveram ainda sim, longos períodos de grande atividade vulcânica, assim como também devastadoras erupções, iguais a nenhuma outra registrada em nossa História.



Tanto no passado quanto recentemente, se representam dinossauros e outras formas de vida, quando não com erros de morfologia, com erros nos ambientes.


Mas no âmago da questão, o motor geológico terrestre e sua atividade está como sempre esteve, ativo e tentando seguidamente exterminar as bactérias sobre sua superfície, mesmo as mais complexamente modificadas.

O vulcão Eyjafjallajoekull, com todo o estrago e prejuízos que fez, nada mais é que um soluço comparado a vulcanismos do passado e potenciais, dispersos pelo planeta. As erupções do século XVIII e XIX, como a do Laki (1783-1784), na própria Islândia, e a dupla do barulho do Oceano Índico Tambora (1815) e Krakatao (ou Krakatoa, como queiram, 1883) foram realmente erupções que causaram problemas, desde grande número de mortes diretas e locais até mortes por modificação de clima em continentes. Percebamos que o século XX passou, apesar de nosso explosivo crescimento populacional, ao largo de tal escala de eventos. Provavelmente, como a estatística não é mais que estatísticas mas é cruel apontadora de tendências, estamos na proximidade por simples distribuição de mais um evento de grande escala.


Crateras de Tambora, Toba, Santorini (Thera) e Krakatoa. Estas imagens não estão na mesma escala, variando as crateras de 4 a 80 km nas maiores medidas.

Mas tem-se de perguntar qual a escala. Erupções do passado, nem tão remoto, mais que estudadas, como Toba (um irmão maior do turbulento Oceano Índico), que levaram a humanidade a um gargalo populacional de no máximo 10000 casais, e na Índia, não mais de 600, por base em estudos genéticos. Claro que hoje enfrentaríamos uma crise climática global não mais com lanças e pedras polidas, mas também não enfrentaríamos de maneira mais que o precário a obstrução do Sol e invernos de anos mesmo com nossos tratores e colheitadeiras, e fertilizante e insetida algum aqui teria serventia.

Como foi solucionado precariamente na Europa nos "anos sem verão" - correspondendo a 'invernos vulcânicos', teríamos de alimentar centenas de milhões com cogumelos, insetos e caramujos, e pintemos com todas as letras que estas soluções, em meio à criminalidade explosiva, prostituição epidêmica e desordens de todos os tipos, como saques e rebeliões, mesmo em pacíficos, sofisticados e ordeiros países como a Suíça, exatamente o país de há pouco produzira gênios como Euler, e mesmo em tempos logo após Newton e Lavoisier, em um continente onde já haviam as bases da industrialização, com nomes como Watt entre suas fundações. Noutras palavras, as correspondentes escalas de soluções que tinham os líderes do século XVIII e XIX, teríamos de prover para os bilhões que hoje temos de habitantes.



A convecção do manto terrestre, a tectônica de placas e as hot spots, mecanismos que leva a Terra a invariavelmente apresentar vulcanismos.


Mas os geologismos são capazes de "obras" maiores. Basta ver os supervulcões, que somente há pouco tempo na vulcanologia são relativamente bem entendidos. Supervulcões são perfeitamente entendíveis como de difícil tratamento pela geologia do passado porque são tão grandes que não mostram aquela silhueta "Vesúvio" característica. Sua capacidade de produzir materiais para a atmosfera é entendida quando se cita que Taupo, na Nova Zelândia, em erupção de 26 mil anos atrás, expeliu estimados 430 km³ (uma quantidade de material que compactado formaria um cubo de 7 e meio quilômetros de aresta, uma altura maior que a dos maiores vulcões ativos hoje). O gigante Yellowstone, região ativa ao ponto de ser o parque com as atrações que é, em sua última erupção, há 600 mil anos, expeliu 1000 km³.



Escalas comparativas dos materiais expelidos nas erupções. Uma erupção de 10 km³ de expelidos, como a do Monte Santa Helena e de uma erupção de 1000 km³ de um supervulcão.


Só para se entender a diferença, a cratera de Tambora tem 8 quilômetros de diâmetro. Thera, a grande erupção que destruiu a civilização minóica (~1620 AC), apresenta uma cratera que na maior medida alcança 12 km. A cratera de Toba mede pelo menos uns 30 a 40 x 80 a 100 km (eu já a medi grosseiramente em imagens de satélite), sendo o maior lago vulcânico do mundo, e seu domo é a maior 'ilha dentro de outra ilha' do mundo.

Para entender isto num quadro mais amplo, recomendo ler sobre Índice de Explosividade Vulcânica.

Nem falemos de erupções cujas evidências limitam muito o seu estimar, como o conjunto que participou dos mecanismos da extinção Permiano-Triássica há 250 milhões de anos, com eliminação de 95% das espécies, pela liberação de quantidades catastróficas de dióxido de carbono na atmosfera, como as Siberian Traps, cobrindo 7 milhões de km² e tendo de 1 a 4 milhões de km³ em volume de derrames, com cada uma das erupções passando de 2000 km³ de material expelido e durante um processo de até citados 1 milhão de anos de atividade. Similares são as Deccan Traps, que concorrem hipoteticamente - ainda que não preferencialmente - com o impacto de Chicxulub como causa da extinção Cretáceo-Terciária, a popular extinção dos dinossauros.

Entendo os processos desta escala quando visito a Serra gaúcha, ou o Paraná, e vejo camadas de basalto de até 6 metros (pelo menos algumas que já medi) ou na região de Lages, em Santa Catarina, com suas camadas de ardósia oriunda de cinza vulcânica.



Deccan Traps e a Serra gaúcha.


Mas digamos que num tempo próximo controlemos erupções de pequena escala. Na verdade, já contornamos determinados efeitos das erupções, como os derrames de lava, como já feito por água do mar e por obras civis (simples valas), desviando os fluxos respectivamente na Islândia e na Itália. Ainda que controlemos erupções da escala do Eyjafjallajoekull, ainda não controlaremos as imediatamente superiorem em VEI.

Se não controlamos ainda toda a geologia, não controlamos os processos que podem nos prejudicar gravemente. Mas não controlaremos, ao controlar totalmente a geologia, os processos astrofísicos, como a agregação dos corpos celestes, a acreção. Acreção, aqui, é uma palavra simples para rochas do tamanho de nossas montanhas que caiam na Terra a velocidades de dezenas de quilômetros por segundo, e sem nem ao menos estar havendo uma única erupção prejudicando turismo e viagens de negócio e trabalho, tornem a temperatura da atmosfera em poucas horas mais altas que o forno onde assamos um peru, um dos sobreviventes da última colisão catastrófica na Terra.

Assim, se controlarmos, todos as colisões possíveis, sejamos capazes de evitá-las, ainda sim não controlaremos os processos do Sol, que em última instância, será a fonte de energia para deter estes processos prejudiciais todos. Logo, também, não controlaremos, a não ser com muito maior fonte de energia (sugiro olhar para a Via Láctea de noite, já teremos uma resposta negativa pelas distâncias) e teremos de já planejar uma rota de fuga. Pois mais cedo ou mais tarde, antes do Sol fundir a crosta terrestre inteira, como hoje achamos que no Hawai ou na Islândia seja grande problema um riozinho de lava, tornará a temperatura da Terra inadequada à vida.

Mas aqui um problema. Mesmo com os meus mais otimistas cálculos, prevendo uma capacidade de percorrermos distâncias de 100 anos luz lá pelo ano 6400, chegando antes a visitar a mais próxima estrela pelo ano 5700, colocando distâncias que a tecnologia e a economia permitiram no passado percorrer pelos fenícios milhar de quilômetros, atravessar oceanos pelos navegadores europeus e chineses, chegar a Lua em 1969 e talvez chegar a Marte em 2030. Já calculei outras vezes esta primeira visita interestelar, de 4 anos-luz, pelo ano 20 mil, o dobro da data para o império galático que Frank Herbert escolheu para Duna. Mesmo sendo ajustamento de curvas uma arte incapaz de apresentar confiabilidade além do duvidoso, os números são tão distantes quanto os que separam os arquitetos dos primeiros templos do Egito de nós, como se eles tivessem que conjuntamente com estes projetar a represa de Assuã, inaugurada nos anos 1970.


Um dos meus gráficos mais otimistas de ajustamento de distância em relação ao tempo, mostrando que antes de uns ainda 3500 anos de civilização (mais que o que nos separa dos navegadores fenícios e seus barcos), não alcançaremos estrela próxima alguma.

Nisto, que são questões de engenharia, que é o campo do exercer até de alguma ciência, um tanto de grosseira arte, às vezes com os piores custos e as mais terríveis consequências, chega nossa loucura a acharmos que poderá burlar-se ou  mesmo controlar-se a natureza como recentemente vi em documentário do The History Channel, "Apocalipse Cósmico" (da série, "O Universo"), como se tivessemos condições certas de escapar da extinção das estrelas, da Grande Ruptura (Big Rip), da "morte térmica" ou qualquer outro evento futuro, num futuro que inclui a eternidade, que há anos aprendi que pode ser definido pela seguinte pequena metáfora, que aqui procuro melhorar: Eternidade é o tempo que um gigantesco sino de bronze leva para ser gasto por uma andorinha que a cada milênio passa suavemente em voo a ponta da pena de uma de suas asas, tocando-o por um instante.



Temos um delírio permanente que podemos controlar e escapar de todos os processos naturais, uma coletivização similar, mesmo entre os mais capazes de nós, de que nossa razão e engenho tudo podem, tão doentia muitas vezes quanto a religiosa noção que nossa alma é com certeza imortal ou que, paradoxalmente, "o mundo acabará", e nossos atos serão julgados. Aqui, Freud, em "O Futuro de Uma Ilusão", talvez tenha apresentado os mecanismos mais profundos e certos deste sentimento que nos move por uma segurança insana somada a uma esperança renitente. E como sempre digo, e fundo com o que estudei de Filosofia, em especial Filosofia da Ciência, a esperança é um mal que se traveste de virtude, pois nos nega o aceitar da tragédia, e nos leva, muitas vezes, a nos acomodarmos na espera de uma salvadora providência divina no último instante de uma temerária procrastinação.

Coloco acima também Filosofia da Ciência, pois até nossa visão científica de mundo mostra este raciocínio patologicamente errôneo, que mesmo não podendo dominar fisicamente a natureza (nossas obras e máquinas), a possamos modelar fisicamente (os modelos físicos). Ou seja, nosso intelecto é capaz de por modelos científicos, prever o comportamento da natureza do ínfimo ao infinito. Na verdade, não podemos modelar a pleno nem o comportamento das partículas de canela que vejo boiando em meu café, quanto mais as galáxias, muito menos o "tudo-que-existe", ainda mais que nem sabemos o que este "tudo" seja.

Quanto muito, temos alguns modelos hidrodinâmicos e relativísticos do universo, e mesmo assim, com um entremeio de imensas dúvidas nas inúmeras lacunas, e melhor seria dizer rachaduras. Mesmo nossos mais sólidos e confiáveis modelos, os mais testados, não podem ser fundidos ainda, e talvez nunca o sejam, com outros. O próprio recente livro de Marcelo Gleiser, Criação imperfeita — Cosmo, vida e o código oculto da natureza, aborda esta visão racional de que ciência é apenas uma criação limitada e imperfeita como humana, e do humano tratando de uma natureza que não necessariamente é perfeita e divina, e embora como defendo (e estou trabalhando numa massa quase intratável de informações para sustentar este ponto) talvez produza banalmente bactérias, não necessariamente as mantém até chegar a ser algo como macacos que lapidam pedras, quanto mais que possam escapar de seus vulcões, sistemas solares caóticos e colisivos, e muito menos de suas agonizantes estrelas, em seus últimos surtos de fúria.



Mesmo sem considerar as extinções em massa, sem nem ao menos escaparmos em milhares de mortos de tsunamis médios, infinitamente antes de escapar de universos em congelamento, e focando-se apenas em que invernos vulcânicos causaram destacados gargalos populacionais, então, da mesma maneira que estreitada a população evidenciou-se mais ainda a nossa Eva Mitocondrial e nosso Adão Y-Cromossomial, não façamos que um comportamento de não se entender que já a geologia terrestre pouco se interessa para a presença humana nos comportando como outro personagem mítico, no caso, similar à uma Alice de Lewis Carroll, em seu mundo de fantasias perigosas, mas finalmente inofensivas. O universo, sob toda a ótica, não mostra um autor que permanentemente nos salve de perigos.

Ad impossibilia nemo tenetur, 'ninguém é obrigado a fazer o impossível', já ensinava o direito romano. Na verdade, ninguém é ao menos capaz de fazer o impossível.

Como sou um ambíguo desonesto intelectual, como já citei, aproveito o gancho do filme de Tim Burton e abordo outro terror que nos assombra, e a razão pela qual talvez só assista este filme em vídeo, e em doses homeopáticas, mesmo com a atração da tecnologia 3D.

Antes de continuarmos para abismos mais profundos e íntimos de nossa convivência, deixemos bem claro que embora um embasado realista, sou também um otimista sobre o futuro humano quase ao nível do patológico.



Macaquinhos esquizofrênicos cercando inocentes Alices
(as vezes tão maus como os assistentes da bruxa de o Mágico de Oz, e como mostra Matrix, cada Dorothy do mundo tem de descobrir que não está mais no agradável Kansas)

Há tempos venho dizendo nas conversas de bar que passei a considerar o humano um ser naturalmente esquizofrênico.

Não que tenha duas humanas personalidades, mas apresenta dois comportamentos animais distintos e até antagônicos. Um, aquele da parte superior e frontal do cérebro, capaz de produzir obras como pinturas em tetos de Igrejas, estátuas inigualáveis nas mais duras e intrabalháveis rochas, sinfonias e óperas magníficas e trabalhos científicos sobre as quais erguemos as mais poderosas empreendimentos e até nações.

Estas mesmas pinturas podem estar sobre as cabeças dos mais perversos pedófilos, as estátuas podem ser homenagens aos mais sanguinários tiranos, aqueles mesmo que enquanto podem ouvir a mais magnífica música terem subordinados matando pessoas em escala industrial e com sofisticada ciência, removendo cidades inteiras do mapa. Aqui, caso a caso, não tratemos de questões específicas, até de fatos históricos e política, ou as razões que levaram a quais abusos sobre a liberdade do alheio, atos brutais, assassinatos, ou mesmo genocídios.

A questão é que somos um animal, especialmente em na parte mais traseira e baixa de nossos cérebros, um tanto perigoso, até mesmo para nossa própria espécie.

Um mesmo motivador que leva um autor como James Matthew Barrie a produzir uma obra infantil como Peter Pan, para agradar filhos de uma mulher pela qual era atraído, como bem mostrado no filme Em busca da Terra do Nunca (Finding Neverland, 2004, curiosamente com o mesmo agora como louco chapeleiro Johnny Depp), e até por isso pagar com um certo nível vitoriano de acusações de pedofilia; pode levar a um pedófilo como Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido como "Lewis Carroll", a construir delirantes e surrealistas histórias infantis visando prolongar sua convivência com meninas pelas quais estava atraído.

Mesmo tendo mandado destruir as fotos (sabe-se lá em que número e de quantas meninas, ainda mais com a miserável população dos bairros da Londres vitoriana), as fotos de Evelyn Hatch, totalmente nua, como "La maja desnuda", de Goya, sobreviveram, e sua maneira de retratar já a Alice Liddell, musa das aventuras da literária Alice, já mostram, suas reais intenções.



Alice Liddell, fotografada por Lewis Carroll, e Jane Russell, estrela de Howard Hughes. A similaridade maior está na erotização um tanto rústica da figura feminina, não na pose, roupa e cenário.


O mesmo comportamento um tanto arrependido e buscando a redenção se expressa nas "Confissões", que leva ao filosofar de Agostinho, com insights de cosmologia como "o tempo surge junto com a criação", leva ao tolher-se a sexualidade à já epidêmica homossexualidade e pedofilia na Igreja Católica. Um adendo: os brâhmanes possuem um conceito que nunca lembro o termo e não gastarei tempo pesquisando de que a compulsão pela sexualidade só pode ser detida salutarmente por um período de 28 dias, um 'motor de desejo', que coincide, darwinianamente, com o ciclo reprodutivo do feminino. Noutras palavras, a cada 28 dias, no máximo, necessitamos de algum e qualquer sexo.

Obs.: Confio tanto nos brâhmanes neste ponto, com sua religião no passado tratando do sexual, quanto confio em chás de índios brasileiros, que por milênios selecionaram princípios ativos de vegetais, que de tão eficientes, como qualquer fármaco moderno da mais sofisticada farmacologia e medicina, em doses elevadas passam pela cura e levam até a morte.



Evelyn Hatch e "La maja desnuda" de Goya. Enquanto uma imagem só poderia escandalizar a sociedade de sua época, a outra pode causar repulsa em todas as sociedades desde a Idade Moderna.


Somos uma macaco que embestou de ser um deus, mas ainda sim, guardamos nos porões de nossa mente os mesmos mecanismos que levavam, quando não durávamos mais de 20 anos, à primeira ovulação de uma fêmea, a procurar nossa reprodução. Hoje, apenas duramos umas 3 ou 4 vezes mais, e nossas fêmeas não aceitam, assim como não aceitamos para nossos filhos, que sejam engravidadas pelos 1/6 a 1/8 de suas vidas.

Mas a mesma repulsa que me leva a não ter atração nenhuma pela obra de Lewis Carroll, em qualquer versão, é um dos mecanismos cerebrais que no seu inverso - a personalidade do humano espelhada e monstruosa, o Mr. Hyde do Dr. Jekyll de Robert Louis Stevenson, outro vitoriano - leva a grupos de skin heads surrarem até a morte um rapaz afeminado em praças de São Paulo, quando no passado primata (e nunca foi propriamente só o nosso passado) num morfologicamente idêntico cérebro nos permitia nem mesmo a esboçar qualquer preocupaçã quem ou qual era o sexo com o qual algum de nossos companheiros de grupo tribal estava copulando. Da mesma maneira que a moralidade sexual da civilização, em todas as suas formas foi um mecanismo, e um mecanismo Freudiano, contruído pelo topo/frente de nosso cérebro, os mecanismos de perversidade e brutalidade com o socialmente hoje inaceitável, até o relativamente moral ou costume, são fruto de nossas inferiores/traseiras regiões cerebrais.



Um beijo nada paternal de Lewis Carroll e Alice em contraste com um dos beijos mais famosos do cinema, entre Burt Lancaster e Deborah Kerr em From Here to Eternity.


Alice, ao mesmo tempo que é símbolo da retratação do sonho, do surreal, da literatura criativamente livre e desregrada, a enfrentar monstros inofensivos e distrair crianças horas a fio, é um exemplo de nossos mais primitivos, incivilizados e animais mecanismos cerebrais, "monstros do IDI" que arrastamos pela nossa história, em nossa marcha desesperada por nos mantermos vivos, mesmo em um planeta que não necessariamente nos sirva de abrigo (e que é prisão da qual ainda não podemos sair).

O mesmo humano cérebro capaz de produzir cartapácios morais infanto-juvenis como O Senhor dos Anéis ou As Crônicas de Nárnia - no qual crianças são colocadas em batalhas ao lado de mitológicos monstros que lhes devotam lealdade até a morte - foi capaz de por estratagemas maquiavélicos, obter a atenção de crianças por contos infantis, da mesma maneira que pelas nossas cidades, são atraídas por doces ou até dinheiro para comida, com os piores objetivos.

Alices se aventuram, pois, não entre maravilhas e espelhos, mas entre perigosos vulcões, sob as mais espessas e escuras nuvens de poeira carregadas pelos mais tóxicos gases, tendo de cruzar no futuro os mais tórridos rios de lava, talvez acompanhadas dos pastores mais malévolos, os parentes mais indesejáveis e vizinhos e desconhecidos os mais doentios.

3 comentários:

Louis Morelli disse...

Francisco, acho que estás esquecendo algo, cuja lembrança pode melhorar suas esperanças no futuro da Vida.

É racional concluir que a espécie humana não terá como sobreviver a todos possíveis eventos do mundo. Mas quem diz que será necessãrio às nossas futuras gerações habilidades para sobreviverem a eventos? A evolução tem feito as formas se transformarem, transcenderem. Somos muito diferentes hoje das nossas ancestrais bactérias, muito mais das nossas ancestrais estrêlas. Os eventos de um mundo quase eterno podem não ocorrer nos pequenos intervalos das transformações dos mortais. É possível que transcendamos a novas formas, como a de energias por exemplo, que nos permitam escapar do fluxo do tempo e dos eventos do mundo. Tambem nos permita estas viagems através de anos-luz.

Tambem sou buscador inveterado e faço meus calculos teóricos, os quais resultam em modêlos. Estes tem sugerido que o Universo lá fora é apenas ou o fóssil de nossos ancestrais ou uma espécie ancestral que ficou no tempo. Se estiverem corretos, a evolução se incorporou em nós e continua unicamente por nós (e outras formas de consciência que existam nêste Universo). Acho que na verdade ainda não temos conhecimento para permitir que nenhuma visão do mundo, nem mesmo aquela adorada que nós mesmos criamos, interfira em nosso humor. Que pensas?

( Se me permites, como esta sua mensagem interessa sobremaneira ao meu tópico "Uma Grande Causa da Humanidade", copiarei trechos de seu artigo, aduzirei comentários como o acima, para meu website: http://theuniversalmatrix.com ) Abraços

Francisco disse...

Depende do que você afirma como "mundo". Se é da Terra, sair daqui já o resolve potencialmente. Se é do sistema solar, o mesmo, com maiores distâncias e escalas de saídas possíveis. Se é da galáxia, o mesmo, e ainda mais. Mas galáxias serão "coeternas" com o universo, e este, por último, é o último dos problemas, e talvez, sem solução possível. Logo, temos que tentar sobreviver, pela simples necessidade de o fazer. Sagan em Cosmo trata disto, longamente. Asimov trata de uma solução fictícia mas coerente em "A última pergunta", conto clássico. Fico com Wells: Temos de conquistar o universo, não temos opção.

Anônimo disse...

http://paisdasmaravilhasbrasil.com/imagem-falsa-lewis-carroll-alice-liddell/ a imagem é falsa