quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O Drible da Vaca

Primeiramente, definições

Para aqueles não familiarzados com determinados jargões e gírias no futebol, saibam que o "drible da vaca" é quando um jogador passa a bola por um lado do jogador adversário, vai pelo outro e consegue recuperá-la. O drible da vaca é uma jogada de grande estética e que também é chamada de "meia-lua" (pelo traçado jogador-bola) e o nome pelo qual o conheci, e diversas vezes sofri, e pouquíssimas realizei.



Pelé perdeu um grande gol na copa de 70 após um drible da vaca, Zico o fez, com uma pequeníssima diferença de execução.

Assistam ao gol perdido de Pelé, aos 2m e 45 s deste vídeo, com a ótima narração e comentários de Milton Neves.

Mas falemos de medicina, e comemorando o aniversário da liberação das pesquisas com células tronco e nosso país.

Células-tronco são células encontradas essencialmente em embriões, que ainda não adquiriram as características de um tipo de célula em particular, como as ósseas, dos músculos ou do cérebro. Dado que células-tronco são indiferenciadas dessa maneira, elas têm um potencial para tornarem-se qualquer tipo de célula que se quiser ou algum paciente necessitar.




pasapirangag03.pbworks.com

Agora falemos de religião e imposições.

Todos sabemos, e inclusive assistimos o julgamento no STF da questão, dos católicos, e óbvia e originalmente da Igreja Católica, se oporem à pesquisas e aplicações de células tronco de origem embrionária.

Coloquemos um pouco de lógica aplicada sobre a questão.

Existe uma quantidade de embriões disponíveis no mercado, e melhor seria dizer "em clínicas", que é mantida conservada à baixa temperatura esperando as condições/momento de serem implantados nos seus proprietários, e aqui o termo é correto e parece-me desnecessário usar outro.

Por questões até de confiabilidade/riscos nos métodos de concepção nestes moldes, o número de embriões sempre será superior ao número de filhos gerados por tais métodos nas mulheres/casais que os buscam.

Assim, tão claramente, percebemos que existe um excedente de embriões, que jamais será implantado.

Desta situação, teremos dois caminhos possíveis:

1) Os embriões serão decompostos (nem usarei o termo mortos, pois seria inútil) pela simples física da questão, pois a conservação é segura e duradoura, mas não ilimitada - como coisa alguma em termos de tecidos vivos o é.

2)Poderiam ser implantados em outros úteros, para outras gestações, em mulheres/casais impedidos de terem filhos e mesmo embriões.

Notemos que ao se seguir o caminho (2), terá de para não se chegar ao caminho (1), obrigar-se mulheres/casais a implantarem embriões (todos), pois inexoravelmente ao isso não ocorrer, chegar-se-á no caminho (1).

Logo, e tal é inequívoco, um número de embriões morrerá (aqui usando o termo visando ferir a absurda lógica dos católicos na questão).





Mas o que está por trás de tal caminho que converge para um absurdo, que é o que embriões "morrem" neste processo, e outra coisa não se pode fazer? Ainda mais vindo de uma Igreja e sua fé que possui quadros tão bem formados, inteligentes e cultos.

Simplesmente também, além de impedir o uso de tal material biológico que de qualquer maneira será perdido, também eliminar sua fonte, que é a "geração da vida humana" in vitro.

Se estou errado, desculpem-me, mas estas são as conclusões que se tira.

Mas infelizmente, para a "lógica católica" na questão, a posição da Igreja/fiéis levou um "drible da vaca", e nem percebeu (ou talvez finja que não percebeu).

O anúncio do drible

Ou, como se diz em artes marciais e lutas, a "telegrafada".

Em novembro de 2006, um grupo de cientistas em Londres pediu permissão oficial para a Autoridade de Fertilização Humana e Embriologia do Reino Unido para iniciar um estudo de três anos envolvendo células-tronco embrionárias. Porém estas não seriam as antigas células-tronco embrionárias. Seriam células-tronco derivadas de embriões híbridos de ser humano e de vaca. Eles pretendiam criar uma quimera, uma única entidade viva que carregue duas espécies completamente diferentes em seu DNA.

Um apontamento em genética e cladística, logo, em evolução e portanto em biologia:

Todos os seres vivos tem relacionamento genético, portanto, ao se criar uma quimera bem balanceada de um ser humano com uma vaca, haverão regiões do DNA que não necessariamente serão diferentes num e noutro DNA original, e portanto, não se ficaria necessariamente com um ser PARTE HUMANO, PARTE BOVINO, pois já o somos, aliás, a isto, chamamos, por exemplo de mamíferos.

Theseu matou o Minotauro, mas a ciência mostrou que seríamos parentes apenas distantes.





O fato

2 Abr 2008

O jornal inglês The Times informa a realização na Inglaterra do primeiro experimento para obter embriões híbridos humano-animais. Os cientistas da Universidade de Newcastle produziram embriões introduzindo DNA humano em óvulos de vaca.

Estes embriões, chamados "híbridos citoplásmicos" são o resultado de introduzir o núcleo de uma célula humana em um óvulo animal do qual previamente se extraiu o núcleo, onde se encontra o material genético (em sua imensa maioria). O material genético no embrião resultante é 99,9 por cento humano e 0,1 por cento animal.



Questões

1) Notemos que o desenvolvimento deste embrião num útero bovino não seria um ser humano, pois o material genético de um ser humano não é um embrião humano, e sim, um tecido, como o é qualquer amputação.

2) Notemos que também (para quem quiser afirmar que (1) está errado pois o ser em questão poderia se desenvolver até o nascimento) o embrião em questão não foi CONCEBIDO, pois sua carga genética não adveio de um óvulo humano e de um espermatozóide, mas poderia ter vindo, por exemplo, de minhas cutículas.

E concordemos que niguém em sã consciência tentaria proibir alguém de cortar as cutículas, e se o fizesse, poderíamos mudar as células originais para as células das mucosas, que perdemos naturalmente todo o dia.

3) Aceitemos então que o embrião é um clone meu, num citoplasma de bovino.

Ao que me parece, quem decide se eu posso ter um clone de minha própria carga genética sou eu, e não outra pessoa. Mas notemos que não é um clone por definição, pois é apenas um conjunto de células com a minha carga genética crescendo num útero de um animal, e pode-se perfeitamente limitar a vida de tal conjunto de células com precisão absoluta, coisa que os milhares de embriões a morrer por decomposição não tem como opção, o que me pareceria um problema muito maior para os católicos e outros se preocuparem.

4) Se tal quimera é um bovino, e não pode ser morto nos primeiros dias de sua fase embrionária, então que os católicos não comam mais gado algum, e poderíamos variar para ovelhas ou cabras, pois a questão seria a mesma.

5) Se o conteúdo genético é de outra pessoa, que não, por exemplo, o meu, e vai ser implantado em mim, os católicos terão de, além de passar pelas questões acima, começarem a impedir os transplantes, pois a questão é a mesma (e sem ninguém necessariamente morrer, mas talvez, cortar as cutículas).

Assim sendo, a menos que eu esteja esquecendo alguma questão, parece-me que os católicos não podem mais impedir o uso de MINHAS células tronco "derivadas" sejam usadas em mim ou noutrem, e ao que parece...

...tomaram um drible da vaca.



Nota: Este texto foi nomeado pelo meu amigo Henrique Boiko, economista, que sugeriu a metáfora irônica e perfeita sobre o que aconteceu com o dogmatismo da ICAR sobre a questão.

Um comentário:

Rodrigo disse...

É por isso que eu digo: ter um cérebro pensante SIM faz diferença.

Ciência 1 x 0 ICAR