domingo, 8 de fevereiro de 2026

A “Teoria da Estabilização” de Eugene M. McCarthy

Tradução de: rationalwiki.org - Eugene M. McCarthy - Stabilization Theory 


Em 2008, McCarthy escreveu um manuscrito descrevendo sua ideia de "Teoria da Estabilização". O manuscrito foi submetido à Oxford University Press, mas rejeitado para publicação por não ter obtido consenso entre os revisores pares.[Nota 1] A teoria foi descrita por PZ Myers como sendo semelhante ao Saltacionismo, que é um tipo de evolução não darwiniana.[Nota 2][Nota 3] Todas as teorias da evolução não darwiniana foram rejeitadas por falta de suporte em evidências desde a época da Síntese Moderna da Evolução (1936-1947). De fato, McCarthy rejeita a síntese moderna, especificamente rejeitando a seleção natural como o principal motor da evolução e rejeitando a microevolução como responsável pela macroevolução. Em vez disso, McCarthy literalmente vira a árvore da vida “de cabeça para baixo”, e argumenta que a hibridização entre espécies é o principal motor da evolução, resultando em sua Teoria da Estabilização. McCarthy também rejeita os conceitos de evolução convergente e radiação adaptativa.[Nota 4][Nota 5]


Depois de afirmar que os tatus podem ter descendido dos anquilossauros, basicamente porque eles se parecem, McCarthy continuou com outro exemplo.


“Morcegos são descendentes de pterossauros. Baleias vieram de mosassauros. Focas são descendentes de plesiossauros. Dinossauros não eram, na verdade, répteis gigantes, eram grandes mamíferos. Essas ideias são contrárias a todas as evidências, é claro, mas uma coisa que você aprenderá com este livro é que as evidências não precisam ser consideradas. Tudo gira em torno da crença de McCarthy na fixidez das espécies — as espécies não mudam de forma alguma, nunca, e toda a novidade evolutiva vem da produção repentina de novas espécies por ‘processos de estabilização’, como a hibridização.” —PZ Myers



A teoria despertou algum interesse de um criacionista (G. Smith) e de um defensor do design inteligente (Vincent Torley), mas apenas porque a teoria se opõe à Síntese Moderna da evolução.


A partir de 2025, depois de aparentemente não conseguir encontrar uma editora convencional, McCarthy ‘autopublicou’ com sua Nothos Press, uma série de calhamaços sob o título Telenothians: An Inquiry into the Limits of Hybridization (“Uma investigação sobre os limites da hibridização”): Volume I: Heterotherians (672 páginas), Volume II: Other Composites (526 páginas), e Volume III:syntheses. ‘Nothos’ em latim significa "bastardo" ou "híbrido" (embora o latim ‘hybrida’ possa ser mais adequado), e ‘telenothos’ significaria "bastardo distante", que pode ser interpretado de várias maneiras.


Notas


1.Pelo que sabemos, pode ter havido apenas um revisor entre vários que considerou que o livro deveria ser publicado.


2.Paul Zachary Myers (PZ Myers) é um biólogo e ativista americano que fundou e escreve o blog de ciência e ateísmo Pharyngula. Ele é professor associado de biologia na Universidade de Minnesota Morris, onde trabalha na área de biologia do desenvolvimento. - en.wikipedia.org - PZ Myers 

3.Saltacionismo em Biologia é a ideia de que a evolução ocorre por grandes saltos ou mudanças súbitas entre gerações, em vez de um processo lento e gradual (gradualismo), podendo levar à formação de novas espécies em uma única etapa, como visto na poliploidia de plantas, e foi revitalizada pela teoria do Equilíbrio Pontuado, que descreve longos períodos de estabilidade (estase) intercalados por curtas e rápidas mudanças evolutivas, contrastando com o darwinismo clássico. - pt.wikipedia.org - Saltacionismo   


4.Evolução convergente, convergência evolutiva ou ainda também citada como convergência adaptativa ou adaptação convergente é quando espécies não aparentadas desenvolvem características semelhantes de forma independente, devido a pressões ambientais ou estilos de vida parecidos, resultando em adaptações como asas (morcegos e aves) ou formas corporais hidrodinâmicas (golfinhos e tubarões) para resolver desafios similares, criando estruturas análogas que não vêm de um ancestral comum próximo, mas sim de pressões seletivas idênticas. - pt.wikipedia.org - Convergência evolutiva 


5.Radiação adaptativa (ou irradiação adaptativa) é um processo evolutivo rápido onde uma espécie ancestral se diversifica em muitas novas espécies, adaptando-se a diferentes nichos ecológicos, como visto nos tentilhões de Darwin ou nos mamíferos, impulsionada por fatores como novos ambientes, recursos disponíveis ou inovações-chave, resultando em uma explosão de diversidade fenotípica a partir de um ancestral comum. - www.ck12.org - O que é radiação adaptativa no contexto da evolução? e querobolsa.com.br - Irradiacao adaptativa  


Anatomia do Absurdo: A Estabilização como Negação da Evidência

A tradução e o aparato crítico apresentados acima expõem mais do que uma teoria excêntrica; revelam o funcionamento da pseudociência contemporânea. A "Teoria da Estabilização" de Eugene M. McCarthy é um caso de estudo fascinante sobre como a erudição pode ser usada para mascarar o abandono do método científico.

1. O Fetiche da Forma e o Abandono do Gene

O erro fundamental de McCarthy reside em um retrocesso intelectual de quase dois séculos. Ao sugerir que tatus descendem de anquilossauros ou que baleias são sucessoras de mosassauros, ele ignora a revolução genômica. A biologia moderna não se baseia apenas em "parecenças", mas na continuidade do código genético.

A proposta de McCarthy é o equivalente biológico à "Etimologia Popular": assim como alguém poderia dizer que pau-brasil vem de "braza" sem olhar registros históricos, ele conecta espécies por analogias visuais, ignorando a Evolução Convergente (Nota 4). Morcegos e pterossauros têm asas pelo mesmo motivo que aviões e pássaros as têm: a física da sustentação exige formas semelhantes, não ancestrais comuns próximos.

2. A Hibridização como "Deus Ex Machina"

Ao transformar a hibridização no motor universal da macroevolução, McCarthy tenta resolver problemas complexos com uma solução mágica. Embora a hibridização exista e seja importante (especialmente em plantas e alguns grupos animais), usá-la para explicar o surgimento de classes inteiras de seres vivos — como os mamíferos — é ignorar a incompatibilidade cromossômica. Propor que a "novidade evolutiva" surge subitamente sem microevolução prévia é, como notou PZ Myers (Nota 2), uma forma de saltacionismo sem base empírica, que serve apenas para alimentar agendas que desejam derrubar a Síntese Moderna sem colocar nada minimamente testável no lugar.

3. A Epistemologia da Crença vs. Evidência

O ponto mais crítico deste dossiê é a admissão de que "as evidências não precisam ser consideradas". Aqui, McCarthy abandona a ciência e entra no campo da dogmática. Quando um autor afirma que sua teoria sobrevive apesar dos fatos, ele está pedindo fé, não escrutínio.

Não é coincidência que o interesse por suas ideias venha de círculos do Design Inteligente e Criacionismo. Embora McCarthy não se declare um deles, sua estrutura de pensamento oferece o que esses grupos mais desejam: uma árvore da vida fragmentada, sem um ancestral comum universal e movida por saltos inexplicáveis.

Conclusão

Publicar estas notas é um ato de responsabilidade intelectual. Como observado na ética da ação e omissão, permitir que o negacionismo científico circule sem o devido contraponto é uma omissão que compromete a integridade do saber coletivo. A "Nothos Press" pode até publicar seus volumes monumentais, mas, como o próprio nome sugere, são ideias "bastardas" — desprovidas da legitimidade que apenas o rigor das evidências e a revisão por pares podem conferir.


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