Introdução: Por que reescrever as ovelhas?
A revisão de um texto que se propõe a discutir a Filosofia da Ciência e a nossa limitada percepção do real não é um mero capricho estilístico, mas uma necessidade metodológica. Se o mundo que observamos está em constante fluxo e nossa capacidade de apreendê-lo é permanentemente incompleta, nossas ferramentas de descrição — a linguagem e o ensaio — também devem ser passíveis de refinação.
Esta versão v2026 de "Ovelhas no campo, a cor dos cisnes e dos corvos" nasce de três necessidades fundamentais:
A Precisão dos Termos: A substituição de conceitos e figuras históricas (como a correção necessária de Bacon no lugar de Byron, um erro até de simples memória e pressa) reflete o compromisso com a genealogia correta das ideias que sustentam o pensamento crítico moderno.
O Aprofundamento Ontológico: A inclusão de uma reflexão sobre a "intimidade da natureza" e os limites entre o micro e o macro expande a discussão para além do método, tocando na nossa incapacidade física de captar a totalidade do "ser".
A Reafirmação da Humildade: Em um tempo de ruídos e certezas absolutas, reescrever este texto é um lembrete de que o conhecimento não é um monumento estático, mas uma estrutura dinâmica. Refazemos o texto porque, como o observador no trem, hoje percebemos detalhes no campo que a versão anterior, sob um ângulo diferente, não nos permitiu notar.
O que segue não é apenas uma crítica à metafísica clássica, mas um guia para a navegação no oceano de ignorância que, paradoxalmente, é o que torna a ciência a nossa ferramenta mais poderosa.
Ao se observar um grupo de ovelhas …
Primeiramente, vou citar um texto que avalio que deve começar a ser clássico para quem insiste em confundir, mesmo sem chegar-se a demonstrações "poderosas", que Física seja a Matemática, e vice versa, apresentado por Simon Sigh, aqui nas minhas palavras:
"Ao se observar um grupo de ovelhas pretas pela janela de um trem, apenas podemos afirmar que no local onde passamos, daquele lado da linha do trem, naquele momento, daquele lado dos exemplares vistos, sua lã é preta."
O texto original já está no "Google Books".
A citação de Simon Singh não apenas ilustra o rigor do pensamento matemático – que se recusa a generalizar além do observado, ciente de que uma única exceção invalida uma regra universal – mas também antecipa o modus operandi da ciência empírica, onde a cautela na afirmação é primordial.
É fundamental notar que a distinção entre demonstração (no campo da Matemática) e evidência (nas Ciências Naturais) é o fio condutor deste argumento, uma premissa crucial para desarmar concepções equivocadas sobre o conhecimento científico.
Este é o raciocínio, segundo Singh, de um matemático, que sempre evita qualquer generalização, pois este é seu mundo, onde intermináveis testes não vão conseguir provar que xn+yn=zn para n>2 não aceita soluções inteiras e que qualquer outro número par não testado não seja soma de dois números primos.
Mas também deve ser o raciocínio, por um caminho um tanto inverso de um físico (e qualquer dos cientistas subordinado às implicações desta ciência) ao não afirmar que, voltemos as nossas ovelhas, a não ser as ovelhas já examinadas neste campo, até o momento e em todos os ângulos examinados, apresentam outra cor que não a preta.
Matemáticos e seu mundo lógico peculiar permitem demonstrações, Físicos e demais cientistas, não, necessitam evidências.
Esta mesma questão foi tratada por Popper, no que podemos definir como "a cor do cisne", que eu prefiro tratar como "a cor do corvo", pelo simples motivo que também corvos são mais claramente até hoje conhecidos como sendo pretos e não de outra cor, e por infeliz motivo didático, já conhecemos cisnes que não brancos. Resumo o meu argumento com a simples pergunta, que devasta quem tenta discutir isto comigo, quando insiste em usar lógicas aristotélicas puras e simplórias para problemas científicos e físicos, quando não religiosos: EXISTE CORVO VERMELHO?
Notemos que uma resposta afirmativa, implicaria em negar o até hoje não evidenciado, que é um único corvo que seja avermelhado, quanto muito, ou mesmo na negação, perguntar, até com maldade, e espero que só esta pergunta já clareie em definitivo a questão, se conheceu todos os corvos do mundo, ou mesmo (e notemos aqui uma útil desonestidade utilizando o que seja o empirismo quando extremado) se conhece todos os planetas para onde foram abduzidos corvos ao longo da história humana e que foram modificados em cores agradáveis aos alienígenas.
Qual a razão do aparentemente insano parágrafo acima?
Novamente, em ciências popperianas não afirma-se aquilo que é, mas aquilo que jamais se evidenciou diferente.
Logo, não interessa que existam ou não alienígenas abduzindo corvos, não interessa que todos os corvos hoje vivos sejam pretos, nem mesmo, agora atento para o detalhe, que tenha existido um corvo na história mutante em rúbea cor. O que interessa, para o estudo deste animal, é que não exista um corvo vermelho conhecido pela ciência.
Aqui acrescento:
1)que o uso do corvo é também adequado para se trazer a tona o "paradoxo do corvo", que mesmo não sendo propriamente um paradoxo, apenas conhecido popularmente assim, mostra que construções lógicas puras, sem um tratamento empírico quando se trata de modelar, e mais que modelar, fazer afirmações sobre a natureza, podem levar à conclusões perigosas, quando não completamente absurdas, quando não também ao pé do que seja o ridículo.
O que popularmente se conhece como 'paradoxo do corvo' – onde a premissa 'todos os corvos são pretos' é, do ponto de vista da lógica formal, confirmada pela observação de qualquer coisa que não seja preta e não seja um corvo (como um sapato verde) – serve como uma reductio ad absurdum do empirismo ingênuo. Ele expõe o perigo de que construções puramente lógicas, desacompanhadas de um rigoroso critério empírico e de falseabilidade, podem levar a conclusões absurdas quando aplicadas à natureza.
Mais tecnicamente, aceitar em lógica afirmações, juízos, asserções particulares, de maneira precipitada e absoluta, implica em aceitarmos outras coisas como universais, o que este "paradoxo" mostra que é um absurdo. Como seguidamente diz um conhecido formado em Filosofia, e a frase não é dele, e sim de todos que estudam ou estudaram Filosofia mais seriamente: a linguagem, logo a lógica, possui limitações.
2)que a cor vermelha para aves não é de forma alguma uma insanidade, basta ver as araras, logo, perguntar isso não é o mesmo que questionar, em ordem crescente de uma argumentação desonesta, sobre um leão azul (mamíferos de pelos azulados me parecem mais que claramente raros), um unicórnio (poderia haver um equino com um único chifre na história da vida, mas não afirmo em si isto), um grifo (me parece que um animal com corpo de equino ou leão, cabeça de ave de rapina e ainda dois membros extras como asas com penas não seja fruto da ancestralidade, mas da imaginação, embora no futuro, quem sabe, possa ser perfeitamente exequível), mas convenhamos que um monstro voador formado de espaguete ou um unicórnio rosa e invisível já começam a se tornar uma desonestidade maior que as que cometi, utilmente acima.
Nesse contexto de luta contra discursos desonestos, o Monstro do Espaguete Voador (M.E.V.) e o Unicórnio Rosa Invisível (U.R.I.) emergem não como meros gracejos, mas como poderosas ferramentas satíricas, contra-argumento, por exemplo, para os criacionistas e similares. Eles expõem, pelo absurdo, a fragilidade de argumentos que exigem a negação de hipóteses não falseáveis, invertendo a lógica da prova e revelando a fé cega por trás de certas 'crenças' que se disfarçam de 'teorias'.
Aqui, acrescentemos uma observação: se os logicismos portanto não permitem nem mesmo se saber as cores dos corvos e das ovelhas, o que se há de se dizer de tudo que existe, e como este tudo se comporta, ou mais ainda, de tudo que existe ao longo de toda a história e mais que isso, do próprio tempo, que defina a história?
Por estas e por outras, que da mesma maneira que provar a existência de tudo que existe pela conclusão por logicismos por um "ser" total, perfeito (seja lá o que for isso), consciente, complexo é tão errôneo, ingênuo, infantil e ignorante frente ao que seja a história da Filosofia e os mínimos fatos quanto o é chegar a uma formação do tudo a partir de seja lá o que material, dentro de transformações não evidentes por matemática simplória, ou mesmo uso inconveniente e errôneo do que seja qualquer critério de escolha de hipóteses, como a navalha de Ockham, ou mesmo afirmar a partir do que seja o "filosófico nada", usando de nossa apreensão limitada do espaço (a janela do trem para as ovelhas), e do tempo (o instante que olhamos as ovelhas), ou mesmo, o número de vezes que vimos os fenômenos, combinação dos dois (o número de corvos que vimos a cor) ou mesmo o que avaliamos como o que seja (ou alguém aqui duvida que o rubro muito profundo não seja chamado e visto como preto por inúmeros homens sobre a Terra, ou por acaso conhece também todos os homens do planeta?).
Reforcemos esse ponto: Nós temos captação de uma limitada "impressão" do que seja um ente, de seu estado agregado, por exemplo, um cisne. Mas sua total constituição, seus elementos mínimos, ou mesmo uma completa certeza do que ele é, não temos de forma alguma, e sempre temos a captação desse estado do agregado que são os entes na natureza em um corte limitado no tempo. Olhamos para o estado de um corpo celeste que é a Lua, num período de tempo, coisa alguma a mais. Igualmente, o mesmo para um ente pequeno, relativamente, como poderíamos dizer, um grão de areia. O humano não atinge o que seja realmente a existência do mundo, sua constituição ou mais ampla natureza. Não temos como captar a totalidade da natureza, o “tudo-que-existe” que pertence apenas ao filosofar, ou a mais profunda intimidade da natureza, o seu mínimo.
Assim, concluímos que toda a metafísica que não seja crítica (no sentido de criticar o que se afirme sobre o mundo) está morta e enterrada, ou como sempre repito, aos moldes de Heidegger, destruída.
A 'morte' e 'destruição' da metafísica construtivista, nos moldes de Heidegger, reside na sua incapacidade de se submeter à crítica empírica e à falseabilidade. Diferente da tradição aristotélica e tomista, que buscavam construir sistemas totais e apriorísticos sobre a realidade, a filosofia da ciência moderna, pavimentada por Hume, Kant, e aperfeiçoada por Popper e Kuhn, exige que as afirmações sobre o mundo sejam constantemente postas à prova pela evidência, e não meramente deduzidas de premissas autoconfirmáveis ou por logicismos puros.
Assim, esta é, em outras palavras e outro método, a história do pensamento científico, e filosófico, da ciência, saindo da errônea metafísica construtivista de Aristóteles e Tomás de Aquino, entre outros, passando por Bacon, Kant e Hume, e chegando ao seu aperfeiçoamento final em Popper e Kuhn. Agora, nada mais nos resta que olhar pelas janelas limitadas que temos, para os lados do campo que podemos, no ângulo que conseguimos, para olhar poucas ovelhas e corvos, e afirmar, com extrema prudência, a cor que deles evidenciamos (se é, caro leitor, que não confundimos um novo animal, semelhante ao extremo com uma ovelha ou um corvo).
Essa é a essência do método científico e da Filosofia da Ciência: um reconhecimento humilde e contínuo de nossa ignorância. O Modus Tollens, a lógica da refutação (se P implica Q, e Q é falso, então P é falso), não é uma limitação, mas a própria força motriz do avanço do conhecimento. Seu império sobre o tratamento do mundo pelo humano será eterno, apenas escavaremos terra para preencher a colossal cavidade de nossa ignorância. Lembrando Newton: o que não sabemos é um oceano, e o que sabemos, uma gota, mas o que é um oceano além de uma infinidade de gotas. Não construímos sobre certezas inabaláveis, mas sim eliminamos falsidades, progressivamente delimitando o que não é verdadeiro e, paradoxalmente, aprofundando nossa compreensão ao nos darmos conta da vastidão do que ainda nos escapa.
Extras
1
Pilares da Prudência Epistemológica
Francis Bacon (1561–1626)
A Ideia: O combate aos "Ídolos da Mente". Bacon argumentava que o intelecto humano é cheio de preconceitos e falhas naturais. Ele estabeleceu que a ciência não deve ser feita por antecipações abstratas, mas por meio da indução rigorosa e da experimentação repetível. No seu texto, ele sustenta a necessidade de olhar pela "janela do trem" em vez de apenas imaginar o que há no campo.
David Hume (1711–1776)
A Ideia: O Problema da Indução. Hume demonstrou que, por mais que vejamos mil corvos pretos, não há uma base lógica racional que garanta que o milésimo primeiro também será. Ele reduziu a "causalidade" a um hábito mental. No seu texto, ele é a base para a afirmação de que não conhecemos o "oceano", apenas as gotas que já passaram por nossas mãos.
Immanuel Kant (1724–1804)
A Ideia: A distinção entre Fenômeno e Númeno. Kant propôs que nunca acessamos a "coisa em si" (o númeno), mas apenas a realidade como ela aparece para nós através dos filtros da nossa mente (o fenômeno). Ele é o fundamento para a sua passagem sobre a "captação limitada do estado agregado": nós vemos o cisne sob as categorias de espaço e tempo, mas sua "total constituição" nos escapa.
Martin Heidegger (1889–1976)
A Ideia: A Destruição da Metafísica. Heidegger criticou a tradição que tentava "encerrar" o Ser em definições técnicas e estáticas. Ele defende que o humano está sempre "lançado" em um contexto. No seu ensaio, ele sustenta a conclusão de que a metafísica construtivista (aquela que tenta montar o mundo como um Lego de certezas) deve ser destruída para que a clareira da verdade possa aparecer na sua forma mais crua e limitada.
Karl Popper (1902–1994)
A Ideia: O Falseacionismo e o Modus Tollens. Para Popper, a ciência não prova verdades, ela elimina falsidades. Uma teoria só é científica se puder ser testada e potencialmente refutada. Ele é o pai da sua pergunta "Existe corvo vermelho?": a ciência não diz que todos são pretos, mas que até agora não encontramos um vermelho que derrubasse a hipótese.
Thomas Kuhn (1922–1996)
A Ideia: As Mudanças de Paradigma. Kuhn mostrou que a ciência não é um acúmulo linear de fatos, mas uma série de saltos onde a nossa "janela" (o paradigma) muda completamente. Ele sustenta a sua ideia de que olhamos apenas o que o ângulo nos permite; se mudamos o ângulo ou a lente, o campo (a ciência) se reconfigura sob novos termos.
2
A Navalha de Ockham (Simplicidade não é Prova)
Guilherme de Ockham (c. 1285–1347)
A Ideia Original: Pluralitas non est ponenda sine necessitate ("A pluralidade não deve ser posta sem necessidade"). Em termos simples: se você tem duas explicações que explicam os mesmos fatos igualmente bem, a mais simples (a que exige menos suposições extras) costuma ser a mais útil.
A Conexão com o Texto: A Navalha é o que separa a "ovelha preta" da "ovelha pintada de preto por alienígenas invisíveis". Embora a segunda hipótese não possa ser 100% refutada (é infalseável), ela exige tantas camadas de suposições sem evidência que a ciência a descarta por economia.
O Perigo do Uso Incorreto: Como bem apontamos no texto, a Navalha de Ockham não prova que a explicação mais simples seja a verdadeira; a natureza não tem a obrigação de ser simples. Ela é apenas uma ferramenta de escolha de hipóteses. Usá-la para afirmar que algo "é" porque é mais simples é cair no mesmo erro dos logicismos puristas. Ela serve para podar o excesso, não para criar a realidade.

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