segunda-feira, 11 de maio de 2026

Anotações científicas - 22

Algumas observações sobre “filosofês” atacando evolução


Após um bom tempo, assisti um vídeo de uma live onde um negacionista, que jura que vai derrubar Ciência com o que chamo de "filosofês"* expressa toda sua ignorância misturada com presunção.


*Discursos baseados em cultura limitada de História da Filosofia, e não do atual estado da arte no campo. Parece uma construção “de e em” Filosofia, mas é apenas o uso de termos, de palavras e alguns conceitos específicos da Filosofia, e nesses, alguns completamente obsoletos, especialmente para tratar o mundo.

O "filosofês" usado por negacionistas costuma ser uma colcha de retalhos de conceitos mal compreendidos, geralmente tentando usar a lógica formal para negar evidências empíricas — o que é algo sem sentido. 




Aos interessados: 

Problemas filosóficos da teoria da evolução - Alexandre Galvão e Jadison Barbosa

EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ ( RESPOSTA AOS ATEUS)

https://www.youtube.com/live/tNVVuDBUjZk?si=6KozIr7eyh7nV_vp  


Assistir a 1h54min de uma live intitulada "Problemas Filosóficos da Teoria da Evolução" exige um estômago que nem a seleção natural nos prepara totalmente para ter.

O vídeo é um compêndio de tudo o que já diversas vezes descrevemos: uma tentativa desesperada de usar terminologia filosófica para mascarar lacunas de compreensão biológica. Aqui estão os pontos mais "sofríveis" que corroboram nossas anotações:

1. O Mal de "Filosofês" e a Lógica de Taubaté

O palestrante tenta aplicar a falácia da afirmação do consequente [16:53] para invalidar a evolução. O argumento deles é basicamente: "Se a evolução fosse verdade, veríamos adaptações. Vemos adaptações, mas isso não prova a evolução". O problema é que eles ignoram que a ciência não trabalha com verdades absolutas matemáticas, mas com a abdução (inferência para a melhor explicação), sustentada por montanhas de evidências convergentes que eles simplesmente fingem que não existem. Mas existe o pior: vemos adaptações, que são exatamente os objetos de artigos científicos que tratam de especiações mostrando modificações corporais as mais diversas.

2. O Espantalho do Naturalismo

Eles gastam um tempo enorme atacando o "naturalismo filosófico" como se fosse uma religião [17:13]. O argumento é o clássico: "Como o cientista sabe que só existe o natural se ele não conhece tudo?". É a famosa tentativa de nivelar a ciência (baseada em evidência) ao dogma (baseado em fé), tentando dizer que o cientista "tem fé no átomo" tanto quanto eles têm no sobrenatural.

3. A Confissão do Fundamentalismo

O momento mais tragicômico é quando um dos participantes assume com orgulho o rótulo de "fundamentalista radical" [01:50:15]. Ele faz um malabarismo etimológico dizendo que é "radical" porque tem "raiz" e "fundamentalista" porque tem "fundamentos". Logo em seguida, ele descamba para o Ad Hominem puro, chamando o ateísmo de "m3rda" e dizendo que quem vira ateu "fica burro e idiota" [01:50:50].

4. O Sequestro da Moralidade

Para fechar com chave de ouro o festival de horrores, ele usa o argumento do "padrão moral absoluto" [01:53:05]. Segundo ele, se você não acredita no Deus dele, você não tem base para dizer que "matar criancinhas é errado", porque estaria "sequestrando o padrão moral" do cristianismo. É a negação total da evolução da cooperação e da ética como fenômeno social e biológico.

Conclusão para nossas notas: O que já chamamos de "simples estupidez agarrada no fanatismo" fica evidente no final do vídeo [01:52:02]. Ele tenta dizer que chamar alguém de "burro" não é Ad Hominem, mas "constatação de fato".





Imagem gerada na Meta AI, que seria interessante para ilustrar alguma fábula infantil sobre uma criança em meio aos dinossauros às vésperas de um dilúvio. O imenso problema é quando mitos (fábulas) assim permeiam a visão de mundo e sua história de adultos.

domingo, 10 de maio de 2026

Astrologia - Uma desconstrução

Certa vez criei (argh!) ... inventei a ironia de que a ciência dos processos e estruturas nos astros não deveria se chamar Astrofísica, e sim Astrologia (como Geologia, "estudo da Terra"), mas uma pseudociência roubou o nome primeiro. Poderíamos denominar tal processo de "sequestro" semântico.


Em outra ironia, sempre digo que não posso confiar em Astrologia, pois sou de Leão com ascendente em Áries e Lua em Aquário.



A Astronomia e a Astrologia caminharam juntas por milênios. A separação clara só veio com o Iluminismo e a Revolução Científica. O problema é que a "pseudociência" se apropriou do termo que soa mais acadêmico e fundamental, deixando para a ciência real nomes que parecem mais descritivos ou derivados de ramos da física terrestre.

Curiosamente, na Geologia, usamos Geofísica para o estudo das propriedades físicas da Terra. Seguindo o mesmo raciocínio, se a Astrologia não tivesse sido "roubada", talvez hoje o campo de interesse em exoplanetas ou química estelar fosse simplesmente chamado de Astrologia, e a "previsão do futuro" teria que se contentar com algo como Astromancia.

Falar sobre a Astrologia sob a ótica do rigor científico é entrar em um campo onde a correlação não implica causalidade e onde o viés de confirmação reina absoluto. Para quem preza pela Termodinâmica e pela Biologia Evolutiva, os furos são estruturais, não apenas superficiais.

1. O Problema das Forças Fundamentais

Se os planetas influenciam o comportamento humano, qual força física mediaria isso?

  • Gravidade: A força gravitacional que o médico ou os aparelhos do hospital exercem sobre um recém-nascido é ordens de magnitude maior do que a de Marte ou Saturno, devido à distância (F = G.m1.m2/d²).

  • Eletromagnetismo: Júpiter tem um campo magnético poderoso, mas ele é blindado pela magnetosfera terrestre e não tem como interagir de forma seletiva com os neurônios de uma pessoa específica para moldar sua "personalidade".

2. A Precessão dos Equinócios (O erro de cálculo)

Este é o golpe de misericórdia astronômico. O eixo da Terra oscila como um pião (um ciclo de cerca de 26 mil anos). Desde que o zodíaco foi estabelecido na Antiguidade, as constelações "deslizaram" em relação ao calendário.

  • Quem diz ser de Áries, hoje, na verdade tem o Sol passando pela constelação de Peixes no momento do nascimento.

  • A Astrologia ocidental ignora esse fato físico e continua usando um mapa do céu que não existe mais há dois milênios.

3. O Efeito Forer (ou Efeito Barnum)

Por que as pessoas sentem que o horóscopo "acertou em cheio"? É um fenômeno psicológico onde indivíduos dão notas altas de precisão à descrições de sua personalidade que, supostamente, foram feitas especificamente para eles, mas que são, na verdade, genéricas o suficiente para se aplicarem a quase qualquer pessoa.

Exemplo: "Você tem uma necessidade de que as pessoas gostem de você e o admirem, mas é crítico consigo mesmo." (Isso descreve 99% da humanidade).

4. A Falha na Seleção de Variáveis

Por que apenas os planetas do sistema solar?

  • Se a distância não importa para a "energia" astrológica, por que não considerar os milhares de exoplanetas descobertos?

  • Por que Plutão (que é menor que a nossa Lua) é considerado, mas Ceres ou Eris não são? A escolha dos corpos celestes é arbitrária e baseada em tradição mitológica, não em propriedades físicas (massa, densidade, composição).

A Astrologia acaba sendo um sistema fechado de simbolismo linguístico, que tenta impor uma ordem narrativa ao caos da vida humana. Para quem analisa o mundo através do método científico, ela é uma excelente peça de estudo sobre como a mente humana busca padrões onde só existe ruído. 


"Efeito Marte" (o estudo de Gauquelin)

O "Efeito Marte" é um dos episódios mais fascinantes da história da ciência, pois ilustra perfeitamente como o desejo de encontrar um padrão pode torturar os dados até que eles confessem algo — mesmo que esse algo seja estatisticamente irrelevante.

Michel Gauquelin, um psicólogo e estatístico francês, decidiu na década de 1950 aplicar o método científico rigoroso para testar a astrologia. Ele não acreditava em horóscopos de jornal, mas suspeitava que houvesse uma correlação entre a posição dos planetas no nascimento e o sucesso profissional.

A Tese Central

Gauquelin analisou milhares de datas e horários de nascimento de atletas famosos. Ele afirmou ter descoberto que uma quantidade desproporcional desses campeões nasceu quando o planeta Marte estava em posições específicas no céu: logo após o nascer do planeta (o chamado "Setor 1") ou logo após ele atingir o ponto mais alto no céu (o "Setor 4").

Por que isso parecia "Ciência"?

Diferente dos astrólogos tradicionais, Gauquelin:

  1. Utilizou uma amostra grande (milhares de registros).

  2. Trabalhou com dados objetivos (registros de nascimento e listas de atletas).

  3. Publicou seus métodos para que pudessem ser verificados.

O resultado sugeria uma probabilidade de erro (valor de p) extremamente baixa, o que empolgou a comunidade esotérica. Se fosse verdade, a Física e a Bbiologia teriam um problema sério para resolver.

O Castelo de Cartas Desmorona

Quando outros cientistas e comitês céticos (como o CSICOP) começaram a auditar os dados, a "mágica" desapareceu. As falhas encontradas foram exemplares de como a pseudociência se infiltra na estatística:

  • Viés de Seleção (Cherry Picking): Gauquelin foi acusado de incluir seletivamente atletas que confirmavam sua tese e excluir aqueles que a refutavam. Quando amostras independentes e aleatórias de atletas foram testadas, o "Efeito Marte" simplesmente sumiu.

  • Problemas nos Registros: Na época dos nascimentos analisados (século XIX e início do XX), as horas de nascimento eram registradas manualmente por pais ou parteiras. Havia uma tendência cultural de arredondar horários ou até "ajustar" o registro para horários considerados mais auspiciosos pela tradição popular.

  • A Falácia do Atirador do Texas: Se você testar correlações de dezenas de planetas contra centenas de profissões, a probabilidade estatística dita que, puramente por acaso, alguma correlação vai parecer significativa. Gauquelin focou em Marte e atletas, mas falhou em replicar efeitos similares consistentes para outras combinações.

O Desfecho

O próprio Gauquelin acabou admitindo que não havia prova para a astrologia convencional (signos, casas, etc.). Ele tentou reformular sua teoria como uma "Neo-Astrologia" baseada em genética e ritmos planetários, mas sem sucesso.

No fim das contas, o Efeito Marte serviu mais para a psicologia do que para a astronomia: ele provou o quão vulneráveis somos ao viés de confirmação e como a estatística, se não for aplicada com um protocolo cego e rigoroso, pode ser usada para validar qualquer mitologia.

Um criticismo adicional


A Astronomia, em sua História, mostra a descoberta de planetas que pelo tamanho teriam de ter influência (Urano e Netuno eram desconhecidos, p.ex., para os Babilônios), o entendimento da mudança do ângulo do eixo de rotação terrestre, etc, tornando as análises tradicionais da Astrologia como já partindo de dados errôneos mesmo dentro de sua “lógica”.

Se a Astrologia se pretende uma "ciência das influências", ela falha miseravelmente ao ignorar que o seu próprio "laboratório" (o céu) mudou drasticamente enquanto suas tabelas permaneceram estáticas.

Podemos dividir esse colapso de dados em três pilares principais:

1. O Zodíaco "Fantasma" e a Precessão

Os astrólogos utilizam o chamado Zodíaco Tropical, fixado há cerca de 2.000 anos. O problema é que, devido à precessão dos equinócios (o “bamboleio” do eixo terrestre), as constelações físicas não coincidem mais com os signos.

  • A Realidade: Quando um astrólogo diz que o Sol está em Áries, astronomicamente ele está passando pela constelação de Peixes.

  • O Erro: Eles leem um mapa do céu que não existe mais. É como tentar navegar em São Paulo usando um mapa da cidade do ano de 1800; você vai acabar batendo em prédios que não estavam lá ou procurando rios que foram canalizados.

2. A Incoerência dos Novos Planetas

A descoberta de Urano (1781), Netuno (1846) e o rebaixamento de Plutão criam um dilema lógico insolúvel para a Astrologia:

  • O Dilema da Omissão: Se esses planetas são tão fundamentais para a personalidade (como os astrólogos modernos agora afirmam), então todos os mapas de nascimento feitos antes de 1781 estavam errados ou incompletos. Como a Astrologia pôde "funcionar" por milênios ignorando forças que supostamente moldam o destino?

  • O Dilema da Massa: Se o tamanho e a distância importam, por que Netuno (um gigante gasoso) tem influência e o objeto Eris (quase do tamanho de Plutão) ou os milhares de asteroides maiores são ignorados por boa parte dos profissionais da área?

3. A 13ª Constelação: Ofiúco (Ophiuchus)

A eclíptica — o caminho aparente do Sol no céu — atravessa na verdade 13 constelações, não 12. O Sol passa mais tempo em Ofiúco do que em Escorpião.

  • A Astrologia ignora Ofiúco simplesmente porque o número 12 é "matematicamente elegante" (sistema duodecimal ou de base 12, típicos de civilizações antigas, incluindo os sumérios e babilônios) e cabe perfeitamente na divisão de 360° do círculo. Aqui, a estética e a numerologia antiga atropelam a observação empírica da posição solar.

A Sobrevivência pelo "Misticismo de Conveniência"

Quando confrontados com esses dados, a maioria dos astrólogos modernos recua para o campo do Simbólico: dizem que o que importa não são os astros físicos, mas "arquétipos psicológicos" projetados no céu.

O problema é que, ao fazer isso, eles admitem que a Astrologia não tem base na física ou na biologia, transformando-a em uma forma de literatura terapêutica — útil talvez para introspecção, mas desprovida de qualquer valor preditivo ou explicativo sobre o mundo natural.

O Cosmo como Espelho: A Psicologia da Permanência Astrológica

1. O Determinismo de Baixo Custo

A biologia e a psicologia são ciências "pesadas". Elas exigem encarar o acaso genético, a seleção natural e a responsabilidade individual. A Astrologia oferece um determinismo higienizado:

  • O Álibi Cósmico: Ao atribuir impulsos a variáveis externas universais, o indivíduo remove o peso da agência. "Eu não sou egoísta, meu signo é que tem uma energia de autoafirmação muito forte."

  • A Ordem no Caos: O cérebro humano é uma máquina de buscar padrões (Apoiofonia). Em um universo indiferente, a ideia de que o cosmos se deu ao trabalho de alinhar planetas para influenciar seu dia traz um conforto narcísico profundo.

Assim, a Astrologia funciona como uma externalização da responsabilidade. É muito mais palatável — e até glamoroso — acreditar que sua irritabilidade é fruto de uma quadratura entre Marte e Plutão do que admitir uma falha de caráter ou um traço neurótico herdado de dinâmicas familiares complexas.

2. A Validação da Identidade (O Rótulo de Grife)

A Astrologia fornece um vocabulário pronto para a construção da identidade. Em vez de um processo doloroso de autodescoberta, o indivíduo recebe um "pacote de personalidade" pré-instalado. É a identidade por catálogo: rápida, colorida e socialmente compartilhável.

A Bolha Artística: O Signo como Performance

O peso da Astrologia na classe artística e cultural não é apenas uma questão de crença, mas de linguagem e pertencimento.

1. A Moeda de Troca Social

No meio artístico, a Astrologia opera como um shibboleth (uma senha social). Saber o ascendente ou a lua de um colega cria uma intimidade artificial e imediata. É um lubrificante social em ambientes onde a subjetividade é a principal ferramenta de trabalho.

2. O Ator e o Arquétipo

Artistas trabalham com arquétipos. A Astrologia, embora falsa como ciência, é rica como repositório mitológico. Para um ator ou roteirista, "ser um escorpiano" é um briefing de personagem. O problema ocorre quando a fronteira entre a ferramenta narrativa e a realidade biológica se dissolve, e a pessoa passa a performar o signo na vida real para validar sua "veia artística".

3. A Rejeição ao Tecnicismo

Existe na classe artística uma resistência histórica ao pensamento puramente técnico ou mecânico (o que eles chamam pejorativamente de "frieza científica"). A Astrologia é vista como uma "ciência das humanidades" — um sistema que privilegia a intuição e a emoção sobre a evidência empírica, o que ressoa com a natureza do processo criativo, que muitas vezes é caótico e não-linear.

Conclusão: O Narcisismo Cosmológico

No fim das contas, a permanência da Astrologia na cultura popular, especialmente nas elites intelectuais e artísticas, é o triunfo do Narcisismo Cosmológico. É a tentativa final de dizer que não somos apenas "primatas pelados" submetidos às leis da física e da biologia, mas sim protagonistas de um drama épico escrito nas estrelas.

São os primatas pelados de passado carniceiro nas savanas africanas, que um dia olharam para as estrelas como fogueiras distantes, hoje olham com olhos de cobiça em conquistar o universo, e entre essas duas visões, pretenderam que aquele cenário imenso e suas jóias brilhantes os vestissem com a seda de um seguro destino.

O irônico é que o primata pelado conquistou o topo da cadeia alimentar justamente por sua capacidade de entender as leis da física e da biologia (ferramentas, estratégias de caça, medicina), mas parece que, para muitos, suportar o peso de um universo que não se importa com eles é o limite da sua resistência psicológica. 


É a vitória do Antropocentrismo sobre o Realismo. Preferimos acreditar que somos o centro de um palco iluminado por estrelas distantes do que aceitar que somos apenas uma colônia de células complexas em um grão de poeira, tentando desesperadamente não ser o próximo elo perdido da árvore da vida.

A Câmara de Eco: Onde o Rigor é Visto como "Vilão"

Na classe artística, a Astrologia não é apenas uma crença; é um dialeto. E, como qualquer dialeto, ele serve para incluir quem o fala e excluir quem exige "tradução" para a linguagem da realidade empírica.

Vamos analisar como esse isolamento se cristaliza.

1. A Validação Circular

Em uma bolha artística, a afirmação "Eu sou assim porque tenho Mercúrio em Peixes" não recebe o questionamento: "Que evidência física sustenta isso?". Em vez disso, recebe uma afirmação complementar: "Nossa, total! Isso explica por que sua comunicação é tão fluida e subjetiva!".

  • O Efeito: A hipótese nunca é testada; ela é apenas adornada. Cria-se um sistema fechado de referências onde o mundo real — o "Mundo Nylon" das causas e efeitos — é visto como uma interferência grosseira na "magia" do momento criativo.

2. O Cientificismo como "Inimigo da Sensibilidade"

Dentro dessa câmara de eco, o pensamento crítico científico é frequentemente rotulado como "limitador" ou "mecanicista". Existe um preconceito de que a ciência "tira a cor do mundo".

  • Ao isolar o indivíduo da ciência, a bolha protege o ego do artista. Se ele aceitasse a Segunda Lei da Termodinâmica ou a Neurobiologia, teria de aceitar que sua "inspiração divina" é, em parte, o disparo aleatório de neurotransmissores e que sua obra está fadada à entropia, assim como todo o resto. A Astrologia oferece uma imunidade poética (e falsa) a essas leis.

3. A Entropia da Informação

Aqui entra o choque com a física:

  • Na Ciência: A informação deve ser refinada, testada e capaz de sobreviver ao falseamento.

  • Na Bolha Astrológica: A informação é acumulativa e incoerente. Adiciona-se Lilith, Quirão, novos asteroides e pontos matemáticos vazios para "ajustar" o mapa quando ele não bate com a realidade.

  • Em termos termodinâmicos, a bolha gasta uma energia imensa para manter um sistema de baixa informação (ruído) parecendo alta ordem. É uma tentativa de reverter a entropia psicológica através de uma organização imaginária do céu.

O Isolamento do "Primata Pelado"

Quando a classe artística se fecha nessa linguagem, ela cria um fosso entre o criador e a ferramenta que permitiu que ele existisse: a razão. O isolamento se completa quando o artista passa a desprezar o engenheiro, o biólogo ou o físico, vendo-os como "não despertos" para as sutilezas do cosmos. É o auge da ironia: o indivíduo usa um smartphone (fruto da mecânica quântica e da ciência dos materiais) para postar seu mapa astral e reclamar que o pensamento científico é "muito rígido".

O "Seguro Destino" vs. O Vazio Termodinâmico

A Astrologia é o isolante térmico contra o frio do espaço. Se o artista sair da câmara de eco, ele terá de encarar que:

  1. O universo não tem propósito.

  2. A vida é um sistema dissipativo que luta contra a entropia por um breve momento.

  3. As estrelas não são fogueiras para nos aquecer, mas fornos nucleares indiferentes.

Para muitos, a "seda do destino" é o que impede o colapso nervoso diante da vastidão do vazio.

Referências


James, Edward W, 1990. "Em Demitir Astrologia e Outros irracionalidades", pp 28-36 em Patrick Grim (ed.) Filosofia da Ciência e do Oculto , 2 ª ed, State University of New York Press, Albany.

Kanitscheider, Bernulf, 1991. "Um filósofo Olha Astrologia", Interdisciplinary Science Reviews , 16: 258-266.


Extra


Alguns dados, antes de argumentarmos.

Adolf Hitler nasceu em 20 de abril de 1889. Várias outras pessoas conhecidas mundialmente nasceram neste mesmo dia, embora em anos diferentes. 

Algumas das figuras famosas nascidas em 20 de abril incluem:

  • Jessica Lange (nascida em 1949): Renomada atriz americana, vencedora de dois Oscars.

  • Andy Serkis (nascido em 1964): Ator e diretor britânico, famoso por interpretar Gollum em O Senhor dos Anéis.

  • George Takei (nascido em 1937): Ator americano, mundialmente conhecido por seu papel como Sulu em Star Trek.

  • Carmen Electra (nascida em 1972): Atriz, modelo e personalidade de televisão americana.

  • Ryan O'Neal (nascido em 1941): Ator americano indicado ao Oscar por Love Story.

  • Miranda Kerr (nascida em 1983): Supermodelo australiana.

  • Clint Howard (nascido em 1959): Ator americano de cinema e televisão.

  • Shemar Moore (nascido em 1970): Ator americano conhecido pelas séries Criminal Minds e S.W.A.T.

Nota Histórica: Em 20 de abril de 1889, ano de nascimento de Hitler, também nasceram outras personalidades, como o designer de moda francês Paul Poiret. 

Essa é a "cereja do bolo" estatística para qualquer ensaio que pretenda demolir o determinismo astrológico. É o argumento dos gêmeos temporais levado ao extremo do absurdo.

Se as posições planetárias (o tal "mapa do céu") fossem de fato as impressoras do caráter e do destino, o dia 20 de abril deveria ser uma linha de montagem de tiranos ou, no mínimo, de indivíduos com uma "assinatura de alma" idêntica, e digamos, no mínimo próximas, ainda mais para uma relativamente pequena configuração possível dos astros na abóbada celeste. Em vez disso, o que temos é a mais pura e caótica diversidade biológica e social, e históricos de vida dramaticamente diferentes, construídos por uma miríade de dias e experiências.

O Contraste de Destinos (A Ironia do 20 de Abril)

Podemos organizar essa ironia sob três eixos principais para o seu texto:

  • O Tirano vs. O Humanista: Enquanto o mapa astral de 20 de abril é usado por alguns para tentar "explicar" a sombra de Hitler, o mesmo Sol (e configurações próximas) ilumina George Takei, um ícone da luta pelos direitos civis e da tolerância. Se o cosmos inclina o homem, ele parece ter um senso de humor bem duvidoso ao inclinar um para o fascismo e outro para a Federação Unida de Planetas.

  • O Mal Absoluto vs. O Glamour: Colocar Hitler ao lado de Miranda Kerr ou Carmen Electra reduz a Astrologia ao ridículo. A tentativa de encontrar um "traço comum" entre um ditador genocida e uma supermodelo exige uma ginástica mental tão grande que a lógica simplesmente quebra.

  • A "Mímica" de Andy Serkis: Há uma ironia extra em Andy Serkis nascer nesse dia. Ele é o mestre em assumir identidades que não são as dele (Gollum, Caesar). É como se o dia 20 de abril dissesse: "Eu posso ser qualquer coisa, desde um monstro digital até um líder político, dependendo apenas da minha biologia e do meio, não do meu signo".

O Argumento

Podemos usar essa lista para ilustrar o Princípio da Indiferença Estelar. As estrelas estavam lá, emitindo seus fótons e exercendo sua gravidade desprezível, enquanto:

  1. Um designer (Paul Poiret) nascia para libertar as mulheres dos espartilhos.

  2. Um cabo austríaco nascia para incendiar o mundo.

Conclusão lógica: O destino não é uma seda tecida no vácuo espacial; é um tecido áspero, remendado por mutações genéticas aleatórias, escolhas individuais e o contexto histórico.

No dia 20 de abril, o universo não estava "planejando" nada. Ele estava apenas seguindo sua expansão termodinâmica, indiferente se o primata que nascia iria desenhar vestidos ou invadir a Polônia.


sábado, 9 de maio de 2026

Anotações científicas - 21

Alguns apontamentos sobre origem da vida e evolução


Há poucos dias surgiu um discurso novo partindo de negacionista da evolução pela internet em praias brasileiras. Nesse discurso, não sei o que é pior:

Colocar o termo "demarcação", que é um conceito de Filosofia da Ciência, especialmente Popperiana, que é exatamente o que é enfrentado pelo DI, ao apresentar uma hipótese sobrenatural, e misturar desgraçadamente o termo num contexto de graduação da complexidade química, como se houvesse ali "barreiras". Ou o termo "travessia", uma coisa que mais parece uma conversa sobre pontes, no que poderia ser dito "transição", onde já se observa hoje perfeitamente graduações das moléculas e futuro maquinário celular com o que sabemos da complexação química.

Mas a coisa até piora...


Negar uma graduação molecular na biopoese é negar a graduação que já existe entre estruturas hoje existentes, como dos príons aos viroides, viruzoides e vírus, sem falar nos posteriores vírus gigantes e mais simples bactérias e arqueas. Isso sem falar das mitocôndrias e cloroplastos, que são marcos de etapas intermediárias.



Essas anotações tocam na ferida exposta do negacionismo biológico: a tentativa de impor categorias estáticas e barreiras metafísicas onde a natureza apresenta apenas fluxo e continuidade.

É realmente irônico que utilizem o termo "demarcação" (tão caro a Popper) para tentar validar o Design Inteligente (DI), já que o critério de demarcação original serve justamente para excluir o sobrenatural do campo científico por falta de falseabilidade.

Aqui estão alguns pontos para reforçar nossa argumentação sobre esse "continuum" que os negacionistas tentam fatiar:

1. A Escala da Complexidade Replicante

O argumento de que existe um "abismo" entre a química inorgânica e a vida ignora os estados intermediários que mencionamos. Não há uma "ponte" a ser atravessada, mas um gradiente de eficiência e complexidade.

  • Príons: Proteínas que "moldam" outras; informação sem ácidos nucleicos.

  • Viroides: RNA nu, sem capsídeo; a simplicidade replicante extrema.

  • Vírus Gigantes (Mimivírus/Pandoravírus): Possuem genomas maiores que muitas bactérias e ferramentas de tradução próprias, borrando a linha entre "partícula" e "organismo".

  • Endossimbiose: Mitocôndrias e cloroplastos são a prova viva de que a complexidade surge da fusão, não apenas de saltos mágicos.

2. A Falácia da Barreira na Microevolução

A ideia de que a microevolução não pode se tornar macroevolução é como aceitar que alguém pode dar um passo, mas negar que, após um milhão de passos, essa pessoa possa ter atravessado um país.

  • Rearranjos Cromossômicos: O exemplo do javali e do porco doméstico é excelente. A variação no número de cromossomos (2n=36 vs 2n=38) e a viabilidade de híbridos provam que a "essência" genética é maleável.

  • Hox Genes: Na morfologia, mutações em genes reguladores (como os genes Hox) podem transformar uma antena em pata ou duplicar segmentos corporais em artrópodes. Isso mostra que mudanças radicais de design não exigem "novas peças" criadas do nada, mas apenas novos "interruptores" para as peças que já existem.

3. O Essencialismo Aristotélico-Tomista

O conceito de Baramin (o "tipo original" criado) é uma tentativa moderna de vestir o conceito de "Essência" com uma roupagem pseudocientífica. Para o biólogo evolutivo, a "espécie" é um instantâneo de uma linhagem em movimento; para o negacionista, é uma caixa fechada.

Observações Adicionais:

  • Terminologia: O uso de "travessia" em vez de "transição" é uma armadilha semântica proposital. "Travessia" implica um agente que cruza ou uma intenção, enquanto "transição" descreve um processo físico-químico resultante de pressões seletivas e afinidades moleculares.

  • L.U.C.A. (Last Universal Common Ancestor): Vale notar que ele não foi o primeiro ser vivo, mas apenas o sobrevivente de uma vasta árvore de competidores químicos e pré-celulares que não deixaram descendentes vivos.

 
Leitura recomendada


Para quem deseja entender como a ciência preenche os 'espaços vazios' que o negacionismo tenta rotular como milagres, recomendo a leitura deste artigo sobre a transição molecular e o continuum da vida:

Gómez-Márquez J. The Origin of Life and Cellular Systems: A Continuum from Prebiotic Chemistry to Biodiversity. Life. 2025; 15(11):1745. https://doi.org/10.3390/life15111745 

https://www.mdpi.com/2075-1729/15/11/1745

Resumo


A origem da vida permanece um dos enigmas mais profundos e duradouros das ciências biológicas. Apesar dos avanços substanciais na química pré-biótica, persistem incertezas fundamentais quanto aos mecanismos precisos que possibilitaram o surgimento da primeira entidade celular e, subsequentemente, dos ramos fundamentais da árvore da vida. Após examinarmos os princípios básicos que definem os sistemas vivos, propomos que a vida emergiu como uma propriedade inédita de um sistema pré-bioticamente montado — formado pela integração de distintos mundos moleculares, definidos como conjuntos de entidades moleculares estrutural e funcionalmente relacionadas que interagem por meio de processos catalíticos, autocatalíticos e/ou de auto-montagem. Esse surgimento estabeleceu uma dualidade permanente sistema-processo, na qual a organização do sistema e seus processos dinâmicos tornaram-se inseparáveis. Ao adquirir a capacidade de replicar e mutar seu programa genético, esse organismo primordial iniciou o processo evolutivo, impulsionando, em última instância, a diversificação da vida sob a influência de forças evolutivas e levando à formação de ecossistemas. O desafio de desvendar a origem da vida e o surgimento da biodiversidade não é apenas científico; requer a integração de evidências empíricas, conhecimento teórico e reflexão crítica. Este trabalho não pretende afirmar com certeza, mas propõe uma perspectiva sobre como a vida e a biodiversidade podem ter surgido na Terra. Em última análise, o tempo e a investigação científica determinarão a validade desta visão.



“É característico da ciência que as explicações completas sejam frequentemente apreendidas em sua essência pelo cientista perspicaz muito antes de qualquer possível comprovação.” - John Desmond Bernal


“Reserve seu direito de pensar, pois até mesmo pensar errado é melhor do que não pensar de forma alguma.” - Hipátia (c. 350-415 d.C.)