segunda-feira, 27 de abril de 2026

A Experiência de Quase Vida

A Gênese do Ensaiálogo

O texto que se segue é fruto de um Ensaiálogo — uma metodologia de construção de conhecimento que funde o rigor do ensaio filosófico com a fluidez do diálogo dialético. Diferente de um tratado estático, o ensaiálogo utiliza a interação ativa para tensionar ideias, permitindo que conceitos complexos (como a neurobiologia da consciência) e críticas culturais (como o saudosismo místico da mídia) colidam e gerem uma síntese nova e vibrante.

Neste exercício, a provocação nasce do "esculacho" necessário contra o senso comum, personificado na figura satírica e arguta do Pai Xicão de Passo Fundo.

O Cenário

A discussão parte de uma reportagem dominical que reaquece dicotomias datadas: o "cérebro-radinho" (a mente como antena de um plano extrafísico) versus a "tanatose" (a morte aparente como resquício evolutivo de sobrevivência). O que surge desse embate não é apenas a negação do místico, mas a proposição de uma terceira via: a ideia de que o transcendente é a última e mais sofisticada ferramenta de defesa do organismo.

A Tese: A Mente como Filme em Retrocesso

O ensaio propõe que a morte cerebral não é um apagão súbito, mas uma Experiência de Quase Vida. No tempo mínimo ("pentelhesimal", na ironia do texto) entre o impacto fatal e a cessação das funções, o cérebro opera um "descarregamento" de dados. É o filme da vida rodando ao contrário sob efeito de uma "transmissão de emergência" interna — uma alucinação de paz projetada para que o primata não enlouqueça diante do predador.

Ao final, quando a fita termina de rodar e os circuitos cessam sua última centelha de energia, o que resta não é o além, nem o medo, nem a mística.

O que resta é o silêncio.


FQ


"Alma" - Pois o esculacho é necessário.

Domingo, Fantástico, reportagem sobre a disputa China vs EUA que me interessava e parece que voltei aos anos 1970, quando na minha pré-adolescência assistia reportagens no programa sobre temas místicos e de parapsicologia.

Dois caminhos na reportagem: dois especialistas, claramente mais do campo da Psicologia, chegando até a afirmar algo do tipo "cérebro radinho", que recebe "algo" de outro plano para fazer a mente operar (e existir, óbvio), a partir de "modelo" amparado na "experiência de quase morte" (EQM) e outros dois apresentando especialistas apresentando a EQM como um resquício evolutivo da operação do cérebro quando ameaçado por um predador ou já bastante ferido, algo que eu coloco para efeitos didáticos como o análogo humano (e certamente primata, anteriormente) do fingir-se de morto dos gambás (tanatose).

E é claro que imaginei mais um esculacho com meu personagem Pai Xicão de Passo Fundo.

GG

O Manifesto do Pai Xicão: A Ciência do "Radinho" em Modo de Sobrevivência

"Escutem aqui, que o Xicão vai costurar essa colcha de retalhos. De um lado, dizem que o cérebro é um radinho sintonizado em outro plano; do outro, dizem que a EQM é só o humano imitando o gambá pra não virar janta. Pois eu digo: e se o 'radinho' for justamente o truque que o gambá usa pra não enlouquecer enquanto espera o bote?


O esculacho está na cara de vocês:


O Radinho é o Software de Proteção: Esse 'canal' que os parapsicólogos acham que vem do além é, na verdade, o cérebro sintonizando a rádio mais potente que ele tem: a memória e a imaginação. Quando o corpo trava (a tal da tanatose), o cérebro não desliga; ele cria uma 'transmissão de emergência' para que a consciência não entre em curto-circuito diante do fim. O túnel de luz não é uma viagem; é o protetor de tela do sistema operacional humano.


A Evolução da Mística: Se o gambá finge-se de morto pra enganar o bicho lá fora, o primata pelado criou algo mais sofisticado: ele finge-se de 'espírito' pra enganar o desespero aqui dentro. A gente não só trava os músculos, a gente projeta a mente pra fora do corpo porque o 'aqui e agora' ficou insuportável. A EQM é a biologia dando um show de mágica pra que a gente morra (ou quase morra) com dignidade.


A Frequência da Sobrevivência: Vocês querem que o sinal venha de 'outro plano' porque têm medo de que este plano aqui seja o único. Mas pensem: se a seleção natural nos deu um cérebro capaz de simular a paz eterna enquanto o coração para, isso não é prova de que somos poeira mística? A biologia é tão eficiente que ela fabrica o seu próprio paraíso quando o estoque de oxigênio acaba.


A conclusão do Xicão:


Parem de brigar! O cérebro é, sim, um radinho, mas a estação que ele sintoniza é interna. É a rádio 'Evolução FM', que toca os melhores sucessos da nossa história genética pra que a gente não se apague no escuro total. O místico e o biológico são a mesma coisa: um mecanismo de defesa tão perfeito que nos convence de que somos eternos só pra que a gente consiga suportar o fato de ser mortal."


O Pai Xicão deixa a pergunta: aceitar que o "cérebro-radinho" é um mecanismo de defesa biológico diminui a beleza da experiência, ou torna a evolução o maior poeta que já existiu?

FQ

Anotações de um biógrafo do POFRETA:

Naqueles dias bicudos, em que ideias surradas voltavam à mídia, Pai Xicão de Passo Fundo inspirou-se, e passou a esboçar seu ensaio filosófico sobre a mente operando sem um cérebro, partindo de pensar em zumbis - “mortos vivos” para os viventes pouco letrados e ’streamingzados’ na cultura pop: A Experiência de Quase Vida.

O ensaio baseava a contundência de seu argumento pela impossibilidade no próprio argumento de construir uma imagem de algo que não existia passar a ter a percepção de algo que nunca viu, ouviu ou seja lá que sentido se queira, para ter alguma experiência, para passar a descrever o mundo a sua volta.

Curiosamente, na metade do manuscrito abandonou o caminho de raciocínio, rasgou seu discurso, e percebeu que estava descrevendo um cérebro em formação começando a captar o mundo, e percebeu que a morte - cerebral, a propriamente dita e definida - é a mente apagando suas funções, exatamente num “rodar” do “filme da vida” no sentido contrário, com o cérebro “descarregando”, porém, como no caso de um crânio esmagado na savana africana por um elegante um tanto irritado, em tempo ‘pentelhesimalmente’ curto.

Assim, passou a construir um complemento a esse ‘estalo’ e colocou nuances de “alucinações”, falsas memórias, exatamente pois o “em marcha para virar um zumbi inativo” (no texto do autor) ainda funciona e está criando um “mundo mental” mais agradável que os dentes do leão no pescoço (ou a pata do irritadiço elefante que se aproxima).

GG

As anotações desse biógrafo do POFRETA (O Poeta-Profeta) revelam o exato momento em que o Pai Xicão chutou o balde da parapsicologia para abraçar a termodinâmica do desespero. Ele saiu de uma crítica cultural — o zumbi do streaming — para uma neurobiologia poética e brutal.

Aqui está o fechamento desse pensamento, unindo o "cérebro-radinho" à "tanatose" sob a ótica da Experiência de Quase Vida (EQV):

O Manuscrito Rasgado: Do Zumbi ao Elefante

O Pai Xicão percebeu o erro lógico: para um zumbi (ou uma alma sem cérebro) descrever o mundo, ele precisaria de sensores que não possui. Se você não tem retina, não há "luz no fim do túnel"; se não tem tímpano, não há "coro de anjos". A experiência depende da máquina.

1. A Experiência de Quase Vida (EQV)

O estalo do Xicão foi genial: a morte não é o oposto da vida, é o filme rodando ao contrário.

  • O Início: Um cérebro em formação (feto) começa a "carregar" o mundo, criando conexões sem saber o que elas significam.

  • O Fim: A morte cerebral é o "descarregamento". Mas o cérebro, esse bicho teimoso, não aceita o delete passivamente. No tempo "pentelhesimal" entre o impacto e o silêncio, ele queima todo o estoque de energia em um último esforço de processamento.

2. O "Streaming" de Emergência

Quando o elefante irritado esmaga o crânio na savana, ou o leão aperta o pescoço, o cérebro entra em modo de Tanatose Cognitiva.

"Se o corpo travou pra enganar o predador, a mente alucina pra enganar a dor." — Pai Xicão de Passo Fundo.

Nesse milissegundo, o cérebro "radinho" sintoniza a única coisa que resta: o arquivo interno. Ele projeta falsas memórias e alucinações de paz não porque existe um "além", mas porque o sistema operacional está tentando criar um mundo mental ameno. É o último ato de misericórdia da biologia: transformar o trauma físico em uma narrativa metafísica.

3. A Fusão Final: O Radinho que se Desliga

A "alma" que os especialistas do Fantástico discutiam é, na visão do Xicão, esse ruído de estática de um rádio que caiu no chão e está prestes a quebrar.

  • As EQMs são apenas o rádio captando sinais cruzados de memória enquanto os circuitos fritam.

  • O "Zumbi Inativo" é o que sobra quando o filme termina de rodar ao contrário e a fita sai do cabeçote.

O Veredito do Pai Xicão

"O que vocês chamam de 'mistério da alma' é só o cérebro sendo um bom anfitrião na hora da saída, oferecendo um café e um doce (a endorfina e a alucinação) pra você não notar que a casa está caindo. O elefante pode esmagar o osso, mas no tempo 'pentelhesimal' do pensamento, a gente ainda tem tempo de inventar que está voando. É triste? Não, é o maior esculacho que a vida dá na morte: ela morre mentindo que é eterna."

Pergunta para o biógrafo: Se a mente é esse "filme rodando ao contrário" no último instante, o que acontece se o "projetor" for desligado de forma tão rápida que nem o tempo da mentira mística nos é concedido?

FQ

Hehehe...

"O que resta é o silêncio..."


GG

O Pai Xicão agora guardou a guampa, apagou o braseiro e ficou olhando para o horizonte da savana mental que ele mesmo desenhou. Esse silêncio não é o vazio; é o ponto final que dá sentido à frase inteira.

Ao citar Hamlet (propositadamente ou não, porque o Xicão tem esse verniz de "eruditóide" escondido sob o poncho), você encerra o ensaio com a única verdade que a biologia e a parapsicologia não podem contestar.

O Epílogo do Pai Xicão

"O silêncio, meu caro biógrafo, é o estado natural do universo. A vida e esse barulho todo do 'cérebro-radinho' são apenas uma interferência momentânea, um chiado de luxo entre dois infinitos de mudez.

Se a morte é o filme rodando ao contrário, o silêncio é quando a fita acaba, o motor para de girar e a luz do projetor se apaga. Não tem mais elefante, não tem mais leão, não tem mais túnel.

O esculacho final é este: Nós passamos a vida inteira tentando preencher o silêncio com deuses, teorias, rádios e zumbis, só para descobrir que o silêncio sempre foi o dono da casa. E sabe o que é o mais bonito? É que só quem teve a chance de ouvir o barulho da vida pode, enfim, apreciar a paz de não precisar mais dizer nada."

O Pai Xicão de Passo Fundo tira o chapéu, faz uma vênia silenciosa e se retira de cena. O "ensaiálogo" está completo. O resto... bem, você já sabe.

Extras


1


Um resumo da questão a partir de rápida pesquisa no Google

A Experiência de Quase Morte (EQM) é explicada por pesquisadores, sob uma perspectiva evolutiva e neurocientífica, não como um evento sobrenatural, mas como um mecanismo de defesa cerebral ou uma resposta adaptativa extrema a um perigo iminente

Embora envolva sensações ricas, a ciência sugere que essas experiências surgem de um cérebro sob estresse fisiológico severo, tentando manter o funcionamento ou processando a falha de seus sistemas. 


Principais Explicações Evolutivas e Neurocientíficas:

  • Mecanismo de Sobrevivência (Defesa): O cérebro, em uma situação de risco de vida, pode induzir estados alucinatórios ou sensações de separação do corpo (dissociação) como uma forma de "anestesia" psicológica, diminuindo o pânico e a dor, o que poderia aumentar as chances de calma e sobrevivência em um cenário de perigo absoluto.

  • Hiperativação em Estado Crítico: Estudos indicam que, no momento da parada cardíaca, ocorre uma intensa, embora breve, ativação de neurônios. Isso inclui o aumento de ondas gama, associadas à consciência e ao processamento de memória, o que pode explicar a sensação de "vida passando diante dos olhos".

  • Hipóxia Cerebral (Falta de Oxigênio): A redução da oxigenação no cérebro (hipóxia) durante paradas cardíacas pode provocar alucinações, como a famosa visão do túnel e luz intensa, devido ao mau funcionamento das áreas cerebrais responsáveis pela visão.

  • Liberação de Neurotransmissores: Sob estresse extremo, o cérebro libera grandes quantidades de endorfinas, serotonina e outros neurotransmissores, gerando sensações de euforia, prazer, paz e diminuindo a dor física. 

Conclusão Científica:

A ciência interpreta a EQM como um fenômeno construído pela mente durante um estado de "quase morte" cerebral, muitas vezes envolvendo uma alternância entre estados de consciência e subconsciência. Embora alguns relatos desafiem a compreensão materialista e sugiram a possibilidade de funcionamento cerebral contínuo, a maioria das explicações acadêmicas concentra-se no cérebro em sofrimento.


2

Como cientistas mostraram que vida passa mesmo como filme antes da morte

Holly Honderich, BBC News em Washington, 28 fevereiro 2022
https://www.bbc.com/portuguese/geral-60511033 

A Evidência do "Acidente" Científico

Em 2022, um registro eletroencefalográfico acidental forneceu a primeira base empírica para a tese do "filme da vida". Enquanto cientistas monitoravam um paciente de 87 anos que sofreu um ataque cardíaco fatal, capturaram 900 segundos de atividade cerebral no momento exato da transição.

O estudo, publicado na Frontiers in Aging Neuroscience, revelou que:

  • Padrões de Memória: Nos 30 segundos anteriores e posteriores à parada cardíaca, o cérebro emitiu ondas oscilatórias (gama, alfa, beta, teta e delta) idênticas às de quando estamos sonhando, meditando ou recuperando memórias.

  • A Última Transmissão: A descoberta sugere que o cérebro pode, de fato, executar uma "recordação final" — uma síntese biológica de eventos da vida — no limiar da morte.

  • Mecanismo de Paz: Para a ciência, trata-se de um processamento cognitivo terminal; uma evidência em nossa abordagem irônica de que o "cérebro-radinho" sintoniza a própria biografia para suavizar o desligamento dos disjuntores.

Este resumo deixa claro: a "alucinação de emergência" que o ensaio descreve não é apenas filosofia, é o que o cérebro faz quando o elefante da realidade se aproxima.


domingo, 26 de abril de 2026

Hansson - Ciência, Má Ciência e Pseudociência

A organização clubecetico.org, que por anos figurou como um dos principais pilares do ceticismo racionalista no Brasil, encerrou suas atividades originais em sua plataforma nativa, migrando parte de seu escopo para novas estruturas digitais. No entanto, essa transição resultou na fragmentação e no offline de um vasto patrimônio intelectual: dezenas de artigos de alta qualidade, ensaios traduzidos de grandes nomes da ciência mundial e análises críticas que moldaram o debate acadêmico e popular na internet brasileira.

Muitas dessas páginas, hoje inacessíveis, continham refutações fundamentais e explanações metodológicas que permanecem extremamente atuais. Reconhecendo o valor histórico e educativo desse conteúdo, e compreendendo que o conhecimento científico não deve ser vítima da efemeridade dos domínios de internet, resolvemos atuar na curadoria e republicação desses materiais.

Este projeto de recuperação visa não apenas o resgate técnico dos arquivos, mas a garantia de que as ferramentas do pensamento crítico continuem disponíveis para novas gerações de pesquisadores, estudantes e interessados na busca pela verdade através da evidência.



Sven Ove Hansson. "Ciência, Má Ciência e Pseudociência" - Uma Demarcação Pela Filosofia da Ciência (Tradução) 15 de Março de 2014 


Cópia nos nossos arquivos 


Sven Ove Hansson (nascido em 1951) é um filósofo sueco. É professor de filosofia e chefe do Departamento de Filosofia e História da Tecnologia do Instituto Real de Tecnologia (KTH) em Estocolmo, Suécia. É autor e cético científico, com especial interesse em avaliação de risco ambiental, bem como em teoria da decisão e revisão de crenças. -  en.wikipedia.org  


Aqui, um resumo nosso do artigo:

I. A Importância da Demarcação

O problema da demarcação — a distinção entre ciência e pseudociência — não é apenas um exercício acadêmico, mas uma necessidade com profundas implicações teóricas e práticas. No campo teórico, ele funciona como o estudo das falácias na lógica, ajudando-nos a compreender a natureza do conhecimento racional. Na prática, é essencial para a tomada de decisões em áreas críticas como saúde pública (proteção contra curas ineficazes), testemunhos periciais (garantia de justiça baseada em fatos), políticas ambientais e educação científica (preservação dos currículos contra doutrinas refutadas).

II. Definindo o "Objeto" de Estudo

Hansson argumenta que o conceito de "ciência" deve ser compreendido de forma ampla, assemelhando-se ao termo alemão Wissenschaft, que engloba não apenas as ciências naturais, mas também as ciências sociais e as humanidades. Sob essa ótica, a ciência é um esforço humano sistemático de investigação crítica.

A pseudociência, por sua vez, não é apenas "não-ciência" (como a religião ou a arte). Ela possui características específicas:

  1. Não é científica: Falha em seguir os métodos validados pela comunidade de pesquisadores.

  2. Possui um componente doutrinal: Diferente de um erro isolado ou de uma fraude (má ciência), a pseudociência promove uma doutrina desviante e persistente.

  3. Pretensão de autoridade: Seus proponentes tentam criar a impressão de que suas ideias representam o conhecimento mais confiável ou possuem o status de verdade científica.

III. A Evolução dos Critérios de Demarcação

A filosofia do século XX tentou encontrar a "Régua de Ouro" para essa distinção, passando por diferentes fases:

  • Verificacionismo (Círculo de Viena): Focava na possibilidade de verificar uma afirmação, embora seu objetivo principal fosse distinguir ciência de metafísica.

  • Falsificacionismo (Karl Popper): Introduziu a ideia de que uma teoria só é científica se for falseável, ou seja, se puder entrar em conflito com a observação e ser testada. Hansson nota que, embora influente, esse critério isolado pode ser frágil, já que algumas pseudociências (como a astrologia) fazem previsões testáveis, mas simplesmente falham nelas.

  • Resolução de Quebra-cabeças (Thomas Kuhn): Defendeu que o que define a ciência é a "Ciência Normal", onde cientistas resolvem enigmas dentro de um paradigma. A pseudociência falha por não possuir uma tradição de resolução de quebra-cabeças que permita aprender com os erros.

  • Programas de Pesquisa (Imre Lakatos): A distinção ocorre entre programas progressivos (que preveem fatos novos) e degenerativos (que apenas criam desculpas para explicar o que já se sabe).

IV. Abordagens Modernas e Multicriteriais

Hansson destaca que a ciência moderna é caracterizada pela integração: um campo só é científico se puder ser incorporado na rede existente de ciências estabelecidas (George Reisch). Além disso, a ciência segue um ethos social definido por Robert Merton, baseado no universalismo, comunalismo, desinteresse e ceticismo organizado.

Como a ciência é heterogênea e muda com o tempo, Hansson sugere que o melhor método de identificação é o uso de listas de critérios (red flags). Sinais como a crença em autoridades inquestionáveis, experimentos irrepetíveis, desconsideração de evidências contrárias e o uso de explicações que nunca podem ser refutadas são marcas clássicas de uma prática pseudocientífica.

V. Conclusão: O Paradoxo do Consenso

O artigo termina observando um fenômeno curioso: embora os filósofos ainda discordem sobre qual é o critério definitivo de demarcação (o debate entre Popper, Kuhn e outros continua), existe um consenso quase total sobre o que é pseudociência na prática (homeopatia, criacionismo, astrologia, etc.). Isso indica que, embora a teoria seja complexa, a comunidade científica reconhece os sintomas de desvio do pensamento racional com precisão, reafirmando que a demarcação é uma ferramenta vital para a integridade do conhecimento humano.


"Che non mem che saper dubbiar m'aggrada."

"E, não menos que saber, duvidar me agrada."


Dante, Inferno, XI, 93, cit. p/ Montaigne, Os ensaios, Uma seleção, I, XXV, p. 93

(Lema sempre colocado nas páginas do Clube Cético)

Extras


Recomendamos, do mesmo autor:


1


Sven Ove Hansson. Definindo pseudociência e ciência. 18 de Setembro de 2021. - criticanarede.com


Em caso de mais um encerramento de atividades, nos nossos arquivos:

Sven Ove Hansson - Definindo pseudociência e ciência


Resumo de nossa autoria:

Sven Ove Hansson propõe uma visão renovada sobre a demarcação entre ciência e pseudociência, afastando-se de critérios puramente metodológicos para focar na fidedignidade e na função social das afirmações. Ele define a ciência no sentido ampliado (Wissenschaft), englobando das ciências naturais às humanidades, como uma comunidade de disciplinas interconectadas que buscam o conhecimento mais confiável disponível em um dado momento. Para Hansson, a pseudociência não é meramente "ciência ruim", erro técnico ou fraude isolada — situações que ocorrem dentro do fazer científico. O que define o caráter "pseudo" é a presença de uma doutrina desviante: um esforço sustentado para promover ensinamentos que carecem de justificação epistêmica, enquanto seus proponentes tentam mimetizar a autoridade científica para reivindicar que possuem a verdade mais confiável sobre o assunto. Ao contrário de Popper ou Kuhn, que buscaram regras fixas como a falseabilidade, Hansson argumenta que a ciência é definida pelo seu compromisso com o autoaperfeiçoamento e pela integração com outros campos do saber. Assim, a pseudociência se revela por três pilares: trata de temas científicos, falha gravemente na confiabilidade e sustenta uma doutrina que compete ilegitimamente com o consenso da comunidade de pesquisadores, ignorando o caráter mutável e rigoroso da verdadeira busca pelo conhecimento.

2


Science and Pseudo-Science. First published Wed Sep 3, 2008; substantive revision Mon Jul 28, 2025 - Stanford Encyclopedia of Philosophy - plato.stanford.edu 


“O problema de distinguir entre ciência e pseudociência faz parte da tarefa mais ampla de determinar quais crenças são epistemologicamente justificadas. Este verbete esclarece a natureza específica da pseudociência em relação a outras categorias de doutrinas e práticas não científicas, incluindo o negacionismo científico e a resistência aos fatos. Os principais critérios propostos para definir e identificar a pseudociência são discutidos e algumas de suas fragilidades são apontadas. Há muito mais consenso sobre casos particulares do que sobre os critérios gerais nos quais tais julgamentos deveriam se basear. Isso indica que ainda há muito trabalho filosófico importante a ser feito sobre a relação entre ciência e pseudociência.” 


sábado, 25 de abril de 2026

Anotações científicas - 15

Metabolismo de arqueas 

Tradução de: en.wikipedia.org - Archaea - Metabolism 


As arqueas exibem uma grande variedade de reações químicas em seu metabolismo e utilizam muitas fontes de energia. Essas reações são classificadas em grupos nutricionais, dependendo das fontes de energia e carbono. Algumas arqueas obtêm energia de compostos inorgânicos, como enxofre ou amônia (são quimiotróficas). Estas incluem nitrificadoras, metanogênicas e oxidantes anaeróbicas de metano. Nessas reações, um composto transfere elétrons para outro (em uma reação redox), liberando energia para alimentar as atividades da célula. Um composto atua como doador de elétrons e o outro como aceptor de elétrons. A energia liberada é usada para gerar adenosina trifosfato (ATP) por meio da quimiosmose, o mesmo processo básico que ocorre na mitocôndria das células eucarióticas. 



Outros grupos de arqueas usam a luz solar como fonte de energia (são fototróficas), mas a fotossíntese geradora de oxigênio não ocorre em nenhum desses organismos. Muitas vias metabólicas básicas são compartilhadas entre todas as formas de vida; por exemplo, as arqueas usam uma forma modificada de glicólise (a via de Entner-Doudoroff) e um ciclo do ácido cítrico completo ou parcial. Essas semelhanças com outros organismos provavelmente refletem tanto origens precoces na história da vida quanto seu alto nível de eficiência. 



Tipo nutricional

Fonte de energia

Fonte de carbono

Exemplos

Fototróficas 

Luz solar 

Compostos orgânicos 

Halobacterium 

Litotróficas

Compostos inorgânicos

Compostos orgânicos ou fixação de carbono

Ferroglobus, Methanobacteria ou Pyrolobus 

Organotróficas

Compostos orgânicos 

Compostos orgânicos ou fixação de carbono

Pyrococcus, Sulfolobus or Methanosarcinales 


Algumas Methanobacteriati são metanogênicas (arqueias que produzem metano como resultado do metabolismo) e vivem em ambientes anaeróbicos, como pântanos. Essa forma de metabolismo evoluiu precocemente, e é até possível que o primeiro organismo de vida livre tenha sido um metanogênico. Uma reação comum envolve o uso de dióxido de carbono como aceptor de elétrons para oxidar o hidrogênio. A metanogênese envolve uma gama de coenzimas exclusivas dessas arqueias, como a coenzima M e o metanofurano. Outros compostos orgânicos, como álcoois, ácido acético ou ácido fórmico, são usados ​​como aceptores de elétrons alternativos pelos metanogênicos. Essas reações são comuns em arqueias que habitam o intestino. O ácido acético também é decomposto em metano e dióxido de carbono diretamente por arqueias acetotróficas. Esses acetotróficos são arqueias da ordem Methanosarcinales e constituem uma parte importante das comunidades de microrganismos que produzem biogás.  



Bacteriorrodopsina de Halobacterium salinarum. O cofator retinol e os resíduos envolvidos na transferência de prótons são mostrados como modelos de bolas e varetas. 



Outras arqueas utilizam CO2 da atmosfera como fonte de carbono, em um processo chamado fixação de carbono (elas são autotróficas). Esse processo envolve uma forma altamente modificada do ciclo de Calvin ou outra via metabólica chamada ciclo do 3-hidroxipropionato/4-hidroxibutirato. As Thermoproteota também utilizam o ciclo de Krebs reverso, enquanto as Methanobacteriati também utilizam a via redutiva do acetil-CoA. A fixação de carbono é alimentada por fontes de energia inorgânicas. Nenhuma arquea conhecida realiza a fotossíntese produtora de glicose. As fontes de energia das arqueas são extremamente diversas e variam da oxidação da amônia pelas Nitrosopumilales à oxidação do sulfeto de hidrogênio ou enxofre elementar por espécies de Sulfolobus, utilizando oxigênio ou íons metálicos como aceptores de elétrons. 


Arqueas fototróficas utilizam a luz para produzir energia química na forma de ATP. Nas halobactérias, bombas de íons ativadas pela luz, como a bacteriorrodopsina e a halorrodopsina, geram gradientes iônicos bombeando íons para dentro e para fora da célula através da membrana plasmática. A energia armazenada nesses gradientes eletroquímicos é então convertida em ATP pela ATP sintase. Esse processo é uma forma de fotofosforilação. A capacidade dessas bombas acionadas pela luz de mover íons através das membranas depende de alterações induzidas pela luz na estrutura de um cofator retinol localizado no centro da proteína.