Mendel e o Fim do Fixismo
Podemos afirmar que as leis de Mendel determinam fixismo das espécies?
Temos de responder diretamente que não.
Na verdade, o efeito histórico e científico das Leis de Mendel foi exatamente o oposto: elas forneceram o mecanismo hereditário que faltava para explicar como a evolução ocorre, sepultando de vez o fixismo.
O fixismo é a ideia de que as espécies são imutáveis, criadas independentes umas das outras e que permanecem idênticas ao longo das gerações.
A relação entre Mendel e a evolução pode parecer confusa à primeira vista porque o próprio Mendel não aplicou suas descobertas à macroevolução, mas a genética mendeliana é um dos pilares da biologia evolutiva moderna.

Por que as Leis de Mendel NÃO apoiam o Fixismo?
1. A Variabilidade Genética Oculta
Antes de Mendel, acreditava-se na herança por mistura (onde os traços dos pais se fundiam nos filhos, como tinta azul e amarela gerando verde). Se a herança fosse por mistura, a variabilidade desapareceria rapidamente, pois todos os indivíduos de uma população se tornariam homogêneos. O fixismo usava isso como argumento: se a variação se perde, as espécies não mudam.
Mendel provou que os fatores hereditários (os genes) são particulados. Eles não se misturam; eles mantêm sua integridade de uma geração para a outra. Um alelo recessivo (como o que determina a cor verde em ervilhas) pode ficar "escondido" por gerações e reaparecer intacto mais tarde. Isso garante que a variabilidade genética seja preservada na população.
2. A Segregação Independente cria Novas Combinações
A Segunda Lei de Mendel (Lei da Segregação Independente) demonstra que alelos de genes diferentes se separam de forma independente durante a formação dos gametas.
Isso significa que a reprodução sexuada reorganiza constantemente os genes existentes, criando combinações inéditas de características a cada geração.
Embora isso por si só não crie novos genes, a recombinação genética gera uma enorme diversidade de fenótipos sobre os quais a seleção natural pode atuar.
O Encontro de Mendel e Darwin: A Síntese Moderna
Quando Charles Darwin publicou A Origem das Espécies em 1859, ele enfrentou uma grande dificuldade: ele sabia que a seleção natural precisava de variações para funcionar, mas não conseguia explicar como essas variações surgiam e eram transmitidas sem se diluírem.
A resposta estava no trabalho de Mendel (publicado em 1866, mas amplamente ignorado até 1900).
Na década de 1930 e 1940, cientistas uniram a genética mendeliana à teoria da seleção natural de Darwin, criando a Teoria Sintética da Evolução (ou Neodarwinismo). A lógica funciona assim:
Mendel explicou como os genes são transmitidos de forma discreta e como a variação é mantida e recombinada.
A Mutação (conceito posterior) explicou como novos alelos surgem.
Darwin explicou como o ambiente seleciona as melhores combinações genéticas para a sobrevivência e reprodução.
Portanto, as leis de Mendel não determinam o fixismo. Elas descrevem a estabilidade da transmissão mecânica dos genes, mas é justamente essa estabilidade que permite que a variação genética persista tempo suficiente na natureza para que a evolução ocorra
Uma observação extra
Criacionistas e fixistas costumam confundir a estabilidade da engrenagem com a imutabilidade do resultado. Só porque o mecanismo de cópia e segregação das ervilhas é preciso e estável (Mendel), não significa que o conjunto dessas cópias na natureza não mude sob pressão ambiental (Darwin).








