A ficção científica não é uma luneta apontada para o amanhã, mas um espelho deformante posicionado no hoje.
Existe um vício de leitura que insiste em tratar clássicos como 1984 ou Admirável Mundo Novo como se fossem boletins meteorológicos do futuro. Ao menor sinal de que o ano de 1984* passou sem que um "Grande Irmão" literal dominasse cada tela, ou que a biotecnologia não seguiu exatamente os tubos de ensaio de Huxley, surge o veredito apressado: "Eles erraram o futuro". O problema desse julgamento não está na obra, mas na incompreensão das funções fundamentais do gênero. Ficção científica é tão profecia quanto mitologia é relato histórico.
A Miragem do "Acerto"
O primeiro grande equívoco é acreditar que a FC tem o dever da antecipação técnica. Se a ciência lida com o quê e o como, a ficção científica lida com o "e se?".** Ela não é uma luneta apontada para o amanhã, mas um espelho deformante posicionado no hoje. Quando Orwell escreveu sobre a teletela, ele não estava tentando prever a Smart TV; ele estava explorando a angústia da perda de privacidade e a maleabilidade da verdade sob regimes autoritários de 1948. A obra "acerta" não quando o gadget se materializa, mas quando o sentimento de vigilância que ela descreveu se torna uma categoria do pensamento humano.
O Relógio de Winston Smith (Spoiler)
É curioso notar que a crítica sobre o "erro" cronológico de Orwell ignora um detalhe fundamental: em 1984, o protagonista admite não ter certeza de que o ano é realmente 1984. Em um mundo onde o Partido controla o passado, a noção de tempo linear foi destruída. Orwell nos avisa: o título não é uma data, mas a representação de um presente perpétuo e manipulável. O erro não é do autor, mas do leitor que busca precisão histórica na aniquilação da própria história.
O Mito como Método
A comparação com a mitologia é precisa porque ambos os gêneros buscam dar sentido a forças que escapam ao controle imediato do homem. Assim como o mito de Prometeu não é um manual sobre como produzir fogo, mas uma reflexão sobre a audácia e o custo do conhecimento, a FC cria arquétipos tecnológicos. O "Grande Irmão", o "Admirável Mundo Novo" ou o "Cyberpunk" não são previsões falhas; são topografias morais. Eles servem para mapear os limites da nossa ética frente ao progresso. Se a inação diante do sofrimento alheio é uma falha moral no presente, a ficção científica projeta essa inação em escala planetária ou galáctica para que possamos enxergar o monstro com mais clareza.
A História Alternativa e o Experimento Mental
A prova definitiva de que a FC não está presa ao futuro é o gênero da História Alternativa. Obras como O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick, tratam de como o mundo seria se fatos históricos tivessem sido alterados — no caso, a vitória da Alemanha e do Japão na 2ª Guerra Mundial. Aqui, o foco é entender a natureza do poder e da opressão em um universo alternativo. Se o gênero se dedica a "prever" passados que nunca existiram, como poderíamos exigir que sua função principal fosse adivinhar o futuro?
A Função da Extrapolação (e não da Prevenção)
A FC também não é um manual de instruções ou um "alerta" utilitário. Sua função não é impedir que o futuro aconteça — embora possa servir como vacina intelectual —, mas sim explorar as consequências da natureza humana sob condições extremas. Ela não tem o dever de ser "otimista" ou "pessimista", termos que pertencem à economia e à política. Seu compromisso é com a coerência de sua própria premissa: se a humanidade possuísse X, como ela se comportaria em relação a Y?
Conclusão: O Presente como Destino Final
Em última análise, a ficção científica é uma literatura do presente. Ela usa o futuro como um laboratório isolado onde variáveis podem ser manipuladas para testar o que resta de essencial no ser humano. Exigir que ela "acerte" o futuro é diminuí-la a um exercício de adivinhação, ignorando sua verdadeira potência: a de ser a mitologia da era tecnológica, capaz de traduzir nossos medos mais profundos em metáforas de metal, silício e neon.

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