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Muitas dessas páginas, hoje inacessíveis, continham refutações fundamentais e explanações metodológicas que permanecem extremamente atuais. Reconhecendo o valor histórico e educativo desse conteúdo, e compreendendo que o conhecimento científico não deve ser vítima da efemeridade dos domínios de internet, resolvemos atuar na curadoria e republicação desses materiais.
Este projeto de recuperação visa não apenas o resgate técnico dos arquivos, mas a garantia de que as ferramentas do pensamento crítico continuem disponíveis para novas gerações de pesquisadores, estudantes e interessados na busca pela verdade através da evidência.
Sven Ove Hansson. "Ciência, Má Ciência e Pseudociência" - Uma Demarcação Pela Filosofia da Ciência (Tradução) 15 de Março de 2014
Sven Ove Hansson (nascido em 1951) é um filósofo sueco. É professor de filosofia e chefe do Departamento de Filosofia e História da Tecnologia do Instituto Real de Tecnologia (KTH) em Estocolmo, Suécia. É autor e cético científico, com especial interesse em avaliação de risco ambiental, bem como em teoria da decisão e revisão de crenças. - en.wikipedia.org
Aqui, um resumo nosso do artigo:
I. A Importância da Demarcação
O problema da demarcação — a distinção entre ciência e pseudociência — não é apenas um exercício acadêmico, mas uma necessidade com profundas implicações teóricas e práticas. No campo teórico, ele funciona como o estudo das falácias na lógica, ajudando-nos a compreender a natureza do conhecimento racional. Na prática, é essencial para a tomada de decisões em áreas críticas como saúde pública (proteção contra curas ineficazes), testemunhos periciais (garantia de justiça baseada em fatos), políticas ambientais e educação científica (preservação dos currículos contra doutrinas refutadas).
II. Definindo o "Objeto" de Estudo
Hansson argumenta que o conceito de "ciência" deve ser compreendido de forma ampla, assemelhando-se ao termo alemão Wissenschaft, que engloba não apenas as ciências naturais, mas também as ciências sociais e as humanidades. Sob essa ótica, a ciência é um esforço humano sistemático de investigação crítica.
A pseudociência, por sua vez, não é apenas "não-ciência" (como a religião ou a arte). Ela possui características específicas:
Não é científica: Falha em seguir os métodos validados pela comunidade de pesquisadores.
Possui um componente doutrinal: Diferente de um erro isolado ou de uma fraude (má ciência), a pseudociência promove uma doutrina desviante e persistente.
Pretensão de autoridade: Seus proponentes tentam criar a impressão de que suas ideias representam o conhecimento mais confiável ou possuem o status de verdade científica.
III. A Evolução dos Critérios de Demarcação
A filosofia do século XX tentou encontrar a "Régua de Ouro" para essa distinção, passando por diferentes fases:
Verificacionismo (Círculo de Viena): Focava na possibilidade de verificar uma afirmação, embora seu objetivo principal fosse distinguir ciência de metafísica.
Falsificacionismo (Karl Popper): Introduziu a ideia de que uma teoria só é científica se for falseável, ou seja, se puder entrar em conflito com a observação e ser testada. Hansson nota que, embora influente, esse critério isolado pode ser frágil, já que algumas pseudociências (como a astrologia) fazem previsões testáveis, mas simplesmente falham nelas.
Resolução de Quebra-cabeças (Thomas Kuhn): Defendeu que o que define a ciência é a "Ciência Normal", onde cientistas resolvem enigmas dentro de um paradigma. A pseudociência falha por não possuir uma tradição de resolução de quebra-cabeças que permita aprender com os erros.
Programas de Pesquisa (Imre Lakatos): A distinção ocorre entre programas progressivos (que preveem fatos novos) e degenerativos (que apenas criam desculpas para explicar o que já se sabe).
IV. Abordagens Modernas e Multicriteriais
Hansson destaca que a ciência moderna é caracterizada pela integração: um campo só é científico se puder ser incorporado na rede existente de ciências estabelecidas (George Reisch). Além disso, a ciência segue um ethos social definido por Robert Merton, baseado no universalismo, comunalismo, desinteresse e ceticismo organizado.
Como a ciência é heterogênea e muda com o tempo, Hansson sugere que o melhor método de identificação é o uso de listas de critérios (red flags). Sinais como a crença em autoridades inquestionáveis, experimentos irrepetíveis, desconsideração de evidências contrárias e o uso de explicações que nunca podem ser refutadas são marcas clássicas de uma prática pseudocientífica.
V. Conclusão: O Paradoxo do Consenso
O artigo termina observando um fenômeno curioso: embora os filósofos ainda discordem sobre qual é o critério definitivo de demarcação (o debate entre Popper, Kuhn e outros continua), existe um consenso quase total sobre o que é pseudociência na prática (homeopatia, criacionismo, astrologia, etc.). Isso indica que, embora a teoria seja complexa, a comunidade científica reconhece os sintomas de desvio do pensamento racional com precisão, reafirmando que a demarcação é uma ferramenta vital para a integridade do conhecimento humano.
"Che non mem che saper dubbiar m'aggrada."
"E, não menos que saber, duvidar me agrada."
Dante, Inferno, XI, 93, cit. p/ Montaigne, Os ensaios, Uma seleção, I, XXV, p. 93
(Lema sempre colocado nas páginas do Clube Cético)
Extras
Recomendamos, do mesmo autor:
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Sven Ove Hansson. Definindo pseudociência e ciência. 18 de Setembro de 2021. - criticanarede.com
Em caso de mais um encerramento de atividades, nos nossos arquivos:
Sven Ove Hansson - Definindo pseudociência e ciência
Resumo de nossa autoria:
Sven Ove Hansson propõe uma visão renovada sobre a demarcação entre ciência e pseudociência, afastando-se de critérios puramente metodológicos para focar na fidedignidade e na função social das afirmações. Ele define a ciência no sentido ampliado (Wissenschaft), englobando das ciências naturais às humanidades, como uma comunidade de disciplinas interconectadas que buscam o conhecimento mais confiável disponível em um dado momento. Para Hansson, a pseudociência não é meramente "ciência ruim", erro técnico ou fraude isolada — situações que ocorrem dentro do fazer científico. O que define o caráter "pseudo" é a presença de uma doutrina desviante: um esforço sustentado para promover ensinamentos que carecem de justificação epistêmica, enquanto seus proponentes tentam mimetizar a autoridade científica para reivindicar que possuem a verdade mais confiável sobre o assunto. Ao contrário de Popper ou Kuhn, que buscaram regras fixas como a falseabilidade, Hansson argumenta que a ciência é definida pelo seu compromisso com o autoaperfeiçoamento e pela integração com outros campos do saber. Assim, a pseudociência se revela por três pilares: trata de temas científicos, falha gravemente na confiabilidade e sustenta uma doutrina que compete ilegitimamente com o consenso da comunidade de pesquisadores, ignorando o caráter mutável e rigoroso da verdadeira busca pelo conhecimento.
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Science and Pseudo-Science. First published Wed Sep 3, 2008; substantive revision Mon Jul 28, 2025 - Stanford Encyclopedia of Philosophy - plato.stanford.edu
“O problema de distinguir entre ciência e pseudociência faz parte da tarefa mais ampla de determinar quais crenças são epistemologicamente justificadas. Este verbete esclarece a natureza específica da pseudociência em relação a outras categorias de doutrinas e práticas não científicas, incluindo o negacionismo científico e a resistência aos fatos. Os principais critérios propostos para definir e identificar a pseudociência são discutidos e algumas de suas fragilidades são apontadas. Há muito mais consenso sobre casos particulares do que sobre os critérios gerais nos quais tais julgamentos deveriam se basear. Isso indica que ainda há muito trabalho filosófico importante a ser feito sobre a relação entre ciência e pseudociência.”

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