"Siga o homem, não o cachorro." - Neil deGrasse Tyson, na série Cosmos.
Aos não “iniciados”:
Cachorro representa o que chamamos até em jargão e popularmente - em português - como "tempo", a temperatura do dia, por assim dizer. O homem, menos oscilante ao passear numa praia, é o que devemos chamar clima, que relaciona-se muito mais com uma média global de temperatura, ainda que as latitudes mais equatoriais fiquem tórridas e completamente áridas, hajam extremos de temperatura nas latitudes temperadas e acumule-se pela própria evaporação maior dos oceanos massas maiores de gelo nos pólos.
Francisco Quiumento e Gemini da Google
Essa analogia de Neil deGrasse Tyson é uma das ferramentas mais eficazes para desarmar a confusão clássica entre Meteorologia e Climatologia. É a diferença entre o ruído e o sinal.
Para quem observa de fora, a distinção que apontamos sobre o "cachorro" (o dito ‘tempo’) e o "homem" (o clima) revela a natureza estatística da ciência climática. Enquanto o cachorro corre freneticamente para a água, volta para a areia e late para uma gaivota — representando frentes frias repentinas ou recordes de calor em uma tarde de terça-feira — o homem mantém um vetor de deslocamento constante.
A Dinâmica dos Extremos
O ponto que mencionamos sobre o acúmulo de gelo nos polos por conta da maior evaporação nos oceanos é crucial e, muitas vezes, contra-intuitivo para o público leigo. É o chamado paradoxo da precipitação:
Energia no Sistema: O aquecimento global não significa apenas "calor", mas sim energia retida na atmosfera.
Ciclo Hidrológico: Mais calor leva a uma maior evaporação. Se a atmosfera está mais carregada de umidade, as tempestades de neve em latitudes altas podem se tornar mais severas, resultando em acúmulos pontuais de gelo que alguns usam, erroneamente, para negar o aquecimento sistêmico. Somando, neva no Saara, e pouco interessa para a obviedade de estar essa região nas posições mais tórrida do planeta.
O Vetor do Homem: Enquanto o cachorro (o tempo) está brincando em um banco de neve inesperado, o homem (o clima) continua caminhando em direção a uma temperatura média global mais elevada, e aí reside todo o nosso problema.
No Jargão Brasileiro
É interessante notar como a língua portuguesa permite essa ambiguidade que citamos: usamos "tempo" tanto para a cronologia quanto para o estado atmosférico imediato.
Ao dizer "o tempo está ruim", raramente estamos falando de uma era geológica, mas sim do "cachorro" de Tyson puxando a guia naquele exato momento. Entender que o clima é o destino da caminhada, e não o desvio do caminho, é o primeiro passo para a literacia científica em questões ambientais.
Faz todo sentido aplicar essa lógica para filtrar o ruído do debate público, especialmente quando variações sazonais são usadas como "provas" contra tendências de longo prazo.
Recomendações de leitura
Algumas questões sobre aquecimento global - I
A possibilidade de num aquecimento global, ter-se áreas ou períodos de menor temperatura
https://francisco-scientiaestpotentia.blogspot.com/2012/01/algumas-questoes-sobre-aquecimento.html
Todo cuidado é pouco com o FUP!
https://francisco-scientiaestpotentia.blogspot.com/2010/07/pufs-e-fups.html
Esse trecho dessa blogagem necessita ser revisto e expandido, e o destacaremos e trataremos um pouco aqui:
Tenho uma posição bastante moderada com o que seja um ainda apenas afirmável como possível aquecimento global antropogênico.
Esta minha posição pode ser vista claramente aqui:
Prevenindo um futuro aquecimento global
Mas sempre repito um raciocínio simples, sobre seguras premissas, para, paradoxalmente, apresentar um problema que se soma ao que já apresentei com a questão dos supervulcões.
1.Sabemos que CO2 causa efeito estufa desde os tempos de Arrhenius, no século XIX.
2.Sabemos que estamos extraindo carbono de seu "esconderijo" nos combustíveis fósseis e o transformando em CO2 na atmosfera.
3.Sabemos que estamos diminuindo a capacidade da natureza refixar este carbono nas árvores (e posteriormente, mais destacadamente, no carvão mineral) ao diminuirmos a cobertura de florestas do globo.
4.Sabemos que estamos, desde o início da era industrial, ainda no século XVIII, mantendo este processo, e consequentemente, elevando, como evidente, o CO2 atmosférico.
Logo, independente de já estar ocorrendo um aquecimento global antropogênico, mais cedo vamos estar somando nossa atividade a um aquecimento global seja por que processo for.
Agora, alguns números:
Desde 2007 até 2008, o CO2 chegou ao índice mais alto registrado desde o início da era industrial (considerada aqui como após 1750) de acordo com o relatório da Organização Mundial de Meteorologia (WMO). Desde a assinatura o Protocolo de Kyoto, em 1997, o incremento foi de 6,5%, chegando a 385,2 ppm (parte por milhão), sendo apontado que chegará a 390 ppm ainda em 2010 (se já não chegou, pois nem estou focado aqui neste detalhe).[Nota 1]
As emissões mundiais entre 2007 e 2008 aumentaram 2%, devida à queima de combustíveis fósseis e a produção de cimento (que colabora pela decomposição de carbonatos além da queima de combustíveis diversos). A China e a Índia colaboraram com as maiores altas neste período, respectivamente com 490 e 130 milhões de toneladas, enquanto as maiores baixas foram realizadas pelos EUA e Europa, respectivamente com reduções de 192 e 43 milhões de toneladas.[Nota 2]
É apontado que há um milhão de anos não chega-se a 390 ppm por John Barnes, físico diretor do Observatório de Mauna Loa.
Os cientistas apresentam um consenso que o limite com consequências catastróficas é 450 ppm (tem-se sempre por base um momento claro de extremo efeito estufa durante o Cretáceo). As estimativas de aumentos das temperaturas apontam entre 1,5 e 4,5 graus Celsius.
Os dados apontam que mesmo com a interrupção de todas as emissões ainda por 100 anos haveria uma concentração 30% superior a de 1750.
Relacionando-se com isso, a derrubada de florestas colabora cortando a absorção, e somente o desmate da Amazônia já é apontado como colaborando sozinho com 1,5% do CO2 emitido mundialmente. E parar de cortar a Amazônia não vai fazer o CO2 voltar a ser absorvido (assim como também não utilizar biocombustíveis).
Por cálculos simples, partindo de 277,2 ppm em 1750, chegamos a 382,5 ppm em 2008, a uma média de 0,12% de incremento ao anos, do que chegaríamos, no mesmo ritmo a 450 ppm com mais 16,8% de incremento em 129 anos, mas não a taxas de crescimento como as atuais, evidentemente, muito mais altas.
Mas hoje, com aqui apresentado, em 11 anos as taxas foram de 0,57% médio ao ano, 4,7 vezes mais altas que a nossa média histórica calculada de 0,12%. O que nos faria chegar aos fatídicos 450 ppm em 28 anos.
Só como exemplo, as emissões dos EUA aumentaram 3,7% entre 1997 e 2008. Daí advindo as recomendações do Painel Intergovernamental Sobre Mudança de Clima (IPCC), de reduções das emissões das nações industrializadas entre 25 e 40% até 2020.[Nota 3]
Só como efeito visível, aponta-se perdas de 1,5 trilhão de toneladas de gelo na Groenlândia desde 2000, e na Antártica, 1 trilhão de toneladas.
Esta massa de gelo, representa um volume de 2500 quilômetros cúbicos, aproximadamente, o que por si só já colaboraria com uma camada de água de quase 5 mm sobre toda a Terra, ou, em número mais importante, uma elevação no nível dos oceanos de 7 mm. Pode parecer pouco, mas é mais um passo para enormes áreas de terra seca sumirem e principalmente marés muito mais intensas e destrutivas que as que já temos atuarem no futuro.
Assim, não afirmo como o fez determinada autoridade sobre o tema que "VAMOS COZINHAR!", mas afirmo que temos de qualquer maneira "EVITAR O FUP!", pois quando determinados mecanismos sinergéticos da ecologia forem desencadeados, tal como ocorreu durante um período do Cretáceo, em termos geológicos, nossos problemas poderão na velocidade que ocorrerão ser simbolizados com esta divertida palavrinha.
Fontes: Departamento de Energia dos EUA, Laboratório Nacional Oak Ridge
Janil Chade - O Estado de São paulo, 24/10/2009.
Prevenindo um futuro aquecimento global
Máximos Climáticos
Uma Jornada Através das Temperaturas Extremas da Terra
https://francisco-scientiaestpotentia.blogspot.com/2025/05/maximos-climaticos.html
Notas
1.CO2 atmosférico atualizado
Com base nos dados mais recentes do Global Monitoring Laboratory (GML) da NOAA, o valor da concentração de CO2 atmosférico em Mauna Loa, Havaí, é de 431,73 ppm para a semana iniciada em 29 de março de 2026 .
Para contextualizar, a média de fevereiro de 2026 foi de 429,35 ppm. Há um ano, o valor semanal era de 427,26 ppm, e há dez anos, 405,65 ppm . Esses números demonstram uma tendência contínua de aumento na concentração de CO2 na atmosfera.
Referências
2.Índia e China e sua produção de CO2
As estimativas mais atualizadas sobre as emissões de CO2 da China e da Índia, com base no relatório Global Carbon Budget 2025, indicam as seguintes tendências e projeções :
Contexto Global:
Em 2025, as emissões globais de CO2 provenientes de combustíveis fósseis estão projetadas para atingir um novo recorde, com um aumento de 1,1%, totalizando 38,1 bilhões de toneladas (Gt CO2). A concentração atmosférica de CO2 é prevista para alcançar 425,7 ppm .
Emissões de CO2 da China e da Índia:
Análise Comparativa:
Embora ambos os países continuem a apresentar crescimento nas emissões de CO2 em 2025, as taxas projetadas são mais lentas do que as tendências recentes. A China, apesar de ainda ser o maior emissor global, demonstra uma desaceleração no crescimento de suas emissões, impulsionada por investimentos em energias renováveis. A Índia também registra um crescimento mais moderado, influenciado por fatores climáticos e pelo avanço das renováveis. É notável que, em 2025, as emissões de usinas de energia na China e na Índia caíram simultaneamente pela primeira vez em 52 anos, um marco significativo na transição energética .
Observações sobre os Dados
A redução na velocidade do crescimento das emissões da Índia e a estabilização chinesa reforçam nosso argumento sobre a energia no sistema:
O Paradoxo da Monção: Na Índia, o "cachorro" (o tempo/monção precoce) deu uma folga momentânea no consumo de carvão, mas o "homem" (a infraestrutura energética em expansão) ainda mantém o vetor de crescimento acima de 1%.
Eficiência vs. Volume: Embora a China apresente um crescimento percentual baixo (+0,4%), o volume bruto de sua participação global (32%) ainda é o principal motor que mantém o CO2 acumulado na atmosfera em níveis críticos.
Referências
3.As metas mais recentes
O parâmetro atual mudou drasticamente de figura. Se na época do Protocolo de Kyoto e dos relatórios anteriores do IPCC falávamos em reduções graduais para "evitar" o problema, hoje o foco é o Net Zero (Zero Líquido) para conter o aquecimento em 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.
Aqui estão os parâmetros definidos pelo Acordo de Paris (2015) e atualizados pelos relatórios mais recentes do IPCC (AR6):
1. O Alvo de Curto Prazo (2030)
Para manter o limite de 1,5°C vivo, as emissões globais de gases de efeito estufa precisam ser reduzidas em 43% até 2030 (em relação aos níveis de 2019).
Se o objetivo for limitar a 2°C, a redução necessária é de cerca de 27%.
2. O Alvo de Médio Prazo (2050) - Net Zero
O parâmetro de "sucesso" agora é atingir emissões líquidas zero até 2050. Isso significa que qualquer CO2 emitido deve ser obrigatoriamente compensado por tecnologias de captura ou reflorestamento.
3. O Orçamento de Carbono (Carbon Budget)
Em vez de focar apenas em porcentagens anuais, o IPCC agora trabalha com o conceito de "estoque".
Para ter 50% de chance de não ultrapassar 1,5°C, a humanidade só pode emitir cerca de 250 a 500 gigatoneladas adicionais de CO2 (contando a partir de 2020). No ritmo atual (o "homem" caminhando rápido), esse orçamento pode se esgotar em menos de uma década.
A Situação dos EUA (Comparativo)
Diferente daquele aumento de 3,7% que anteriormente citamos (1997-2008), o cenário atual dos EUA sob o Acordo de Paris é:
Meta: Redução de 50% a 52% das emissões até 2030 (em relação a 2005).
Realidade: Embora tenham reduzido emissões com a substituição do carvão pelo gás natural e renováveis, o ritmo ainda é insuficiente para cumprir a meta de 2030 sem mudanças estruturais profundas na indústria e transporte.
Por que o parâmetro "apertou"?
Porque o "cachorro" (as variações anuais) continuou latindo enquanto o "homem" (a tendência acumulada) ignorou os avisos de Kyoto. Como o CO2 permanece na atmosfera por séculos, o que não reduzimos entre 2000 e 2020 agora exige cortes muito mais agressivos e caros para compensar o tempo perdido. É a diferença entre frear suavemente a 100 metros de um obstáculo ou dar um "pisão" no freio a apenas 10 metros dele.

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