quinta-feira, 11 de junho de 2026

Kantices 3

A Vigarice Intelectual e o Dogma da Inviolabilidade

I. O Tribunal da Conveniência

Um debate sobre liberdade comumente atinge seu ponto mais baixo quando a Ciência é intimada a depor apenas para confirmar o que o Direito Penal já decidiu. Alguns debatedores, defensores de uma “liberdade metafísica” correlato com um mundo determinista - contradição por si - chegam a afirmar que o livre-arbítrio é "perfeitamente provado" porque, do contrário, o Estado não puniria. É o ápice do raciocínio circular: "Punimos porque somos livres, e somos livres porque punimos". Para a Kantice, a utilidade social de uma norma é prova da sua realidade metafísica. Se o Estado decide que o Papai Noel é o responsável pela entrega de cartas, para esses debatedores, a existência do trenó passaria a ser uma "verdade científica inafastável".

II. O Charlatão de Schrödinger: O Ódio a Foucault

A virulência com que alguns desses personagens vagando pelos discursos filosóficos sem terem a base do estado atual das coisas atacam Michel Foucault e Sidney Dekker revela o pânico de ver as "engrenagens do poder" expostas. Ao rotular Foucault de charlatão sem apresentar uma única refutação lógica — apenas alegando que ele "buscava fatos para justificar conclusões" —, eles projetam seu próprio método no outro. O erro clínico aqui é ignorar que Foucault não negava a Biologia, mas descrevia como o conceito de "sujeito livre" é fabricado para tornar a punição palatável. Para a Kantice, qualquer um que aponte que o "rei está nu" (ou que a alma é um processo cerebral) é um vigarista.

III. O PubMed contra o "Agir como Se"

Já assistimos debatedores apresentarem 454 referências do PubMed como laser azul que corta o bunker de papel da nossa imagem “transcendente”. A resposta daquele tipo de idealista é o suprassumo da desonestidade: afirmam que os cientistas "não provam a impossibilidade do livre-arbítrio" sem, obviamente, ter lido os artigos. Quando confrontados com as conclusões de Penton (2014) e van Hateren (2014) sobre a base física da tomada de decisão, o debatedor se refugia no argumento de que isso é "além da experiência possível".

Ora, se a atividade neuronal durante uma escolha não é uma "experiência possível", o que seria? Para a Kantice, "experiência" só conta se for a introspecção subjetiva e mística da própria vontade. O resto é "excesso de especulação".

IV. A Hipocrisia como Escudo

A acusação de hipocrisia lançada por alguns desses debatedores contra quem cita evidências que eles desconhecem (apelo à  própria ignorância) é o "esperneio" final. Admitem que "pouco se preocupam" (até em palavras mais rudes) para a prova científica mesmo que ela fosse um milagre. Este é o ponto de ruptura: a Kantice não busca o conhecimento, ela busca a preservação de um status quo psicológico. O medo de ser uma "marionete" da biologia é tão grande que prefere-se o "vigarismo intelectual" de ignorar o avanço da fronteira do saber.


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