Na década de 2011-2020, assisti diversos textos consolidarem a cultura própria do chamado Design Inteligente (DI). Como produção de literatura não-ficção, mas pseudocientífica, podemos perceber um bom volume de texto, mas com erros os mais diversos, quando não, claras mentiras.
Vejamos um exemplo que guardei, até pela característica de ser relativamente sucinto, muito citado ao seu tempo de publicação e amplo nos campos tratados, praticamente sem exceção quanto aos típicos erros, e novamente, claras mentiras.
Serve praticamente como uma forma também compacta de tratar os erros dos defensores do DI, além de apresentar dentro do mundo do DI uma perspectiva muito específica, claramente ligada à Teologia Natural, tentando transpor o conceito de "ajuste fino" da Física para a Biologia.
Embora o texto cite acadêmicos reais (como Simon Conway Morris e Alister McGrath), ele contém imprecisões conceituais sob o ponto de vista da Biologia evolutiva moderna e da ciência acadêmica, aquela, que como sempre lembramos, não existe outra.
Aqui estão os principais pontos de atenção e erros de perspectiva:
1. Confusão entre Ajuste Fino Físico e Biológico
O "ajuste fino" na física refere-se às constantes fundamentais (como a força eletromagnética). Se elas fossem levemente diferentes, átomos não se formariam.
O Erro: O texto tenta aplicar isso à biologia como se o DNA ou as proteínas tivessem sido "escolhidos" por precisão matemática externa. Na Biologia, o que parece "ajustado" é, na verdade, resultado da seleção natural.
A Realidade: A vida se adapta às leis da Física, e não o contrário. Os sistemas biológicos são "ajustados" porque os que não funcionavam foram eliminados ao longo de bilhões de anos.
2. Interpretação da Evolução Convergente
O texto cita Simon Conway Morris para sugerir que a evolução tem um "destino" ou "pontos fixos" (ortogênese).
O Erro: Embora Morris defenda que certas soluções biológicas (como o olho) são muito prováveis de aparecer devido a restrições físicas, a maioria dos biólogos (como o falecido Stephen Jay Gould) argumenta que, se "rebobinássemos a fita da vida", o resultado seria radicalmente diferente.
Ponto Crítico: A convergência evolutiva mostra que as leis física impõe limites (ex: asas precisam de aerodinâmica), mas isso não prova um "ajuste fino" intencional, apenas que a seleção natural encontra soluções eficientes para problemas recorrentes.
3. O Olho como "Melhor Maneira de Enxergar"
O texto afirma que "o olho humano é simplesmente a melhor maneira de enxergar a luz".
O Erro: Isso é biologicamente incorreto. O olho humano (e de todos os mamíferos) tem uma falha de design famosa: os nervos e vasos sanguíneos ficam na frente da retina, criando um ponto cego.
A Comparação: Os polvos e lulas têm olhos semelhantes aos nossos, mas com a ‘fiação’ atrás da retina, o que é um design muito mais eficiente e sem ponto cego. A biologia está cheia de "gambiarras" evolutivas (kluges), não de perfeição absoluta.
4. O Espaço de Possibilidades e Variantes
O texto menciona que o número de variantes na natureza é pequeno em relação ao "espaço total de possibilidades".
A Falha: Isso não sugere ajuste fino, mas sim ancestralidade comum. Nós usamos o mesmo código genético e as mesmas proteínas não porque são as únicas possíveis, mas porque as herdamos de um ancestral comum (L.U.C.A.). A bioquímica da vida é conservada porque "em time que está ganhando não se mexe", e não necessariamente porque é a única configuração possível no universo.
5. Salto Lógico para a Teologia
O texto conclui que a química da vida é "totalmente consistente com o Deus revelado na Bíblia".
O Erro Metodológico: Do ponto de vista científico, isso é um "argumento da lacuna" (God of the gaps). A ciência trata de causas naturais. A consistência com uma crença religiosa é uma interpretação pessoal/teológica, e não uma conclusão derivada dos dados biológicos.
O texto designista
Biological Fine-Tuning, December 1, 2011. The Faraday Institute for Science and Religion
https://www.faraday.cam.ac.uk/churches/church-resources/posts/biological-fine-tuning/
Tradução:
Ajuste Fino Biológico
“É bastante comum ouvir físicos e astrônomos falarem sobre "ajuste fino" ou "princípio antrópico". A ideia é que um grande número de propriedades físicas (como a força da gravidade ou as forças dentro do átomo) precisa ter valores extremamente precisos, caso contrário a vida como a conhecemos não existiria. Os números são incríveis – probabilidades com mais casas decimais do que o número de átomos no universo!
Há alguma evidência de ajuste fino na biologia? A biologia é uma ciência muito mais recente do que a astronomia e os sistemas envolvidos são muito mais complexos, mas mesmo assim, há alguns indícios de ajuste fino no horizonte biológico. Houve bastante interesse na pesquisa do professor de paleobiologia de Cambridge, Simon Conway Morris, sobre evolução convergente. Em seu livro de divulgação científica, "Life's Solution: Inevitable Humans in a Lonely Universe" (CUP, 2003), ele descreve como o curso da evolução se direciona para pontos fixos no espaço total das possibilidades biológicas. Este caminho sinuoso rumo a níveis mais elevados de complexidade e, em última instância, à vida inteligente, é totalmente consistente com a crença cristã na manutenção proposital do universo pelo seu Criador.
Mas será que alguém mais abordou o tema do ajuste fino na biologia, ou será que Conway Morris é uma voz solitária? O teólogo e bioquímico Alister McGrath dedicou-se a este assunto (ver "Um Universo Ajustado com Precisão" e uma reformulação menos técnica de material semelhante em "Surpreendido pelo Significado"). O principal argumento de McGrath é que o mundo biológico depende das mesmas propriedades físicas e químicas finamente ajustadas que os astrônomos tanto discutem. Sem compostos como carbono, oxigênio, hidrogênio e fósforo, a vida simplesmente não existiria.
McGrath também menciona um artigo interessante na edição de abril de 2003 do International Journal of Astrobiology. Nele, os astrônomos Bernard Carr (St Mary's, Londres) e Martin Rees (Cambridge) relatam uma conferência de 2002 sobre os aspectos biológicos do princípio antrópico. Mesmo em uma conferência com esse título, questões de evolução química ocuparam parte dos trabalhos, mas o mais interessante foi a seção sobre “evolução do ajuste fino biológico”. A pesquisa nessa área era muito incipiente para ser publicada em detalhes, mas abrangia tópicos como robustez em redes biológicas e a “escolha” de DNA e proteínas como moléculas portadoras de informação em sistemas biológicos.
Os sistemas biológicos são enormemente complexos, e é por isso que levamos tanto tempo para começar a entender as coisas no nível de organismos inteiros. Mas há uma tendência em que, embora o “espaço” total de possibilidades (por exemplo, para a sequência de uma proteína de determinado comprimento) seja geralmente enorme, na realidade o número de variantes presentes na natureza é relativamente pequeno. Às vezes, é possível identificar por que certas soluções foram alcançadas – por exemplo, o olho humano é simplesmente a melhor maneira de enxergar a luz. Em outras ocasiões, o motivo pelo qual uma determinada solução foi alcançada é menos claro, como na origem dos sistemas bioquímicos e da vida celular.
Se os sistemas existentes que observamos são um acidente da história (ou seja, onde várias soluções potenciais poderiam funcionar) ou mais um exemplo de ajuste fino, ainda está por determinar. O que me parece claro, no entanto, é que a química surpreendentemente fértil da vida e a capacidade de evolução que vemos são totalmente consistentes com a existência do Deus revelado na Bíblia, que nos fornece uma rica fonte de ensinamentos e nos guia no processo de aprendizado através de nossos erros.”

Nenhum comentário:
Postar um comentário