Vamos neste texto definir a argumentação de negacionistas que denominamos "apelo à própria ignorância".
Por exemplo, os criacionistas e defensores do design inteligente - na verdade, variações de criacionismo, apresentam o clássico "Deus das Lacunas", onde a lacuna está na fronteira do conhecimento humano, na clássica forma de “se a Ciência não sabe como se desenvolveu, foi uma divindade que criou. Na argumentação que vamos definir perceberemos que a argumentação nasce do desconhecimento honesto, ou afirmação de desconhecimento escondendo uma desonestidade por parte do negacionista, o que também que poderíamos chamar de "argumento da ignorância deliberada" ou "ignorância de prateleira".
As diferenças
Apelo à Ignorância Científica (Deus das Lacunas): "A ciência ainda não sabe exatamente como a primeira membrana celular se fechou, portanto, foi o Designer." Ou, num caso muito comum: “A ciência não sabe como a vida se formou, logo ela foi criada por uma divindade.” (Usa o limite do conhecimento atual como “prova)”.
O Apelo à Própria Ignorância (a ignorância deliberada): "Eu ignoro (ou finjo ignorar) que a ciência já explicou a convergência evolutiva, a nylonase e os fósseis de Ediacara há décadas, e apresento minha falta de estudo como se fosse uma falha intransponível da Teoria da Evolução."[Notas 1, 2] “Eu não sei o que a Paleontologia sabe sobre a evolução dos trilobitas, então o surgimento desse clado se dá por milagre, uma criação repentina.” Ou: “Se eu não compreendo como um trilobita desenvolveu exoesqueleto calcificado, então ninguém compreende, logo, a explicação deve ser extranatural.”[Notas 3]
Essa posição, se bem analisada uma falácia, é muito mais grave, pois não é uma dúvida legítima; é uma ferramenta de retórica. Ao fazer perguntas cujas respostas já estão em manuais de Biologia do ensino médio ou graduação, sem falar em artigos científicos recentes, o proponente do DI ou doutro negacionismo, tenta criar no público leigo a sensação de que "nem os cientistas sabem", quando, na verdade, apenas ele está se recusando a ler a literatura técnica.
Notas
1.A nylonase é uma enzima produzida por certas bactérias que tem a capacidade única de quebrar e digerir subprodutos do nylon (especialmente o nylon-6). Essas bactérias foram descobertas na década de 1970 em lagoas de resíduos de uma fábrica de náilon no Japão.
Aqui estão os pontos principais sobre a nylonase:
Origem da Descoberta (1975): Pesquisadores japoneses descobriram uma cepa da bactéria Flavobacterium que conseguia se desenvolver em um meio de cultura contendo apenas subprodutos da fabricação de nylon.
Ação: A nylonase quebra os oligômeros (subprodutos) do nylon, permitindo que a bactéria os utilize como fonte de energia e carbono.
O que ela quebra: A enzima é eficaz no Nylon 6, que é um plástico de engenharia amplamente utilizado.
Exemplo de Evolução: A nylonase é frequentemente citada na biologia como um exemplo de evolução em tempo real ou "de novo" (surgimento de nova função genética), pois o nylon foi criado na década de 1930 e a enzima surgiu como uma adaptação a um material sintético que não existia na natureza até então.
Mecanismo: Acredita-se que a enzima tenha surgido por meio de mutações (incluindo inserção e frameshift - mudança na matriz de leitura) no material genético de bactérias que já possuíam enzimas semelhantes (carboxiesterases).
A descoberta das bactérias comedoras de nylon (chamadas de Paenarthrobacter ureafaciens KI72, anteriormente identificadas como Flavobacterium sp. KI72) demonstrou como microorganismos podem evoluir rapidamente para explorar novas fontes de alimento produzidas pelo ser humano.
2.Fósseis de Ediacara representam a mais antiga evidência conhecida de organismos multicelulares complexos na Terra, datando de cerca de 635 a 541 milhões de anos atrás (Período Ediacarano). Descobertos nas colinas de Ediacara, na Austrália, estes seres de corpo mole eram estranhos, sem bocas ou órgãos, e pareciam plantas, samambaias ou discos.
Características Principais: Eram organismos de corpo mole (sem partes duras como conchas), preservados como impressões em arenito. Muitos eram sésseis (fixos no fundo do mar), mas alguns parecem ter sido móveis.
Significado Evolutivo: Marcam a transição de formas de vida simples para formas de vida complexas e animais primitivos, precedendo a "explosão cambriana".
O Mistério: Devido à sua morfologia bizarra, sua classificação é difícil, mas o Dickinsonia foi confirmado como um dos mais antigos fósseis animais conhecidos. Eles prosperaram antes de desaparecerem quase completamente, possivelmente devido ao surgimento de predadores.
Assembleias: Dividem-se principalmente em três grupos baseados em localidade e época: Avalon, Ediacara e Nama.
Esses fósseis mudaram o entendimento sobre a evolução da vida, mostrando que a vida animal complexa surgiu antes do que se pensava anteriormente.
3.O argumento de que os trilobitas surgiram "por milagre" no Cambriano ignora propositalmente que a Paleontologia não trabalha com o vácuo. A complexidade desses artrópodes é, na verdade, um mapa detalhado de sua história evolutiva, e não uma evidência contra ela.
O que a Paleontologia já sabe (e o negacionismo ignora):
A Raiz em Ediacara: Antes dos trilobitas "blindados", o registro fóssil apresenta organismos como a Spriggina. Este fóssil de Ediacara já exibe a simetria bilateral, a segmentação corporal e uma clara especialização da extremidade anterior (cabeça), características fundamentais que seriam refinadas nos trilobitas.
Spriggina - Christopher Taylor. Arthropods in the Precambrian? 5/12/2014 - coo.fieldofscience.com
A "Invenção" do Esqueleto: O surgimento "repentino" é, na maioria das vezes, apenas a evolução da biomineralização. Os ancestrais dos trilobitas já existiam, mas possuíam corpos moles. Quando a pressão seletiva (predação) favoreceu a incorporação de carbonato de cálcio, eles passaram a deixar fósseis duradouros. A ciência não vê o surgimento da vida ali, apenas o surgimento da "armadura".
Transições Primitivas: Os primeiros trilobitas, como os da ordem Redlichiida, ainda apresentam características extremamente primitivas e simplificadas em comparação aos grupos que viriam depois. Existe uma progressão clara na complexidade das suturas faciais e no número de segmentos torácicos ao longo do tempo geológico.
A Evolução do Olho: O olho esquizocroal do trilobita é uma maravilha da engenharia natural, mas não surgiu pronto. Ele é uma modificação sofisticada de cutículas fotorreceptoras já presentes em artrópodes basais. Ignorar as etapas bioquímicas e morfológicas dessa evolução é o que sustenta o apelo à ignorância.
Conclusão: Afirmar que o trilobita é uma "criação repentina" exige que o indivíduo ignore ativamente os últimos 50 anos de descobertas em Paleontologia de Invertebrados. A lacuna não está na Terra; está no currículo de quem prefere o mistério à evidência.

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