quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A Origem (IX)

...de muitos erros



O fio de Ariadne - O índice deste conjunto de postagens



Minha memória e alguns fermentados

Todo aquele que me conhece, normalmente, vai comentar que possuo uma memória muito boa. A de minha irmã, é ainda melhor, e acredito que tal se deve a uma conformação cerebral herdada de nossa mãe, que por sinal, possui muito boa memória também.

Sou capaz (e minha irmã mais ainda) de citar num "papo de bar" nomes de filmes, quem os dirigiu, o nome dos atores, algum detalhe e até falas inteiras, mas...

Exatamente por ser um "papo de bar", lá pela metade da segunda cerveja, quando as últimas moléculas de álcool da primeira estiverem talvez chegando ao meu cérebro, como sempre digo, "minha memória vira patê", e já tenho dificuldade de associar qualquer dado, até dos anteriormente citados, ou mesmo lembrar o nome de uma linda atriz de quem gosto mundo, e só o farei, após algum esforço (e tal se dá, nitidamente, pelo recurso à outra "pilha de neurônios", conceito que tratarei adiante).

O que quero mostrar com este simples comportamento pessoal é que o funcionamento de atividades características de nossos cérebros é afetado pela sua química (ou pela química que acrescentamos a ele). A adição de drogas (e álcool, o etanol, é uma delas) ao funcionamento bioquímico cerebral altera a operação do cérebro.

Lembrando a clássica piada, por exemplo, maconha, causa três problemas ao funcionamento do cérebro: dificuldade de raciocínio, perda de memória e uma terceira coisa que não lembro.

Os alucinógenos produzem a transmissão, dentro do cérebro, de áreas que eram restritas ao sonho, com imagens que seriam libertadas para o onírico, durante o período de vigília, assim como sons também, diretamente às regiões que operam estes sentidos, e também em mistura, onde sons produzem imagens e imagens produzem sons, e daí, como digo, verem quem consome tais drogas elefantes rosas voadores, ou até, deformações, ainda que bem estruturadas, de captação da realidade. Conheço relatos de "ondas" vindo pelo calçamento da rua por parte de consumidores de "chá de cogumelo".

As drogas euforizantes, como a cocaína e nossa maravilhosa cafeína, produzem a aceleração dos funcionamentos cerebrais, e exatamente por isso, aumentam a capacidade de raciocínio, a apreensão pela memória de dados, porém, infelizmente, até a queda que produzirão adiante; ainda, que neste campo, a cafeína seja muito mais harmônica e equilibrada que sua molécula parente dos Andes.

Na opinião do leigo em farmacologia aqui, a droga perfeita, a SOMA de Huxley, no balcão mais próximo de sua casa.


Mas focando no que tratamos nesta série de blogagens, lembremos de que se a mente fosse algo "desplugado" do cérebro, a adição de qualquer coisa não afetaria a mente (o que já nos parece, a mínima análise, um absurdo). Os dualistas ainda poderia afirmar que a mente opera "ligada" ao cérebro, e quando este é adicionado de químicas exóticas, tal ligação é perturbada. Mas observemos que não seria aí a mente em si que seria alterada, pois apenas a operação do "órgão cérebro" seria afetada, e não teríamos problemas como mudanças de comportamento. Noutro ângulo, ficaria apenas a memória, como no meu caso com algumas cervejas, perturbada, mas não se tenderia a casos de esquizofrenia, como percebidos com o uso da maconha, ou "tetos pretos irreversíveis" como o caso do LSD, em que comportamentos apáticos ou depressivos surgem, e não mais retornam a seu estado anterior. Sem falar do comportamento irresponsável e até criminoso, numa variedade de drogas, incluindo, para alguns, apenas mais algumas cervejas.

Assim, a mente, altera-se quando o cérebro altera-se, exatamente como altera-se quando o cérebro é lesado ou tem sua conformação gravemente modificada. Analisando bem, não percebo diferença alguma entre uma estaca de ferro e uma dose de cerveja, tirando coisas secundárias, como o tamanho da lesão e a composição química.

Além de uma composição química "externa", e talvez, até uma barra de ferro, a mente se altera pela própria hormonação porque passa, por exemplo, nas proximidades do horário de sono. Eu, notoriamente, sou daqueles indivíduos que após acordar, e acordo relativamente cedo, e até lá pelas 11 da manhã, apresento o que descrevo como um "QI de couve-flor", sendo assumidamente incapaz de realizar tarefas de maior necessidade intelectual, como cálculos e escrever. Melhor, nestes casos, me dedicar a atividades rotineiras, braçais e de mínima necessidade de raciocínio.

Mas uma vez, vemos uma relação íntima da mente com o substrato onde ela opera. Se o cérebro fosse um receptor (que meu amigo Deneau descreve, ironizando certos dualistas, como "cérebro radinho") de uma realidade transcendente, sobrenatural, onde situa-se a mente, bastaria meu corpo colocar-se em movimento, e bastando uma água no rosto, para minhas capacidades em álgebra, cálculo e geometria se estabelecerem.

Claro, que aqui, como sempre, os dualistas colocarão que a "sintonia" do "radinho" ainda não estaria perfeita, pois a maneira do "paradoxo sorites", eles sempre colocam em mais um intervalo um argumento para que a mente seja a, por fim, alma imortal pela qual eternamente e em desespero anseiam seja comprovada. Eu, por outro lado, já me contento com meu substrato primata com seu software em operação, finito, limitado, de mau comportamento pela manhã e falho sob cervejas.

Igualmente, se nosso radinho comunica-se num sentido de ida-e-volta com seu mundinho transcendente, claro que dualistas colocarão que coisas como por exemplo, quando eu escuto números, não consigo fazer cálculos aritméticos de cabeça a não ser lenta e esforçosamente, são fruto da saturação da operação deste agora "celular" que comunica o órgão cérebro com esta mente que sabe-se lá onde habita. Eu, já mais simplista, e aqui abraço-me amigavelmente com o grande Ockham, munido de sua navalha, e prefiro dizer que o software, saturado pelas exigências de operar duas regiões distintas simultaneamente, e com a limitação de "clock" do hardware, perturba-se e não opera na perfeição tomista-aristotélica-platônica que consideram aqueles que afirmam o indetectável e transcendente, ainda que ligado à este amontoado de matéria destinada, naturalmente, à decomposição, e permeada por todos os seus defeitos de humano.


Um perigo permanente do mal funcionamento do cérebro sob efeito do etanol.


A queda de dominós que é a memória

Sobre "pilhas de neurônios" o cérebro não memoriza por dados num HD, como os meios digitais, e sim, por fragmentos da apreensão da realidade dispostos em impulsos por neurônios que se relacionam, e se modificam no tempo, numa arquitetura que diria, como sempre, fractal. Estes neurônios formam uma "pilha", que se redisposta no espaço, poderia formar uma cadeia relativamente linear, numa geometria mais euclidiana, como aquelas quedas de dominós, de intrincada distribuição, mas que possuem uma certa linearidade, já que possuem sentido bem definido de avanço, e quando perfeitamente construídas, caem numa sequência harmoniosa e bem definida. (Espero não estar sendo incompreensível?.)



Por um caminho mais de como memorizamos, ao ver um filme, e ver uma determinada atriz, memorizo certos detalhes de sua imagem, não como uma foto, mas elementos que permitem um esboço, e se quero guardar seu nome, o faço por associação (relacionando com outra "pilha") e mais a imagem de algum objeto, ou fruta. Um exemplo: a lindíssima atriz Rena Sofer, sempre me vem a memória quando penso em pinturas a base de henna (basta a pronúncia) e a mantenedora de sobrenome Sopher de um teatro em Porto Alegre. Por técnicas natas similares, típicas de nossa mente/cérebro guardamos, uma infinidade de nomes e dados, incluindo, por exemplo, o amigo que encontramos ao sair de um cinema, ou a notícia que assistimos quando chegamos em casa, que associa-se aos eventos e dados, de todos os tipos, anteriores.

As técnicas mnemônicas, curiosamente já desenvolvidas por alguns dos filósofos gregos e por Copérnico são o uso basicamente destes princípios, e levadas ao nível de arte.

Obs.: Há pensadores, até sérios, que fazem afirmações absurdas de que a memória se situaria fora do cérebro, em uma "estrutura holográfia". Isto é refutado pelo simples fato que um acidente, sem nem mesmo causar danos físicos ao cérebro, em seus tecidos, danificar a memória. Não poderia se afirmar que o "sistema de comunicação com o bnco de dados está avariado", pois parece óbvio que quando não se danific a formação da memória, formam-se novas memórias, e se formam-se novas, e o "banco de dados" está fora do cérebro, por qual causa haveria então de não se ter mais acesso às memórias anteriores?

Uma amostra deste tipo de pensamento:




O Cérebro - Funções, Fala e Gramática Universal II.1 - O CÉREBRO HUMANO – Funções, Fala e Gramática Universal


Por que cometer erros antigos se há tantos erros novos a escolher? - Bertrand Russel



Os atos falhos

(Ou, como ironiza um amigo, mais freudiano ainda que eu: os atos fálicos)

Seguidamente gaguejamos, perdemos a correta pronúncia de palavras, quando moramos no exterior muito tempo, isolados de nossa língua natal, trocamos palavras (sempre lembro o caso de uma moça que voltando de longo período na Escócia, contou que "apolojou-se" com senhor no qual derubou bebida no voo), e todo tipo de erro linguístico. Sob stress, certa vez, numa mesma comunicação, na época por carta (estou ficando velho...) escrevi professor com Ç, segundos após datilografar (sim, estou ficando realmente velho) professor corretamente.

Interessante como gagueira, que pode até ser uma séria complicação do setor linguístico do cérebro, não implica em danos noutras partes ligadas á capacidade linguística, como o caso do grande orador grego Demóstenes. Recomendo aqui, a leitura de Gagueira.

Na verdade, nem mesmo a dislexia, ou qualquer outra disfunção mental/cerebral menor, ou mesmo o poderoso e até devastador autismo, leva a incapacitar outras funções da mente, ou não produzir indivíduos capazes em diversos campos, mesmo ligados aqueles que a própria disfunção em questão atinge. Um exemplo, em filme que espero em breve ver, é o de Temple Grandin, com curiosamente, atriz que seguido esqueço o nome, mas que muito aprecio.

Lembrando mais uma vez Noel Rosa, e parafraseando Jay Gould*, não será pela medida linguística ou comportamental estrita do homem que se poderá ter sua medida, nem mesmo, julgá-lo capaz de amar, por exemplo:

Gago Apaixonado

* Uma leitura que recomendo:  A Falsa Medida do Homem

Certo período, acredito que lá por 1990, passei alguns meses, sem conseguir me lembrar da palavra "bochecho". Temos sempre nossas "palavras perdidas", muitas vezes, por um bom tempo, como no meu curioso caso. Tenho de me lembrar por técnicas de minemônica que aplico desde o primeiro segundo do nome de pessoas que recém me foram apresentadas - o que considero uma falha quase de caráter. Somos um animal com cérebro mais que falho, ainda que em determinados campos, poderoso entre os diversos da natureza.

Quanto a memória de curto prazo, por algum motivo, ainda para mim em aberto, perdemos algumas coisas desde nossa separação de nossos primos, talvez até para ganharmos outras:

Chimpanzé jovem supera humano adulto em memória
Chimpanzés derrotam humanos em teste da memória no Japão




Quando a ilusão domina o julgado real

Determinadas anomalias cerebrais levam a aquilo que existe apenas no imaginário, até no subconsciente, tal como no citado pela perturbação química pelas drogas alucinógenas, a passar a ser o apreendido pelo cérebro como sendo o real, e gerando todo o tipo de comunicações, contrução de relações com alguns fictícios personagens e até a confecção de dramas e tragédias, muito mais perturbadores que oníricas fantasias felizes, por parte de suas vítimas.

Aqui, não mais é Cobb que não sabe mais se habita o real ou o onírico, mas Mal, que a cada segundo, adentra pela porta, perturbando sua vida, e assistimos, infelizmente, sabendo que o pobre coitado está no mundo que em conjunto, sabemos que é o único real.

Como meu objetivo aqui não é o repetir o que outros falam com imensa maior capacidade, boa leitura:

Esquizofrenia - psicosite

Esquizofrenia - Wiki PT

Deixo bem claro que o comportamento esquizofrênico pode até ser relacionado com o hoje dito transtorno bipolar e seus "aparentados", mas não deve ser com eles jamais confundido. Como destaquei até numa saudável discussão com um parente (discussões com parentes - há mais de 200 mil anos fazendo a humanidade avançar!), o chamado "furor" dos maníacos, por alguns autores, em que começam a nem mesmo controlar seus impulsos, como por exemplo, que inclusive citei, entrarem empresa a dentro gritando que farão negócios bilionários com japonenes a partir do próximo telefonema (pois maníacos tem uma extrema segurança, passando até para a insanidade em suas ações), não implica em de forma alguma, verem sobre a mesa em frente a qual sentarão, suando e animadíssimos com seus trabalho e ideias sempre geniais, secretárias que não existem, ou mesmo, borboletas coloridas nas bordas de suas visões.

A forma como a química cerebral perturba-se, nos dois casos, e em diversos outros, pode ser agrupada em classificações clássicas e sempre mais e mais subdivididas, mas jamais são, estritamente, as mesmas, nem operam, na maneira de fazerem a mente operar, da mesma forma.

Como descobri, intelectualmente de maneira desonesta até, de que cinema atrai pessoas para a leitura e o conhecimento muito mais que meus medíocres escritos, recomendo os seguintes filmes, tratando sobre o tema, de onde, mesmo com o acréscimo da ficção, pode-se perceber o quão perturbador ao humano é a perda de seu dicernimento do que seja real ou não.

Primeiro, o óbvio: Uma Mente Brilhante (2001) - que mostra que mesmo um gênio em determinados campos pode perder, pelo próprio funcionamente do seu cérebro, a noção do que seja real. Um detalhe: neste filme, não é mostrado metade das bobagens perigosas que Nash fez, até por motivos de simples dramaticidade e tornar o roteiro mais tragável.Para ver mais, Wiki EN.



Na mente de um esquizofrênico, um personagem como o de Ed Harris não só "existe" momentaneamente na mente do esquizofrênico, como pode ter personalidade muito bem definida, e uma história (ou seria estória) muito bem estruturada.

Embora no campo da ficção, e de uma "perfeição no mal" um tanto forçada, vale ver algo que de absurdo não possui nada, e ainda, desculpe pelo spoiler, com observações sobre a genética ligada a coisa: O Amigo Oculto (2005), com Robert De Niro, para variar, provando que mesmo sendo sempre igual, é bom para danar.

*Pois esquizofrênicos, embora seguidamente não lembrem-se, numa "existência", da "outra", não necessariamente tendem à psicopatia, ao crime, ou mesmo, a qualquer ato maldoso. Um filme que aborda ficcionalmente um psicopata com nuances de esquizofrenia é Instinto Secreto (Mr. Brooks, 2007), onde o personagem de Kevin Costner possui um "mentor" apenas existente em sua mente. Os esquizofrênicos são, normalmente, os oradores delirantes de nossas praças, ou os caminhantes com o olhar perdido no horizonte, mais que inofensivos.

Na mesma linha: O Mistério das Duas Irmãs (2009) - e como dizemos nesta série de blogagens, criatividade pura é coisa que não existe.

Nestes diversos filmes mostra-se também que as ilusões sempre apresentam lacunas frente à complexa e coerente realidade, e pode ser percebida como irreal por um detalhe, como a menininha que não cresce com o passar dos anos, em Mente Brilhante.

No campo do comportamento bipolar, Mr. Jones (1993), inclusive com as típicas "certezas de invulnerabilidade" do personagem, e seu comportamento impulsivo, que pode chegar a ser, como você verá, mais que inconveniente.

Nota: vale a pena levantar a fala de George Clooney, em E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (2000), sobre o bipolar assaltante de bancos que encontram, para ser emoldurada sobre o transtorno bipolar, pois ao que me parece, não encontra-se no Quotes do IMDB.

No campo das drogas, mas mantendo o tema básico desta listagem, com um pé sempre presente no humor típico de Terry Gilliam, vale a pena assistir o delírio alucinógeno de Medo e Delírio, (o título em Portugal julgo melhor: Delírio em Las Vegas).

Por fim, um filme que considero difícil: Alucinações do Passado (1990), com Tim Robbins vivendo um soldado veterano que crescentemente perde a noção do que seja real, e como vocês poderão ver, não vivenciando jardins floridos. O nome em inglês é uma clara alusão à Escada de Jacó, citada na Bíblia.

Aqui, certos antecedentes levarão o meu leitor a descobrir que o tema remete a Jorge Luis Borges, e neste, chega-se também a Inception, retornando a origem desta blogagem - perdão, não resisti ao trocadilho, pois sabemos, sou um primata típico, que molda suas relações inclusive usando do chiste freudiano.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A Origem (VIII)



...de muitos erros


O fio de Ariadne - O índice deste conjunto de postagens



As ilusões dos sentidos

A “escada paradoxal”, com uma mulher perpetuamente juntando seus papéis, que Arthur mostra a Ariadne é uma referência a uma litografia do artista holandês M.C. Escher, chamada “Subindo e Descendo” ou “A Escada Infinita” e foi impressa primeiramente em março de 1960.



No filme é muito propriamente atribuida como um objeto impossível de Penrose, o criador original, conjuntamente com seu filho, destes conceitos, representados artisticamente por Escher.

Curiosamente, e até infelizmente, é exatamente Roger Penrose que destaca-se como um dos pensadores sérios que entreverou-se por buscar explicações na mecânica quântica para a consciência.* Mas como já vimos, nem sempre mentes brilhantes tem idéias corretas, nem idéias coerentes com a realidade, nem mesmo implica a genialidade em moralidade, e como veremos adiante, as vezes, a genialidade implica em momentos ridículos, por absoluta falta de esperteza, que é um tipo de inteligência muito peculiar, e que certamente nos foi, ao longo de nossa história, muito útil em termos de sobrevivência.

*Abordei a verdadeira maneira e escala de como a mente opera no cérebro, ou como o cérebro funciona, na parte II desta série, e como também vimos, a própria consciência pode não ser uma estrutura lógica de certezas, mas uma, igualmente, ilusão, apenas mais interna, de nosso cérebro em operação.

A questão de “gravidades confusas” também foi tema de Escher.







Diversas destas ilusões de ótica baseiam-se no, digamos fato, de que os ângulos de 90° do mundo “real” são representados nas perspectivas por ângulos diversos, como o de 30° e o de 60°.

A banda The Strokes usou uma interessante variação da escada em uma de suas capas.



Uma rápida pesquisa na internet e já levantamos outras imagens similares, inclusive, com construções de objetos “sólidos” tais como os erguidos para os cenários de A Origem.





Mas como sou um tanto sádico para compensar meu excessivo didatismo para tratar qualquer tema, se o leitor não foi de forma alguma abalado com as ilusões acima, durante a noite, de preferência, uma limpa, olhe para o céu estrelado, e veja a maior das ilusões: o universo, que aparenta ser uma nuvem de galáxias num espaço tridimensional, euclidiano, mas que além de não ser propriamente isso, mesmo quando o vemos claramente assim, ainda esconde sua real geometria de nossa razão.

E não se iluda, pois embora tenha aqui focado-me na visão, os nossos demais sentidos também são iludidos, como o paladar pelo olfato, permanentemente (cheire uma pera e morda uma maçã, será uma experiência muito ilustrativa), e a audição, que exatamente pela suas características de interpretação dentro do cérebro, permitem a compactação de áudio digital que chamamos mp3, entre outras.

Do Yahoo Respostas: O MP3 é uma forma de diminuir o tamanho do arquivo sem perda da qualidade (em teoria). O segredo está em serem usados apenas os sons que nosso ouvido escuta (em teoria )**.

**O que é chamado por alguns teóricos de "onda resultante" e o "mascaramento". Wiki

Aqui, poderia acrescentar que nossa percepção de mundo é sempre uma classificação das ilusões mais úteis e minimamente confiáveis, mas como tal pode dar errado, tratarei noutra blogagem.

Antes de avançarmos, vamos retornar para a nota acima e enfatizar que se a fonte de toda a percepção de mundo se mostra iludível, limitada e falha como são os sentidos, por qual motivo muitos poderiam afirmar que nossa percepção de nossa própria existência, o que com empáfia muitos chamam de "consciência", com arroubos de um fenômeno miraculoso e paradoxalmente transcendente, haveria de ser mais uma dentre os inúmeras auto-enganos que a mente produz, somente, neste caso, sobre si mesma?


Atuamos melhor sob pressão

Diversas grandes obras da literatura foram escritas quando seus autores encontravam-se sob situação de grande stress como estar na prisão. Entre estes, inclui-se Thomas Malory, que escrevu as histórias do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda enquanto cumpria prisão em Londres, em 1469; Voltaire, que escreveu Heriade; Miguel de Cervantes, com o grande Dom Quixote; Marco Polo, As Viagens de Marco Polo; Oscar Wilde, De Profundis; Gean Genet, Nossas Senhora das Flores; Graciliano Ramos, Memórias do Cárcere.

Entre os grandes compositores, a situação se repete seguidas vezes, sob vidas um tanto angustiadas e problemáticas, onde destaco a volta de Haendel após um grave período de doença, com a apresentação ao mundo de O Messias.

Somos um animal que realmente opera seu cérebro melhor sob um razoável nível de tensão. Por outro lado, níveis extremos de stress, ainda mais por períodos de tempo prolongados, podem levar a danos ao cérebro, e consequentemente, à mente não operar com toda sua capacidade. A privação de sono, o trabalho excessivo, de maneira quase banalmente previsível, levam à elevação da taxa dos erros que cometemos, a depender do caso, com graves consequências.

Uma imagem clássica sobre o tema:





Comportamentos extravagantes

Algumas de nossas mais poderosas mentes, ao longo da história, foram incapazes de tratar bem alguns pequenos incidentes.

Relata-se que durante determinada convenção de Física, alguns colegas do físico (que acredito que tenha sido***) Schrödinger, ao sair do alojamento, colocaram a girar um pião, pouco antes de sair e sair e fechar a porta, mas de maneira que o grande físico visse o objeto girando. Passadas algumas horas, com o fim do encontro daquele dia, ao retornarem, um deles ficou encarregado de entrar antes, e colocar o pião novamente em rotação. O físico, ao ver o objeto “ainda” girando, passou dias tentando resolver o “mistério” por meio de equacionamentos, visando obter uma explicação para a estabilidade extraordinária do fenômeno.

Tenho suspeitas muito leves que o totem de Cobb/Mal seja uma citação elegante a tal história.

Muitas vezes, o trabalho excessivo, conduzindo ao excessivo stress, leva ao colapso do funcionamento do cérebro, e a partir deste, o funcionamento da mente nos moldes do que seja a esquizofrenia. Contemporâneo de meu Jeep de lata vermelho, lembro-me do caso, relatado por meus pais, do contador que após um final de semana de trabalho ininterrupto, como diria numa roda de amigos, "saiu dos parafusos", e convergiu para um comportamento um tanto além do que se possa chamar de apenas "extravagante". Logo, sob a ação química de seu próprio funcionamento e mecanismos, a própria sanidade não é estável.

Infelizmente, para termos alguma garantia de nossa sanidade, não temos totem no qual nos abraçar.

Lembrando comportamentos extravagantes, e voltando a citar Philip K. Dick, uma boa dica para um livro a ser levado às telas seria Os Clãs da Lua de Alfa, onde, numa visão muito pessimista, o futuro não só não nos presenteia com a cura das moléstias psíquicas, mas ainda as concentra num único "mundo hospício".



*** Agradeceria tremendamente se alguém localizasse, ou esta história, ou a confirmação de que a “vítima” foi Schrödinger, pois como veremos a seguir, não só minha memória falha.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A Origem (VII)

...de muitos erros

O fio de Ariadne - O índice deste conjunto de postagens

As traições do subconsciente

Quem me conhece pessoalmente sabe que quando confundo algo, ou repito a ideia de outro - para não dizer ser pego num plágio barato, e especialmente de alguém notório e importante - uso a expressão "perdão, foi uma traição de subconsciente".

A história desta expressão se deve a um "lenda" sobre o compositor Noel Rosa. Conta-se que Noel, grande letrista, de rápida improvisação e inesgotável criatividade, capaz de fazer um samba sobre seus exames de escarro (ele sofreu de tuberculose, vide Ao meu amigo Edgar), não sendo um grande compositor (no sentido de composição musical, a técnica), pediu a um amigo mais capaz que avaliasse alguns rabiscos de uma nova música.

O amigo leu, e como bom músico, imediatamente viu-se a cantarolar: TA-TATA-PAPÃ-PAPA-PAPÃ-PAPÃ-TATA...* (ou coisa parecida, e exatamente encaixando com OUVIRAM DO IPIRANGA AS MARGENS PLÁCIDAS, em ritmo de samba).

*Perdão, leitor, mas música em blog é algo extremamente difícil de ser transmitido.

Imediatamente, alertou:

-Mas Noel, isto aqui é o hino nacional!

Ao que Noel lhe respondeu:

-Desculpe, foi uma 'traição do subconsciente'!

Uma outra versão, confiável, desta história encontra-se em Noel Rosa.

Esta pequena história está aqui para ilustrar que uma absoluta criatividade por parte de nossa mente é apenas uma ilusão.


Para continuarmos, guarde um tanto a imagem abaixo, e se possível, imagine a sala mostrada no negativo, onde o que é um piso e paredes pretas, sejam brancas, e as linhas divisórias, o inverso.



A ilusória isolada criatividade

O nosso cérebro, com nossa mente nele operando, sendo um captador e processador dos processos do mundo, é uma máquina um tanto caótica tratando o próprio caos que é o mundo.

Assim, o próprio personagem Ariadne de Inception é uma sutil citação, e talvez mesmo, uma “traição do subconsciente” de Christopher Nolan sobre o personagem, na mitologia grega, filha do rei Minos de Creta, que ajuda Perseus com uma linha para que se oriente no labirinto do Minotauro.

Lembram-se que num índice, noutra blogagem, citei o "fio de Ariadne"?

Já o personagem Yusuf é a forma arábica de "Joseph", o personagem bíblico do Gênesis 37-50, a quem foi dado o dom de interpretar sonhos.

Também, a própria trama de Inception poderia ser relacionada com as mirabolantes instabilidades das mentes dos personagens de identidades um tanto difusas do grande autor de histórias de ficção científica Philip K. Dick, que deram origem a Impostor (IMDB, 2001), Total Recall (IMDB, 1990), Blade Runner (IMDB, 1982), A Scanner Darkly (O Homem Duplo, IMDB, 2006), fazendo link, com Keanu Reeves, que também por outras vias, representa um personagem que no final não mostra ser exatamente o que acha que é, na trilogia, e sabe-se lá mais quantos produtos, Matrix.

Mas retornemos aos filmes a partir de Philip K. Dick: Next (O Vidente, IMDB, 2006), que por sinal, apresenta a mesma característica temporal de em instantes numa mente, verificar-se o que ocorre no futuro, e assistir-se isto no nosso presente, e no final, tudo ser irreal, de Inception. Há muito uma visão de tempo aristotélica, cronologicamente coerente, na arte, virou pó.

Ops, perdão, deslizei novamente! Mas o que interessa é que, a partir desta listagem e associações, talvez algum incauto e inocente internauta lance o pequeno hoax que Inception seja inspirado em história de
e Philip K. Dick. Lançado está o experimento.

Mas não precisamos ir tão longe numa apresentação que a criatividade pura, absoluta, virginal, não existe, basta vermos o próprio Inception, e percebermos que um diretor inglês, coloca em seus filmes elementos típicos dos filmes de 007, como as perseguições na neve, os cabos entre prédios em países 'estrangeiros' em Batman - O Cavaleiro das Trevas (enquanto o universo típico, e preferido dos fãs do vingador - título um tanto inadequado - são os becos sombrios e “domésticos” da Gotham).



Pequena pausa, muito relacionada com Inception:

Sobre Batman, a melhor história que já assisti/li do “cavaleiro das trevas” é a animação dos anos 90 (Batman: The Animated Series, IMDB, 1992–1995) no episódio onde Bruce Wayne acorda de um pesadelo em que caiu em uma armadilha (como Batman), e não é mais Batman, e sim, apenas o rico e de vida confortável Bruce Wayne, até casado com Selina Kyle, seus pais estão vivos e até Batman é outro personagem da cidade.

Entregando spoiler, descobre que está preso num sonho quando vai ler e percebe que qualquer coisa escrita é um borrão ilegível, pois a leitura é atividade do lado esquerdo, e os sonhos são produzidos no lado direito, o que já seria um enorme problema para as atividades ilegais dos personagens de Inception.
Perchance to Dream (TV episode 1992 #1.26, IMDB)

Mesmo nossos mais caóticos sonhos são fruto da estrutura e configuração de nossos cérebros.

Uma observação: quando por exemplo você sonha com algo legível, como eu mesmo já tive com a marca "Coca Cola", na verdade você não "lê" a marca, e sim, identifica seu símbolo e seu cérebro o associa com as palavras Coca-Cola.

Renderia uma grande história para um filme com o vilão Chapeleiro Louco, aliás, outra brilhante e adequada citação, até a ser dirigida por Christopher Nolan, para quem devemos retornar o fluxo desta blogagem...

Mas o mundo de Christopher Nolan e muito de sua imaginação em atividade é a existência dúbia, difusa e ilusória, a impossibilidade da certeza da própria identidade, tipicamente da neurociência contemporânea, já expostas na anedota triste que é repetida pelo personagem trágico de Memento (Amnésia, IMDB, 2000)

Citando Kuato, de Total Recall: You are what you do. A man is defined by his actions, not his memory.

Mas retornando à criatividade, somos a todo memento, perdão, momento, perturbados por dados externos, e mesmo quando honestos, compondo, em atividades criativas, com elementos neurais (dos sentidos, das captações), de nossas memórias (até, como vimos, um tanto quanto “desonestas”) e até, com fortes elementos culturais, com assumido interesse, do baú hoje gigantesco que é a cultura, desde o erudito e magnífico até o popular e o vulgar.

Assim vejo forte influência na sala em Inception onde está Maurice Fischer, o pai de Robert Fischer, no “mundo dos sonhos, talvez lá pelo terceiro nível” com a sala onde a civilização/monolito segue seu experimento de avançar a evolução humana, em 2001, de Kubrick, como visível nesta cena:


Que por sinal, a meus olhos, influencia também, em fusão com Laranja Mecânica (IMDB, 1971), também de Kubrick, o premiado clip de Lady Gaga, Bad Romance, que abre com música erudita executada em instrumental eletrônico, exatamente como a revolucionária trilha de Walter Carlos, posteriormente, Wendy Carlos, pois nem nossa mente tem nossa sexualidade biológica diretamente ligada e de relações inquebrantáveis.



Tudo pelo impacto que sabe-se que causará noutro primata pelado. (E sim, os casulos de hibernação de 2001 também aparecem.)



O mesmo Kubrick que inicia A.I. - Inteligência Artificial (IMDB, 2001), onde um robô também tem uma ilusão de que existe similarmente a nossa ilusão de “alma”, e outro pede que ele lembre-se dele e diga que “I 'am'. I was!”.* Frases do mesmo brilhante peso filosófico de:

I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhauser gate. All those moments will be lost in time... like tears in rain... Time to die.* - Blade Runner, IMDB - quotes

Oriundas do mesmo Philip K. Dick que nos levou à Minority Report - A Nova Lei (IMDB, 2002), onde o Spielberg de ET ganha os mesmo enquadramentos e maneiras de mostrar um mundo futurista e um tanto bizarro de Kubrick, do qual herdou para completar A.I..

Em suma, nada mais se cria, ou melhor, nunca se criou realmente coisa alguma, apenas, compomos elementos, e se desejar, pode até usar, resumidademente, copia.

Portanto, como também disse o sábio Kuato de Total Recall: Open your mind!

Como discorreu longamente Eduardo Giannetti em seu livro ‘A ilusão da alma’, com o qual concordo plenamente, os erros não foram dos grandes Aristóteles, Descartes, Locke e diversos outros, mas de todos nós, quando julgamos que isto que em nós opera seja único, indivisível, de perfeita operação e até em alguns delírios de soberba, eterno, e como tratamos aqui, de uma produção de ideias completamente independente.

cultura.updateordie.com / http://www.companhiadasletras.com.br/

Construímos, junto com uma montanha de instintos de um sofisticado primata, a ilusória alma de nós mesmos. Neste delírio, ainda nos julgamos, soberbamente, capazes de criar algo do nada.

* Possuímos uma quase patológica angústia de que nossa consciência não se preserve em meio à confusa história do universo. Desejamos, nisto, que nossa consciência seja independente não só da história do mundo, mas independente nos seus produtos, nas suas criações. Assim, não só desejamos que haja um "igual a nós" maior que controle e ordene o mundo, e que este seja responsável por um Fiat Lux, mas que sejamos nós autônomos num Fiat Idea (perdão pelo automobilístico trocadilho).

Mas se estes elementos com que compomos para a nossa “criatividade”, agora com aspas, advém dos sentidos e memória, será que nossos sentidos são seguidamente iludidos? Ou seja, as ilusões, tema que pontua Inception, existiriam mais do que julgamos inicialmente?



Antes de avançarmos, um encontro com outro moribundo, em uma cama, frente a misterioso personagem...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A Origem (VI)

...de muitos erros

Como minha mente é humana e falha (quando não muito), caro leitor, jurava que com esta blogagem esgotaria o assunto e faria um texto que não tendesse ao intratável pela nossa atual convergência para uma leitura rápida, mas tal, nitidamente, foi um engano, então...

Parte (I)

Um sonho dentro de um sonho

Parte (II)

A velocidade de operação da mente

Parte (III)

Era vermelho meu Jeep de lata?

Parte (IV)

Existe um totem confiável?

Intersectam-se nossos mundos/sonhos com outros mundos/sonhos?

Parte (V)

É confiável o mundo/sonho em que vivemos?

A instabilidade e falibilidade da mente humana




Iniciando, por alguns erros menores, em meio ao fragmentado caminho que estamos, suadamente, trilhando...






O erro de Aristóteles

Não, amigo leitor, não seria o de considerar que a sede da mente humana é o coração. Este erro, grotesco, foi corrigido até pelos seus contemporâneos.

O erro maior em termos de efeitos sobre o pensar humano sobre o que seja a mente, daquele filósofo amplo de pensares em muitos campos mas carregado de graves equívocos, e que nos legou séculos de um tratar a mente falsamente foi o de pensá-la como um processamento lógico perfeito, uma máquina linguística isenta de erros nos processos, apenas volta e meia, um tanto mal informada, que processaria todos os dados do mundo em passos estritos e perfeitos, e por tabela, idêntica em natureza, ainda que seguidamente equivocando-se, a um pensador maior, ainda mais perfeito, aquele fantasmão indetectável de sempre, que pensa o mundo e lhe dá coerência.

Coerência esta como aquela que pelo menos julgam os que não leram Hume, e diversos outros - e não se deram conta ainda de seus erros, hoje já antigos. Erros estes que exatamente por ocorrerem, já mostram que o mundo não é a ordem que julgamos em nossa infantil análise do que seja a natureza.

A mente humana seria, para o mestre de Alexandre, o que poderíamos hoje definir como “uma máquina linguística”. Se acrescentássemos ao linguístico o banalmente perceptível detalhe que ao menor porre, nos tornamos um vomitar de outros impulsos, que não nasceram de forma nenhuma de construções linguísticas, mas de um porão onde a mente guarda sabe-se lá que número de ideias presas, tal qual a Mal de Cobb, até conseguiríamos ter uma imagem materialista da mente. Mas limitá-la como fez Aristóteles, levou-nos a não confiáveis caminhos, incluindo um labirinto de bloqueios à ideia de que sejamos até racionalmente, mentalmente, um sistema químico emergente que visa modelar e prever o mundo e mais que tudo, sobreviver.









Independente disso, já abordei outras vezes que o que seja a Lógica, como campo formal, há muito superou a rigidez e a limitação aristotélica. Sobreviveu que, para questões limitadas e triviais, a lógica aristotélica continua sendo uma forma segura de pensar, mas basta ficarmos diantes de situações do subatômico, ou do direito e da moral no nosso macroscópico e humano dia a dia, para novamente termos de adotar formas mais “fluidas” de analisar o mundo e pensar.

E aqui, a maquininha confusa, cheia de impulsos de macaco pelado, de mamífero faminto e até de réptil (sic, amniota) sedento por sexo, como acertou na mosca um determinado barbudinho austríaco fumador de charutos, ou ainda um peixe muito do serelepe tentando continuar respirando, para não só Cobb trancafiar mais meia dúzia de Mals em seus porões, mas até, libertar a prisão inteira em rebelião.






O erro de Descartes

Os "impulsos por espíritos animais", de Descartes, uma explicação "hidráulica" para os sentidos.
(Exorcizing animal spirits - scienceblogs.com)

Piorando nossa situação de entender a mente humana, tanto no como funciona como também como relaciona-se onde realmente habita, muito influenciou o homem médio contemporâneo Descartes, seguindo o dualismo de Platão: a mente e o que quer onde habite - já preferencialmente o cérebro - são distintas. Uma existe transcendentalmente à biológica estrutura, e mais uma vez, tem uma natureza imaterial “em si”, e apenas relaciona-se com o aparato que a faz ter contato e até operar com o mundo.



O raciocínio de Descartes é tão enfático nesta questão que conduziu-nos, e até hoje muitos, como sempre digo, confundindo história da Filosofia com as conclusões mais sólidas dela, que o simples pensar leva à conclusão inequívoca que um ente único, indissolúvel, que é o ser que pensa, existe: cogito ergo sum.



Sim, o ser que pensa, manifesta-se em algo que podemos afirmar - e definir, aqui já um problema - como sendo aquilo que chamamos o que pensa, mas primeiramente, não podemos afirmar que seja indissolúvel, nem mesmo, único, muito menos transcendente à matéria, pois mesmo os mais equilibrados de nós seguidamente ouvem vozes internas, até com vozes de outros, de regiões de seu cérebro um tanto agitadas no momento, e produzindo até as melhores ideias de suas agregações de células (aquela coisa um tanto difusa que somos). Igualmente,quando dormimos, parte de nossas, aqui diremos mentes, evidentemente trabalham em problemas que enfrentamos, e já acordamos com as soluções. Dentro de nossos iguais mais normais, muitos de nós mesmos habitam, e convivem em perfeito equilíbrio, e se manifestam, adequadamente, quando nos irritamos, temos de enfrentar perigos, frustrações, perdas familiares, etc.

Se a parte mais ligada à Filosofia do parágrafo acima não ficou clara, noutra abordagem da questão, não podemos nem mesmo afirmar que esta talvez região da natureza que pensa não esteja na ilusão típica de ser um processamento da Matrix ou exótica ocorrência num sonho de alguém ou algo, inclusive, "de Brahma" ou mesmo do "Unicórnio Rosa Invisível" - aqui, até pela ironia se chega a construir um argumento para colapsar "certezas metafísicas". Embora tais conjecturas não seja científicamente úteis, não podem ser filosoficamente descartadas nem logicamente refutadas, e firme e sólido se mantém o solipsismo, que toma tudo que nos pareça sólido, desmancha naquilo que julgamos, confiavelmente, ser o ar. (Perdão, Marx e Engels, minha instável mente me levou à copiá-los, e o porquê, tratarei na próxima blogagem, se o dominante acaso do mundo o permitir.)

Certamente, quando estes nossos “eus” começam a não se entender muito bem, como vemos nos esquizofrênicos e nos psicopatas dissociativos, não os enquadramos nos nossos “normais”.

Para questões mais profundas de porque mesmo no pensar o cogito ergo sum de Descartes não nos dá nem a "garantia metafísica" (em Filosofia contemporânea, uma contradição em termos) de uma existência, na totalidade da definição do termo, recomendo o link do criticismo abaixo. O solipsismo, num nível mais profundo, e de tratamento mais elevado, continua inquebrantável, e relaciona-se com profundas considerações da Filosofia da Ciência. Ainda que pensemos, e seja óbvio que fazemos aquilo que é pensar, não podemos afirmar que não estejamos na realidade virtual de um Arquiteto de matrix, ou no sonho sabe-se do que nem de quem, como Cobb e seus companheiros. Como disse, no abismo onde caímos, com toda nossa vã filosofia, nunca mais sairemos.




Criticismo ao “cogito ergo sum”
http://en.wikipedia.org/wiki/Cogito_ergo_sum#Criticism

António Damásio; O Erro de Descartes


http://www.europa-america.pt/product_info.php?products_id=604

(Com um pouco de procura, o leitor encontrará este livro na íntegra na Internet, mas por motivo de mínima honestidade, não poderei colocar nenhum link desta natureza aqui.)


 
Ramon M. Cosenza; Espíritos, Cérebros e Mentes.
A Evolução Histórica dos Conceitos Sobre a Mente


http://www.cerebromente.org.br/n16/history/mind-history.html


Dra. Silvia Helena; O Que É Mente?

http://www.cerebromente.org.br/n04/editori4.htm




O erro de Locke, a falácia da tabula rasa


Mais esboços de um pensar sobre a mente e o cérebro conforme Descartes.

A mente humana não é uma carga que se coloca num mecanismo vazio e desprovido de “princípios primeiros”. O mecanicismo que é o cérebro possui comportamentos que são oriundos de sua própria configuração física, como as lesões cerebrais, como o notório caso de Phineas Gage.

Reconstituição do desafortunado, e para nossa científica felicidade, Phineas Gage.



Somos fruto inclusive de nossos mais primitivos reflexos, mesmo os mais jovens, como o primata preênsil, de fecharmos nossas mãos de bebês para agarrarmos os pelos de nossas mães. Carregamos ao longo de nossa vida sobre numa caixa mental, montes de experiências que vão nos moldando, e aprisionamos nossas Mals nos mais profundos quartos, mas não é porque as capturemos e as coloquemos lá, que naqueles cômodos já não estejam camareiras, fazendo desde a formação de nossos cérebros, em suas primeiras células, fazendo seus serviços.


Noutra metáfora, exatamente ligado a palavra tabula, não é porque o quadro esteja bastante apagado, e pronto a receber camadas e camadas de texto, que nos seus cantos não estejam desenhos sempre usados, formatos de letras e até mapas, e, inclusive, sob tudo, um quadriculado que tenhamos de obedecer, como todos de nossa espécie.


Aqui, ambos os erros, de uma dualidade/transcendentalidade/completa imaterialidade da mente, e de um carregar-se sobre o absolutamente vazio fazem-se em pó, e a conformação desde o embrionário e o histórico estrutural do substrato da mente, que é o cérebro, configuram uma unidade que agora é o objeto com o qual construímos sólida e confiável ciência sobre a mente humana com seu substrato.

Jonh Locke



Da mesma maneira que cães de diferentes raças apresentam diferentes conformações cerebrais e relacionados temperamentos e comportamentos pela vida inteira, assim também o somos, apenas com o diferencial de que por sermos mais culturais, mais carregados de memórias, experiências e com uma vida mais longa, e obviamente, apresentarmos um substrato para isto mais capaz, apresentamos mais sutilezas nestas interações conformação cerebral-operação da mente.

Como disse repetidas vezes nos últimos anos em diversas conversas e debates (muitas vezes manifestando toda minha irritabilidade, típica de minha tabula não tão rasa), dizer que a mente não é material, pois seja apenas algo que funcione no cérebro, é o mesmo que dizer que um carro em movimento, por apresentar velocidade, não seja feito de aço, vidro, plástico e borracha, ou mesmo, que por ser seu motor de quatro tempos com os ciclos característicos de seu termodinamismo, seu mecanismo não ser composto de peças, totalmente materiais.


Assim, um dualismo mente-cérebro pode ser apresentado numa metodologia limitada de seu tratamento, mas não totalmente coerente quando tratamos sua real natureza. Por analogia, podemos trocar os softwares e os dados em bancos armazenados em um computador, mas estas informações só tem existência quando estão operando e armazenadas neste computador, completamente físico, material. O cérebro muda no tempo, e com ele muda a mente, e a mente operando modifica o cérebro sutilmente, e ambos continuam inseparáveis.

Para estas mudanças, não se fazem necessárias estacas de ferro, nem simples pregos, nem mesmo finíssimas agulhas. A constante religação dos neurônios, a dança que as sinapses realizam permanentemente, bastam. O substrato da mente é um sistema dinâmico, e o Francisco que iniciou escrevendo esta série de textos não é, a plena análise, o mesmo que agora coloca este ponto.


Para uma conceituação primária do que seja tabula rasa:


http://pt.wikipedia.org/wiki/Tabula_Rasa



Phineas Gage e um "tal Elliot"


Ives Alejandro Munoz ; EM BUSCA DA NOVA MENTE

http://embuscadamente.blogspot.com/2010/04/o-cerebro-procura-da-alma.html


(Algo me diz, que pela foto neste blog nesta data, navegamos pelo mesmo rio, ainda que minha rota seja imensamente mais turbulenta.)


Phineas Gage

http://pt.wikipedia.org/wiki/Phineas_Gage


E para variar, muito mais completa:


http://en.wikipedia.org/wiki/Phineas_Gage


Destacando-se:

Lesão cerebral e alterações mentais
http://en.wikipedia.org/wiki/Phineas_Gage#Brain_damage_and_mental_changes



A seguir, minhas "traições de subconsciente".

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A Origem (V)

...de muitos erros


Mantenha-se firme ao fio de Ariadne, querido leitor, o fim está próximo!

Parte (I)

Um sonho dentro de um sonho

Parte (II)

A velocidade de operação da mente

Parte (III)

Era vermelho meu Jeep de lata?

Parte (IV)

Existe um totem confiável?

Intersectam-se nossos mundos/sonhos com outros mundos/sonhos?


 
 
É confiável o mundo/sonho em que vivemos?
 
Para tratar do mundo em que estamos mergulhados, considerando agora, após este afogamento num solipsisimo inquebrantável, seja o que ele for, como aquilo onde nossa razão está situada e nossos corpos operando com suas percepções de mundo, prefiro abordar o tempo.
 
Quando observamos mesmo a mais distante translação de um corpo celeste, mesmo a mais violenta explosão estelar, que possui em suas origens fenômenos relacionados com a mecânica quântica, observamos que tais processos e fenômenos mostram o mesmo comportameno no tempo que observamos no nosso Sol, incluindo as mesmas deformações frente aos modelos newtonianos que apresenta Mercúrio, imerso num campo gravitacional intenso, mesmo nas nossas proximidades, os satélites de GPS. Noutras palavras, mesmo o tempo não sendo absoluto como propunham Newton e muitos outros, ainda sim ele se comporta, mesmo com suas deformações, homogeneamente, pelo universo a fora, seja ele, no todo, o que ele for, até porque nos basta para nosso Física nosso cone de luz, o universo do captável.
 
Logo, podemos afirmar, com firme convicção, de que a realidade, ainda que nos atormentando com o solipsisimo num nível filosófico mais profundo, mostra-se cientificamente tratável, pois seu cenário pelo menos opera sob um relógio, que mesmo que estejamos preso a ele, é confiável.
 
Desta maneira, podemos, retornando um pouco, afirmar que meu Jeep de lata descia a ladeira (que nós gaúchos chamamos peculiarmente de "lomba") numa velocidade variável mas com aceleração regular, sob o mesmo atrito, com a mesma capacidade de minhas então pequenas pernas conjuntamento com meus braços de um menino de 4 anos a controlá-lo, e tal processou-se por "memória neuromuscular" de coordenação de meu corpo com minha mente, pois nosso cérebro mais que tudo se mostra uma máquina de processamento, usarei um neologismo, "fisicóide" dos fenômenos do físico no tempo.
 
Os mecanismos não são computacionais, numéricos, mas instintivamente, atribuem reações aos fenômenos no tempo, exatamente pois os trata como regulares, e como já afirmei noutro texto, na mesma herança que fez com que nossos ancestrais julgassem para que lado havia andado um antílope, pela direção em que se configurava a pegada na areia, independente de podermos sentir seu cheiro, o que nos fez mais hábeis parta caçar mesmo comparados aos mais eficientes caçadores entre os mamíferos, que são os cães selvagens africanos.


 
Quando Ariadne "deforma a onírica Paris", se tal deformação fosse coerente geometricamente com o físico num universo inteiro, o mais externo do universo se tornaria um ponto infinitamente compactado a uma determinada altura dentro do cubo que foi formado, e o centro da Terra seria distorcido até formar um espaço euclidiano/riemanniano infinito (aqui a forma do universo, que nos é um tanto fugidia, complica as coisas), preenchido de mais e mais rarefeitas (quase um paradoxo) rochas, depois rheid, depois metal líquido, depois metal sólido. O absurdo completo. Mas como o sonho de Ariadne era dela, ela limitava as deformações ao útil aos seus propósitos (e até para a felicidade minha e sua, se começar a pensar na miríade de variações e consequências deste tipo de coisa).
 
Mas por mais deformado geometricamente que possa ser na realidade o físico, ainda que o observemos com coerência, diria relativística, e mesmo para pequenas distâncias, velocidades e campos gravitacionais, newtonianamente ilusório o mundo, ainda sim, podemos fazer um raciocínio similar ao de Descartes, e considerar que o mundo mantém-se coerente, sem milagres, sem demônios a perturbar sua ordem natural, sem alterar a seu bel e perverso prazer as leis da Física que regem tudo, mesmo na mais deformada das geometrias, ainda que o observemos com o prisma de uma ótica completamente coerente, a cada confiável instante. Mesmo no quântico, onde as coisas surgem e somem, desaparecem e se duplicam como pareceria uma loucura se ocorre-se com maçãs sobre nossas mesas, na média, em grande escala, não surge "do nada", em plena savana africana, um elefante. (O que por si só, já mostra o quão infantis são nossos amiguinhos criacionistas, e suas gerações de vida fantasiosas, independente do vingativo e titubiante poderoso autor de tais absurdas façanhas).
 
A natureza, para onde observemos, mostra-se um processo em andamento, com associação de suas partes, emergências como harmoniosas dunas e suas rugosidades, esferas a caminho do perfeito, mesmo com diâmetro de milhares de quilômetros, e mesmo na maior das escalas de produção de energia nas reações mais violentas, com uma regularidade justa, coerente, com uma marcha inexorável rumo a seu imprevisível destino, sempre pelos mais sutis e minúsculos processos, que em todo lugar se repetem, invariavelmente dentro de limites de uma variabilidade estanque, em equilíbrios dinâmicos que a tudo limitam, mesmo o menor milagre, que poderia ser um processo muito raro, mas jamais anormal. Ela é, na verdade, o que seja a normalidade. O sonho de Brahma, se existe, é um sonho sereno, duradouro e de regras rígidas.
 
Num sonho perturbado como o dos personagens de A Origem, um mundo onde a gravidade muda de direção e inclina taças num bar, pode até deixar pelas paredes seguranças e nossos heróis golpistas, mas falha ao não derrubar o próprio prédio, que como estrutura típica de meus amigos e ex-colegas da engenharia civil muito bem sabem, não resiste a inclinações nem de poucos graus.* As regras do mundo são tão rígidas que construímos nossos castelos, de todas as formas, exatamente nas beiras dos mais perigosos abismos. Seja da gravidade, seja das reações químicas, seja da aleatoriedade dos fenômenos, e todos estes fenômenos se dão num coerente cenário espaço-tempo, que para onde olhemos, mostra-se seguro em seu andar.

*E "catando piolho", nem faz cair das paredes os quadros das paredes, pendentes, normalmente, por um ou dois pregos.


 

Logo, concluímos que Letícia Birkheuer, para minha felicidade, mais que meu saudoso Jeep de lata, é, pelo menos, o que Einstein diria que é, como a realidade inteira, uma ilusão persistente.
 
Assim, poderíamos estar num sonho dentro de um sonho dentro de n outros níveis de sonhos, operando em matrizes de diversos e inimagináveis níveis, ainda sim, não poderíamos construir por lógica metafísica alguma, que nos desse a plena e absoluta certeza do que somos e onde estamos, mas podemos construir dentro desta "natureza estável", a mais sólida física, e dela, o conhecimento do químico, do biológico, de nossa sociedade, até de nossa falha e um tanto instável mente.
 
Mente instável esta que é nossa próxima mudança de direção dentro deste labirinto.
 
Enquanto isso, uma lembrança de outra época, um tanto mais madura que a de um Jeep de lata, e que vem a calhar em meio ao que estamos tratando:
 
All that we see or seem

Is but a dream within a dream
Take this kiss upon the brow
And in parting from you now
This much let me avow
You are not wrong who deemed
That my days have been a dream
Yet if hope has flown away
In a night in a day in a vision or a memory
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream
I stand amid the roar
Of the surf tormented shore
And I hold within my hands
Grains of golden sand
How few yet how they creep
Through my fingers to the deep
While I weep while I weep
Oh god can I not grasp them with a tighter clasp
Oh god can I not save one from the pitiless wave
Is all that we see or seem
But a dream within a dream

Dream Within A Dream - Propaganda

Um dos castelos que construímos, e o mais íntimo, é o de cartas de nossas lembranças.
 
Alguns acréscimos:
 
1) Algumas teorizações em física tratam que nosso universo seria na verdade, um holograma, e ganha "posteriormente" a sua dimensionalidade pelo simples fatos que nesta holografia estamos mergulhados.

2) Outras teorizações apontam que o universo é intrinsecamente estático, e o tempo é ilusório e consequência de sua própria física.



Novamente publico este soneto de um mestre, agora noutra tradução, que prefiro:


Desgasta, voraz Tempo, as garras ao leão,
Do tigre, arranca o dente à fauce que tem fome,
Faze que a terra coma a própria criação
E a Fénix sempre-viva em seu sangue consome.

Torna triste ou alegre a estação, quando passas,
E faze o que quiseres, Tempo vertiginoso,
Ao vasto mundo e a seus fugazes dons e graças;
Só não cometerás um crime mais odioso:

Não craves teu buril, do meu amor, na fronte,
Não desenhes ali com teu cálamo antigo,
Deixa que tua nódoa em seu rosto não conte,
Que seja da beleza o padrão sempre vivo.

Mas, por mais que essas mãos,
Tempo cruel, o provem,
No meu verso ele vive eternamente jovem.

Shakespeare (Soneto XIX)

É visível que o tempo tem uma direção para nossa consciência, pois vemos uma xícara cair e quebrar, mas jamais saltar de seus cacos ao chão e voltar inteira para nossa mesa. Mais gritantemente ainda, nossa imagem no espelho de hoje não é a mesma de nosso primeiro dia em que lavamos o rosto sozinhos.

As maçãs na mesa não multiplicam-se miraculosamente, mas a maçã, talvez inspiradora de Newton, cai ainda com a mesma aceleração.

Assim, os processos do universo tem um sentido, e os arranjos das partículas (ou entes, num tratamento mais filosófico que físico) no espaço tem uma marcha de se apresentarem.

Mas tal questão não tem sentido no subatômico, e ali reside nossa liberdade mais íntima, pois somos feitos do subatômico.

Enfim, no  universo, tudo sempre muda, e tudo passa;

Por­que, enfim, tudo passa;
Não sabe o Tempo ter fir­meza em nada;
E a nossa vida escassa
Foge tão apres­sada,
Que quando se começa é aca­bada.

Camões (em Odes IX)

3) Em relatividade, a gravidade - a suprema senhora do comportamento do universo - é fruto da própria deformação do espaço-tempo, causada pela massa. Sinceramente, embora esta abordagem seja utilíssima, tenho simpatia pelas teorizações de uma gravidade quântica, causada pela interação das partículas com massa através da partícula portadora da gravidade, que seria o gráviton. Mais ainda, simpatizo pela gravidade quântica em loop, ou laço, como dizem meus amigos wikipedistas lusitano, em que o mundo é um fervilhar de espaço e tempo surgindo em cada interstício mínimo dele próprio, somente inteligível quando se entende o que seja um grafo, e nós, as partículas mássicas, a nadar aos saltos através de cada uma destas bolhas.

4) Algumas teorizações, vide até Hawking, tratam da gravidade advindo de "outro plano", passando pelas dimensões distintas das nossas, como um fio que une duas folhas de tecido, estes, ainda se mantendo superfícies distintas, embora dentro de um mesmo espaço. Também sinceramente, pode até ser fato, mas já me basta a gravidade que nossa própria massa, em nosso próprio universo, possui e a gravidade que gera.
 
 
Mantendo o estilo, a próxima questão:
 
Mas esta mente, que julga e decide o que confia existir, operando neste cérebro, é estável no tempo, como é, quando bem qualificado, o mais confiável de nossos computadores?